domingo, 29 de janeiro de 2012

Irãn corta suas exportações de petróleo à União Europeia



O servilismo da UE aos ditames do governo estado-unidense manifestou-se, mais uma vez, na decisão de 23 de Janeiro de sancionar o Irãn. Verifica-se que as pressões do governo Obama encontraram plena aquiescência nas instâncias comunitárias. Mas este tiro poderá sair pela culatra. A mais penalizada por tal decisão será a própria Europa e não o Irãn. Não faltam compradores para o petróleo iraniano — mas os países europeus que importavam petróleo do Irãn terão agora de ir buscá-lo mais longe e mais caro.

Quanto ao congelamento dos ativos do Banco Central do Irãn, foi uma mera palhaçada psicológica da UE pois o BCI não tinha nem um cêntimo depositado em bancos europeus. Além disso, tal medida contribuiu para descredibilizar – ainda mais – o já debilitado sistema bancário europeu. Bem fez o Presidente Chávez quando mandou retirar todos os ativos venezuelanos depositados nos bancos europeus.
resistir.info


TEERÃN (FNA) – Membros do Parlamento iraniano concluíram um projecto de lei sobre o corte das exportações de petróleo do país para estados europeus, como retaliação pelo embargo de petróleo da UE contra Teerão, declarou sábado, 28, um deputado iraniano.

"O texto aprovado tem quatro artigos, incluindo um que declara que a República Islâmica do Irãn cortará todas as exportações de petróleo para os estados europeus até que estes cessem suas sanções petrolíferas contra o país", disse o vice-presidente da Comissão de Energia do Parlamento, Nasser Soudani.

Por outro lado, acrescentou, outro artigo exige que o governo cesse de importar mercadorias dos países envolvidos nestas sanções contra o Irãn.

Após meses de debates, os estados membros da UE, na sua reunião de 23 de Janeiro, alcançaram finalmente um acordo para sancionar importações de petróleo do Irãn e congelar os ativos do Banco Central do Irãn dentro da UE.

A seguir à decisão, a responsável pela política externa da UE, Catherine Ashton, afirmou as sanções destinam-se a pressionar o Irãn a retornar às conversações sobre o seu programa nuclear.

Contudo, apesar das afirmações de Ashton, o Irãn sempre sublinhou estar preparado para retomar conversações com o Ocidente mas tem enfatizado que nunca aceitará quaisquer pré-condições para as mesmas.

O ministro iraniano do Petróleo, numa declaração segunda-feira passada, minimizou os efeitos das sanções petrolíferas unilaterais dos EUA e da UE contra Teerãn, considerando que tais embargos simplesmente prejudicarão as economias europeias.

"A apressada decisão de estados da UE de utilizarem o petróleo como ferramenta política terá um impacto negativo sobre a economia mundial e especialmente sobre a recuperação de economias europeias que estão a combater para ultrapassar a crise financeira global", declarou o ministro. E acrescentou que apenas 18 por cento do petróleo produzido pelo Irãn é exportado para países europeus.

O original encontra-se em http://english.farsnews.com/newstext.php?nn=9010172771
Esta notícia encontra-se em http://resistir.info/ .

OS GREGOS MOSTRAM O CAMINHO CONTRA A CRISE

Greve geral de toda a Ática – A agudização decisiva da luta


por KKE ( Partido Comunista Grego)

Na terça-feira, 17 de janeiro, realizou-se na área metropolitana de Atenas uma greve importantíssima e dura contra os patrões, organizada pelos três Centros Sindicais da capital, com um grande esforço de pressão exercido pelas forças da PAME [1] , e também numa das outras grandes cidades do país, Volos, onde a greve foi convocada pelas organizações sindicais de base, por iniciativa das forças da PAME. O objetivo da greve era dar uma resposta da classe operária à enxurrada de medidas anti trabalhadores tomadas pelo governo da frente negra – a coligação governamental PASOK, ND, LAOS e a troika – no sentido de tornar as relações laborais mais flexíveis, de reduzir no futuro os salários em 150-200 euros, de abolir os subsídios sazonais no sector privado, do pagamento das prestações da segurança social em função do desempenho individual, contra as privatizações e a aplicação selvagem de impostos, através do pagamento imediato de taxas, que levaram à ruína as famílias da classe operária e das camadas populares e conduziram centenas de milhares delas à destruição, à sopa dos pobres e aos despejos. É elucidativo que milhares de famílias não tenham pago as taxas imediatas, constantes da fatura da eletricidade, e que o governo tenha começado ontem a enviar piquetes para cortar o seu fornecimento às famílias das camadas populares.


Não foi por acaso que a greve coincidiu com a chegada da delegação da troika à Grécia para determinar, em conjunto com o governo, o endurecimento da ofensiva anti trabalhadores, em benefício do capital. É sintomático que, numa questão de poucas semanas, os patrões tenham sido beneficiados com novos subsídios e privilégios, com o aumento provocativo do número de negócios subsidiados e a criação de zonas industriais - onde agora, por lei, haverá completa imunidade para o capital e os salários dos trabalhadores serão literalmente gratificações - e que, ao mesmo tempo, os armadores tenham adquirido novos privilégios, com a liberalização que impuseram através da abolição da cabotagem.

Esta greve e a sua preparação tiveram também um papel mais vasto, uma vez que se realizou em solidariedade com a greve dos trabalhadores da siderurgia. E nas duas cidades em que a greve se realizou o ambiente foi criado pelos trabalhadores da "Greek Steelworks", cujas três fábricas encerraram com a greve. Esta greve tinha sido precedida pela de 12 de janeiro, na região de Volos, no sector metalúrgico, que abriu uma segunda frente para exercer a maior pressão possível sobre os industriais, que tinham despedido 65 trabalhadores da "Greek Steelworks". Os grevistas na fábrica de Atenas e o seu sindicato, que pertence à PAME, continuam firmes há 80 dias, enquanto o laço se aperta à volta do pescoço dos donos da empresa, pois a greve de ontem foi a segunda em 5 dias. Até agora, o industrial Manessis compensou as suas perdas com a longa greve de Atenas através da duplicação da produção nas outras duas fábricas.

Os trabalhadores metalúrgicos de Volos, com todas as forças de classe na região, travaram uma dura batalha e venceram; organizados e determinados contra um mecanismo organizado composto por polícias (o diretor da polícia da região de Volos exigiu que os grevistas declarassem os seus nomes), pela burocracia sindical, esquemas fura-greves, MP [2] dos partidos burgueses e órgãos de comunicação locais que gritavam "A PAME quer destruir as fábricas".

O 12 de janeiro foi a primeira vez, desde há 24 anos, em que todas as máquinas do complexo da Greek Steelworks, em Volos, pararam de trabalhar. A situação repetiu-se na 3ª feira, 17 de janeiro.

Os patrões estavam tão furiosos que durante a segunda greve manipularam um turno de trabalhadores da fábrica e mandaram alguns dos seus lacaios empunhar uma faixa com palavras de ordem contra a PAME. Apesar da utilização deste instrumento fura greves o industrial não conseguiu que a fábrica trabalhasse.

Temos de referir que a GSEE [3] , o Centro Sindical de Atenas (EKA) e as direções reformistas participaram hipocritamente na greve só no último minuto. Mas, as mesmas forças sindicais do PASOK e da ND que se opuseram a esta greve nas duas outras fábricas da Greek Steelworks, que durante 80 dias não puseram os pés na fábrica da Greek Steelworks, no dia seguinte declararam que participariam no diálogo social juntamente com o governo e os industriais para negociarem quanto é que os trabalhadores iriam perder.

A postura do sindicalista que representa o SYNAPISMUS (um partido na presidência do Partido da Esquerda Europeia) no sindicato que convocou a greve, em Volos, também foi característica. Não votou a favor da greve, votou em branco, e fez a declaração provocatória de que " a greve beneficia os patrões ". Com o seu posicionamento – eles votaram, na realidade, contra a greve –, os oportunistas recusaram na prática a solidariedade com a heróica greve de 80 dias dos trabalhadores da siderurgia, apesar dos seus apelos oportunistas à solidariedade. Na sua pergunta no Parlamento sobre "os custos do trabalho" o líder do SYN, A. Tsipras, aceitou a lógica do governo (nomeadamente que o salário do trabalhador é um "custo" – um termo que justifica o assalto do capital aos salários, às pensões e aos subsídios de natal e férias).

A PAME organizou uma grande reunião em Atenas, onde falaram o presidente do sindicato da Greek Steelworks, G. Sifonius, e outros quadros da PAME. As forças de classe declararam a sua firme determinação em travar a luta de classes, continuar a luta na Greek Steelworks, em recusar qualquer participação nos chamados "diálogos sociais", em organizar "guarnições" em todos os bairros de trabalhadores, para evitar o corte de eletricidade a qualquer família de trabalhadores ou de camadas populares e em agudizar a luta com uma nova greve geral.

NT
1. PAME: sigla, em grego, de "Frente Militante de Todos os Trabalhadores", central sindical de classe da Grécia.
2. MP: membros do Parlamento.
3. GSEE: central sindical reformista do setor privado.

A versão em inglês encontra-se em  http://inter.kke.gr/News/news2012/2012-01-18/
Tradução de TAM em http://www.pelosocialismo.net/
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Ahmadinejad: Israel não estará a salvo, se a Siria sofrer uma agressão externa

Teerãn
O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, destacou que Israel não estará a salvo, se a Síria sofrer qualquer agressão externa.
Ahmadinejad em um discurso pronunciado na província de Kerman,insistiu que aos Estados Unidos buscam golpear a Síria, porque a consideram como um obstáculo frente ao projeto estadunidense e sionista na região, todavia os povos do Oriente estão conscientes e Israel não estará imune ao perigo, se a Síria for golpeada.
Da mesma forma, denunciou que o governo dos EE.UU. divulgam propagandas falsas a fim de lograr seus objetivos na região, e  apoiam alguns dos países da região, sempre e quando estes países sirvam às políticas expansionistas dos EE.UU., afirmando que todos estes métodos fracassarão, porque os Estados Unidos não podem mudar a situação da região a favor de seus interesses.
 
Yamil Kassawat

O que a mídia esconde sobre a Síria: Uma criança em Midan e um agente militar em Homs são assassinados por mais um ataque terrorista armado



Provincias, SANA

Um menino de 10 anos de idade caiu mártir e mais onze cidadãos e agentes militares ficaram feridos em uma explosão de um artefato e pelos tisparos de um grupo terrorista armado no bairro de Midan, em Damasco.
Simultaneamente, um grande número de civis e agentes foram gravemente feridos com a explosão de dois artefatos na localidade de Qatana em Damasco,
Em Homs, um agente militar foi assassinado a sangue frio quando um grupo terrorista abriu fogo contra ele próximo ao Centro Cultural Árabe.
Na cidade de Al Bukmal, seis civis e agentes militares ficaram feridos pela explosão de um artefato colocado por grupo armado na rua Bagdad. Os feridos foram levados ao hospital Al Basel na cidade.

