quarta-feira, 10 de junho de 2020

Silêncios hipócritas à beira da tempestade


Por José Goulão

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A União Europeia guarda, sobre a execução extrajudicial de George Floyd e o racismo estrutural nos EUA, a mesma discrição que assumirá quando Israel fizer flutuar a bandeira sionista no Vale do Jordão.
Benjamin Netanyahu, o aparentemente eterno primeiro ministro de Israel, agora geminado com um dos carrascos de Gaza, Benny Gantz de sua graça, vem anunciando que a partir do início do próximo mês dará os passos governamentais, parlamentares e militares que considera necessários para anexar o Vale do Jordão, no território palestino da Cisjordânia. Além disso, tenciona integrar no Estado de Israel os colonatos construídos ilegalmente no mesmo território durante os últimos 60 anos. Estes movimentos representam, de fato, a extinção da chamada «solução de dois Estados» na Palestina histórica, estabelecida em 1948 pelas Nações Unidas e reativada durante os passados anos noventa. Os criminosos não escondem o crime, os avisos estão feitos: ninguém poderá dizer que será apanhado de surpresa.
A chamada «comunidade internacional», a começar pela ONU e respectivo secretário-geral, assiste de camarote aos acontecimentos. A repetição, como um mantra, de que «a solução de dois Estados» continua a ser o caminho para regularizar a situação na Palestina servirá para fazer de conta, ou para manifestar um apego inconsequente aos princípios estabelecidos, ou até para marcar presença num quadro de inutilidade. Mas não tem lastro para travar o buldozzer sionista e o seu guarda-costas yankee empunhando a arma do «acordo do século» – aquilo a que a «comunidade internacional» não atribui qualquer valor legal, mas que na realidade guia as ações dos únicos a se mexer neste processo – a caminho da anexação da Cisjordânia.
O fato consumado dos fatos consumados
Ao se investigar minuciosamente os comportamentos de países e entidades com poder de decisão sobre as coisas do mundo, não se detecta um único indício de que esteja em desenvolvimento uma ação internacional concertada para demover Israel de dar o golpe anunciado.
Um golpe que, sem paninhos quentes nem contorcionismos semânticos, tem o mesmo significado, à luz das leis internacionais, que o improvável ato de a Espanha anexar Portugal, ou Portugal meter a mão na Galiza, ou a França aboletar-se com a Valônia, ou a Alemanha engolir Luxemburgo, ou a Áustria, coisa que já nem seria original, mas sabemos em que circunstâncias aconteceu.
São comparações retiradas dos cadernos do absurdo. Porém, têm absoluta legitimidade. O Estado da Palestina é reconhecido por dois terços dos países da ONU e tem assento na organização. A sua consumação territorial tem sido impossível apenas porque existe um Estado ocupante que se nega a cumprir a legalidade internacional e que não sofre quaisquer consequências por isso, tornando as leis reféns da força bruta e da cumplicidade de interesses abjetos.
Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Leste são os territórios onde, no quadro da «solução de dois Estados», deverá assentar territorialmente o Estado da Palestina. Jerusalém Leste foi anexada por Israel, com a cobertura dos Estados Unidos da América e sob protestos verbais envergonhados, inúteis e efêmeros dos seus parceiros e aliados da OTAN e da União Europeia. Gaza é um campo de concentração cercado militar e fisicamente, onde dois milhões de pessoas estão condenadas a condições infra-humanas, à espera da morte ou de que Israel e os Estados Unidos, talvez com ajuda da Arábia Saudita e o Egipto, decidam o que fazer com elas – no âmbito, claro, do «acordo do século», esse instrumento sem valor legal.
E a Cisjordânia, além de retalhada por mil e um colonatos, serpenteada por um muro intransponível que separa famílias, propriedades, aldeias e cidades, arrasada pelo terrorismo dos militares ocupantes e dos colonos, poderá ser anexada praticamente na totalidade já a partir de julho.
Consumada a anexação do Vale do Jordão, integrados os colonatos na soberania do Estado sionista, nada restará na Cisjordânia onde possa erguer-se alguma coisa que se pareça com um Estado soberano e viável. Fim da «solução de dois Estados».
Estamos a menos de meia dúzia de semanas de que isso aconteça, ou pelo menos sejam dados passos que tornem o processo irreversível. Bem na linha da política de fatos consumados através da qual Israel tem se consolidado como Estado colonial e os palestinos têm perdido os direitos que lhe estão garantidos nos papéis onde está inscrito o direito internacional, papéis cada vez mais imprestáveis em geral, totalmente imprestáveis neste caso. Será o supremo fato consumado na torrente dos fatos consumados com que Israel humilha a legalidade internacional.
Confirmadas a inutilidade e a indignidade da União Europeia
A Rússia tem afirmado que se opõe a qualquer ação israelense para anexação do Vale do rio Jordão. A China diz a mesma coisa, mais palavra, menos palavra.
Se, durante o processo, for necessário recorrer a vetos no Conselho de Segurança das Nações, as duas nações não hesitarão em utilizá-los. O mesmo acontecerá do lado dos Estados Unidos, anulando-se mutuamente os efeitos de cada veto. Não se espera, portanto, que o Conselho de Segurança adote qualquer medida dissuasora dos objetivos sionistas. Porém, será muito previsivelmente o mais longe que Moscou e Pequim irão na tentativa – nesse caso ineficaz – de fazer prevalecer os direitos dos palestinos.
Há ainda a União Europeia, essa defensora incansável do direito internacional, dos direitos humanos, da soberania dos povos – para quem acredita ainda no discurso hipócrita e cínico dos seus dirigentes.
Em 15 de maio reuniram-se em Bruxelas os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27 e o tema da anunciada anexação do Vale do Jordão surgiu em cima da mesa.
Como se sabe, a União Europeia defende oficialmente a «solução de dois Estados» na Palestina. Então, alguns Estados membros, entre os quais a França, Espanha, Bélgica, Luxemburgo, ousaram propor a imposição de sanções a Israel no caso de concretizar as intenções anunciadas. Nada de muito relevante, tudo muito suave, apenas a exclusão do envolvimento de Israel no quadro científico-técnico denominado Horizonte 2027. Sanções inúteis, simbólicas numa entidade que decidiu flagelar-se a si própria – sobretudo aos seus agricultores – por conta das sanções pesadas impostas à Rússia pela «ocupação» da Crimeia, um território histórica e inegavelmente russo, tal como demonstraram massivamente os seus habitantes em referendo.
Apesar dos pezinhos de lã contra uma atrocidade terrorista como a prometida por Israel, devastadora para o direito internacional, para os direitos nacionais e humanos de milhões de palestinianos, foram vários os países que se opuseram desde logo a essas sanções, ainda que inconsequentes, e confirmaram aquilo que todos sabemos: a inutilidade da União Europeia na cena internacional, neste caso refletindo a sua indignidade por ser incapaz, como quase sempre, de fazer cumprir aquilo que diz defender.
Fica então sentenciada a passividade – a cumplicidade – da União Europeia quando Israel avançar para a anexação.
Dez dias depois dessa reunião, num encontro com embaixadores alemães, deu-se o caso de o chefe da «política externa» da União Europeia, o espanhol Josep Borrell, ter falado no «fim da liderança norte-americana», fazendo soar o tambor das especulações e das conjecturas dos geopolitólogos de plástico. Com aquilo que está se passando nos Estados Unidos, parece aconselhável adptar uma certa distância e dizer coisas que pareçam refletir vida e existência próprias para além da subserviência militar, econômica, financeira e política. Se passarmos do discurso à prática, nada a registar. A União Europeia guarda sobre a execução extrajudicial de George Floyd e sobre o racismo congênito dos Estados Unidos a mesma discrição que assumirá quando Israel fizer flutuar a bandeira sionista no Vale do Jordão. Discursos inflamados ainda poderá haver, atos não vamos ver.
A partir da anexação, como tem acontecido ao longo de décadas, fato consumado atrás de fato consumado, ouviremos os convictos dirigentes europeus, da globalização e da ONU «exigir» que Israel se retire do Vale do Jordão e dos territórios ocupados para que possa ser aplicada «a solução de dois Estados». Um insulto à inteligência, um alinhamento objetivo com a ilegalidade, uma traição repugnante contra o povo palestiniano.
Entre os dirigentes mundiais com peso nas decisões internacionais muitos haverá que estarão dispostos a brandir discursos solidários e de firmes princípios teóricos até ao último dos palestinos. Nada mais do que isso.

Os palestinos não se rendem

Os palestinos, mais de sete milhões na Palestina e no mundo, podem contar apenas com eles próprios. Não é certo, inclusivamente, que venham sentir o apoio do governo «autônomo» instalado em Ramallah, enredado na teia montada pelo sionismo que o tem conduzido frequentemente a desempenhar tarefas de «segurança» – de repressão do seu povo, portanto – em sintonia com forças militares israelenses. O presidente Mahmmud Abbas já deixou agora de atender os telefonemas de Trump, desligou-se dos Acordos de Oslo, mas as medidas pecam por ser tardias. Num quadro em que o apoio de países árabes é duvidoso e em muitos casos inexistente – e será sempre insuficiente perante as forças em presença – os palestinos podem contar somente com as próprias forças. E com o apoio que povos solidários considerem dar-lhes através de lutas cívicas e institucionais. Sabendo que terão de enfrentar até a infame acusação de antissemitismo, que o monstruoso aparelho mundial de propaganda sionista quer obrigar a associar a qualquer manifestação ou expressão de repúdio contra atos terroristas e ilegais praticados pelo Estado de Israel. Antissionismo não é antissemitismo, muito menos a condenação dos desumanos e ilegais atos israelenses pode ser considerada antissemitismo. Mas a ideia está fazendo o seu caminho na União Europeia, sempre pronta a fazer trabalhos sujos recomendados pelo sionismo – ainda que seja para cobrir o terrorismo.
Os palestinos, onde quer que estejam, não ficarão de braços cruzados perante esta manifestação aguda do terrorismo sionista em preparação. Fala-se em «terceira Intifada», quanto mais não seja pelo hábito rotineiro de catalogar acontecimentos. Mas haverá seguramente resposta, que será definida pelos próprios, como aconteceu com o levante das pedras de 1988 e que pôs pela primeira vez em xeque, até aos olhos do mundo, a fama e as «legitimidades» do sionismo todo-poderoso. O movimento nacional de resistência, é certo, não está organizado e unido como então, a fratura entre a Organização de Libertação da Palestina (OLP) e o Hamas, entre a Cisjordânia e Gaza, enfraqueceu a capacidade de reação. Contudo, nessa Intifada de 1988 que explodiu em Gaza as raízes populares foram determinantes e vão ser de novo, unindo até o que por ora continua desunido.
Chegado esse momento ouviremos então dirigentes europeus e mundiais, que por enquanto guardam silêncio sonso, apelar à calma de ambos os lados e condenar o «terrorismo palestino», que só «prejudicará» a procura de «soluções».
Que soluções? As que estão contempladas no direito internacional e que os detentores dos mecanismos legais, ONU incluída, não fazem cumprir?
Nova e tenebrosa tempestade está para explodir na Palestina – com muitos focos através do Oriente Médio. Não acreditem, portanto, nos dirigentes nacionais e internacionais que irão se dizer chocados, surpreendidos e que, neste momento, comprometidos com interesses ilegais e desumanos, são espectadores hipócritas dos ensaios de uma tragédia anunciada.
José Goulão, Exclusivo O Lado Oculto/AbrilAbril

domingo, 31 de maio de 2020

O que a agonia do Império significa para o estado judeu de Israel

Ex ministro de defesa da entidade sionista, Avigdor Lieberman e o F-35I

por The Saker
Primeiro, vamos começar por uns poucos tópicos recentes (aparentemente não relacionados):
Estas notícias aparentemente não relacionadas têm todas uma coisa em comum: ilustram quão fracas e ineficazes se tornaram as forças armadas dos EUA ao longo das últimas duas décadas. E apesar de, a bem de brevidade, eu ter escolhido apenas três exemplos, a verdade é que há centenas de histórias semelhantes na Internet, todas a apontarem para a mesma realidade: a maior parte da instituição militar dos EUA está num estado terminal de decadência.

Vamos examinar os vários serviços, um por um:
  • Toda a frota de superfície da US Navy está agora comprometida devido à sua estrutura centrada em porta-aviões. À US Navy também faltam mísseis de cruzeiro modernos. Classes inteiras de navios de superfície estão agora superadas (fragatas) ou têm grandes falhas de concepção (LCS).
  • A US Air Force opera sobretudo jatos da Guerra Fria, muitas vezes modernizados, mas de modo geral é uma frota ultrapassada, especialmente quando comparada aos aviões russos e chineses de 4ª e de 5ª geração. De fato, o desastre absoluto do programa F-35 significa que pela primeira vez na sua história os aviões dos EUA serão qualitativamente batidos pelos seus prováveis adversários. Mesmo os AWACS (Airborne Warning and Control System) dos EUA e outros aviões de reconhecimento estão agora ameaçados pelos mísseis anti-aéreos de longo alcance russos e chineses (tanto os lançados do solo como do ar).
  • Quanto ao US Army e ao Marine Corps, os desastres embaraçosos no Iraque, Afeganistão e alhures provam que aos forças de terreno dos EUA são basicamente capazes apenas de se protegerem a si próprios e mesmo assim não muito bem.
  • E há as Forças Espaciais dos EUA criadas recentemente, as quais existem só no papel, e a Guarda Costeira que é basicamente irrelevante numa grande guerra.
  • Finalmente, há o Comando de Operações Especiais dos EUA, o qual não é nenhum dos ramos mas apenas um comando "funcional" e "combate unificado", mas que é frequentemente pensado como um ramo separado das forças armadas. Estas forças sempre parecem grandes na propaganda, mas a verdade é que estas putativamente "as melhores do mundo" ainda têm de alcançar o seu primeiro êxito real, significativo e operacional em qualquer parte (pelo menos para equilibrar a sua longa história de fracassos abjectos, desde o Desert One, a Granada, Afeganistão, Líbia, etc). E em combates menores contra adversários muito inferiores.