Um grupo armado incendiou, nesta manha de sexta feira, a casa do jornalista Nidal Hmedi, correspondente do canal libanês Al-Jadeed, situada no povoado Magara na zona de Yabal Azzawia.
O jornalista afirmou, em declaração concedida a Agência Sana de Notícias, que o incendio causou danos materiais e que o mesmo se produziu depois de haver recebido muitas  ameaças por suas posições contra os grupos terroristas.
O jornalista considerou que esta é uma forma de pressão para que sua cobertura jornalística seja favorável a guerra suja que querem produzir na Síria.
Cabe aqui informar que grupos armados terroristas atearam fogo, em julho do ano passado, à casa do jornalista Ali Yamalo, além de outras instituições mediáticas e culturais em Idleb e outras provincias.

Em Idelb, um ataque terrorista contra um ponto de controle deixou dois agentes  gravemente feridos.
Bashar Brazi/Fady Marouf/ Ahmad Shaban

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

SÍRIA NO CENTRO DA TEMPESTADE : "A Estrada para Teerãn passa por Damasco"

A Carta Secreta de Obama para Teerãn: A Guerra contra o Irãn está Suspensa? 

por Mahdi Darius Nazemroaya [*] 
O New York Times anunciou que a administração Obama tinha enviado uma carta importante aos dirigentes do Irãn a 12 de Janeiro de 2012. [1] A 15 de Janeiro de 2012 o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano reconheceu que a carta tinha sido entregue a Teerã  através de três canais diplomáticos:

1) uma cópia foi entregue ao embaixador iraniano nas Nações Unidas, Mohamed Khazaee, pela sua equivalente norte-americana, Susan Rice, em Nova Iorque;

2) uma segunda cópia da carta foi entregue em Teerão pela embaixadora da Suíça, Livia Leu Agosti; e

3) uma terceira cópia partiu para o Irãn através de Jalal Talabani, do Iraque. [2] 
 
Na carta, a Casa Branca expunha a posição dos EUA, ao passo que responsáveis iranianos afirmaram que ela constitui um sinal do real estado das coisas: os EUA não podem dar-se ao luxo duma guerra contra o Irãn.

Da carta, escrita pelo presidente Barak Hussein Obama, constava um pedido norte-americano para o início de negociações entre Washington e Teerão visando colocar um termo às respectivas hostilidades.

"Na carta, Obama anunciava a disponibilidade para negociações e a resolução de desacordos mútuos", declarou Ali Motahari, um negociador iraniano, à agência noticiosa Mehr. [3] De acordo com outro negociador iraniano, desta feita o vice-presidente da Comissão de Segurança Nacional e Política Exterior do Parlamento do Irão, Hussein Ebrahimi (Ibrahimi), a carta prosseguia solicitando a cooperação e negociações do Irão com os EUA baseadas nos respectivos interesses mútuos. [4]

A carta de Obama procurava igualmente assegurar Teerãn de que os EUA não se envolveriam em quaisquer ações hostis ao Irãn. [5] De fato, em simultâneo o Pentágono cancelou ou adiou grandes exercícios conjuntos com Israel. [6] Para os iranianos, porém, estes gestos são desprovidos de significado, dado que os atos da administração Obama têm sido sempre contrários às respectivas palavras. Mais amplamente, o Irãn está persuadido de que os EUA não atacaram apenas porque sabem que os custos de uma guerra com semelhante oponente são demasiado elevados e as respectivas consequências demasiado arriscadas.

Todavia, isto não significa que um conflito aberto Irãn-EUA tenha sido evitado ou que não possa acontecer. As correntes podem levar em qualquer direção, por assim dizer. Nem tão-pouco impede que a administração Obama esteja já a conduzir uma guerra contra o Irãn e os respectivos aliados. De fato, os respectivos blocos de Teerão e de Washington têm mantido uma guerra nas sombras que se prolonga da arena digital e das ondas televisivas até aos vales do Afeganistão e às agitadas ruas de Bagdad.

A guerra contra o Irãn começou há vários anos

A guerra contra o Irão não começou em 2012 ou sequer em 2011. A revista Newsweek chegou ao ponto de afirmar num título de página em 2010: "Assassínios, ataques cibernéticos, sabotagem ¯ será que a guerra contra o Irãn já começou?" A guerra real pode bem ter começado em 2006. Em vez de atacarem o Irãn diretamente, os EUA iniciaram uma guerra encoberta e indireta. As dimensões secretas da guerra têm sido travadas através de agentes infiltrados, ataques cibernéticos, vírus informáticos, unidades militares secretas, espiões, assassinos, agentes provocadores e sabotadores. O rapto e o assassínio de cientistas iranianos que teve início há vários anos é uma parte constituinte desta guerra encoberta. Nesta "guerra fantasma" vários diplomatas iranianos em Bagdad têm sido vítimas de sequestros e cidadãos iranianos em visita à Geórgia, à Arábia Saudita e à Turquia foram detidos ou raptados. Vários responsáveis sírios e importantes figuras palestinianas, bem como Imad Fayez Mughniyeh [dirigente do Hezbollah libanês], foram também assassinados.


A guerra  indireta começou em 2006, quando Israel atacou o Líbano com a intenção de expandir a guerra em direcção à Síria. O caminho para Damasco passa por Beirute, do mesmo modo que Damasco está na rota para Teerãn. Depois do fracasso de 2006, e compreendendo que a Síria era o ponto fulcral do Bloco de Resistência, dominado pelo Irãn, os EUA e os seus aliados passaram os cinco ou seis anos subsequentes a tentarem separar a Síria do Irãn.

Os EUA combatem igualmente o Irãn e respectivos aliados na frente diplomática e na economica, através da manipulação de organismos internacionais e de estados satélites. No contexto de 2011-12, a crise na Síria constitui ao nível geopolítico uma frente da guerra conta o Irãn. Até mesmo os exercícios conjuntos norte-americanos e israelenses "Austere Challenge 2012" e a correspondente deslocação de tropas visaram primordialmente a Síria enquanto forma de combater o Irãn.

A Síria no centro da tempestade

O que Washington está a levar a cabo consiste em exercer pressão psicológica sobre o Irãn como maneira de o distanciar da Síria, de forma que os EUA e as suas legiões possam desferir o golpe mortal. Até ao começo de Janeiro de 2012 os israelenses têm estado em permanente preparação para o lançamento da invasão da Síria, numa repetição da iniciativa de 2006, enquanto os EUA e a UE têm continuadamente tentado chegar a um arranjo com Damasco, de forma a separá-la do Irãn e do Bloco de Resistência. Todavia, os sírios têm persistentemente recusado esses avanços.

Foreign Policy, a revista do Conselho de Relações Externas (Council on Foreign Relations) norte-americano, publicou um artigo em Agosto de 2011 expondo o que era a visão do rei Saudita acerca da Síria no contexto do ataque ao Irãn: "O rei sabe que à parte o colapso da própria República Islâmica, nada enfraquecerá mais o Irãn do que a perda da Síria". [7]

Tenha esta afirmação sido genuinamente proferida ou não por Abdul Aziz Al-Saud, a respectiva concepção estratégica é representativa das razões para visar a Síria. O próprio conselheiro de segurança de Obama disse a mesma coisa, poucos meses depois de a notícia da Foreign Policy ter sido publicada, em Novembro de 2011. O conselheiro de segurança nacional [Thomas E.] Donilon garantiu num discurso que o "fim do regime de Assad constituiria o maior inconveniente regional para o Irãn ¯ um golpe estratégico que alterará o equilíbrio de poder na região contra o Irão." [8]

O Kremlin também produziu afirmações que corroboram a idéia de que Washington pretende separar a Síria do aliado iraniano. Um alto responsável russo para assuntos de segurança anunciou que a Síria está a ser punida pela sua aliança com o Irãn. O secretário do Conselho Nacional de Segurança da Federação Russa, Nikolai Platonovich Patrushev, declarou publicamente que a Síria está submetida à pressão de Washington devido aos interesses geoestratégicos apostados na quebra dos seus laços com o Irãn, e não em virtude de quaisquer preocupações humanitárias. [9]

O Irãn também deu sinais de que, no caso de os sírios serem atacados, não hesitaria em intervir militarmente em seu apoio. Washington não pretende esse curso de eventos. O Pentágono preferiria engolir a Síria primeiro, antes de dirigir a sua atenção plena e indivisa para o Irãn. O seu objectivo consiste em superar cada obstáculo à vez. Não obstante a doutrina militar norte-americana acerca da prossecução de guerras simultaneamente em vários teatros de operação, e de toda a correspondente literatura do Pentágono, a verdade é que os EUA não estão preparados para suportarem uma guerra regional convencional simultaneamente contra o Irãn e contra a Síria, menos ainda para o risco duma guerra estendida aos aliados russo e chinês do Irãn.

O caminho para a guerra, porém, está longe de ter chegado ao fim. Por enquanto, o governo norte-americano terá de continuar com a "guerra nas sombras" contra o Irão, enquanto intensifica as guerras mediática, diplomática e economica.
20/Janeiro/2012

NOTAS
[1] Elisabeth Bumiller et al., "US sends top Iran leader warning on Hormuz threat," The New York Times, 12/Janeiro/2012.
[2] Mehr News Agency, "Details of Obama's letter to Iran released," 18/Janeiro/2012.
[3] Ibid.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6] Yakkov Katz, "Israel, US cancel missile defence drill" Jerusalem Post, 15/Janeiro/2012.
[7] John Hannah, "Responding to Syria: The King's Statement, the President's hesitation," Foreign Policy, 9/Agosto/2011.
[8] Natasha Mozgovaya, "Obama Aide: End of Assad regime will serve severe blow to Iran," Haaretz, 22/Novembro/2011.
[9] Ilya Arkhipov e Henry Meyer, "Russia Says NATO, Persian Gulf Nations Plan to Seek No-Fly Zone for Syria," Bloomberg, 12/Janeiro/2012.

 [*] Sociólogo, autor premiado e investigador associado do Centre for Research on Globalization (CRG), Montreal. Está especializado em questões do Médio Oriente e da Ásia Central. Tem contribuído para discussões relativas ao Grande Médio Oriente em numerosos programas internacionais e em estações televisivas tais como a Al Jazeera, a Press TV e a Russia Today. Escritos seus foram publicados em mais de dez idiomas. Escreve para a Strategic Culture Foundation, SCF, Moscovo.

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=28736 . Tradução de JCG.
Este artigo foi postado do http://resistir.info/ .


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

As famílias do Pinheirinho são expulsas de suas casas pela polícia do Estado de São Paulo - Brasil










Repúdio à invasão de Pinheirinho pela polícia de Alckmin

Notas Políticas do PCB

A Comissão Política Regional do Partido Comunista Brasileiro de São Paulo manifesta seu repúdio à truculenta e selvagem invasão de Pinheirinho, comunidade de sem teto composta por cerca de 1.600 famílias na cidade de São José dos Campos, em São Paulo. Num verdadeiro ato de guerra, cerca de 2 mil policiais, com viaturas, cassetetes, bombas de efeito moral, cães farejadores, gás lacrimogêneo e gás de pimenta, orientados por helicópteros que sobrevoavam ameaçadoramente a região, invadiram a comunidade, ferindo vários moradores, prendendo outros, derrubando residências e batendo em mulheres e crianças; inclusive houve registro de arma de fogo contra os moradores; alguns ficaram feridos.

Os sem teto ocuparam essa área, de propriedade de uma empresa falida do mega especulador Naji Nahas, há cerca de oito anos e lá construíram suas casas e viviam com suas famílias. Os moradores já estavam providenciando a regularização da área quando os proprietários pediram a reintegração de posse. A justiça estadual, mais uma vez demonstrando seu caráter de classe, autorizou a desocupação. Há alguns dias atrás, em função da mobilização popular e da participação de parlamentes de esquerda, chegou-se a um acordo no qual os moradores teriam quinze dias para negociar a regularização do terreno, mas inesperadamente hoje pela manhã (dia 22/1) foram surpreendidos pela invasão policial.

Trata-se evidentemente de mais um episódio de criminalização dos movimentos sociais pelo governo Alckmin, que vem realizando uma verdadeira escalada conservadora. Primeiro, foi a invasão da USP pela polícia militar; depois veio a repressão na Cracolândia, num típico ato de higienização do centro de São Paulo, e agora a invasão da comunidade de Pinheirinho. Esses atos demonstram claramente o caráter truculento, antipopular e antidemocrático desse governo do PSDB, que governa o Estado há mais de 20 anos. Ressalte-se ainda que o prefeito de São José Campos, onde se encontra o acampamento, também é do PSDB.
O Partido Comunista Brasileiro, coerente com sua posição de classe, tão logo tomou conhecimento da invasão de Pinheirinho, enviou vários militantes para a região, de forma a dar solidariedade ativo à luta popular, inclusive militantes e dirigentes do Partido estão nesse momento junto ao movimento popular colaborando com o processo de resistência.

Todo apoio à luta dos moradores de Pinheirinho
Todo apoio à resistência popular.


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Nota Oficial da Direção Nacional do PSOL: Parem a desocupação do Pinheirinho!

Na manhã deste domingo, 22 de janeiro, a Polícia Militar deu cumprimento à decisão da Justiça de São Paulo e iniciou a desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos, onde vivem mais de 6 mil pessoas.

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A operação da PM, legitimada pelo Tribunal de Justiça, ignora uma decisão liminar do Tribunal Regional Federal, que havia determinado a paralisação da ação. A presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo, no entanto, ordenou sua continuidade.

Diante do claro conflito jurídico instalado, o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) apela para que o Superior Tribunal de Justiça (STJ) se posicione rapidamente e impeça que esta violência continue. O direito à propriedade não pode estar acima do direito à vida desta população, sobretudo num momento em que há uma negociação em curso, envolvendo os governos municipal, estadual e federal, os poderes legislativos estadual e federal, a massa falida da Selecta e o próprio Tribunal de Justiça.

Uma vez mais, os interesses da especulação imobiliária estão falando mais alto, numa clara violação do direito à moradia daquela população, que simplesmente não tem para onde ir. É uma vergonha, que depois de oito anos, a Prefeitura de São José dos Campos, privilegiando interesses do mercado imobiliário e de nomes como Naji Nahas, e o governo estadual, que poderia suspender a ação da PM e afirmar a necessidade da continudade da negociação, como prometeu, prefiram que o povo sofra violências e perdas de direitos com a ação da polícia militar.

Neste momento, em que a desocupação está em curso e que os moradores denunciam todos os tipos de agressão, é necessária uma intervenção imediata da Justiça e do governo federal, que também demorou para agir diante da iminência deste conflito. É preciso afirmar que os governos municipal, estadual e federal e a Justiça serão os responsáveis pela ocorrência de mortos e feridos durante a operação, e também por violar o direito à moradia de milhares de brasileiros e brasileiras.

O PSOL reafirma seu compromisso com o povo do Pinheirinho, se somando às vozes que, no país inteiro, entendem que esta é uma questão social, que não deve ser tratada com ação policial. Pedimos justiça, o fim da repressão ao moradores e a paralisação da desocupação do Pinheirinho.

Direção Nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL)
22 de janeiro de 2012
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Nota do PSTU sobre o despejo em SJC

O massacre que aconteceu no Pinheirinho, neste domingo, dia 22, é de responsabilidade total do governador Geraldo Alckmin. Toda a criminosa decisão foi tomada diretamente pelo governador do PSDB. A ação foi claramente um absurdo jurídico, pois passou por cima da orientação do Tribunal de Justiça Federal que, na última sexta-feira, mandou suspender a desocupação. Mesmo assim, o governo do PSDB jogou a tropa de choque da Polícia Militar para expulsar brutalmente os trabalhadores pobres do Pinheirinho de suas casas.


A prefeitura e o governo do estado se aproveitaram da trégua determinada pela justiça federal para atacar o movimento de surpresa num domingo pela manhã. A invasão ocorreu por volta das 6h da manhã, com helicópteros, blindados, armas de fogo, bombas de gás e pimenta e, no mínimo, 2 mil homens vindos de 33 municípios.

Para o prefeito Cury os pobres não podem morar no Pinheirinho porque a ocupação, que ocorreu há mais de oito anos, fica próxima a bairros de privilegiados da cidade. O PSDB odeia os pobres e protege os ricos!

A prefeitura do PSDB, o governo Alckmin e a PM querem evitar ao máximo a divulgação do número de vítima da desocupação. Querem passar a imagem de uma reintegração “tranquila”. No entanto, o que ocorreu no Pinheirinho foi um massacre apoiado por um gigantesco aparato de segurança, que passou por cima de tudo, até de um mandato judicial federal.

Durante a ação, muitos moradores exibiam seus ferimentos causados pelos disparos de bala de borracha. Há inúmeros relatos de agressão policial contra idosos, mulheres e até deficientes físicos. A polícia reprimiu os moradores de forma indiscriminada. Inúmeras mães denunciam que foram impedidas pela polícia de pegar os próprios filhos dentro da ocupação. “A gente está aqui é para o ver o bagulho ficar louco” , respondeu um soldados aos apelos de uma das mães”.

Dentro das tendas montadas pela prefeitura para abrigar os moradores, a Guarda Civil reprimiu com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha os moradores, boa parte deles mulheres e crianças, que estavam no local.

A ação militar lembrou a típica política dos governos do PSDB que, diante de graves problemas sociais, jogam suas tropas para massacrar o povo pobre e trabalhador. Foi assim, durante o governo FHC, na ocasião do massacre dos trabalhadores sem terras, em Eldorado dos Carajás (PA), quando 19 trabalhadores rurais morreram. Também foi assim no o massacre de Corumbiara, quando 12 camponeses foram assassinados.

A velha política do PSDB se repete no Pinheirinho e agora o sangue escorre das mãos de Geraldo Alckmin. O prefeito Eduardo Cury, também do PSDB, é responsável por sua negligência criminosa desde o início e recusa em negociar inclusive com o governo federal. A juíza Márcia Loureiro também é responsável, pois foi quem ordenou diretamente o massacre e manteve uma intransigência cruel.

Neste momento, é fundamental que o governo federal da presidente Dilma Rousseff se manifeste e intervenha no conflito. Exigimos do governo federal desaproprie o terreno do bandido Naji Nahas para que as famílias pobres do Pinheirinho possam continuar morando em suas casas. O terreno deve ser dos dos trabalhadores e não de um criminosos condenado por corrupção e lavagem de dinheiro!

Também apelamos para a solidariedade aos moradores do Pinheirinho, que precisam de todo o apoio de todos e todas, sejam ativistas, personalidades, políticos ou artistas. Por isso, apelamos para que as organizações dos trabalhadores convoquem atos e protestos de ruas, em todas as cidades do país, para denunciar o massacre de Geraldo Alckmin. Vamos ocupar a praças e realizar protestos contra a ação criminosa do PSDB.

É preciso intensificar as ações de solidariedade em todo o país. O governo do PSDB deve pagar pelo seu crime!

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

SÍRIA : As mentiras da Mídia

A realidade mal contada da mídia

4/1/2012, Aisling Byrne, Asia Times Online
A mistaken case for Syrian regime change
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Aisling Byrne coordena projetos do Conflicts Forum em Beirute.

“A guerra contra o Irã já começou” – escreveu recentemente um conhecido analista israelense, sobre a “combinação de guerra clandestina e pressão internacional” contra o Irã.
Embora não mencionado, o “prêmio estratégico” do primeiro estágio dessa guerra contra o Irã é a Síria, primeira campanha de uma guerra sectária muito mais ampla. “Exceto o colapso da própria República Islâmica”, teria dito o rei Abdullah da Arábia Saudita, no verão passado, “nada enfraqueceria mais o Irã do que perder a Síria” [1].

Em dezembro, altos funcionários dos EUA falaram explicitamente sobre a agenda norte-americana para as mudanças na Síria: Tom Donilon, Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, explicou que “o fim do regime [do presidente Bashar al-] Assad será a principal derrota do Irã na região – golpe estratégico que alterará, contra o Irã, o equilíbrio de poder na região.”

Pouco antes, outro alto funcionário, com função chave na operacionalização daquela política, o subsecretário de Estado para o Oriente Próximo, Jeffrey Feltman, já havia declarado, em audiência no Congresso, que os EUA “perseguiremos incansavelmente uma estratégia de dois braços, apoiando diplomaticamente a oposição e estrangulando financeiramente o regime [sírio], até conseguirmos que saia de lá” [2].
O que o mundo vê acontecer hoje na Síria é campanha deliberada, calculada, para derrubar o governo de Assad, para substituí-lo por outro, que seja “mais compatível” com os interesses dos EUA na região.

A “planta baixa” desse projeto foi produzida pelo Instituto Brookings, dos neoconservadores, com todo o plano para a “mudança de regime” no Irã em 2009. Esse trabalho – “Qual o Caminho até a Pérsia?” (orig. “Which Path to Persia?” [3]) – continua a ser a abordagem estratégica geral para o processo de mudar o regime no Irã, e processo a ser conduzido pelos EUA.

Uma releitura daquele projeto, e a leitura de outro projeto, mais recente – “Rumo à Síria pós-Assad” (orig. “Towards a Post-Assad Syria” [4], que adota a mesma linguagem e a mesma perspectiva, mas foca a Síria, não o Irã, recentemente produzido por dois think-tank neoconservadores), mostram com clareza como os desenvolvimentos na Síria foram modelados nos termos do plano “Caminhos até a Pérsia”, todos com o mesmo objetivo: derrubar o governo Assad.

Entre os autores desses estudos estão, além de outros, John Hannah e Martin Indyk, ambos neoconservadores de destaque nos governos George W Bush/Dick Cheney, e ambos dedicados advogados da derrubada do governo sírio [5].Não é a primeira vez que se vê parceria muito íntima de neoconservadores norte-americanos e britânicos, com islamistas (inclusive, como já se sabe [6], com islamistas muito ligados à al-Qaeda), todos trabalhando em associação, para derrubar governos de estados considerados “inimigos”.

Pode-se dizer que o componente mais importante nessa luta em busca do “prêmio estratégico” foi a deliberada construção de uma narrativa quase completamente falsa, em que manifestantes democráticos desarmados são mostrados como se estivessem sendo mortos às centenas e milhares, quando protestam pacificamente contra o governo opressor, violento, “a máquina de matar” [7] comandada por Assad, o “monstro” [8].

Ao mesmo tempo, na Líbia, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN declarava que “não há baixas confirmadas entre os civis”, porque, como o New York Times explicou recentemente, “a OTAN criou definição própria para o adjetivo “confirmadas”: só se contam como “mortes confirmadas” os casos que a própria OTAN tenha investigado e comprovado”.