Agora vamos colocar a questão crucial: o que significa isto para Israel?


Bem, em primeiro lugar significa que os "pobres" israelenses agora têm de voar com o F-35 como o seu caça principal. Na maior parte dos casos, acreditaria que os israelenses modificassem/melhorassem os seus F-35 para livrarem-se pelo menos das suas piores "características", mas no caso dos F-35 isto nem sequer é teoricamente possível devido aos seus profundos viéses de concepção (aqueles que precisarem de um recordatório "oficial" sobre a realidade catastrófica do programa F-35, leiam por favor este relatório oficial do governo dos EUA que inclui 276 deficiências "críticas". Mais cedo ou mais tarde, os F-35 israelenses deparar-se-ão com a versão de exportação do SU-35, com o muito mais barato mas de alto desempenho Mig-29M/Mig-35 ou mesmo com um SU-57 russo e então eles serão irremediavelmente batidos (ainda que o resultado de combate ar-ar não possa ser reduzido a comparar aviões, é preciso um quadro completo e muito mais complexo para modelar resultados possíveis). Actualmente, o Su-35 tem sido exportado só para a China, mas futuros operadores potenciais incluem o Egipto, Argélia e Turquia. Quanto ao Mig-29M/Mig-35, países como o Egipto e a Síria manifestaram interesse.

Por falar na Síria, até agora vimos vários casos de aviões israelenses interceptados e forçados a retirarem-se por Su-35s russos e nem um único caso oposto. Parece haver pelo menos um caso , embora não confirmado oficialmente (ainda) de um Su-35S russo enxotando um USAF F-22 (desde que o Su-35 e o F-22 estejam em suficiente proximidade, o último tem muito poucas esperanças de sobrevivência).

Pode imaginar que outra coisa os israelenses vão fazer se eventualmente se encontrarem nos céus do Médio Oriente? Possivelmente uma variante de exportação do Mig-31 ou mesmo do Mig-32BM (com os seus mísseis R-37 ar-ar com alcance de 400 km ). De facto, o alcance, velocidade, radar e armas deste avião fariam possível para a Rússia manter patrulhas de combate aéreo sobre, digamos, a Síria operando ao mesmo tempo do sul da Rússia.

Concentro-me nestes aviões porque no passado, e tal como os EUA, os israelenses sempre confiaram na prevalência da seguinte combinação de fatores:

  • Um ataque surpresa (mais ou menos justificado por uma bandeira falsa ou por direito de posse)
  • A destruição dos aviões inimigos quando eles ainda estão no solo
  • Superioridade aérea a proteger para aeronaves de asa rotativa e blindagem avançada
Na verdade, os israelenses ainda têm uma grande força de F-16/15/18 (14 esquadrões, mais de 300 aeronaves), mas tal como seus homólogos dos EUA eles estão rapidamente a tornar-se datados. Em agudo contraste com a datada Força Aérea Israelense, os vizinhos de Israel estão todos a adquirir sistemas de defesa aérea cada vez mais avançados juntamente com sistemas de guerra eletrónica e de gestão de batalha. Por outras palavras, isto é um tempo muito mau para Israel responder com F-35 no futuro previsível.

Exatamente agora, os israelenses estão a bombardear a Síria regularmente, mas com muito pouco resultado além da lenga-lenga, sem dúvida terapêuticas, das proclamações da superioridade judaica sobre os árabes. E, previsivelmente, os sujeitos que observam a mídia sionista ficam muito impressionados. Os sírios, os iranianos e o Hezbollah, nem tanto...

Assim como o Complexo Industrial-Militar dos EUA coloca todos os seus ovos no cesto do F-35, da mesma forma os israelenses colocam todos os ovos da segurança nacional na eterna disposição e capacidade do Tio Shmuel para vir e resgatá-los com dinheiro, armas ou mesmo soldados.

A disposição ainda existe. Mas a capacidade está rapidamente a desaparecer!

Além disso, há mais dois países que estão a entrar num período de grave instabilidade, que também afetará a segurança de Israel: Turquia e Arábia Saudita.

No caso da Turquia, o relacionamento entre os EUA e a Turquia está mais em baixo do que nunca e há uma possibilidade muito real de que, com as sanções e ameaças dos EUA, os turcos possam decidir desistir do F-35 e recorrer a um avião russo, muito provavelmente uma versão de exportação do Su-35. Se bem que isto fosse má notícia (politicamente) para o complexo industrial-militar americano, seria uma notícia absolutamente terrível para os israelenses cujo relacionamento com a Turquia é geralmente bastante mau. Até agora, a Turquia ainda é um membro obediente da OTAN, com tudo o que isso implica, mas quanto mais fraco se torna o Império Anglo-sionista, maiores serão as possibilidades de algum tipo de choque político entre os EUA e a OTAN, por um lado, e a Turquia, por outro.

Quanto aos sauditas, eles já estão ativamente a cortejar Moscou porque perceberam que a Rússia basicamente substituiu os EUA como a potência regional número um. O fracasso total dos EUA em providenciar assistência significativa aos sauditas no Iêmen e a incapacidade das defesas aéreas dos EUA em proteger o campo petrolífero saudita Houthi de ataques de mísseis convenceram os sauditas de que, a partir de agora, eles precisam falar com os russos diretamente e frequentemente.
CENTCOM.
Fonte: IISS Military Balance 2020

É verdade que os EUA ainda têm a aparência de poder real no Médio Oriente. Basta dar uma olhada nesta página do último IISS Military Balance. Ainda há muito equipamento e pessoal da CENTCOM na região. Mas tente olhar para além destes gráficos bonitos e perguntar-se: o que é que estas forças estão a fazer? O que é que estão realmente a conseguir?