“Mas, uma vez que a OTAN absolutamente não investiga nenhuma denúncia de morte de civis” – completou o NYT–, “não há o que arranque do zero a lista da Aliança, de baixas entre os civis” [9].

No caso da Síria, vê-se exatamente o contrário: a maioria das imprensa-empresas ocidentais, praticamente todos os grandes veículos, e a imprensa-empresa nos países aliados dos EUA na região, especialmente a rede al-Jazeera e os canais al-Arabiya de televisão, propriedade dos sauditas, colaboram ativamente para repetir e distribuir a narrativa da “mudança de regime” e uma agenda pela qual absolutamente nenhum jornalista e nenhum veículo questiona ou examina os números ou qualquer tipo de informação distribuídos por outros veículos de imprensa-empresa e organizações que, ou são propriedade de estados aliados na aliança EUA/Europa/Golfo, ou são financiados por eles. A Aliança EUA/Europa/Golfo reúne exatamente os mesmos países que, desde o início, planejaram todo o golpe para derrubar o governo de Assad.

Só há notícias sobre “massacres”, “campanhas de estupro de mulheres e meninas, predominantemente nas cidades sunitas” [10], “tortura”, e, mesmo “estupro de crianças” [11] são notícias sempre presentes nos veículos internacionais, que só citam duas fontes: ou o Observatório Sírio de Direitos Humanos (que só existe em Londres) ou os Comitês Locais de Coordenação (orig. Local Co-ordination Committees, LCCs) –, com informações apenas repetidas, que nenhum jornal ou jornalista nem procura verificar nem procura confirmar.

Por trás do bordão jornalístico – “não há como confirmar esses números” –, o que se vê é a nenhuma confiança que merecem os grandes veículos da imprensa-empresa ocidental, o que já se via bem visível desde os primeiros eventos na Síria. Uma década depois da guerra do Iraque, ainda não se aprenderam nem as lições de 2003, da demonização frenética de Saddam Hussein e de inexistentes armas de destruição em massa.

As três principais fontes de todos os dados e números referentes a manifestantes mortos e a número de pessoas em manifestações públicas na Síria – pilares da narrativa jornalística – são, as três, organizações que participam da mesma aliança para “mudança de regime”.

Observatório Sírio de Direitos Humanos, especialmente, é mantido com recursos de um Fundo, com sede em Dubai, no qual se misturam – o suficiente para não serem rastreáveis – recursos do Ocidente-Golfo (segundo Elliot Abrams [12], só a Arábia Saudita alocou US$130 bilhões para “ajudar as massas” da Primavera Árabe).

Apresentado sempre como “organização de direitos humanos”, o Observatório Sírio de Direitos Humanos tem cumprido papel chave para manter ativa a narrativa das matanças sem fim, de milhares de manifestantes pacíficos assassinados, sempre distribuindo números inflados, “fatos” sem qualquer confirmação, “telegramas” sobre “massacres” e já falou, recentemente, de “genocídio”.

Embora declare que mantém sede na casa do atual diretor [13], o Observatório Sírio de Direitos Humanos tem sido denunciado como “fachada” de vasto esquema de propaganda montado pela oposição síria e seus financiadores. Recentemente, o ministro de Relações Exteriores da Rússia disse claramente [14]:

A agenda do conselho de transição [da Síria] é montada em Londres, pelo Observatório Sírio de Direitos Humanos (...). Ali se fazem também as imagens do “horror” na Síria, para difundir o ódio contra o regime de Assad.

O Observatório Sírio de Direitos Humanos não tem qualquer registro legal, nem como instituição de caridade no Reino Unido, e opera informalmente; não tem nem instalações de escritório, nem equipe e sabe-se que seu diretor administra quantidade considerável de dinheiro.

As informações que o Observatório Sírio de Direitos Humanos recebe, pelo que se sabe, vêm de uma rede de “ativistas” que opera dentro da Síria; o website, em inglês é uma única página, mas a rede al-Jazeera hospeda um blog do Observatório, atualizado a cada minuto, desde o início dos protestos [15].

A segunda fonte de “dados” que o Observatório Sírio de Direitos Humanos distribui, os Comitês Locais de Coordenação (orig. Local Co-ordination Committees, LCCs), são a face mais visível da infraestrutura de mídia da oposição; todos os dados distribuídos pelos LCCs são construídos e distribuídos no bojo da mesma narrativa [16] para a qual trabalha também o Observatório Sírio de Direitos Humanos: ao analisar relatórios diários dos LCCs, não encontrei sequer uma referência a opositores armados mortos; os mortos são sempre “mártires”, “desertores do exército de Assad”, gente morta em “manifestações pacíficas” e expressões equivalentes.

A terceira fonte de “dados” que chegam à imprensa-empresa ocidental é a rede al-Jazeera, cuja cobertura distorcida dos Levantes já está bem documentada. Descrita por um experiente analista de mídia [17] como “alto-falante sofisticado do estado do Qatar e de seu ambicioso emir”, a rede al-Jazeera é instrumento das “aspirações da política externa” do Qatar.

Al-Jazeera sempre ofereceu e continua a fornecer [18] apoio técnico, equipamento, hospedagem e “credibilidade” aos ativistas e às organizações da oposição ao governo de Assad na Síria. Análises já mostraram que desde março de 2011, a rede al-Jazeera tem dado apoio técnico e servido como instrumento de comunicação a exilados sírios ativos na oposição a Assad [19], os quais desde janeiro de 2010 coordenavam, através da al-Jazeera, os seus serviços de notícia, em Doha, Qatar.

Mas, apesar do trabalho de quase dez meses, e apesar do massacre promovido diariamente pelas redes noticiosas ocidentais, o projeto de derrubar Assad não parece estar saindo como o esperado: pesquisa que a Qatar Foundation encomendou a empresa YouGov [20] mostrou, semana passada, que 55% dos sírios não querem a saída de Assad; e que 68% dos sírios desaprovam as sanções impostas pela Liga Árabe à Síria.

Segundo essa pesquisa, o apoio a Assad tem, de fato, aumentado, desde o início dos atuais tumultos – 46% dos sírios sentiam que Assad foi “bom” presidente antes do início dos eventos recentes no país – dado que absolutamente não se encaixa na falsa narrativa que está sendo promovida.


Mas, como que para reafirmar o sucesso de sua própria campanha de propaganda, a pesquisa conclui, no sumário, que:
“A maioria dos árabes acreditava que o presidente sírio Basher al-Assad deveria renunciar logo que o regime começou a responder com brutalidade às manifestações (...) 81% dos árabes [desejam] que o presidente Assad renuncie. Acreditam que a Síria terá melhores resultados se se realizarem eleições democráticas, sob a supervisão do governo de transição”. [21]

Fica-se sem saber a quem o presidente Assad deve prestar contas – aos sírios ou “à maioria” dos árabes? Apagar as linhas demarcatórias e confundir grupos, talvez seja útil: os dois principais grupos de oposição na Síria já anunciaram [22] que, apesar de se oporem a qualquer intervenção militar estrangeira, não consideram estrangeira qualquer “intervenção árabe”.

Nenhum veículo da grande mídia, nenhum grande jornal e nenhuma rede de notícias comentou os resultados da pesquisa de YouGov – e que não se encaixam na narrativa que se dedicam a construir.

Na Grã-Bretanha, só o jornal amador, Muslim News [23] comentou a pesquisa de YouGov; apenas duas semanas antes, logo depois das explosões dos suicidas-bomba em Damasco, os dois Guardian [24], como vários outros jornais, poucas horas depois das explosões, já publicavam matérias sensacionalistas, sem qualquer informação aproveitável, recolhidas de blogueiros, entre os quais um, que dizia que “alguns dos cadáveres podem ser cadáveres de manifestantes”.

“Já aconteceu antes, de eles plantarem cadáveres” – dizia o blogueiro. “Trazem cadáveres de Dera [no sul] para exibi-los. E também mostraram cadáveres a jornalistas em Jisr al-Shughour [perto da fronteira turca]”.

Matérias recentes lançam sérias dúvidas sobre a confiabilidade da narrativa martelada todos os dias pela grande imprensa internacional, sobretudo quando só repetem informação distribuída pelo Observatório Sírio de Direitos Humanos e pelos Comitês Locais de Coordenação (orig. Local Co-ordination Committees, LCCs).

Em dezembro, o grupo Stratford, da inteligência dos EUA, alertava:
Já se sabe que grande parte das declarações da oposição [síria] não passam de exageros grosseiros ou são simplesmente falsas (...) revelando mais sobre as fraquezas da oposição, do que sobre o nível de instabilidade do governo sírio [25] [25a].

No nono mês dos tumultos, Stratfor recomendava cautela em contatos com a narrativa que se lia na grande mídia sobre a Síria; em setembro, o Instituto comentou que “todas as guerras têm dois lados (...) e a guerra de percepções sobre a Síria não é exceção” [26] [25a].

Relatórios do Observatório Sírio de Direitos Humanos e dos Comitês Locais de Coordenação (orig. Local Co-ordination Committees, LCCs), “como relatos distribuídos pelo governo sírio, devem, em todos os casos, ser tomados com cautela e ceticismo” – alerta Stratfor; “a oposição entende que carece de apoio externo, sobretudo de apoio financeiro, se quiser que o movimento cresça; e tem, portanto, todos os motivos para apresentar os fatos de modo que facilite o processo para obter financiamento estrangeiro.”

Como observou o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, “É claro que o objetivo é provocar uma catástrofe humanitária, que criará o pretexto para pedir interferência externa naquele conflito” [27]. Na mesma linha, em meados de dezembro, lia-se em American Conservative:

Analistas da CIA [Central Intelligence Agency, Agência Central de Inteligência dos EUA] não consideram garantido o avanço rumo à guerra. Relatório da ONU frequentemente citado, segundo o qual mais de 3.500 civis teriam sido mortos por soldados de Assad, praticamente só reproduz informação de fontes rebeldes e não foi jamais confirmado. A Agência ainda não confirmou nenhuma daquelas notícias.

O mesmo vale para notícias sobre deserção em massa de soldados do exército sírio, e sobre batalhas que estariam acontecendo entre desertores e legalistas, que também parecem ser ficção; até agora só se confirmaram, por fontes independentes, algumas poucas deserções. O que o governo sírio tem repetido (que está sendo atacado por rebeldes armados, treinados e financiados por governos estrangeiros) é mais verdadeiro que falso. [28]

Recentemente, em novembro, o Exército Síria Livre [orig. Free Syria Army] sugeriu que teria mais soldados do que realmente tem; de fato, como explicou um analista, “estão aconselhando os apoiadores a adiar a deserção”, à espera de que as condições regionais melhorem. [29]

Instruções para Derrubar Governos

Sobre a Síria, a Parte III de “Qual o caminho até Pérsia?” (orig. “Which Path to Persia?” [3]) é especialmente importante. Trata-se de um guia, passo a passo, de inúmeras maneiras para instigar e apoiar levante popular, criar “clima” que leve à insurgência e/ou provocar golpe de Estado. O guia completa-se com uma seção de “Prós e Contras”:

Em geral, é mais fácil instigar e apoiar insurgências rebeldes, se se está fora do país alvo (...). Sabe-se muito bem que é barato instigar e apoiar levantes em outros países (...) Os EUA sempre podem oferecer apoio a rebeldes em outros países, preservando para si condições de “negabilidade plausível” [29a] (...), [com menos] efeitos diplomáticos e políticos (...) do que se os EUA tivessem de empreender ação militar direta (...). Tão logo o regime esteja já suficientemente minado, surge a oportunidade para agir diretamente.

A “ação militar”, diz o documento, só será empreendida depois de tentadas várias outras opções que tenham fracassado, de modo que a “comunidade internacional” possa concluir, no caso de ataque, que “[o próprio governo atacado] condenou-se, ele mesmo, a ser atacado”, porque se recusou a aceitar as boas condições de rendição que lhe foram propostas.

Veem-se em plena operação na Síria vários itens da ‘receita’ para instigar levantes populares e para construir “situação de plena guerrilha” em país estrangeiro que se lê em [3], dentre os quais, por exemplo:

“Financiar e ajudar a organizar grupos locais da oposição ao governo [a ser “instabilizado”], inclusive grupos étnicos “infelizes”;“Construir capacidade na “oposição efetiva” com a qual podemos “trabalhar” para “criar liderança alternativa que possa assumir o poder”; Prover equipamento e apoio clandestino (direto ou indireto) aos grupos, inclusive armamento, além de “máquinas de fax (...) acesso à internet, dinheiro”. (Sobre o Iraque, o documento relata que “a CIA encarregou-se de parte significativa dos suprimentos e do treinamento dos grupos da oposição local, como fez ao longo de décadas, em todo o mundo”); Treinar agentes locais e facilitar os serviços de comunicação e produção de noticiário nos grupos de ativistas da exposição; Construir uma narrativa “com o apoio dos veículos de mídia nos EUA que reforce os traços negativos do regime local e dê destaque a críticas que, sem o reforço da nova narrativa, poderiam permanecer na obscuridade”; é crucial, para o colapso do regime, que ele seja desacreditado entre os “formadores de opinião”; Criar orçamento folgado para financiar grande número de iniciativas lideradas pela sociedade civil (o chamado “fundo de $75 milhões”, criado pela ex-secretária de Estado Condoleezza Rice, financiou vários grupos da sociedade civil, inclusive “um punhado de think-tanks e instituições no ‘Cinturão do Poder em Washington’ [orig. Beltway-based think-tanks and institutions] que se converteram em fonte de material a ser publicado sobre o Irã, em toda a imprensa”) [30]; e, dentre outros: Criar um corredor adjacente, em país vizinho “para ajudar a desenvolver a infraestrutura necessária para apoiar as operações para mudança de regime”.

“Além disso”, prossegue o relatório, “a pressão econômica feita pelos EUA (e às vezes também a pressão militar) contribui para desacreditar o governo local, e a população passa a tender na direção da oposição.”

Os EUA e seus aliados, especialmente a Grã-Bretanha [31] e a França, financiaram e ajudaram a “modelar” a oposição desde o início – em ações iniciadas pelos EUA em 2006, com o objetivo de construir uma frente de oposição contra o governo de Assad, retomadas depois do que foi definido como o “sucesso” do modelo do Conselho de Transição na Líbia [32].

Apesar dos meses de trabalho – predominantemente executado pelo ocidente –, na tentativa de reunir os vários grupos dissidentes e criar um movimento unido de oposição, os grupos continuaram “diversos e irreconciliáveis, como as muitas divisões ideológicas, sectárias e generacionais presentes no país”.

“Nunca houve nem há hoje [na Síria] nenhum tipo de tendência natural à unificação desses muitos grupos, porque há entre eles contextos ideológicos completamente diferentes uns dos outros e visões políticas divergentes, quando não antagônicas” – concluiu um analista [33].
Recentemente, em visita ao ministro britânico de Relações Exteriores, os vários grupos sequer aceitaram participar de reunião conjunta com William Hague, motivo pelo qual se realizaram várias reuniões, para que alguns grupos da ‘oposição’ síria sequer precisassem ver-se [34].

Mesmo assim, apesar da falta de coesão, de credibilidade interna e de legitimidade, essa oposição, reunida sob o guarda-chuva de um Conselho Nacional Sírio [ing. Syrian National Council (SNC), está sendo empurrada para ocupar o poder na Síria. O processo exige que se construam capacidades, como reconhece até o ex-embaixador da Síria aos EUA, Rafiq Juajati, atualmente na oposição.

Em meados de dezembro de 2011, em reunião fechada em Washington DC, Juajati confirmou que o Departamento de Estado dos EUA e o German Institute for International and Security Affairs (SWP) – think-tank que produz análises de política exterior para o governo alemão – estavam financiando um projeto administrado pelo US Institute for Peace e pelo SWP, e executado em parceria com o Conselho Nacional Sírio, de formação de governantes, preparando o Conselho Nacional Sírio para tomar o poder e governar a Síria.

Burhan Ghaliyoun, do Conselho Nacional Sírio, revelou (para “acelerar o processo” da queda de Assad) [35] as “competências” para governar que lhe estavam sendo “ensinadas”: “Nenhuma relação especial com o Irã; romper o relacionamento de exceção que há entre Síria e Irã implica quebrar aquela aliança militar estratégica”. E acrescentou: “depois da queda do regime sírio, o Hezbollah nunca mais será o mesmo” [36].

Descritos na revista Slate [37] como “a oposição mais liberal e de tendências mais claramente pró-ocidente de todos os levantes da Primavera árabe”, os grupos da oposição síria mostram-se tão cordatos e obedientes quanto a oposição líbia antes da queda de Muammar Gaddafi, que o New York Times descrevia como “profissionais seculares de cabeça aberta – advogados, professores, empresários – que falam de democracia, transparência, direitos humanos e obediência à lei” [38]. Talvez tenha sido tudo isso, mas só até entrarem em cena, na Líbia, o ex-comandante do Grupo de Combate Islâmico Líbio [orig. Libyan Islamist Fighting Group] Abdulhakim Belhaj, e seus soldados jihadis.

A entrada de armas, equipamento e força de trabalho (vindos predominantemente da Líbia) [39] e o treinamento oferecido pelos exércitos e outros grupos ligados aos EUA, à OTAN e seus aliados regionais, começaram na Síria em maio-abril de 2011 [40], segundo vários informes [41], e são coordenados a partir da base da Força Aérea dos EUA em Incirlik, sul da Turquia. Também a partir dessa base, uma força tarefa especializada coordena as comunicações com os serviços implantados na Síria, através do Exército Síria Livre. Toda essa operação clandestina de apoio continua ativada, como informava o American Conservative, em meados de dezembro.

Aviões de guerra da OTAN sem identificação na fuselagem estão chegando a bases militares turcas próximas de Iskenderum, na fronteira síria, desembarcando armas (...) e voluntários do Conselho Nacional Líbio de Transição (...) Em Iskenderum funciona também a sede do Exército Síria Livre, braço armado do Conselho Nacional Sírio. Instrutores das forças especiais britânicas e francesas estão estacionados naquela base, oferecendo assistência aos rebeldes; e agentes especialistas da CIA e das Forças Especiais dos EUA instalam e operam equipamentos de comunicação e inteligência, como contribuição à causa dos rebeldes, para que os combatentes evitem concentrações de soldados sírios [42].

Em abril de 2011, o Washington Post revelou que documentos recentemente vazados por WikiLeaks mostravam que o Departamento de Estado dos EUA, desde 2006, vinha repassando milhões de dólares a grupos de exilados sírios (inclusive, em Londres, ao Movimento por Justiça e Paz, afiliado da Fraternidade Muçulmana) e a indivíduos, servindo-se para isso, como intermediário, de uma “Iniciativa de Parceria para o Oriente Médio” [orig. Middle East Partnership Initiative] administrada por uma fundação dos EUA, conhecida como “Democracy Council” [43].

Telegramas vazados por WikiLeaks confirmaram que todo esse processo de financiamento continuava ativado ainda na segunda metade de 2010; e a mesma tendência está hoje muito reforçada e expandida, depois que os EUA optaram pelo “soft power” orientado para “mudança de regime” na Síria.

Enquanto esses discursos dos neoconservadores que exigem “mudança de regime” na Síria vão ganhando força dentro do governos dos EUA [44], a mesma política vai sendo institucionalizada também nos principais think-tanks a serviço da política exterior dos EUA – muitos dos quais organizaram “divisões sírias” ou “grupos de trabalho sobre a Síria” que, todos eles, operam em íntimo contato com diferentes grupos das oposições sírias (por exemplo o USIP [45] e a Foundation for the Defense of Democracy) [46], que já publicaram grande quantidade de artigos e análises, todos favoráveis à mudança de regime na Síria.

Na Grã-Bretanha, outro instituto dos neoconservadores, a Henry Jackson Society (que “apóia a manutenção de forte presença militar dos EUA, dos países da União Europeia e outros estados democráticos, armada e com capacidades expedicionárias de alcance global” e que acredita que “só os modernos estados democráticos liberais são realmente legítimos”) está, simultaneamente, promovendo a agenda da ‘mudança de regime’ na Síria [47].

Nesse caso, a Henry Jackson Society trabalha em parceria com várias figuras da oposição síria, dentre as quais Ausama Monajed [48], ex-líder dos exilados sírios, o Movimento por Justiça e Desenvolvimento, ligado à Fraternidade Muçulmana, fundado pelo Departamento de Estado dos EUA em 2006, como WikiLeaks informou.

Monajed, membro do Conselho Nacional Sírio, dirige hoje uma empresa de Relações Públicas [49] fundada recentemente em Londres; foi o primeiro a usar a palavras “genocídio” aplicada aos eventos na Síria, em press-release distribuído pelo Conselho Nacional Sírio [50].

Desde o início, a Turquia foi pressionada a criar um “corredor humanitário” ao longo da fronteira com a Síria. O objetivo, como se vê delineado em “Qual o Caminho até a Pérsia?” (orig. “Which Path to Persia?” [3], é criar uma base de lançamento e operações para a insurgência controlada e apoiada do exterior.

Esse “corredor humanitário” está sendo planejado para ser tão humanitário quanto as quatro semanas de bombardeio pela OTAN contra a cidade de Sirte, quando a OTAN cumpria o mandado do Conselho de Segurança da ONU, de “responsabilidade de proteger”.

Nada disso implica que não haja genuíno movimento popular na Síria contra a infraestrutura do governo dominada pelas forças da repressão, presente em todos os aspectos da vida das pessoas, sejam comandadas pelas forças do Estado sírio, pelos grupos armados da oposição e por misteriosos personagens que ninguém conhece, uma terceira força clandestina, que opera para alimentar a crise na Síria, composta de insurgentes [51], quase todos jihadis vindos dos vizinhos Iraque e Líbano (e mais recentemente também da Líbia) dentre outros.

Todas essas dificuldades são inevitáveis em conflitos de baixa intensidade. Críticos respeitados [52] que se têm manifestado contra o projeto de “mudança de regime” comandado na Síria por EUA-França-Reino Unido-monarquias do Golfo, clamam desde o início por transparência e exigem punição de todos os funcionários e militares (“inclusive os de alto escalão”) que sejam condenado por prática de abuso contra direitos humanos.