Eu diria que a maior parte do que eles fazem é tentar impressionar os locais, ganhar dinheiro (através de todo o tipo de contratos militares) e, por último, mas não menos importante, tentarem proteger-se. E, sim, a "pegada" dos EUA no Médio Oriente ainda é grande, mas isso é também o que torna as forças dos EUA tão vulneráveis a ataques. Os iranianos, por exemplo, deixaram claro que encaram todas estas instalações e forças como "alvos", os quais, após os ataques de mísseis iranianos de alta precisão que se seguiram ao assassinato do general Suleimani, significa que o Irã agora tem os meios para infligir grandes danos a qualquer força regional suficientemente louca para se meter com o Irã.

Naturalmente, todas as vezes que alguém escreve que os EUA ou Israel não são invencíveis, há sempre pelo menos uma pessoa que diz algo como "sim, talvez, mas eles têm ogivas nucleares e irão usá-las se forem ameaçados". A isto a minha resposta é diferente para o caso dos EUA e para o caso de Israel.

No caso dos EUA, apesar de qualquer primeira utilização de ogivas resultará num suicídio político para o Império, nenhum adversário dos EUA no Médio Oriente tem a capacidade de retaliar do mesmo modo.

Contudo, no caso de Israel as coisas são mesmo muito mais graves.

Primeiro, é preciso recordar que por óbvias razões geográficas, os israelenses não podem utilizar ogivas nucleares contra forças atacantes, pelo menos contra quais forças próximas da fronteira israelense. Ainda assim, se gravemente ameaçado, os israelenses poderiam afirmar que outro "holocausto" estaria prestes a acontecer e que a "defesa do sangue judeu" não lhes deixa outra opção senão utilizar ogivas contra, digamos, alvos iranianos ou sírios. Eu diria que quanto pior o dano infligido por quaisquer ataques nucleares israelenses, maior será a resolução dos árabes e/ou iranianos. Este é o problema com a dissuasão: uma vez fracassada, está fracassada totalmente e habitualmente não há um "plano B".

Significará isto que um grande ataque a Israel é inevitável?

Não, de modo algum. Para começar, tanto os EUA como Israel ainda podem infligir danos imensos contra qualquer país, ou coligação de países, o que os ameaçaria (e não precisam de recorrer a ogivas nucleares para o conseguir). O facto de nem os EUA nem Israel poderem alcançar qualquer coisa que se assemelhe a uma "vitória" de modo algum implica que atacar os EUA ou Israel seja fácil ou seguro. Ambos os países têm muito poder militar convencional para extrair um preço enorme a qualquer atacante.

Em segundo lugar, é precisamente porque os EUA e Israel ainda têm muito poder militar que os seus adversários preferirão um enfraquecimento gradual e lento dos anglo-sionistas ao invés de uma confrontação aberta. Por exemplo, se é verdade que os EUA não tiveram estômago para atacar o Irã após o ataque de mísseis retaliatórios iranianos, também é verdade que os iranianos "afinaram" cuidadosamente a sua resposta para não forçar os EUA a contra-atacar. A verdade é que neste momento nenhum dos dois países quer uma guerra aberta.

O mesmo se pode dizer da Síria e do Hezbollah, que têm tido muito cuidado para não fazer nada que forçasse os israelenses (ou os EUA) a escalar dos atuais ataques simbólicos/alfinetadas para ataques reais, significativos, com ataques aéreos e de mísseis.

Neste momento, os EUA ainda podem imprimir dólares suficientes para manter Israel a flutuar, mas já sabemos que embora lançar dinheiro barato a um problema frequentemente seja muito tentador, isto não constitui uma estratégia sustentável, especialmente quando as capacidades militares reais tanto dos EUA como dos israelenses estão a degradar-se rapidamente. Neste momento, ninguém sabe quanto tempo mais durará o último regime abertamente racista do planeta, mas é extremamente improvável que a entidade sionista seja capaz de sobreviver sem o Império para sustentá-la. Por outras palavras, mais cedo ou mais tarde, o "Estado judeu de Israel" não terá melhores hipóteses de sobrevivência do que, digamos, o "Estado Independente do Kosovo" ou, já agora, a "Ucrânia Independente": todas elas são feias metástases do Império que, por si mesmas, simplesmente não são viáveis.

12/Maio/2020

O original encontra-se em thesaker.is/what-does-the-empires-agony-mean-for-the-jewish-state-of-israel/

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

Movimento da China em Hong Kong ilustra fim da superioridade dos EUA

22/5/2020, Moon of Alabama
Tradução: Amigos do Brasil

Culpar a China pela pandemia de Covid-19 é erro e mentira. Mas os EUA continuam a fazer precisamente isso, como parte de sua estratégia maior anti-China.

Com os EUA ainda ocupados tentando dar combate à pandemia em casa, a China dentro de suas fronteiras já derrotou a mesma pandemia. Atualmente, a China usa o mesmo impulso, para resolver uma questão que os EUA durante muito tempo usaram para atazanar os chineses. Hong Kong será afinal libertada do jugo de seus apoiadores norte-americanos racistas fantasiados de liberais.

No final de 1984, Grã-Bretanha e China assinaram um acordo formal que aprovou a entrega à China, em 1997, de Hong Kong, colônia britânica. A Grã-Bretanha teve de aceitar o pacto, porque perdera capacidades para defender a colônia. A Declaração Conjunta Sino-Britânica estipulava que a China criaria uma lei formal que permitiria que Hong Kong, em larga medida, se autogovernasse.

A Lei Básica da Região Administrativa Especial de Hong Kong da República Popular da China [ing. Basic Law of the Hong Kong Special Administrative Region of the People’s Republic of China] é a constituição de fato da Região Administrativa Especial de Hong Kong. Mas é lei nacional da China adotada pelo Congresso Nacional do Povo Chinês em 1990 e introduzida em Hong Kong em 1997 depois que os britânicos saíram. Sendo necessário, a lei pode ser modificada.

O Capítulo II da Lei Básica regula o relacionamento entre as Autoridades Central e a Região Administrativa Especial de Hong Kong. O Artigo 23 [ing.] da Lei Básica estipula que Hong Kong terá de implementar algumas medidas para segurança interna:

A Região Administrativa Especial de Hong Kong deve aprovar leis próprias para proibir quaisquer atos de traição, secessão, sedição, subversão contra o Governo Popular Central, ou o roubo de segredos de estado, para proibir organizações ou corpos políticos estrangeiros de conduzir atividades políticas na Região, e para proibir organizações ou corpos políticos da Região de estabelecer laços com organizações ou corpos políticos estrangeiros.

Hong Kong não criou nenhuma das leis exigidas pelo Artigo 23. Cada vez que o governo tentou implantar as tais leis, mesmo que parcialmente, em 2003, 2014 e 2019, foi impedido por protestos e tumultos de grandes dimensões nas ruas de Hong Kong.

A China sempre se preocupou com os tumultos comandados do exterior em Hong Kong, mas não pressionou enquanto ainda dependia de Hong Kong para acesso a dinheiro e mercados.

Em 2000, o PIB de Hong Kong chegou a $171 bilhões, enquanto o da China foi apenas sete vezes maior, de $1,200 trilhão. Ano passado o PIB de Hong Kong quase dobrou e chegou a $365 bilhões. Mas o PIB da China já crescera mais de dez vezes e alcançou $14,200 trilhões, quase 40 vezes maior que o de Hong Kong. Expressa em PPC (paridade do poder de compra; ing. PPP), a diferença é ainda mais impressionante. Como outlet econômico para a China, Hong Kong perdeu toda a importância.

Outro fator que manteve a China distante de intrometer-se mais profundamente em Hong Kong foi a preocupação com consequências negativas advindas dos EUA e da Grã-Bretanha. Mas no governo Trump, os EUA introduziram mais e mais medidas para boicotar o desenvolvimento da China. A Lei de Direitos Humanos e Democracia em Hong Kong (ing. Hong Kong Human Rights and Democracy Act) aprovada ano passado no Congresso dos EUA exige que o governo dos EUA supervisione Hong Kong e puna todos que os EUA considerem violadores de direitos humanos. As sanções contra empresas chinesas e especialmente contra Huawei, expandiram-se recentemente para um já total bloqueio econômico de entregas de chips 5G para aquela empresa – o que deixa ver que os EUA farão absolutamente qualquer coisa para boicotar o sucesso econômico da China.

O tal “pivô para a Ásia” do governo Obama já era movimento de certo modo ainda disfarçado, contra a China. A Estratégica de Defesa Nacional [ing. National Defense Strategy] do governo Trump declarou abertamente que a China seria “concorrente estratégico que usa economia predatória para intimidar vizinhos, ao mesmo tempo em que militariza as relações no Mar do Sul da China”.

O Marine Corps dos EUA está sendo reconfigurado em unidades especialmente projetadas para bloquear o acesso da China, ao mar:

Assim, pequenas forças dos Marine se posicionarão em torno das ilhas da primeira cadeia de ilhas e do Mar do Sul da China, cada elemento com a capacidade para contestar o espaço aéreo e naval usando mísseis antiaéreos e antinavios. Coletivamente, essas forças atritarão forças chinesas, vão inibi-las de avançar e, afinal, como parte de uma campanha conjunta, as empurrarão de volta para território chinês.

A ‘Guerra Fria 2.0’ que os EUA lançaram contra a China passa agora a conhecer significativos contramovimentos.

Os violentos tumultos do ano passado em Hong Kong, aplaudidos pelo borg em Washington DC, demonstraram que o desenvolvimento em Hong Kong está num mau caminho, que pode gerar perigos para a China.

Já não há razão para que a China se auto contenha, na repressão àquela loucura. A economia de Hong Kong já não é relevante. As sanções dos EUA estão chegando independentes do que a China faça ou deixe de fazer em Hong Kong. Os planos dos militares dos EUA são agora uma óbvia ameaça.

Dado que as leis que Hong Kong devia implantar não estão aparecendo, a China agora vai criá-las e implementá-las, ela mesma:

O governo central deve apresentar uma resolução na 6ª-feira para capacitar a mais alta hierarquia de seu corpo legislativo, o Comitê Central do Congresso Popular Nacional [ing. Standing Committee of the National People’s Congress (NPC)], a construir e aprovar uma nova lei de segurança nacional especialmente talhada para Hong Kong – como foi anunciado no fim da 5ª-feira.

Fontes informaram ao Post que a nova lei proibirá atividade secessionista e subversiva, bem como qualquer interferência estrangeira e terrorismo na cidade – todos os desenvolvimentos que têm causado problemas a Pequim já há algum tempo, mas pressionaram mais ao longo do ano passado, com protestos antigoverno cada vez mais violentos.



Segundo fonte chinesa familiar com assuntos de Hong Kong, Pequim chegou à conclusão de que seria impossível para o Conselho Legislativo da cidade aprovar legislação que satisfizesse o artigo 23 da Lei Básica da cidade, dado o clima político. Por isso a solução de se voltar para o Congresso Popular Nacional, para que assuma a responsabilidade.

Dia 28 de maio, o Congresso Nacional Popular votará uma resolução solicitando ao Comitê Central que redija a lei relevante para Hong Kong. É provável que a lei seja promulgado e entre em vigência no final de junho. A lei será parte do Anexo III da Lei Básica que lista as “Leis Nacionais a Ser Aplicadas na Região Administrativa Especial de Hong Kong” [ing. National Laws to be Applied in the Hong Kong Special Administrative Region].
Sob a nova lei, os EUA terão de parar de financiar organizações estudantis, sindicatos antigoverno e organizações de mídia em Hong Kong. Os partidos de oposição não mais poderão manter relações com operações norte-americanas para influenciar a opinião pública ou grupos determinados, em HongKong.

O Departamento de Estado dos EUA condenou imediatamente a medida:

Hong Kong floresceu como bastião da liberdade. Os EUA insistem fortemente em que Pequim reconsidere sua proposta desastrosa, que cumpra seus deveres internacionais e que respeite o alto grau de autonomia de Hong Kong, suas instituições democráticas e liberdades civis, que são chaves para que preserve seu status especial nos termos da lei dos EUA. Qualquer decisão que agrida a autonomia e as liberdades de Hong Kong como garantidas pela Declaração Conjunta Sino-britânica e pela Lei Básica impactará inevitavelmente nossa avaliação de Um País, Dois Sistemas e o status do território. Estamos com o povo de Hong Kong.

Não é (ainda?) A Próxima Guerra Contra a China [ing. The Coming War On China (vídeo), mas alguma malfadada provocação que por enquanto é forte na retórica, mas com pequeno efeito. Nenhuma ação dos EUA conseguirá impedir o governo da China de proteger o próprio território. Hong Kong é cidade chinesa onde, supremas e vigentes, só as leis chinesas, não os dólares norte-americanos.

Os EUA parecem crer que poderiam vencer uma guerra fria contra a China. Esse entendimento é errado.

No front econômico, não se trata de os EUA vencerem ao se separar da China. Trata-se, isso sim, de a Ásia estar-se separando dos EUA:

Desde que começou a guerra tech EUA-China em abril de 2018, com os EUA proibindo a exportação de chips para a ZTE Corporation chinesa, a “des-norte-americanização das cadeias de suprimentos” tem sido palavra sempre presente na indústria de semicondutores.

Taiwan, Vietnã, Tailândia e Indonésia compraram cerca de 50% a mais em produtos chineses em abril de 2020 que no mesmo mês, ano passado. Japão e Coreia exibiram 20% de ganhos. Exportações para os EUA cresceram ano após ano, mas de uma base muito baixa em 2019.

As importações chinesas, da Ásia, também cresceram acentuadamente.

Quando os EUA proíbem empresas que usam software ou máquinas norte-americanas que desenham e produzem chips, de vendê-los para a China, aquelas empresas buscam comprar noutro lugar os mesmos software e máquinas. Quando os EUA tentam fechar o acesso da China a chips de computadores, a China cria sua própria indústria de chips. Dentro de dez anos os EUA terão perdido acesso às empresas mais modernas de então, e todos os mais modernos chips já virão da China. Já hoje, a China já domina o comércio mundial.

O modo caótico como os EUA lidam com sua crise de Covid-19 está sendo observado em todo o mundo. Os que veem com clareza já sabem que a superpotência confiável hoje é a China, não os EUA (“Caso mais de colapso do Império, que de Guerra Fria 2.0“). Os EUA estão esgotados e assim continuarão, ainda por muito tempo:

Por isso não vejo a conversa sobre uma possível “Guerra Fria 2.0” como significativa ou relevante. Qualquer tipo de “guerra fria” entre EUA e China indicaria que os decisores políticos americanos ainda seriam capazes de começar a planejar de forma crível um modo de administrar essa complexa relação com a China. Mas, na realidade, as opções para “administrar” o núcleo dessa relação são lamentavelmente poucas, uma vez que a tarefa central de qualquer liderança dos EUA que surja desse pesadelo que é Covid-19 será administrar o colapso precipitado do império globalizado em cujo topo os EUA estiveram sempre, desde 1945.



Por isso digo, aqui em Washington, na Primavera de 2020: “Deixem que os norte-americanos bufem e soprem em seus novos surtos de sinofobia infantil”. Deixem que ameacem com essa ou aquela versão de alguma nova “Guerra Fria”. Deixem-que disputem eleições – se houver eleições – em termos de “Quem será mais duro com a China?”. A fria realidade mostra que essa conversa, como disse Banquo, não passa de “história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que significa nada”.

Em seu livro de 2003, Depois do Império [pdf] (After the Empire) Emmanuel Todd explicou o porquê de os EUA estarem caminhando rumo à perda do status de superpotência:

Todd calmamente e de modo bem direto lista várias tendências negativas, incluindo o enfraquecimento do compromisso com a integração socioeconômica de afro-norte-americanos; uma economia bulímica que cada vez mais depende de fumaça e espelhos da ‘boa-vontade’ de investidores estrangeiros, e uma política externa que desperdiça as reservas de soft power do país, enquanto seu comportamento militarista de incendiário-bombeiro enfrenta resistência cada vez maior.
A crise da pandemia Covid-19 pôs tudo isso a nu, à vista de todos.

Será que, como Todd previu, os EUA terão agora de ceder seu status de superpotência? Ou iniciarão uma grande guerra contra a China, para desviar as atenções e tentar provar alguma sua ainda suposta superioridade?*******

O Exército USA retoma as grandes manobras na Europa

(Clicar para ver todos os exercícios de guerra em 2020)
Veículo blindado M2 Bradley dos EUA (foto de arquivo)
Por Manlio Dinucci
O Exército dos EUA na Europa, “após cuidadosa avaliação e planificação”, decidiu que efetuará na Polônia, de 5 a 19 de Junho, o exercício  Allied Spirit , no âmbito da grande manobra estratégica Defender-Europe 20 (Defensor da Europa 2020). Participarão 4.000 soldados americanos de unidades blindadas e de infantaria, apoiados por 2.000 polacos.
O exercício, que deveria ter acontecido em Maio, foi adiado porque, devido ao Covid-19, o Defender-Europe 20 foi parcialmente modificado. Mas, especifica o US Army Europe, quando em Março, foi suspenso o envio de forças dos Estados Unidos, “mais de 90% dos equipamentos destinados ao Defender-Europe 20 já estavam a bordo de aviões e navios com destino à Europa”.
No total, chegaram mais de 3.000 equipamentos, a começar por tanques, aos quais foram adicionados mais de 9.000 veículos blindados e outros veículos provenientes dos depósitos “pré-posicionados” que o Exército USA mantém na Alemanha. Dos Estados Unidos chegaram mais de 6.000 soldados, incorporados por milhares de outros estacionados na Europa.
Apesar do “ajuste devido ao Covid-19”, comunica o Exército o US Army, “muitos dos objetivos de prontidão estratégica foram realizados”. Anuncia portanto, que, para compensar o tempo perdido, “o US Army Europe está a planear exercícios complementares nos próximos meses, baseados em muitos dos objetivos originais do Defender-Europe 20 para aumentar a prontidão e a interoperabilidade das forças USA e aliadas”.
Allied Spirit   faz parte de uma série de exercícios nesse quadro estratégico de nítida função anti-russa. Não é por acaso que ocorre na Polônia. Segundo, o que se estabeleceu na Declaração Militar assinada pelo Presidente Trump e pelo Presidente Duda da Polônia, em Setembro passado – os Estados Unidos estão a aumentar fortemente a sua presença militar. O número de soldados que mantém em permanência, através de um sistema de rotação, foi acrescido de 4.500 para 5.500.
Em Poznan, o US Army instala um verdadeiro quartel general de divisões numa base avançada.
Em Drawsko Pomorskie, as forças armadas USA abrem um Centro de Treino de Combate.
Em Wrocław-Strachowice, a US Air Force constrói um grande aeroporto de desembarque.
Em Lask, a US Air Force transfere uma equipa de aviões pilotados remotamente, incluindo drones Reaper.
Em Powidz, uma brigada aérea de combate.
Tanto em Powidz como em Lubliniec, as Forças USA de Operações Especiais estabeleceram as suas bases.
Num localidade ainda a ser determinada, será destacada em permanência a equipa de combate de uma brigada blindada USA. Todo o equipamento já está armazenado em Bergen-Hohne, na Alemanha. O US Army Europe também comunica que a 173ª Brigada Aerotransportada, com sede em Vicenza, está a planear operações nos Balcãs e na região do Mar Negro, enquanto o 10º Comando de Defesa Aérea e de Mísseis participará em exercícios no Báltico.
A US Air Force comunica que os três tipos de bombardeiros estratégicos convencionais e nucleares de dupla capacidade USA – B-2 Spirit, B-1B Lancer e B-52H – realizaram em Maio, missões na Europa, a partir dos Estados Unidos. O que demonstrou que “a pandemia do Covid-19 não comprometeu a prontidão e o alcance dos bombardeiros estratégicos dos EUA”.
Estes factos, ignorados pelo principais meios de comunicação social que tinham anunciado o cancelamento do Defender-Europe 20 devido ao Covid-19, confirmam que os USA não cancelaram, mas remodelaram, apenas, a operação estratégica, prolongando-a.
Permanece o objectivo de Washington de aumentar a tensão com a Rússia, usando a Europa como primeira linha do confronto, o que permite aos Estados Unidos reforçar a sua liderança sobre os aliados europeus e orientar a política externa e militar da União Europeia, na qual 22 dos 27 membros pertencem à NATO, sob comando USA.
Manlio Dinucci
il manifesto, 26 Maio de 2020

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Comunicado da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) por ocasião do 72º aniversário da Nakba

15 de maio de 2020
Traduzido pelo Blog omostodospalestinos



Compatriotas, irmãos de nossa nação árabe e 
todos os lutadores pela liberdade, no mundo:

Setenta e dois anos se passaram desde a Nakba, trama forjada e executada pelo colonialismo imperialista ocidental em associação com o Movimento Sionista, a partir do Tratado de Sykes-Picot, cujo objetivo era dividir os territórios árabes entre os colonizadores franceses e os ingleses: a Palestina histórica, entre outros territórios árabes, ficou na parte anglo-saxônica. Alguns anos mais tarde, em resposta às intensas lutas  dos palestinos contra a colonização inglesa, a Inglaterra assina a Declaração Balfour, que doa a Palestina dos árabes ao Movimento Sionista, sem considerar a posição do povo que historicamente lá vivia.  A partir daí, em 1948, o povo palestino passou a ser vítima dos crimes organizados pelo movimento sionista, contra a vida humana, contra os Direitos Humanos, contra suas terras, incluindo assassinatos, massacres, expulsões em massa, limpeza étnica e destruição de vilas inteiras, aldeias e cidades.
Sobre as ruínas, o sangue derramado e o confisco forçado das terras do povo palestino foi erguido a entidade sionista, que passou a constituir a base de agressão, pilhagem e dominação, não apenas contra a Palestina e seu povo, mas também contra todas as nações árabes.
Apesar de mudanças importantes ao longo dos últimos anos, na região, a Entidade Sionista prossegue  a execução de seu projeto expansionista, que visa modificar, em benefício próprio, a correlação de forças na região, de maneira a garantir a manutenção da superioridade e um maior impulso para alcançar maior poder, controle e domínio regional, e, assim, se tornar o epicentro do Oriente Médio, particularmente no mundo árabe.
Nesse contexto, o Acordo Trump-Netanyahu, chamado de "Acordo do século", constitui um elo fundamental na cadeia de episódios deste projeto destinado a liquidar a causa nacional palestina, bem como a própria existência palestina.
Na outra ponta, o projeto sionista busca penetrar  pelas entranhas do mundo árabe, induzindo a normalização, de várias maneiras, das relações com muitos regimes árabes reacionários, que se aproveitam da divisão e vulnerabilidade da atual realidade palestina e da constante  aposta da direção  hegemônica da OLP na ilusão da possibilidade de se chegar a um acordo político. Esses regimes reacionários tem sido abertamente utilizados pelo inimigo sionista a serviço de seus objetivos e projetos de ocupação e expansão.
Se há alguma luz no meio de um panorama árabe sombrio, incluindo o cenário palestino, essa seria a vontade imortal e soberana de resistência à ocupação sionistas exercida,  antes mesmo do estabelecimento da Entidade Sionista, por nosso povo em coesão com as massas de toda  nação árabe e suas forças de libertação. Resistência que se mantém e se expressa de várias formas, como em revoltas, em mobilizações, nas revoluções, nos boicotes, na firmeza, na resistência diária contra a ocupação e seus projetos, pela própria existência, enfim, pela sua história e sua terra.


Resistência contra a naturalização da ocupação; os regimes reacionários; as instituições e pessoas envolvidas em fazer parte deste projeto hostil em detrimento dos direitos; esperanças; aspirações e objetivos da nação árabe em conquistar a liberdade, emancipação, justiça, igualdade, unidade e progresso civilizado. Resistência contra planos destinados a minar os direitos, anseios, aspirações e objetivos do povo palestino de ser livre, retornar à terra onde sua família deitou raízes, alcançar sua independência e estabelecer seu próprio Estado na totalidade de sua terra natal.

        

Essa soberana resistência e todas as suas formas - violentas ou  não –,  alimentada pela natureza colonial, imperialista e racista , base da estrutura do projeto sionista,  não desaparecerá e seguirá nutrindo-se  do manancial  inesgotável de rebeldia  de nosso povo e nossa  nação árabe, renovada incessantemente  com a persistência do caminho da luta revolucionária em nível nacional e pan-árabe.
A Frente Popular de Libertação da Palestina ao tempo que presta  reverência e respeito aos mártires de nosso povo e nossa nação árabe e aos homens livres do mundo que ofereceram suas vidas pela liberdade da Palestina, de seu povo e de toda a humanidade, saúda com orgulho as prisioneiras e os prisioneiros que se encontram nos cárceres da ocupação sionista e a todos os detidos por sua luta pela liberdade em todo o mundo. A FPLP reconhece os sacrifícios e as lutas de nosso povo na pátria ocupada e na diáspora, e as lutas de todos os povos que aspiram à liberdade, emancipação e justiça; e conclama:

Primeiro: Adesão  a todos os nossos direitos históricos na Palestina e rejeição a conformidade com as implicações da Nakba, fato que exige que a Direção Palestina signatária dos Acordos de Oslo e, portanto, a que reconheceu o Estado da entidade sionista, retire esse reconhecimento, cancele  os acordos e implemente as decisões dos Conselhos Nacionais e Centrais relacionados sobre este assunto. É definitivo colocar as forças do nosso povo palestino a altura de sua responsabilidade histórica  para sair da difícil realidade em que chegamos, isso exige: a   impostergável convocação urgente de uma reunião do Comitê para a Ativação e desenvolvimento da Organização de Libertação da Palestina – OLP;   a construção coletiva da unidade nacional pluralista com base no projeto de libertação total; o estabelecimento de uma estratégia de confrontação capaz  de pôr fim a décadas de dispersão, divisão e ilusões de alcançar acordo por meio de negociação, que tanto alimentou o projeto sionista contra nosso povo e nossa nação.
A resistência unida e integral contra os planos sionistas é um tópico urgente e crucial, especialmente, porque o inimigo está trabalhando incansavelmente na implementação dos termos do acordo Trump-Netanyahu e o fará em um ritmo acelerado à luz da formação do governo de unidade sionista, que incorporou como uma de suas principais ações futuras a anexação de aproximadamente 30% dos territórios da Cisjordânia e do vale do Jordão. De modo que se reafirma, uma vez mais, que o projeto sionista e seus diversos componentes partidários e políticos coincidem na estratégia de negar nossos direitos, nossa existência e sua decisão de liquidar-nos, em proveito da expansão, do controle e da obsessão na execução criminosa de seus objetivos.

Segundo: Incorporar o  direito histórico de retorno, salvaguardá-lo e rejeitar tentativas de violá-lo, sendo um dos aspectos essenciais mais notórios do conflito e uma das provas mais importantes do maior crime organizado cometido contra nosso povo palestino, o que exige a desenvolvimento de planos para manter esse direito presente e vibrante, a salvo dos riscos do nosso povo se converter em  comunidades distanciadas , sitiadas  e com graves fragilidades devido aos planos da colonização; à liquidação dos acampamentos e da Agência da ONU para Ajuda e Emprego aos Refugiados Palestinos (UNRWA) e  à promulgação de leis racistas contra nosso povo nos territórios ocupados em 1948.
Isso, por sua vez, reafirma a responsabilidade que a OLP deve assumir na qualidade de representante único e legítimo de nosso povo, seu protetor político e jurídico, um veículo para a libertação consensual dos palestinos onde quer que estejam e encarregado de manter sua unidade, fato que impõe a necessidade de reconsiderar sua papel nacional, reconstruir democraticamente suas instituições, alcançar o pluralismo em sua direção e pôr fim às políticas de exclusividade pessoal, dominação, apropriação, exploração e recuperar sua função nacional libertadora.

Terceiro:  Preservar a  história da Palestina,  denunciar a injustiça de que nosso povo é objeto há mais de um século é  uma prioridade fundamental diante das tentativas obstinadas do inimigo, em sintonia e frequência com os  EUA, e  outros Estados de sua órbita, de falsificar a história, falsear a consciência e negar o direito dos palestinos à sua terra natal.  Uma tática de muitos meios que visa desfigurar a luta de nosso povo e caracterizá-la como terrorista, por outro lado tratando  a versão religiosa inventada como uma realidade histórica, insuflada oportunisticamente por regimes árabes reacionários, mediante a introdução à naturalização  cultural e artística, em suas diferentes formas, na consciência das massas árabes, além de seu paralelo político e econômico, entre outros.

Quarto: Reivindicar a causa palestina como causa central da nação árabe, estabelecendo pontes de comunicação e coesão com suas massas através dos partidos, sindicatos e instituições comunitárias que ainda lutam, resistem e se opõem a todos os ataques contra os direitos árabes, incluindo os palestinos. Trabalhar para conformação de estruturas nacionais e pan-árabes que apoiem a luta e os direitos do povo palestino, rejeitem à naturalização das relações com o inimigo sionista e participem da auto-reativação do movimento de libertação árabe, contribuindo todos na construção das ferramentas para o enfrentamento comum ao projeto imperialista sionista norte-americano na região.

Quinto: A Causa Palestina, cujas dimensões superam  sua natureza nacional e pan-árabe,  realiza plenamente sua natureza internacional e humana, fundamentalmente em razão da estratégia e das táticas criminosas e bárbaras coloniais ocidentais  executadas contra seu povo , nos convoca a estender pontes de relações e comunicações com forças progressistas e com os movimentos de boicote ao inimigo e de apoio e solidariedade com nosso povo palestino e sua luta nacional por liberdade, retorno, independência e autodeterminação.

Nosso povo palestino firme e determinado!


Estamos confiantes de que nossa luta nacional continuará  escrevendo a história árabe palestina em um capítulo que não pode ser apagado por nenhum projeto e tentativa de falsificação, manipulação, liquidação e apagamento, que nossa causa nacional continuará sendo um osso difícil de roer e, a resistência, em todas as suas formas, continuará sendo a maneira mais viável de alcançar nossos objetivos, desejos, esperanças e aspirações nacionais, pan-árabes e humanos.

Glória eterna aos mártires!


Recuperação para os feridos! e liberdade para os prisioneiros!

A vitória é o inevitável aliado do nosso povo!

Frente Popular de Libertação da Palestina
Departamento Central de Informações


sexta-feira, 15 de maio de 2020

NAKBA (15 de maio) A resistência palestina e as razões da sua permanência: antes de 1948 e até a Palestina ser livre!


Terceira Intifada (2)

Por Khader Othman

Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino /  comitepalestinasc@gmail
maio 2020

Cercados por uma mídia internacional que propaga que a “a paz mundial” não acontece por causa dos palestinos e pela política conservadora da Autoridade Nacional Palestina, o povo palestino rebela-se! Como único diálogo possível, realizam greves, manifestações, marchas, lutam com paus e pedras, organizam boicotes contra a invasão sionista e  soltam gritos de luta por justiça e pela defesa de seu Solo Pátrio!
Respondendo para o mundo que insiste em esquecê-los, a resistência do povo palestino vive! Carregando sonhos, solidariedade, valores humanos e ideológicos capazes de vencer o medo e apavorar as forças mais racistas que a humanidade já conheceu. Em cada sangue palestino derramado, estão o respeito aos mártires e a convicção da conquista da Palestina Livre!
Uma luta que poderia ser mais forte e com vitórias, caso houvesse um real comprometimento dos governos árabes da região – que também sofrem agressões e invasões sionistas – e do próprio governo palestino, caso a Autoridade Nacional Palestina (ANP) honrasse com os compromissos históricos do seu povo!
A história nos ensina que a resistência  dos povos nunca pode ser derrotada militarmente  por fora, mas sim, pode ser derrotada quando perde a razão da sua permanência ou quando abre mão do  seu ideal e de seus valores. A Autoridade Nacional Palestina abriu mão de seus ideais com o Tratado de Oslo (1993) e não se perfilam ao lado da resistência palestina.  O papel da ANP como liderança é uma questão de tempo, pois governa sem autonomia, sem soberania e, principalmente, com frágil legalidade (Mahmoud Abbas foi eleito em 15 de janeiro de 2005 e, desde então, não houve eleições presidenciais!). A política de subserviência da ANP ao Estado de Israel deflagra sua desistência pela verdade e sua renúncia de lutar pela Palestina Livre. 
A Palestina é dos palestinos e tem o direito a ter seu Estado soberano e independente, com Jerusalém sua capital! É preciso assegurar o direto de retorno dos refugiados e a imediata libertação dos presos políticos palestinos. Estas bandeiras é a nossa resposta a Nakba de 1948. Enquanto não as conquistarmos, continuaremos a sermos resistência e termos razões para sua permanência! Vamos aprofundar a luta de libertação de todos os oprimidos! Forjar na luta o instrumento eficaz para  as massas oprimidas vencer a minoria opressora!
Somos palestinos! Somos a Organização para a Libertação da Palestina – OLP! Somos a resistência! Juntos com as forças progressistas e de solidariedade internacional derrotaremos o Estado Sionista de Israel e construiremos a Palestina Livre!