Ibrahim al-Amine escreve que membros do governo reconhecem “que o uso extremo da força como medida de segurança provocou graves danos em vários casos e regiões; que a resposta aos protestos populares interpretou mal aqueles protestos; e que, se os tivesse interpretado adequadamente, teria sido possível conter as agitações mediantes providências claras e firmes – como prender os responsáveis por tortura de crianças em Deraa”. Diz também que é vitalmente importante e urgente que se implante o pluralismo político e ponha-se fim a qualquer tipo de repressão não controlada [53].

Mas o que começou como protesto popular, focado inicialmente em questões e incidentes locais (como o caso de tortura de meninos em Dera, por agentes das forças de segurança) foi rapidamente “capturado” e posto a serviço do plano estratégico mais amplo para derrubar o governo de Assad (‘mudança de regime’).

Há cinco anos, eu trabalhava para a ONU, no norte da Síria, gerenciando um grande projeto de desenvolvimento comunitário. À noite, depois das reuniões na comunidade, não era raro encontrar agentes dos serviços de inteligência do exército (mukhabarat) à espera de que esvaziássemos a sala, para que pudessem filmar e examinar as anotações feitas nos flipcharts e cartazes que havia nas paredes. Praticamente todos os aspectos da vida diária das pessoas eram controlados por uma burocracia esclerosada e disfuncional da segurança e do Partido Ba’ath, sem qualquer ideologia política, além do nepotismo e da corrupção que acompanham inevitavelmente os poderes autoritários. O controle era visível em, de fato, todos os aspectos da vida das pessoas.

A 3ª-feira, 20/12, teria sido, segundo os noticiários, “o dia mais mortífero dos nove meses de protestos” na Síria, “com massacre organizado” e “deserção em massa” de soldados do exército regular, como informava a imprensa internacional, em Idlib, norte da Síria. O Conselho Nacional Sírio declarava que a Síria estaria “exposta a genocídio em grande escala”; e lamentava os “250 heróis tombados no período de 48 horas”, repetindo números divulgados pelo Observatório Sírio de Direitos Humanos [54]. Citando a mesma fonte, o Guardian noticiava que:

“O exército sírio... caça desertores, depois de soldados (...) terem assassinado cerca de 150 homens que tentavam desertar de suas bases militares. Começou a emergir um quadro (...) de deserção em massa (...) que parece ter levado a resultados trágicos (...), com soldados leais a Assad posicionados para matar os desertores que tentavam escapar de uma base militar. Os que conseguiram escapar foram depois selvagemente caçados nas montanhas próximas, como informam várias fontes. O Observatório Sírio de Direitos Humanos estima que 100 desertores foram sitiados e em seguida ou assassinados ou feridos. Soldados leais a Assad também caçaram e mataram moradores que haviam dado abrigo aos desertores. [55]
O blog atualizado ao vivo na página do jornal Guardian citava o grupo AVAAZ, que divulgara que “269 pessoas morreram nos confrontos” e reproduzia a estatística detalhada de AVAAZ: “163 revolucionários armados, 97 soldados do governo Assad e 9 civis” [56]. Mas o Guardian anotou diligentemente que “o grupo AVAAZ não oferece qualquer prova da correção daqueles números.”

O Washington Post só noticiou que mantivera contato com “um ativista do grupo AVAAZ [o qual] dissera que falara com ativistas locais e grupos médicos, e que falou de “269 mortos naquela área, na 3ª-feira”. [57]

Um dia depois das primeiras notícias sobre o massacre de desertores em fuga, porém, a história mudou. Dia 23/12, oTelegraph noticiou:

As primeiras notícias falavam de desertores do exército regular que estariam tentando fugir para a Turquia, para unir-se ao Exército Síria Livre. Agora, se diz que seriam civis desarmados, tentando fugir do exército regular, que tentava ocupar a área. Foram cercados por soldados e tanques e metralhados até não haver sobreviventes, segundo os últimos relatos. [58]

Dia 21/12, o New York Times noticiou que os “massacrados” eram “civis e manifestantes desarmados, entre os quais não havia desertores, como informa o grupo AVAAZ”. Citou a manchete do Observatory que falava de “massacre organizado”; e disse que esse relato confirmava as palavras de uma testemunha de Kfar Owaid: “As forças de segurança tinham lista de nomes dos que organizaram os manifestos contra o governo (...). As tropas abriram fogo, usando tanques, foguetes e metralhadoras pesadas [e] bombas de fragmentação, carregadas com pregos, para aumentar o número de baixas. [59]

O LA Times citou um ativista entrevistado na conexão por satélite, o qual, de onde estava (“escondendo-se entre a vegetação local”) comentou: “A palavra ‘massacre’ é fraca demais para contar o que aconteceu.” Simultaneamente, o governo sírio informava que, nos dias 19 e 20 de dezembro, matara “dezenas” de membros “de uma gangue de terroristas armados” nas cidades de Homs and Idlib fizera vários prisioneiros. [60]

Provavelmente, nunca se saberá a verdade sobre esses dois dias “mortíferos”. Os números noticiados (entre 10 e 163 insurgentes armados; entre 9-111 civis desarmados; e entre 0 e 97 soldados do governo Assad) diferem tão completamente, tanto no número de mortos quanto na descrição das vítimas, que é impossível inferir qualquer “verdade” desse tipo de informação.

Sobre outro “massacre” noticiado antes, investigação do Instituto Stratfor “não encontrou qualquer sinal de massacre”. A investigação concluiu que “forças da oposição têm interesse em manter em circulação a ideia de massacres sempre iminentes, na esperança de, com isso, reproduzir as condições que levaram à intervenção militar na Líbia”. [61]

Seja como for, o “massacre” dos dias 19-20/12 em Idlib foi noticiado como fato, e acrescentou-se à narrativa que se implantou sobre Assad e sua “máquina de matar”.

Dois relatórios recentemente divulgados, do Comissário da ONU para Direitos Humanos e um arquivo de dados [62] sobre mortos “no sangrento levante sírio” publicado num blog do Guardian (13/12) – duas tentativas para estabelecer a verdade sobre o número de mortos no conflito sírio – reproduzem, exclusivamente, dados divulgados por grupos da oposição: entrevistas com 233 supostos “desertores do exército” (no caso do relatório do Comissário da ONU); e números divulgados pelo Observatório Sírio de Direitos Humanos; pelos Comitês Locais de Coordenação (orig. Local Co-ordination Committees, LCCs); e pela rede al-Jazeera (no caso do Guardian).

O Guardian fala de um total de 1.414,5 pessoas (sic) assassinadas – entre as quais 144 agentes de segurança da Síria – entre janeiro e 21/11/2011. Reprodução, exclusivamente, de informações publicadas, essa matéria traz vários erros flagrantes (p.ex., o número de mortos total, não é a soma do número de mortos por locais, de que falam as fontes): nesse total foram somados 23 sírios mortos pelo exército de Israel em junho, nas colinas do Golan; e 25 noticiados como “feridos” também são somados como mortos, além de vários feridos a tiros.

O relatório jamais menciona os insurgentes armados mortos ao longo de dez meses: as vítimas sempre são “manifestantes desarmados”, “civis” ou “pessoas” – além de 144 agentes da segurança.

70% dos dados reproduzidos nessas matérias têm, como fonte, o Observatório Sírio de Direitos Humanos, os Comitês Locais de Coordenação (orig. Local Co-ordination Committees, LCCs) ou, então, “ativistas”; 38% de tudo que a mídia publicou é reprodução de matéria da rede al-Jazeera; 3% reproduz matéria da ONG Anistia Internacional; e 1,5% reproduz matéria de fontes oficiais sírias.

Em resposta ao relatório do Comissário da ONU, o embaixador na Síria à ONU comentou: “E por que alguém entrevistaria desertores, se quisesse ouvir testemunho confiável e isento? São desertores... Evidentemente falarão contra o governo sírio”.

No esforço para inflar o número de mortos, o grupo AVAAZ já superou até a ONU. O grupo AVAAZ já declarou publicamente, até, que está envolvido na atividade de “tirar clandestinamente manifestantes, do país”; que mantém “abrigos clandestinos seguros, usados para abrigar os manifestantes mais visados pelos terroristas do governo Assad”; e um “cidadão jornalista do AVAAZ” “descobriu uma cova clandestina, para esconder centenas de cadáveres”. [63]

O próprio grupo anunciou com orgulho que as redes BBC e CNN divulgaram que cerca de 30% do noticiário sobre os eventos da Síria, naquelas redes, é informação distribuída por AVAAZ. O jornal Guardian divulgou, há alguns dias, que AVAAZ teria encontrado “provas” de mais de 6.200 mortos na Síria (forças de segurança e 400 crianças); que o grupo poderia afirmar com certeza que 617 daqueles mortos morreram sob tortura [64]. A “prova” estaria na confirmação, de cada uma das mortes, que AVAAZ teria obtido de três pessoas, “entre as quais um parente do morto e um clérigo que cuidou do sepultamento”. É ‘prova’ que, para dizer o mínimo, nada prova.

A notícia que se lê num jornal de Homs, do assassinato de um general-brigadeiro e seus filhos, naquela cidade, em abril de 2010, ilustra a impossibilidade quase total de “provar” responsabilidades, antes de qualquer investigação séria, no auge de um conflito sectário e, menos ainda, no caso de o morto ser militar graduado e filhos:

Um general, que se acredita ser Abdu Tallawi, foi morto com seus filhos e um sobrinho, quando atravessavam, em veículo militar, um bairro muito agitado. Há dois relatos dos fatos, e divergem quanto à religião da vítima.

Os legalistas dizem que teria sido morto por takfiris – islamistas fanáticos, que acusam outros muçulmanos de heresia –, porque o morto seria islâmico alawita. A oposição a Assad insiste que o morto seria da família Tallawi de Homs, e que teria sido morto por forças de segurança, para acusar a oposição. Há quem diga, até, que teria sido morto porque se recusou a atirar contra os manifestantes, mas não se deve considerar essa terceira versão, dada a extrema polarização das opiniões em Homs.

O general-brigadeiro foi morto porque trafegava em veículo militar, embora levasse os filhos. Quem o matou não se interessava por diferenças religiosas e só pensava em atacar membro do governo, para provocar repressão ainda mais violenta, a qual, por sua vez, aprofundaria o movimento de protestos e o Estado, no mesmo ciclo de violência [65] .

Notas do autor (em inglês) no sítio: http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/NA05Ak05.html
1. Veja aqui.

2. Veja aqui.

3. Veja aqui.

4. Veja aqui.

5. Veja aqui e aqui.

6. Veja aqui.

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21. ibid.

22. Veja aqui.

23. Veja aqui.

24. Ver aqui.

25. Veja aqui.

26. Veja aqui.

27. Veja aqui.

28. Veja aqui.

29a. “Negabilidade plausível”: diz-se de acusação que não possa ser provada e cuja negação possa ser plausivelmente aceita. No jargão corrente das comunidades de espionagem, a expressão tem sido usada nos casos em que a ação é premeditada, para não deixar pistas ou rastros. Exemplos de casos em que a negabilidade (nem sempre plausível) pode vir a beneficiar criminosos são, por exemplo, meios de tortura como descargas elétricas e quase-afogamento, que não deixam marcas no corpo, o que impede que se comprove a tortura; chantagem, ameaças e intimidação de jornalistas e testemunhas também são meios com alta “capacidade de negabilidade”, dentre outros (21/9/2010, “Blackwater & Co. - A “negabilidade total”, nota 1, [NTs].


30. Veja aqui.

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32. Veja aqui.

33. Veja aqui.

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59. Veja aqui.

60. Veja aqui.

61. Veja aqui.

62. Veja aqui.

63. Ver aqui.

64. Veja aqui.

65. Ver aqui.

Aisling Byrne é coordenador projectos com fórum de conflitos e baseia-se em Beirute.



Pescadores de Gaza apelam ao mundo



Gaza sitiada, Palestina ocupada
11 de janeiro de 2012

Nós, pescadores palestinos da Faixa de Gaza, o CPSGaza, a União dos Pescadores na Cidade de Gaza, a Associação Palestina de Pesca e Esportes Marítimos e a Sociedade Al Tawofeek estamos apelando ao mundo para que obrigue Israel a suspender o bloqueio naval que restringe a área de pesca palestina a 3 milhas náuticas, e para que apoie o barco Oliva [iniciativa de ativistas internacionais para monitorar a ação da marinha israelense contra os pescadores de Gaza] e as missões civis pacíficas similares, destinadas a monitorar as violações israelenses e a garantir aos pescadores palestinos a possibilidade de trabalhar em condições seguras.

Como aconteceu com a zona-tampão em terra , desde o início da Segunda Intifada Israel tem implementado progressivamente restrições ao acesso dos pescadores palestinos ao mar. A área de pesca de 20 milhas náuticas, acordadas no âmbito do Acordo Gaza-Jericó de 1994, entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), foi diminuída para 12 milhas sob o nunca implementado Acordo Bertini, de 2002. Em 2006, foi reduzida a 6 milhas da costa. Após a Operação Chumbo Fundido, ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza, Israel proibiu os pescadores palestinos de ir além de 3 milhas náuticas da costa, impedindo-lhes o acesso a 85% da área marítima a que eles têm direito, segundo o Acordo Gaza-Jericó.

Apesar das promessas do governo de Israel, em junho e dezembro de 2010, de diminuir o bloqueio, as restrições no mar continuam a paralisar a indústria de pesca palestina, obrigando milhares de pescadores a abandonar seu trabalho, porque a área compreendida pelas 3 milhas náuticas é marcadamente sobre-explorada. Restringir o trabalho dos pescadores palestinos, limitando a zona de pesca a apenas 3 milhas náuticas, é negar o acesso à única fonte de renda disponível para eles e suas famílias. Isso é incoerente em relação às obrigações legais internacionais de Israel.

Recentemente, as forças navais israelenses colocaram grandes boias no mar, para servir como marcadores de limite para as 3 milhas náuticas, advertindo os pescadores palestinos a não navegar além desses marcadores. Caso contrário, eles estarão sujeitos a detenção, tiros e confisco dos barcos e equipamentos de pesca. Os pescadores palestinos expõem-se a um risco elevado todos os dias, no mar, e são frequentemente perseguidos e presos pelas forças navais de Israel, sob o pretexto de velejar além das 3 milhas náuticas.

Os fatos têm sido documentados e denunciados pelo Centro Palestino de Direitos Humanos. Violações israelenses nas águas de Gaza são documentadas também pelo Oliva, o barco patrocinado por dezenas de organizações locais e internacionais que acompanha os pescadores em suas atividades desde junho de 2011. Ao tentar documentar as violações israelenses no mar de Gaza, o Olivafoi atacado várias vezes.

Apelamos à comunidade internacional para que condene os ataques contínuos da marinha israelense contra os barcos de pesca palestinos e para que exerça pressão sobre Israel, a fim de que abra a área de pesca até 20 milhas náuticas.

Apelamos também à comunidade internacional para apoiar missões civis pacíficas, com a presença de observadores internacionais e ferramentas legais, como é o caso do Oliva, a fim de que se dê continuidade ao acompanhamento das violações de direitos humanos no mar de Gaza e de que se permita aos pescadores palestinos o trabalho em condições seguras.

Assinado:

Civil Peace Service Gaza (CPSGaza) [Serviço Civil de Paz Gaza]


The Union of Fishermen, Gaza [União dos Pescadores]


Palestinian Association for Fishing and Marine Sports, Gaza [Associação Palestina de Pesca e Esportes Marítimos]


Al Tawofeek Society, Gaza

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O IMPÉRIO ARRASTA O MUNDO PARA MAIS UMA GUERRA

Dentro do sistema capitalista não há saídas da crise favoráveis ao povo


Extractos da entrevista da secretária-geral do CC do KKE no programa matinal da estação de televisão ANT1, em 05/Janeiro/2012.


- O que propõe o KKE? É um partido que não procura o poder burguês. Ele não diz: votem por mim para formar um governo e as coisas serão diferentes. O que é que está a propor a fim de sairmos do impasse?

Quando dizemos ao povo que o sistema capitalista – e dizemos isso em relação ao sistema capitalista da Europa, que completou todo o ciclo – hoje já não pode proporcionar soluções, que já deu tudo o que tinha a dar, isto significa que eles não esperam que o KKE participe no sistema político burguês, num governo para gerir um sistema que nada pode proporcionar.

- Está a falar acerca do derrube do sistema?

Naturalmente.

- Não está interessada em participar numa formação governamental?

A questão não é se nos interessa. Isso será danoso para o povo. E nos depararemos a enfrentar uma grande contradição que é por um lado dizermos palavras-de-ordem em favor do povo e invocarmos nossos mais de 90 anos de história e por outro lado sentarmo-nos e discutirmos acerca da abolição dos bónus de Natal e de Páscoa. Não é isto que queremos.

- Se o povo votar a favor e vos proporcionar um resultado importante, digo como hipótese, o que vocês lhe dirão? Que não governam porque o prejudicará, por que não podem governar dentro da estrutura do sistema dos capitalistas?

O povo grego, quando der uma tal maioria ao KKE, estará então determinado a lançar-se na batalha. Nós explicamos a nossa linha política plenamente. Não saímos a dizer que pode haver um governo que impusesse duas ou três boas soluções. Isso é o que dizem outros partidos, os quais contam mentiras. E na minha opinião ou deveríamos dizer que os seus políticos e quadros são incompetentes, algo em que não acredito, ou estão conscientemente a dizer mentiras.

Se pudéssemos impedir as consequências da crise e resolver os problemas do povo através da participação num governo, nós o faríamos. Somos ousados e assumimos riscos. Mas isto é impossível. Deixe aqueles partidos que conversam acerca de governos progressistas de esquerda ou de centro-direita ou de centro-esquerda nos explicarem: formam um governo. Mas no dia seguinte teriam de tratar de ainda mais memorandos, empréstimos, da Federação Helénica de Empresas, as federações patronais. Sabe o que está a acontecer agora? Mesmo quando num sector ou fábrica a luta faz pressão sobre o patrão e ele quer fazer um pequeno recuo, a federação dos industriais salta sobre ele e diz-lhe para não o fazer porque isto criará uma abertura em outras fábricas. Assim o trabalho não só enfrenta o seu próprio patrão como também os donos do capital e dos meios de produção como um todo.

- Eleições. Se olharmos para os inquéritos de opinião não teremos governos de um só partido. O que farão neste processo? Será mais uma vez o KKE a gritar e dizer que são os únicos que exprimem a esquerda?

Não dizemos isso desse modo. Procuramos exprimir objectivamente, através das nossas posições, os interesses da classe trabalhadora contemporânea e de uma ampla secção, não toda, dos auto-empregados e um grande secção dos agricultores, não todos os agricultores. Nós definimos forças sociais. Apelamos ao trabalhador, tanto àqueles que votam na Nova Democracia como no PASOK. Nós vemos as forças sociais, porque quando você fala em termos de esquerda, direita, centro, hoje não está a dizer nada.

O povo não tem nada a perder; pode ao contrário ganhar alguma coisa se um governo fraco surgir das eleições. Quanto mais forte for o governo, mais duro e mais determinado será contra o povo.
Sejamos realistas acerca das próximas eleições. É possível que o povo saia mais forte e seja capaz de erguer obstáculos contra o trabalho do próximo governo. O povo não deveria ter medo. Se não for possível formar um governo de um partido eles chegarão a acordo uns com os outros. Eles já se prepararam para isso. Não ouçam o sr. Samaras, não ouçam o que o sr. Papandreu ou próximo líder do PASOK estão a dizer. Já há alguns que estão ansiosos por contribuir. Esperamos que haverá um momento em que a formação do governo será impossível e o povo intervirá. O que é importante é que não tenhamos um governo forte. Não podemos ter um governo a favor do povo.

- Isto é um pouco astucioso num sentido político. Diz que não pode haver qualquer governo progressista, excluindo a possibilidade de um governo não só do seu partido como também o do sr. Tsipras (Syriza) e do sr. Kouvelis (Esquerda Democrática).

Dizemos isso claramente. Não, não vamos por aí.
- Então diz isso claramente.

Não pode haver qualquer governo progressista que coexista com os monopólios, não só na economia mas por toda a parte, que efectue negociações dentro da UE – porque é isso que todos eles estão a dizer; que alegadamente efectuarão uma negociação militante, tal coisa não pode vir a acontecer. Estas duas coisas são incompatíveis. Mas podemos ter um movimento forte após, no dia seguinte às eleições.

- As pessoas têm expectativas quanto a vocês. Elas dizem que o KKE pode ter uma das poucas oportunidades que alguma vez já teve no período pós ditadura de fazer sentir a sua presença com os votos do povo e querem ouvir algumas propostas do KKE para uma saída. Isto é o que as pessoas que não tem um relacionamento ideológico com o KKE estão a pedir.

Temos uma proposta de saída. Não lhe direi o que já divulgamos numa versão impressa. Organizamos comícios, manifestações por toda a Grécia. Na verdade, isso não pode ser apresentado em um minuto. Se a pergunta é uma saída agora em que tudo permanece o mesmo e em que emergirá um governo que mudará tudo com decisões do parlamento, bem tal coisa não é possível. Isso quer dizer que não pode haver qualquer saída na estrutura do sistema actual.
- Está a falar acerca do derrube do sistema?

Sim, mas isso não pode acontecer numa noite e com um único assalto. Dizemos o seguinte: em cada batalha o povo deve fazer progressos como um militante, mesmo através de ganhos parciais. Não podemos descartar a possibilidade de um derrube radical nos próximos anos. O próprio povo decidirá sobre isto e ao mesmo tempo ele deve preparar-se e exercer pressão decisiva, impedindo o pior a alcançando ganhos. Não podemos fixar uma data para a mudança do sistema político, não podemos estabelecer um período de um, dois, três anos porque isto depende da maioria do povo, não será um assunto só do KKE. Se o povo não tomar a decisão, isto não se verificará.

05/Janeiro/2012
A versão em inglês encontra-se em http://inter.kke.gr/News/news2012/2012-01-06-syn-gs
Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

Capacidades militares do Irãn




Irãn desempenha um papel crítico no Golfo Pérsico e, com a sua geografia estratégica, domina totalmente o Norte do golfo e o Estreito de Ormuz. Mas será que tem recursos suficientes para bloquear e reter aquela rota estratégica no caso de conflito militar?


Política de guerra assimétrica

O Irãn é uma potência militar relativamente inferior em comparação com os EUA e outros países NATO, mas tem a capacidade de proporcionar grandes golpes que para forças convencionais maiores são difíceis de conter.

O editor chefe da revista Defesa Nacional, Igor Korotchenko, acredita que a força militar do Irão não é capaz de alcançar uma vitória contra os EUA numa confrontação directa.

"No caso de um conflito militar global directo [com o Irão], os EUA certamente assegurarão uma vitória", disse ele. "Mas a questão é: a que custo?".

Devido a medidas assimétrica que o Irão pode por em acção num conflito, o preço da vitória poderia ser inaceitável para os EUA, disse Korotchenko.

"O Irãn pode atacar bases e instalações militares estado-unidenses na região", disse Korotchenko. "Eles podem utilizar elementos do Hamas e do Hezbollah, bem como outros movimentos radicais que estão prontos a apoiar o Irão. Podem desestabilizar a situação no Iraque. Estas seriam medidas assimétricas".

Tendo activos limitados em mãos, o Irão tem de desenvolver uma estratégia de guerra assimétrica. Portanto a guerra do Irão está orientada para a utilização do seu armamento em modos não convencionais e para a capitalização da geografia favorável do país.

A liderança do Irão adopta uma "doutrina do não primeiro ataque" e portanto o Irão não tem lançado guerras na historia moderna. A constituição iraniana proíbe o estabelecimento de quaisquer bases militares estrangeiras no país, mesmo para finalidades pacíficas.

A seguir à Revolução Islâmica de 1979, o Irão dividiu as suas forças armadas nos componentes regular e revolucionário. Isto significa que o Irão tem dois exércitos activos: o Exército da República Islâmica do Irão (exército regular) e o Exército dos Guardas da Revolução Islâmica (Guardas Revolucionários, IRGC). O IRGC é uma força de armas combinadas com as suas próprias forças de terra, Marinha (IRGCN), Força Aeroespacial (IRGC-AF), Inteligência e Forças Especiais. Considerando que os militares regulares defendem as fronteiras do Irão e mantêm a ordem interna, os Guardas Revolucionários são destinados a proteger o sistema islâmico do país. Ambas as forças operam em paralelo e partilham instalações militares, mas o IRGC tem um estatuto mais elevado e uma preferência na recepção de material moderno.

A estratégia assimétrica demonstrou-se eficiente durante a Guerra Irão-Iraque (1980-1988). O Irão efectuou operações bate-e-foge com êxito utilizando grupos de pequenos botes contra navios que passavam através do Estreito de Ormuz. Combinada com a vasta colocação de minas no estreito, as tácticas de guerrilha permitiram ao Irão afundar mais de 500 navios durante a guerra. Contudo, numa confrontação directa com uma frota estado-unidense depois de uma mina iraniana ter danificado uma fragata dos EUA, a Marinha iraniana foi esmagada.

Hoje a IRGCN opera mais de 1500 pequenos botes, os quais podem ser facilmente escondidos na zona costeira e não precisam de um grande porto para serem abastecidos. A maior parte destes botes pode estar o já está equipada com mísseis de alcance curto e com minas. Um ataque inesperado de um grupo destes botes pode deitar abaixo quase qualquer navio que ouse entrar em águas iranianas.

As forças do Irão são cobertas por uma rede vasta de mísseis anti-navios baseados na costa e por sistemas de defesa aérea. Sendo bastante vulnerável a uma campanha aérea séria, o Irão descentralizou sua estrutura de comando, melhorando portanto a resiliência das suas forças após um ataque inicial.

Eficiência inferior em batalha?

O Irão tende a manter o seu equipamento militar em boas condições, pronto para ser utilizado onde e quando necessário. Isto foi confirmado durante exercícios navais regulares do Irão. Em muitos casos o Irão utilizou ensaios para testar seus novos armamentos, tais como o novo míssil balístico de médio alcance Chadr. O êxito deste último em testes de lançamento dia 3 de Janeiro fez o chefe da Marinha iraniana, almirante Habibollah Sayyari, declarar que a partir dali o Estreito de Ormuz estaria completamente sob o controle do Irão.

O Ghadr-110 é um míssil balístico de médio alcance concebido, desenvolvido e fabricado totalmente no Irão. É uma versão melhorada do míssil Shahab-3 com a manobrabilidade mais alta e um tempo de preparação mais curto, de apenas 30 minutos. O míssil tem um alcance de cerca de 2.100 quilómetros. Ele foi lançado em teste com êxito durante os últimos exercícios militares Velayat-90 entre 24/Dezembro/2011 e 03/Janeiro/2012.

O objectivo dos exercícios navais do Irão é não apenas flexionar seus músculos frente ao mundo mas também melhorar seu treino e proficiência militar e afinar a estratégia de conduzir operações dentro das suas águas territoriais.

Os militares do Irão tem uma quantidade significativa de hardware militar produzindo pelo ocidente, alguns com mais de 30 anos de idade, o qual é difícil fazer manutenção sob o embargo. A frota do Irão consiste de navios de concepção estado-unidense, francesa e britânica. Os três maiores submarianos do Irão, os quais foram fornecidos pela Rússia, têm mais de 15 anos e não há relatos de qualquer grande revisão de manutenção a ser feita. A base da sua força aérea é constituída por jactos MiG-29 e SU-24 russos, e F-6 e J-7 chineses.

O Irão substitui activamente o hardware estrangeiro descomissionado por armamento produzido internamente e aumenta constantemente sua eficiência militar.

Indústria militar

Após a revolução, o Irão encontrou-se gravemente isolado devido a sanções económicas e a um embargo de armamento que lhe foi imposto pelos Estados Unidos, e teve de confiar principalmente na sua indústria interna de armas. O IRGC foi encarregado de criar a moderna indústria militar iraniana.

Hoje o Irão é capaz de produzir um vasto conjunto de armamento desde aviões com asas fixas, helicópteros, botes e submarinos bem como sistemas de radar e sistemas de defesa aérea refinados. Contudo, os sistemas que os EUA fornecem a aliados seus no golfo são muito mais avançados do que a tecnologia militar iraniana.

O Irão tem-se centrado no desenvolvimento de munições inteligentes, embarcações leves de ataque, minas e mísseis balísticos para neutralizar outras potência militares.

O Irão dedicou um bocado de esforço ao desenvolvimento dos seus próprios mísseis balísticos. Em anos recentes desenvolveu armas tais como os mísseis balísticos de médio alcance Fajr-3 e Kowsar, os quais tornaram-se a coluna dorsal do seu stock de mísseis estratégicos.

Para a sua força submarina, o Irão desenvolveu o torpedo de super-cavitação Hoot, alegadamente uma engenharia reversa do russo VA-111 Shkval.

O Irão fabrica localmente os sistemas de mísseis de defesa aérea Shahin e Mersad, os quais são versões melhoradas do sistema estado-unidense MIM-23-Hawk da década de 1960. O Irão também sabe produzir e operar drones não manejados, os quais são utilizados para vigilância.

Força Aérea do Irão

A Força Aérea do Irão opera cerca de 200 aviões de combate, uns 120 de transporte e mais de 500 helicópteros. A lista de bases e aeroportos operados pelos militares do Irão inclui 14 bases tácticas da força aérea, 18 campos de pouso militares e 22 aeroportos civis que podem ser utilizados para finalidades militares.

A força aérea do Irão é constituída principalmente por aviões soviéticos e chineses, bem como aviões ex-iraquianos postos em serviço. Alguns dos aviões mais antigos são americanos, os quais a Força Aérea tem conseguido manter em serviço.

O Irão é capaz de produzir caças a jacto de um só lugar Azarakhsh e Saeqeh de segunda geração, derivados do Northrop F-5 americano. Oficiais iranianos afirmam que o Saegeh é semelhante ao McDonnell Douglas F/A-18 Hornet de construção americana. Segundo relatos recentes o Irão tem cerca de 30 destes aparelhos em operação.

Todos os aviões iranianos são equipados com mísseis de fabricação local e não dependem de fornecimentos estrangeiros.
Força naval iraniana

Segundo fontes abertas as forças navais do Irão têm um total de cerca de 26 submarinos, 4 fragatas, 3 corvetas, 24 embarcações de patrulha com mísseis, 7 navios lança-minas e mais de 270 embarcações de patrulha costeira.

Três dos submarinos do Irão são russos da classe Kilo, diesel-eléctrico, destinados principalmente a operações anti-navio e anti-submarinas nas águas relativamente rasas do golfo.

O Irão também tem cerca de 17 pequenos submarinos produzidos internamente da classe Ghadir, capazes de disparar o torpedos Hoot de super-cavitação, os quais são uma ameaça significativa para navios e submarinos hostis.

O Ghadir é uma classe de mini submarinos construídos pelo Irão especificamente para navegar dentro das águas rasas do Golfo Pérsico. O submarino está equipado com o equipamento militar e tecnológico mais recente e acredita-se que as suas capacidades seja iguais às de tipos estrangeiros. Os submarinos da classe Ghadir são capazes de disparar rocket-torpedos Hoot de super-cavitação. Os submarinos Chadir também podem ser utilizados para instalar diversas operações especiais, tais como lançamento de minas.

Considerando que o Estreito de Ormuz é bastante raso e tem apenas dois estreitos canais navegáveis, não seria de modo algum um desafio bloquear a passagem estratégica, especialmente com a experiência do Irão em operações de lançamento de minas, afirma Korotchenko.

"Operações de lançamento de mina podem ser executadas de modo bastante encoberto e depois disso o Irão pode anunciar que o Estreito de Ormuz está bloqueado", disse ele. "Além disso, o Irão é capaz de atingir petroleiros e outros navios dentro do estreito com mísseis anti-navio e disparados de botes velozes ou directamente da costa".

Programas balísticos e nucleares

A principal preocupação do ocidente são os programas de mísseis balísticos e nuclear iranianos. O Irão criou forças de mísseis balísticos armados que são capazes de atingir quaisquer aliados dos EUA e bases estado-unidenses na região.

Afirma-se que o Irão acumulou vários milhares de mísseis balísticos móveis de alcance curto e médio. Os mísseis balísticos do Irão também poderiam ser configurados para transportar ogivas nucleares se o Irão puder desenvolvê-las.

O Irão ainda afirma que o seu programa nuclear é pacífico, mas muitos na comunidade mundial acreditam que é destinado a produzir armas nucleares. Segundo um de tais gurus, Anthony H. Cordesman do Center for Strategic and International Studies, é bastante possível que o Irão possa adquirir armas nucleares operacionais (deliverable) dentro dos próximos cinco anos.

Igor Korotchenko acredita que o Irão utilizaria seu poder balístico sem hesitação se exigido. A única questão que permanece é quão efectivamente isto funcionaria do lado da engenharia.

"Os mísseis balísticos Shahab-3 e os mísseis mais recentes baseados naquela tecnologia são de facto mísseis semi-estratégicos", disse ele. "É possível atacar instalações militares na região com aqueles mísseis, numa certa extensão. A questão é quão efectivamente o Irão utilizará suas unidades de mísseis".

"As unidades de mísseis são controladas pelos Guardas Revolucionários e estão incluídas na sua estrutura operacional", acrescentou Korotchenko. "Portanto podemos esperar que pelo menos no contexto da prontidão moral, os homens dos mísseis iranianos cumprirão o seu dever profissional".

15/Janeiro/2012
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=28668
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .