terça-feira, 6 de outubro de 2020

Julgamento de Julian Assange: a máscara do Império caiu

por Pepe Escobar [*]

Ele está sendo punido não por roubar o fogo, mas por expor os poderosos à luz da verdade e provocar o deus do Excepcionalismo.


Este é o conto de uma tragédia da Grécia Antiga, reencenada na Anglo-América.

Em meio ao silêncio estrondoso e à indiferença quase universal, acorrentado, imóvel, invisível, um esquálido Prometeu foi transferido da forca para um julgamento-espetáculo em um falso tribunal gótico construído no local de uma prisão medieval.

Cratos, personificando o Poder, e Bia, personificando a Violência, haviam devidamente acorrentado Prometeu, não a uma montanha no Cáucaso, mas ao confinamento solitário em uma prisão de segurança máxima, subjugado à implacável tortura psicológica. Em nenhuma das torres Ocidentais de vigilância, nenhum Hefesto se ofereceu para forjar qualquer grau de relutância ou mesmo uma migalha de piedade.

Prometeu está sendo punido não por roubar o fogo – mas por expor os poderosos à luz da verdade, provocando, assim, a ira desenfreada de Zeus, o Excepcionalista, que só é capaz de orquestrar seus crimes sob múltiplos véus de segredo.

O mito do sigilo – que envolve a capacidade de Zeus controlar o espectro humano – foi rompido por Prometeu. E isso é anátema.

Durante anos, estenógrafos degradados trabalharam incansavelmente para retratar Prometeu como um reles trapaceiro e falsificador leviano.

Abandonado, difamado, demonizado, Prometeu foi consolado por apenas um pequeno grupo de Ninfas – Craig Murray, John Pilger, Daniel Ellsberg, guerreiros Wiki, escritores do Consortium. A Prometeu foram negadas até mesmo as ferramentas básicas para organizar uma defesa que pudesse pelo menos abalar a dissonância cognitiva da narrativa de Zeus.

Oceano, o titã pai das Ninfas, para satisfazer Zeus, não poderia incitar Prometeu.

Fugazmente, Prometeu revelou ao grupo de Ninfas, que expor segredos não era o que lhe daria a verdadeira satisfação pessoal. A longo prazo, sua causa poderia reavivar o apreço popular às artes civilizatórias.

Um dia, Prometeu foi visitado por Io, uma donzela humana. Ele teria previsto que ela não se envolveria em nenhuma viagem futura, e que ela lhe daria dois descendentes. Teria igualmente previsto que um de seus descendentes – um descendente anônimo de Hércules – muitas gerações depois, o libertaria, figurativamente, de seu tormento.

Zeus e seus lacaios da promotoria nada têm de muito concreto contra Prometeu, além da posse e disseminação de informações confidenciais Excepcionais.

Ainda assim, caberia a Hermes – o mensageiro dos Deuses e, significativamente, seu canal de Notícias – ser enviado por Zeus, tomado de raiva incontrolável, para exigir que Prometeu admitisse ser culpado de tentar derrubar a ordem baseada em regras estabelecidas pelo Supremo Excepcional.

Isso é o que está sendo ritualizado no julgamento-espetáculo atual, que nunca disse respeito à Justiça.

Prometeu não será domesticado. Em sua mente, ele libertará o Ulisses de Tennyson: "se esforçar, procurar, encontrar e nunca ceder". [NR]

Então Zeus pode finalmente atingi-lo com o raio do Excepcionalismo, e Prometeu será lançado ao abismo.

Porém, o roubo de Prometeu do segredo dos poderosos foi irreversível. Seu destino certamente levará ao aparecimento, mais tarde, de Pandora e sua caixa de males – com consequências imprevistas.

Qualquer que seja o veredicto declarado naquele tribunal do século XVII, está mais do que certo de que Prometeu entrará na História apenas como um mero objeto de culpa pela loucura humana.

Porque agora o cerne da questão é que a máscara de Zeus caiu.

[NR] A tradução do Ulisses, de Tennyson, feita por Rubens Canarim, encontra-se aqui .

[*] Jornalista.

O original encontra-se no Asia Times e em Consortium News . A tradução de Gustavo Salume encontra-se em Duplo Expresso .


Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

EastMed,: O Consórcio entre a entidade sionista Israel, a Grecia do Tsipra e o Chipre consolida o roubo do gás de GAZA

 Gasoduto explosivo no Mediterrâneo

Por Manlio Dinucci


No Mediterrâneo Oriental, em cujas profundezas foram descobertas grandes jazidas offshore de gás natural, está em curso um contencioso acirrado sobre a definição de zonas económicas exclusivas, dentro das quais (até 200 milhas da costa) cada um dos países costeiros tem o direito de explorar essas reservas.

Os países directamente envolvidos são a Grécia, a Turquia, o Chipre, a Síria, o Líbano, a Palestina, Israel, (cujas jazidas, nas águas de Gaza, estão nas mãos de Israel), o Egito e a Líbia. O confronto é particularmente tenso entre a Grécia e a Turquia, ambos países membros da NATO. A aposta em jogo não é apenas económica.

A verdadeira discórdia que se joga no Mediterrâneo Oriental é geopolítica e geoestratégica e envolve as grandes potências mundiais. Neste âmbito insere-se o EastMed, o gasoduto que trará para a União Europeia grande parte do gás desta área. A sua realização foi decidida na cimeira, realizada em Jerusalém em 20 de Março de 2019, entre o Primeiro Ministro israelita Netanyahu, o Primeiro Ministro grego Tsipras e o Presidente cipriota Anastasiades.

Netanyahu salientou que “o gasoduto se estenderá de Israel à Europa através do Chipre e da Grécia” e Israel tornar-se-á assim uma “potência energética” (que controlará o corredor energético para a Europa), Tsipras sublinhou que “a cooperação entre Israel, a Grécia e o Chipre, na sexta cimeira, tornou-se estratégica». 

Esta cooperação é confirmada pelo pacto militar assinado pelo governo de Tsipras com Israel há cinco anos (il manifesto, 28 de Julho de 2015). Na cimeira de Jerusalém (cujas actas, publicadas pela Embaixada dos EUA no Chipre),esteve presente Mike Pompeo, Secretário de Estado americano, sublinhando que o projecto EastMed lançado por Israel, pela Grécia e pelo Chipre, “parceiros fundamentais dos EUA para a segurança”, é “incrivelmente oportuno”, já que “a  Rússia, a China e o Irão estão a tentar colocar os pés no Oriente e no Ocidente”.

A estratégia dos EUA é declarada: reduzir e finalmente bloquear as exportações do gás russo para a Europa, substituindo-as por gás fornecido ou, de outra forma, controlado pelos EUA. Em 2014, eles bloquearam o SouthStream, que teria trazido através do Mar Negro gás russo para a Itália a preços competitivos, e estão tentando fazer o mesmo com o TurkStream que, através do Mar Negro, transporta o gás russo para a parte europeia da Turquia para fazê-lo chegar à União Europeia.

Ao mesmo tempo, os USA tentam bloquear a Nova Rota da Seda, a rede de infraestruturas concebida para ligar a China ao Mediterrâneo e à Europa. No Médio Oriente, os USA bloquearam com a guerra o corredor de energia que, segundo um acordo de 2011, teria transportado o gás iraniano através do Iraque e da Síria para o Mediterrâneo e para a Europa. A esta estratégia junta-se a Itália, onde (na Apúlia) chegará a EastMed que também levará o gás para outros países europeus.

O Ministro Patuanelli (M5S) definiu o gasoduto, aprovado pela União Europeia, como um dos “projectos europeus de interesse comum”, e a Subsecretária Todde (M5S) levou a Itália a aderir ao East Med Gas Forum, sede de “diálogo e cooperação” sobre o gás no Mediterrâneo Oriental, do qual participam – além de Israel, da Grécia e do Chipre – o Egipto e a Autoridade Palestina. Também participa a Jordânia, que não tem jazidas de gás offshore no Mediterrâneo, mas que o importa de Israel. 

No entanto, estão excluídos do Fórum, o Líbano, a Síria e a Líbia, a quem pertence parte do gás do Mediterrâneo Oriental. Os Estados Unidos, a França e a União Europeia anunciaram, previamente, a sua adesão. A Turquia não participa devido ao diferendo com a Grécia, que a NATO, no entanto, se compromete a resolver: “delegações militares” dos dois países já se reuniram seis vezes na sede da NATO, em Bruxelas. Todavia, no Mediterrâneo Oriental e no vizinho Mar Negro, está em curso um destacamento crescente de forças navais dos EUA na Europa, com sede em Nápoles Capodichino. 

A sua “missão” é “defender os interesses dos Estados Unidos e dos Aliados e desencorajar a agressão [‘russa’]” e a mesma “missão” para os bombardeiros estratégicos americanos B-52, que sobrevoam o Mediterrâneo Oriental acompanhados por caças gregos e italianos.

Manlio Dinucci

il manifesto, 29 de Setembro de 2020


Manlio DinucciGeógrafo e geopolitólogo. Livros mais recentes: Laboratorio di geografia, Zanichelli 2014 ; Diario di viaggio, Zanichelli 2017 ; L’arte della guerra / Annali della strategia Usa/Nato 1990-2016, Zambon 2016, Guerra Nucleare. Il Giorno Prima 2017; Diario di guerra Asterios Editores 2018; Premio internazionale per l’analisi geostrategica atribuído em 7 de Junho de 2019, pelo Club dei giornalisti del Messico, A.C.
Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos Email: luisavasconcellos2012@gmail.comWebpage: NO WAR NO NATO

http://sakerlatam.es/geopolitica/pt-manlio-dinucci-a-arte-da-guerra-gasoduto-explosivo-no-mediterraneo/

terça-feira, 1 de setembro de 2020

O VÍCIO DA CIA NA OCUPAÇÃO DO AFEGANISTÃO


Por Finian CUNNINGHAM


É a guerra ultramarina mais longa dos Estados Unidos e não dá sinais claros de que vai terminar, apesar do instável acordo de paz em andamento entre o governo Trump e militantes do Taleban. Uma retirada gradual das tropas americanas do Afeganistão no próximo ano ainda poderia ser descarrilada, resultando na continuação das operações militares americanas no país do sul da Ásia - quase duas décadas depois que o presidente GW Bush lançou a Operação Liberdade Duradoura em outubro de 2001.
O envolvimento dos EUA no Afeganistão é o pântano arquetípico. Centenas de milhares de mortos ou mutilados, trilhões de dólares desperdiçados, um estado falido - apesar das pretensões americanas de construção da nação e uma insurgência militante mais forte do que nunca. Os objetivos estratégicos declarados de Washington no Afeganistão nunca foram coerentes ou convincentes, mesmo entre os altos escalões do Pentágono. A justificativa inicial de “vingança do terrorismo de 11 de setembro” parece desgastada.
A ironia é que Washington se envolveu pela primeira vez no Afeganistão no final dos anos 1970 para infligir um “cenário do Vietnã” às tropas soviéticas que defendiam um governo aliado em Cabul. Os lutadores mujahideen patrocinados pelos EUA e seu crescimento do Taleban tornaram o país um cenário ainda pior para o Vietnã para Washington do que pretendia para Moscou.
O Afeganistão é conhecido como o “Cemitério dos Impérios”, onde os britânicos sofreram um golpe em suas proezas imperiais, como os soviéticos e agora os americanos. A questão é: por que os americanos estão aparentemente presos no Afeganistão, incapazes de libertar suas forças? Parte da razão, sem dúvida, decorre da burocracia da guerra e dos lucros confiáveis ​​para o complexo militar-industrial, que sufoca uma ruptura total com o que, de outra forma, seria um conflito inútil, sem fim e sem saída.
Outra razão, talvez mais potente, é o negócio imensamente lucrativo do tráfico global de narcóticos. Essa pode muito bem ser a principal razão pela qual a guerra afegã continua, apesar das incongruências patentes e dos votos presidenciais de encerrá-la. É uma fonte vital de financiamento para a CIA e outras agências de inteligência dos EUA. A grande vantagem do negócio das drogas é que as finanças estão fora dos livros e, portanto, não estão sujeitas à supervisão do Congresso. Essa fonte "sombria" de receita permite que as agências americanas financiem operações secretas sem nunca serem responsabilizadas por legisladores intrometidos (isto é, se estes últimos alguma vez o fizeram).
Altos funcionários russos e iranianos declararam recentemente que as agências de inteligência dos EUA estão fortemente envolvidas no transporte secreto de entorpecentes para fora do Afeganistão.
De acordo com Eskandar Momeni, o chefe de combate às drogas do Irã, a produção de heroína da colheita de papoula no Afeganistão aumentou 50 vezes ano após ano desde que as forças dos EUA invadiram o país. “Com base em informações confiáveis, aviões operados pela OTAN e pelos Estados Unidos transportam essas drogas ilícitas em nosso país vizinho”, testemunhou o oficial nesta semana.
O enviado presidencial da Rússia ao Afeganistão, Zamir Kabulov, é citado como tendo dito que a cumplicidade da CIA no tráfico de drogas é “um segredo aberto” no país. “Oficiais de inteligência dos EUA… estão envolvidos no tráfico de drogas. Seus aviões de Kandahar, de Bagram [campo de aviação perto de Cabul] estão voando para onde eles querem - para a Alemanha, para a Romênia - sem qualquer inspeção ”, disse Kabulov.
Essas alegações colocam em perspectiva os recentes relatos sensacionalistas da mídia dos EUA que citam fontes anônimas da inteligência americana alegando que militares russos e iranianos estavam executando esquemas de "caçadores de recompensas" no Afeganistão, pelos quais militantes do Taleban eram supostamente pagos para matar tropas americanas. Os relatos da mídia americana tinham a marca registrada de uma operação psicológica de inteligência. Rússia, Irã e o Taleban rejeitaram as acusações. Até mesmo o Pentágono e o presidente Trump rejeitaram as histórias como não confiáveis.
Mas o efeito pretendido parece ter sido atrapalhar os movimentos hesitantes do governo Trump para encerrar a guerra afegã.
O Afeganistão é a fonte de mais de 90 por cento do fornecimento mundial de heroína, grande parte destinada à Europa, de acordo com as Nações Unidas. Algumas estimativas colocam o tráfico internacional de drogas como uma das commodities mais lucrativas, em pé de igualdade com o petróleo e o gás. O produto financeiro pode ser lavado por meio de grandes bancos, como ilustrou o escândalo envolvendo o banco britânico HSBC.
Para a CIA e outras agências de inteligência dos EUA, o Afeganistão é uma gigantesca fonte de dinheiro do tráfico de drogas ilícitas. Essa fonte fácil de financiamento secreto torna a guerra do Afeganistão viciante demais para largar o vício. Com sua rede global clandestina, frotas de aviões particulares, autorização diplomática, licença de segurança nacional e contas bancárias bizantinas, todos esses recursos tornam a CIA um canal perfeito para o tráfico de drogas. Além dos meios, a agência também tem um motivo poderoso para o financiamento secreto de seus outros empreendimentos criminosos: operações de influência da mídia, revoluções coloridas, assassinatos e subversões de mudança de regime.
O envolvimento sistemático da CIA no tráfico internacional de drogas é tão antigo quanto a própria agência, criada em 1947 no início da Guerra Fria. Sua função de operações secretas é por definição ilegal e, portanto, requer financiamento secreto. A agência tem sido associada ao ouro nazista ilícito para financiar suas primeiras operações. Mais tarde, o tráfico de narcóticos entrou como um meio crucial para o financiamento organizacional. O Triângulo Dourado no Sudeste Asiático foi central para patrocinar esquemas anticomunistas nas décadas de 1960 e 70, assim como a Colômbia e a América Central para financiar forças substitutas como os Contra na Nicarágua durante os anos 1980. O Afeganistão exerce essa função global de sustentar os empreendimentos criminosos da CIA.

Vamos conversar sobre solidariedade internacionalista?






sábado, 4 de julho de 2020

Palestina livre da ocupação sionista! Cresce a convicção do povo palestino de que o "projeto de israel" e sua própria existência nas terras históricas são o problema.

Khaled Barakat : "Não é possível unir dois caminhos opostos - um de um programa de resistência e outro de um programa de concessões, negociações e devastação de Oslo - sob o pretexto de "reconciliação nacional". 
"A "solução de dois estados" é um crime contra o povo palestino".

Enquanto a comunidade palestina e os organizadores da solidariedade lançavam mobilizações em mais de 100 cidades ao redor do mundo para enfrentar os planos de anexação israelenses e resistir a mais de 72 anos de colonização sionista na Palestina, a Rede de Solidariedade aos Prisioneiros Palestinos Samidoun conversou com o escritor e organizador palestino Khaled Barakat sobre o momento político e nossos próximos passos após o 1º de julho , o Dia da Fúria,  e as milhares de pessoas que saíram às ruas para defender a Palestina, sua terra e seu povo, contra o sionismo, o imperialismo, o colonialismo  e o racismo dos colonos judeus. 


A entrevista a seguir aborda algumas das principais questões desse momento historicamente significativo para a luta de libertação da Palestina. 
Samidoun: Hoje e nos dias anteriores, vimos dezenas de mobilizações em cidades e vilas ao redor do mundo, desde a marcha em Ramallah organizada pela Samidoun Palestine, a milhares nas ruas de Paris e Nova York, até pequenas atividades em cidades locais onde as pessoas se sentem compelidas a sair para resistir a essa mais recente injustiça. Vimos uma grande participação em Gaza, vimos caravanas de carros, pessoas marchando e todo tipo de ação. O que você acha que isso significa?
Khaled Barakat: Os palestinos estão acordando da grande decepção do chamado "processo de paz" e dos acordos de Oslo. Este é, de fato, um caminho de traição liderado por Mahmoud Abbas. Os palestinos perceberam continuamente desde os acordos de Oslo, nos últimos 30 anos, que não há esperança nesse caminho para alcançar seus direitos. Uma nova geração palestina nasceu após a assinatura dos acordos de Oslo e a criação da Autoridade Palestina, dentro e fora da Palestina. 
Hoje, esta geração está levantando sua voz. Ela tem a tarefa histórica de assumir seu papel legítimo na liderança do movimento de libertação palestino, pela força e pela mobilização, fornecendo uma visão alternativa. Todas essas mobilizações não dizem apenas que são contra a colonização e anexação do Vale do Jordão ou o roubo de terras palestinas na Cisjordânia. 
A principal força política que está impulsionando essa resistência é a convicção do povo palestino de que todo o projeto de Israel e sua existência são o problema. Nossas ações para avançar devem prosseguir nesta base: confrontando todo o sistema e trabalhando para desmantelá-lo completamente, para a total libertação da terra e do povo da Palestina. 
Samidoun: Quais são os próximos passos para o movimento?
Khaled Barakat: Nosso povo não tem outra alternativa senão estar unido. Essa unidade deve estar no caminho da libertação e do retorno as nossas terras históricas. A divisão real não é entre o Hamas e o Fathah, mas entre o caminho do governo de "autogoverno" que serve apenas 1% dos capitalistas palestinos - e o caminho das massas palestinas, as classes populares, que querem a libertação da Palestina. 
A OLP foi confiscada das classes populares por 1% dos capitalistas palestinos e suas ferramentas, e deve ser libertada e devolvida ao povo. Ou se apoia  o governo autônomo ou a libertação da Palestina, ou se apoia os  1% de colaboradores do governo  ou  os 99% de nosso povo engajado em uma resistência abrangente.
Hoje, nosso pessoal percebe que ninguém pode enganá-lo com a chamada "solução de dois estados". De fato, adotar e promover a solução de dois estados é um crime contra o povo palestino. 
Neste momento, esse movimento para enfrentar a anexação não é apenas importante como defesa da terra palestina, embora isso seja crítico. É também um movimento para defender os trabalhadores e os agricultores do vale do Jordão. Quando falamos em firmeza, estamos falando de pescadores, trabalhadores e agricultores. Essas são as pessoas que carregam nossa causa em seus ombros. Toda vez que um pescador palestino entra no mar de Gaza para alimentar sua família, ele é um guerreiro - um combatente da liberdade. Às vezes eles não voltam. Israel pode matá-los, prendê-los ou destruir seus barcos. Quando os agricultores palestinos em Gaza hoje plantam nas suas terras, eles podem enfrentar bombardeios com tanques israelenses e armas fabricadas nos EUA. Apoiar o povo palestino é apoiar as classes populares.
Isso, é claro, também significa lutar pela libertação de todos os prisioneiros palestinos. Todos os dias, aqueles que estão lutando de qualquer maneira - organizando suas comunidades, organizando seus campos e construindo a resistência - são alvos de sequestros, torturas, interrogatórios e prisões nos cárceres sionistas. O movimento dos prisioneiros palestinos reflete os líderes de nossa luta. Os refugiados palestinos nos campos do Líbano, Jordânia e Síria e em todos os lugares no exílio e na diáspora enfrentam várias circunstâncias de cerco e repressão, em sua essência com a  negação de seu direito de retornar. Essas são as massas palestinas, o povo palestino, por e com quem esse movimento global luta.
Samidoun : Agora, todos estão dizendo que são contra a anexação, até as forças de direita palestinas responsáveis ​​por assinar os acordos de Oslo. Qual é a sua visão do cenário político atual para os palestinos e como o movimento de libertação palestino pode realmente surgir para apresentar um curso popular de luta?
Khaled Barakat: Nossa tarefa hoje é formar uma frente nacional unificada baseada nos direitos fundamentais do povo palestino, definidos pelo próprio povo. Eles são sistematicamente negados e violados pelos Estados Unidos e Israel. A prioridade do povo palestino hoje é proteger suas terras, proteger seus direitos e acumular suas forças de maneira abrangente. 
Ao mesmo tempo, construir uma frente unida não deve nos impedir ou tornar-se uma condição que nos impede de impulsionar o movimento.
A resistência deve se tornar cada vez mais forte. Os movimentos populares devem se tornar cada vez mais fortes, incluindo movimentos trabalhistas, femininos e estudantis. Movimentos como o Tal'at representam as aspirações do povo palestino. Movimentos como as coalizões e comitês Al-Awda defendem o direito de retorno dos refugiados palestinos em todos os lugares. Organizações e redes como Samidoun estão mobilizando pessoas em todo o mundo para defender os direitos palestinos, os prisioneiros palestinos e a libertação da Palestina. Os jovens palestinos estão assumindo a liderança. Organizações como Within Our Lifetime - United for Palestine, a Hirak Shebabi (Mobilização Juvenil Palestina) em Berlim, a organização de mulheres palestinas Al-Karama na Espanha, Hirak Haifa na Palestina ocupada '48, o movimento estudantil e juvenil e muitos mais estão apresentando um caminho a seguir. 
Essas são as forças que lideraram as mobilizações hoje, não apenas fora da Palestina, mas também dentro da Palestina, juntamente com a resistência palestina em Gaza. Essas são as forças que não dependem do financiamento de ONGs da União Europeia. Portanto, eles se atrevem a enfrentar a Autoridade Palestina, Israel e os Estados Unidos, e adotam uma visão necessária e revolucionária da libertação palestina que se concentra nas lutas das classes populares, lutas das mulheres, libertação nacional e social.
Samidoun: Em termos dessa questão de unidade, houve muita publicidade na mídia palestina sobre esta conferência de imprensa conjunta de Jibril Rajoub, da Fathah e Saleh al-Arouri, do Hamas. Você acha que isso representa uma oportunidade real para a unidade palestina na luta, ou isso é outra coisa?
Khaled Barakat: Não é possível unir dois caminhos opostos - um de um programa de resistência e outro de um programa de concessões, negociações e devastação de Oslo - sob o pretexto de "reconciliação nacional", mesmo em meio ao projeto de anexação. A promoção de tais reuniões e conferências como uma esperança de unidade para os palestinos promove apenas ilusão, especialmente quando ainda não há sinais significativos de que a Autoridade Palestina tenha realmente divergido de algum modo do caminho fracassado de rendição para os EUA e Israel, enquanto reprimia os palestinos. resistência através da coordenação de segurança. 
É também uma tentativa de limpar a imagem de Jibril Rajoub, anteriormente chefe do Serviço de Segurança Preventiva da Autoridade Palestina na Cisjordânia. Onde praticou todos os tipos de repressão, vigilância e detenção de combatentes e organizações de resistência. Não podemos lavar essa história e apresentar a mera aparência de uma conferência de imprensa on-line conjunta. Tal exibição na mídia também procura limitar os termos da unidade palestina aos da Autoridade Palestina: a “solução de dois estados”O povo palestino só confia na unidade de resistência na luta. Qualquer outra coisa deve ser encarada com um alto nível de ceticismo. 
A unidade nacional deve se basear nos princípios do povo palestino e em um programa de luta que corta todos os laços com o caminho e o programa devastadores de Oslo. Não deve ser usado para polir a aparência da mesma autoridade de “autogoverno” na Cisjordânia que continua, na prática, a coordenação de segurança com Israel e a repressão política da resistência palestina.
Samidoun: Muitas pessoas ao redor do mundo estão se mobilizando para a Palestina organizando campanhas de boicote, desinvestimento e sanções, pelo boicote a Israel e por empresas cúmplices que lucram com a opressão do povo palestino. Muitas dessas mesmas forças são responsáveis ​​por crimes contra comunidades oprimidas em todo o mundo, prisões privadas e empresas de segurança e alianças oficiais que também atacam comunidades negras nos EUA e povos indígenas no Canadá. Como você vê as tarefas do movimento de boicote hoje?
Khaled Barakat: A tática do boicote tem uma longa história no movimento palestino. Boicotamos produtos britânicos na década de 1930. Uma das primeiras organizações palestinas e árabes que se mobilizou em 1951 após a Nakba foi a Assembléia para Rejeitar a Reconciliação com Israel. Essa organização foi fundada por George Habash [o líder da esquerda  palestina que mais tarde fundou e liderou o Movimento Nacionalista Árabe e depois a Frente Popular para a Libertação da Palestina.] É claro que também temos as ricas lições do boicote palestino desde o início. Intifada. O boicote é uma ferramenta contínua da resistência palestina, dentro e fora da Palestina. 
A campanha BDS e as iniciativas de boicote são uma parte importante do movimento de solidariedade da Palestina. Quando olhamos para o BDS, vemos de uma perspectiva de libertação nacional. Esta é uma importante ferramenta internacionalista que pode mobilizar a participação direta na luta para apoiar o povo palestino. 
A campanha BDS inclui muitas organizações e iniciativas internacionais que responderam a um chamado palestino ao mundo. É uma parte importante do movimento de solidariedade palestino. É uma ferramenta chave e tática. Ao mesmo tempo, não é uma alternativa ao movimento de libertação palestino.
Também não podemos dizer que questões políticas importantes possam ser adiadas para o futuro. Na realidade, como mencionei anteriormente, a solução de dois estados é um crime contra o povo palestino. É hora de esclarecer a natureza do projeto sionista e a necessidade de libertação total, incluindo o direito inalienável do povo palestino de resistir à ocupação. 
Samidoun: Como você acha que a fúria e o compromisso refletidos neste Day of Rage podem continuar a crescer, avançar e revidar?
Khaled Barakat: O movimento de libertação nacional palestino é um movimento anti-imperialista em sua natureza. A luta palestina faz parte da luta global, aquela que confronta o imperialismo americano, o sistema capitalista. O sistema que está pilhando os recursos das pessoas do mundo, o sistema que escravizou, explorou e continua a oprimir brutalmente comunidades e pessoas negras, o sistema que rouba a terra e comete genocídio contra os povos indígenas. O sistema que aspira os recursos das pessoas do mundo, que destrói vidas e nações por lucro.
A Palestina faz parte do campo da revolução mundial. Nunca mudará sua posição como um movimento anti-imperialista e anti-racista. Quando estamos construindo nosso movimento, estamos construindo esse movimento. Quando esse movimento global é vitorioso em qualquer lugar do mundo, sentimos isso imediatamente na Palestina. Quando há contratempos ou ataques a esse movimento em qualquer lugar do mundo, de um golpe na Bolívia à guerra econômica dos EUA em Cuba, Zimbábue, Venezuela e Irã, também sentimos isso imediatamente. 
Também fazemos parte de uma luta progressista e revolucionária árabe. Os palestinos têm hoje a tarefa de reconstruir a visão revolucionária árabe de libertação nacional. Devemos estar à altura da tarefa com o povo árabe e o povo da região - e o povo do mundo - de permanecer como palestinos na linha de frente, confrontando o sionismo, o imperialismo e os regimes reacionários árabes que colaboram com eles. 

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Silêncios hipócritas à beira da tempestade


Por José Goulão

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A União Europeia guarda, sobre a execução extrajudicial de George Floyd e o racismo estrutural nos EUA, a mesma discrição que assumirá quando Israel fizer flutuar a bandeira sionista no Vale do Jordão.
Benjamin Netanyahu, o aparentemente eterno primeiro ministro de Israel, agora geminado com um dos carrascos de Gaza, Benny Gantz de sua graça, vem anunciando que a partir do início do próximo mês dará os passos governamentais, parlamentares e militares que considera necessários para anexar o Vale do Jordão, no território palestino da Cisjordânia. Além disso, tenciona integrar no Estado de Israel os colonatos construídos ilegalmente no mesmo território durante os últimos 60 anos. Estes movimentos representam, de fato, a extinção da chamada «solução de dois Estados» na Palestina histórica, estabelecida em 1948 pelas Nações Unidas e reativada durante os passados anos noventa. Os criminosos não escondem o crime, os avisos estão feitos: ninguém poderá dizer que será apanhado de surpresa.
A chamada «comunidade internacional», a começar pela ONU e respectivo secretário-geral, assiste de camarote aos acontecimentos. A repetição, como um mantra, de que «a solução de dois Estados» continua a ser o caminho para regularizar a situação na Palestina servirá para fazer de conta, ou para manifestar um apego inconsequente aos princípios estabelecidos, ou até para marcar presença num quadro de inutilidade. Mas não tem lastro para travar o buldozzer sionista e o seu guarda-costas yankee empunhando a arma do «acordo do século» – aquilo a que a «comunidade internacional» não atribui qualquer valor legal, mas que na realidade guia as ações dos únicos a se mexer neste processo – a caminho da anexação da Cisjordânia.
O fato consumado dos fatos consumados
Ao se investigar minuciosamente os comportamentos de países e entidades com poder de decisão sobre as coisas do mundo, não se detecta um único indício de que esteja em desenvolvimento uma ação internacional concertada para demover Israel de dar o golpe anunciado.
Um golpe que, sem paninhos quentes nem contorcionismos semânticos, tem o mesmo significado, à luz das leis internacionais, que o improvável ato de a Espanha anexar Portugal, ou Portugal meter a mão na Galiza, ou a França aboletar-se com a Valônia, ou a Alemanha engolir Luxemburgo, ou a Áustria, coisa que já nem seria original, mas sabemos em que circunstâncias aconteceu.
São comparações retiradas dos cadernos do absurdo. Porém, têm absoluta legitimidade. O Estado da Palestina é reconhecido por dois terços dos países da ONU e tem assento na organização. A sua consumação territorial tem sido impossível apenas porque existe um Estado ocupante que se nega a cumprir a legalidade internacional e que não sofre quaisquer consequências por isso, tornando as leis reféns da força bruta e da cumplicidade de interesses abjetos.
Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Leste são os territórios onde, no quadro da «solução de dois Estados», deverá assentar territorialmente o Estado da Palestina. Jerusalém Leste foi anexada por Israel, com a cobertura dos Estados Unidos da América e sob protestos verbais envergonhados, inúteis e efêmeros dos seus parceiros e aliados da OTAN e da União Europeia. Gaza é um campo de concentração cercado militar e fisicamente, onde dois milhões de pessoas estão condenadas a condições infra-humanas, à espera da morte ou de que Israel e os Estados Unidos, talvez com ajuda da Arábia Saudita e o Egipto, decidam o que fazer com elas – no âmbito, claro, do «acordo do século», esse instrumento sem valor legal.
E a Cisjordânia, além de retalhada por mil e um colonatos, serpenteada por um muro intransponível que separa famílias, propriedades, aldeias e cidades, arrasada pelo terrorismo dos militares ocupantes e dos colonos, poderá ser anexada praticamente na totalidade já a partir de julho.
Consumada a anexação do Vale do Jordão, integrados os colonatos na soberania do Estado sionista, nada restará na Cisjordânia onde possa erguer-se alguma coisa que se pareça com um Estado soberano e viável. Fim da «solução de dois Estados».
Estamos a menos de meia dúzia de semanas de que isso aconteça, ou pelo menos sejam dados passos que tornem o processo irreversível. Bem na linha da política de fatos consumados através da qual Israel tem se consolidado como Estado colonial e os palestinos têm perdido os direitos que lhe estão garantidos nos papéis onde está inscrito o direito internacional, papéis cada vez mais imprestáveis em geral, totalmente imprestáveis neste caso. Será o supremo fato consumado na torrente dos fatos consumados com que Israel humilha a legalidade internacional.
Confirmadas a inutilidade e a indignidade da União Europeia
A Rússia tem afirmado que se opõe a qualquer ação israelense para anexação do Vale do rio Jordão. A China diz a mesma coisa, mais palavra, menos palavra.
Se, durante o processo, for necessário recorrer a vetos no Conselho de Segurança das Nações, as duas nações não hesitarão em utilizá-los. O mesmo acontecerá do lado dos Estados Unidos, anulando-se mutuamente os efeitos de cada veto. Não se espera, portanto, que o Conselho de Segurança adote qualquer medida dissuasora dos objetivos sionistas. Porém, será muito previsivelmente o mais longe que Moscou e Pequim irão na tentativa – nesse caso ineficaz – de fazer prevalecer os direitos dos palestinos.
Há ainda a União Europeia, essa defensora incansável do direito internacional, dos direitos humanos, da soberania dos povos – para quem acredita ainda no discurso hipócrita e cínico dos seus dirigentes.
Em 15 de maio reuniram-se em Bruxelas os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27 e o tema da anunciada anexação do Vale do Jordão surgiu em cima da mesa.
Como se sabe, a União Europeia defende oficialmente a «solução de dois Estados» na Palestina. Então, alguns Estados membros, entre os quais a França, Espanha, Bélgica, Luxemburgo, ousaram propor a imposição de sanções a Israel no caso de concretizar as intenções anunciadas. Nada de muito relevante, tudo muito suave, apenas a exclusão do envolvimento de Israel no quadro científico-técnico denominado Horizonte 2027. Sanções inúteis, simbólicas numa entidade que decidiu flagelar-se a si própria – sobretudo aos seus agricultores – por conta das sanções pesadas impostas à Rússia pela «ocupação» da Crimeia, um território histórica e inegavelmente russo, tal como demonstraram massivamente os seus habitantes em referendo.
Apesar dos pezinhos de lã contra uma atrocidade terrorista como a prometida por Israel, devastadora para o direito internacional, para os direitos nacionais e humanos de milhões de palestinianos, foram vários os países que se opuseram desde logo a essas sanções, ainda que inconsequentes, e confirmaram aquilo que todos sabemos: a inutilidade da União Europeia na cena internacional, neste caso refletindo a sua indignidade por ser incapaz, como quase sempre, de fazer cumprir aquilo que diz defender.
Fica então sentenciada a passividade – a cumplicidade – da União Europeia quando Israel avançar para a anexação.
Dez dias depois dessa reunião, num encontro com embaixadores alemães, deu-se o caso de o chefe da «política externa» da União Europeia, o espanhol Josep Borrell, ter falado no «fim da liderança norte-americana», fazendo soar o tambor das especulações e das conjecturas dos geopolitólogos de plástico. Com aquilo que está se passando nos Estados Unidos, parece aconselhável adptar uma certa distância e dizer coisas que pareçam refletir vida e existência próprias para além da subserviência militar, econômica, financeira e política. Se passarmos do discurso à prática, nada a registar. A União Europeia guarda sobre a execução extrajudicial de George Floyd e sobre o racismo congênito dos Estados Unidos a mesma discrição que assumirá quando Israel fizer flutuar a bandeira sionista no Vale do Jordão. Discursos inflamados ainda poderá haver, atos não vamos ver.
A partir da anexação, como tem acontecido ao longo de décadas, fato consumado atrás de fato consumado, ouviremos os convictos dirigentes europeus, da globalização e da ONU «exigir» que Israel se retire do Vale do Jordão e dos territórios ocupados para que possa ser aplicada «a solução de dois Estados». Um insulto à inteligência, um alinhamento objetivo com a ilegalidade, uma traição repugnante contra o povo palestiniano.
Entre os dirigentes mundiais com peso nas decisões internacionais muitos haverá que estarão dispostos a brandir discursos solidários e de firmes princípios teóricos até ao último dos palestinos. Nada mais do que isso.

Os palestinos não se rendem

Os palestinos, mais de sete milhões na Palestina e no mundo, podem contar apenas com eles próprios. Não é certo, inclusivamente, que venham sentir o apoio do governo «autônomo» instalado em Ramallah, enredado na teia montada pelo sionismo que o tem conduzido frequentemente a desempenhar tarefas de «segurança» – de repressão do seu povo, portanto – em sintonia com forças militares israelenses. O presidente Mahmmud Abbas já deixou agora de atender os telefonemas de Trump, desligou-se dos Acordos de Oslo, mas as medidas pecam por ser tardias. Num quadro em que o apoio de países árabes é duvidoso e em muitos casos inexistente – e será sempre insuficiente perante as forças em presença – os palestinos podem contar somente com as próprias forças. E com o apoio que povos solidários considerem dar-lhes através de lutas cívicas e institucionais. Sabendo que terão de enfrentar até a infame acusação de antissemitismo, que o monstruoso aparelho mundial de propaganda sionista quer obrigar a associar a qualquer manifestação ou expressão de repúdio contra atos terroristas e ilegais praticados pelo Estado de Israel. Antissionismo não é antissemitismo, muito menos a condenação dos desumanos e ilegais atos israelenses pode ser considerada antissemitismo. Mas a ideia está fazendo o seu caminho na União Europeia, sempre pronta a fazer trabalhos sujos recomendados pelo sionismo – ainda que seja para cobrir o terrorismo.
Os palestinos, onde quer que estejam, não ficarão de braços cruzados perante esta manifestação aguda do terrorismo sionista em preparação. Fala-se em «terceira Intifada», quanto mais não seja pelo hábito rotineiro de catalogar acontecimentos. Mas haverá seguramente resposta, que será definida pelos próprios, como aconteceu com o levante das pedras de 1988 e que pôs pela primeira vez em xeque, até aos olhos do mundo, a fama e as «legitimidades» do sionismo todo-poderoso. O movimento nacional de resistência, é certo, não está organizado e unido como então, a fratura entre a Organização de Libertação da Palestina (OLP) e o Hamas, entre a Cisjordânia e Gaza, enfraqueceu a capacidade de reação. Contudo, nessa Intifada de 1988 que explodiu em Gaza as raízes populares foram determinantes e vão ser de novo, unindo até o que por ora continua desunido.
Chegado esse momento ouviremos então dirigentes europeus e mundiais, que por enquanto guardam silêncio sonso, apelar à calma de ambos os lados e condenar o «terrorismo palestino», que só «prejudicará» a procura de «soluções».
Que soluções? As que estão contempladas no direito internacional e que os detentores dos mecanismos legais, ONU incluída, não fazem cumprir?
Nova e tenebrosa tempestade está para explodir na Palestina – com muitos focos através do Oriente Médio. Não acreditem, portanto, nos dirigentes nacionais e internacionais que irão se dizer chocados, surpreendidos e que, neste momento, comprometidos com interesses ilegais e desumanos, são espectadores hipócritas dos ensaios de uma tragédia anunciada.
José Goulão, Exclusivo O Lado Oculto/AbrilAbril

domingo, 31 de maio de 2020

O que a agonia do Império significa para o estado judeu de Israel

Ex ministro de defesa da entidade sionista, Avigdor Lieberman e o F-35I

por The Saker
Primeiro, vamos começar por uns poucos tópicos recentes (aparentemente não relacionados):
Estas notícias aparentemente não relacionadas têm todas uma coisa em comum: ilustram quão fracas e ineficazes se tornaram as forças armadas dos EUA ao longo das últimas duas décadas. E apesar de, a bem de brevidade, eu ter escolhido apenas três exemplos, a verdade é que há centenas de histórias semelhantes na Internet, todas a apontarem para a mesma realidade: a maior parte da instituição militar dos EUA está num estado terminal de decadência.

Vamos examinar os vários serviços, um por um:
  • Toda a frota de superfície da US Navy está agora comprometida devido à sua estrutura centrada em porta-aviões. À US Navy também faltam mísseis de cruzeiro modernos. Classes inteiras de navios de superfície estão agora superadas (fragatas) ou têm grandes falhas de concepção (LCS).
  • A US Air Force opera sobretudo jatos da Guerra Fria, muitas vezes modernizados, mas de modo geral é uma frota ultrapassada, especialmente quando comparada aos aviões russos e chineses de 4ª e de 5ª geração. De fato, o desastre absoluto do programa F-35 significa que pela primeira vez na sua história os aviões dos EUA serão qualitativamente batidos pelos seus prováveis adversários. Mesmo os AWACS (Airborne Warning and Control System) dos EUA e outros aviões de reconhecimento estão agora ameaçados pelos mísseis anti-aéreos de longo alcance russos e chineses (tanto os lançados do solo como do ar).
  • Quanto ao US Army e ao Marine Corps, os desastres embaraçosos no Iraque, Afeganistão e alhures provam que aos forças de terreno dos EUA são basicamente capazes apenas de se protegerem a si próprios e mesmo assim não muito bem.
  • E há as Forças Espaciais dos EUA criadas recentemente, as quais existem só no papel, e a Guarda Costeira que é basicamente irrelevante numa grande guerra.
  • Finalmente, há o Comando de Operações Especiais dos EUA, o qual não é nenhum dos ramos mas apenas um comando "funcional" e "combate unificado", mas que é frequentemente pensado como um ramo separado das forças armadas. Estas forças sempre parecem grandes na propaganda, mas a verdade é que estas putativamente "as melhores do mundo" ainda têm de alcançar o seu primeiro êxito real, significativo e operacional em qualquer parte (pelo menos para equilibrar a sua longa história de fracassos abjectos, desde o Desert One, a Granada, Afeganistão, Líbia, etc). E em combates menores contra adversários muito inferiores.

Agora vamos colocar a questão crucial: o que significa isto para Israel?


Bem, em primeiro lugar significa que os "pobres" israelenses agora têm de voar com o F-35 como o seu caça principal. Na maior parte dos casos, acreditaria que os israelenses modificassem/melhorassem os seus F-35 para livrarem-se pelo menos das suas piores "características", mas no caso dos F-35 isto nem sequer é teoricamente possível devido aos seus profundos viéses de concepção (aqueles que precisarem de um recordatório "oficial" sobre a realidade catastrófica do programa F-35, leiam por favor este relatório oficial do governo dos EUA que inclui 276 deficiências "críticas". Mais cedo ou mais tarde, os F-35 israelenses deparar-se-ão com a versão de exportação do SU-35, com o muito mais barato mas de alto desempenho Mig-29M/Mig-35 ou mesmo com um SU-57 russo e então eles serão irremediavelmente batidos (ainda que o resultado de combate ar-ar não possa ser reduzido a comparar aviões, é preciso um quadro completo e muito mais complexo para modelar resultados possíveis). Actualmente, o Su-35 tem sido exportado só para a China, mas futuros operadores potenciais incluem o Egipto, Argélia e Turquia. Quanto ao Mig-29M/Mig-35, países como o Egipto e a Síria manifestaram interesse.

Por falar na Síria, até agora vimos vários casos de aviões israelenses interceptados e forçados a retirarem-se por Su-35s russos e nem um único caso oposto. Parece haver pelo menos um caso , embora não confirmado oficialmente (ainda) de um Su-35S russo enxotando um USAF F-22 (desde que o Su-35 e o F-22 estejam em suficiente proximidade, o último tem muito poucas esperanças de sobrevivência).

Pode imaginar que outra coisa os israelenses vão fazer se eventualmente se encontrarem nos céus do Médio Oriente? Possivelmente uma variante de exportação do Mig-31 ou mesmo do Mig-32BM (com os seus mísseis R-37 ar-ar com alcance de 400 km ). De facto, o alcance, velocidade, radar e armas deste avião fariam possível para a Rússia manter patrulhas de combate aéreo sobre, digamos, a Síria operando ao mesmo tempo do sul da Rússia.

Concentro-me nestes aviões porque no passado, e tal como os EUA, os israelenses sempre confiaram na prevalência da seguinte combinação de fatores:

  • Um ataque surpresa (mais ou menos justificado por uma bandeira falsa ou por direito de posse)
  • A destruição dos aviões inimigos quando eles ainda estão no solo
  • Superioridade aérea a proteger para aeronaves de asa rotativa e blindagem avançada
Na verdade, os israelenses ainda têm uma grande força de F-16/15/18 (14 esquadrões, mais de 300 aeronaves), mas tal como seus homólogos dos EUA eles estão rapidamente a tornar-se datados. Em agudo contraste com a datada Força Aérea Israelense, os vizinhos de Israel estão todos a adquirir sistemas de defesa aérea cada vez mais avançados juntamente com sistemas de guerra eletrónica e de gestão de batalha. Por outras palavras, isto é um tempo muito mau para Israel responder com F-35 no futuro previsível.

Exatamente agora, os israelenses estão a bombardear a Síria regularmente, mas com muito pouco resultado além da lenga-lenga, sem dúvida terapêuticas, das proclamações da superioridade judaica sobre os árabes. E, previsivelmente, os sujeitos que observam a mídia sionista ficam muito impressionados. Os sírios, os iranianos e o Hezbollah, nem tanto...

Assim como o Complexo Industrial-Militar dos EUA coloca todos os seus ovos no cesto do F-35, da mesma forma os israelenses colocam todos os ovos da segurança nacional na eterna disposição e capacidade do Tio Shmuel para vir e resgatá-los com dinheiro, armas ou mesmo soldados.

A disposição ainda existe. Mas a capacidade está rapidamente a desaparecer!

Além disso, há mais dois países que estão a entrar num período de grave instabilidade, que também afetará a segurança de Israel: Turquia e Arábia Saudita.

No caso da Turquia, o relacionamento entre os EUA e a Turquia está mais em baixo do que nunca e há uma possibilidade muito real de que, com as sanções e ameaças dos EUA, os turcos possam decidir desistir do F-35 e recorrer a um avião russo, muito provavelmente uma versão de exportação do Su-35. Se bem que isto fosse má notícia (politicamente) para o complexo industrial-militar americano, seria uma notícia absolutamente terrível para os israelenses cujo relacionamento com a Turquia é geralmente bastante mau. Até agora, a Turquia ainda é um membro obediente da OTAN, com tudo o que isso implica, mas quanto mais fraco se torna o Império Anglo-sionista, maiores serão as possibilidades de algum tipo de choque político entre os EUA e a OTAN, por um lado, e a Turquia, por outro.

Quanto aos sauditas, eles já estão ativamente a cortejar Moscou porque perceberam que a Rússia basicamente substituiu os EUA como a potência regional número um. O fracasso total dos EUA em providenciar assistência significativa aos sauditas no Iêmen e a incapacidade das defesas aéreas dos EUA em proteger o campo petrolífero saudita Houthi de ataques de mísseis convenceram os sauditas de que, a partir de agora, eles precisam falar com os russos diretamente e frequentemente.
CENTCOM.
Fonte: IISS Military Balance 2020

É verdade que os EUA ainda têm a aparência de poder real no Médio Oriente. Basta dar uma olhada nesta página do último IISS Military Balance. Ainda há muito equipamento e pessoal da CENTCOM na região. Mas tente olhar para além destes gráficos bonitos e perguntar-se: o que é que estas forças estão a fazer? O que é que estão realmente a conseguir?


Eu diria que a maior parte do que eles fazem é tentar impressionar os locais, ganhar dinheiro (através de todo o tipo de contratos militares) e, por último, mas não menos importante, tentarem proteger-se. E, sim, a "pegada" dos EUA no Médio Oriente ainda é grande, mas isso é também o que torna as forças dos EUA tão vulneráveis a ataques. Os iranianos, por exemplo, deixaram claro que encaram todas estas instalações e forças como "alvos", os quais, após os ataques de mísseis iranianos de alta precisão que se seguiram ao assassinato do general Suleimani, significa que o Irã agora tem os meios para infligir grandes danos a qualquer força regional suficientemente louca para se meter com o Irã.

Naturalmente, todas as vezes que alguém escreve que os EUA ou Israel não são invencíveis, há sempre pelo menos uma pessoa que diz algo como "sim, talvez, mas eles têm ogivas nucleares e irão usá-las se forem ameaçados". A isto a minha resposta é diferente para o caso dos EUA e para o caso de Israel.

No caso dos EUA, apesar de qualquer primeira utilização de ogivas resultará num suicídio político para o Império, nenhum adversário dos EUA no Médio Oriente tem a capacidade de retaliar do mesmo modo.

Contudo, no caso de Israel as coisas são mesmo muito mais graves.

Primeiro, é preciso recordar que por óbvias razões geográficas, os israelenses não podem utilizar ogivas nucleares contra forças atacantes, pelo menos contra quais forças próximas da fronteira israelense. Ainda assim, se gravemente ameaçado, os israelenses poderiam afirmar que outro "holocausto" estaria prestes a acontecer e que a "defesa do sangue judeu" não lhes deixa outra opção senão utilizar ogivas contra, digamos, alvos iranianos ou sírios. Eu diria que quanto pior o dano infligido por quaisquer ataques nucleares israelenses, maior será a resolução dos árabes e/ou iranianos. Este é o problema com a dissuasão: uma vez fracassada, está fracassada totalmente e habitualmente não há um "plano B".

Significará isto que um grande ataque a Israel é inevitável?

Não, de modo algum. Para começar, tanto os EUA como Israel ainda podem infligir danos imensos contra qualquer país, ou coligação de países, o que os ameaçaria (e não precisam de recorrer a ogivas nucleares para o conseguir). O facto de nem os EUA nem Israel poderem alcançar qualquer coisa que se assemelhe a uma "vitória" de modo algum implica que atacar os EUA ou Israel seja fácil ou seguro. Ambos os países têm muito poder militar convencional para extrair um preço enorme a qualquer atacante.

Em segundo lugar, é precisamente porque os EUA e Israel ainda têm muito poder militar que os seus adversários preferirão um enfraquecimento gradual e lento dos anglo-sionistas ao invés de uma confrontação aberta. Por exemplo, se é verdade que os EUA não tiveram estômago para atacar o Irã após o ataque de mísseis retaliatórios iranianos, também é verdade que os iranianos "afinaram" cuidadosamente a sua resposta para não forçar os EUA a contra-atacar. A verdade é que neste momento nenhum dos dois países quer uma guerra aberta.

O mesmo se pode dizer da Síria e do Hezbollah, que têm tido muito cuidado para não fazer nada que forçasse os israelenses (ou os EUA) a escalar dos atuais ataques simbólicos/alfinetadas para ataques reais, significativos, com ataques aéreos e de mísseis.

Neste momento, os EUA ainda podem imprimir dólares suficientes para manter Israel a flutuar, mas já sabemos que embora lançar dinheiro barato a um problema frequentemente seja muito tentador, isto não constitui uma estratégia sustentável, especialmente quando as capacidades militares reais tanto dos EUA como dos israelenses estão a degradar-se rapidamente. Neste momento, ninguém sabe quanto tempo mais durará o último regime abertamente racista do planeta, mas é extremamente improvável que a entidade sionista seja capaz de sobreviver sem o Império para sustentá-la. Por outras palavras, mais cedo ou mais tarde, o "Estado judeu de Israel" não terá melhores hipóteses de sobrevivência do que, digamos, o "Estado Independente do Kosovo" ou, já agora, a "Ucrânia Independente": todas elas são feias metástases do Império que, por si mesmas, simplesmente não são viáveis.

12/Maio/2020

O original encontra-se em thesaker.is/what-does-the-empires-agony-mean-for-the-jewish-state-of-israel/

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

Movimento da China em Hong Kong ilustra fim da superioridade dos EUA

22/5/2020, Moon of Alabama
Tradução: Amigos do Brasil

Culpar a China pela pandemia de Covid-19 é erro e mentira. Mas os EUA continuam a fazer precisamente isso, como parte de sua estratégia maior anti-China.

Com os EUA ainda ocupados tentando dar combate à pandemia em casa, a China dentro de suas fronteiras já derrotou a mesma pandemia. Atualmente, a China usa o mesmo impulso, para resolver uma questão que os EUA durante muito tempo usaram para atazanar os chineses. Hong Kong será afinal libertada do jugo de seus apoiadores norte-americanos racistas fantasiados de liberais.

No final de 1984, Grã-Bretanha e China assinaram um acordo formal que aprovou a entrega à China, em 1997, de Hong Kong, colônia britânica. A Grã-Bretanha teve de aceitar o pacto, porque perdera capacidades para defender a colônia. A Declaração Conjunta Sino-Britânica estipulava que a China criaria uma lei formal que permitiria que Hong Kong, em larga medida, se autogovernasse.

A Lei Básica da Região Administrativa Especial de Hong Kong da República Popular da China [ing. Basic Law of the Hong Kong Special Administrative Region of the People’s Republic of China] é a constituição de fato da Região Administrativa Especial de Hong Kong. Mas é lei nacional da China adotada pelo Congresso Nacional do Povo Chinês em 1990 e introduzida em Hong Kong em 1997 depois que os britânicos saíram. Sendo necessário, a lei pode ser modificada.

O Capítulo II da Lei Básica regula o relacionamento entre as Autoridades Central e a Região Administrativa Especial de Hong Kong. O Artigo 23 [ing.] da Lei Básica estipula que Hong Kong terá de implementar algumas medidas para segurança interna:

A Região Administrativa Especial de Hong Kong deve aprovar leis próprias para proibir quaisquer atos de traição, secessão, sedição, subversão contra o Governo Popular Central, ou o roubo de segredos de estado, para proibir organizações ou corpos políticos estrangeiros de conduzir atividades políticas na Região, e para proibir organizações ou corpos políticos da Região de estabelecer laços com organizações ou corpos políticos estrangeiros.

Hong Kong não criou nenhuma das leis exigidas pelo Artigo 23. Cada vez que o governo tentou implantar as tais leis, mesmo que parcialmente, em 2003, 2014 e 2019, foi impedido por protestos e tumultos de grandes dimensões nas ruas de Hong Kong.

A China sempre se preocupou com os tumultos comandados do exterior em Hong Kong, mas não pressionou enquanto ainda dependia de Hong Kong para acesso a dinheiro e mercados.

Em 2000, o PIB de Hong Kong chegou a $171 bilhões, enquanto o da China foi apenas sete vezes maior, de $1,200 trilhão. Ano passado o PIB de Hong Kong quase dobrou e chegou a $365 bilhões. Mas o PIB da China já crescera mais de dez vezes e alcançou $14,200 trilhões, quase 40 vezes maior que o de Hong Kong. Expressa em PPC (paridade do poder de compra; ing. PPP), a diferença é ainda mais impressionante. Como outlet econômico para a China, Hong Kong perdeu toda a importância.

Outro fator que manteve a China distante de intrometer-se mais profundamente em Hong Kong foi a preocupação com consequências negativas advindas dos EUA e da Grã-Bretanha. Mas no governo Trump, os EUA introduziram mais e mais medidas para boicotar o desenvolvimento da China. A Lei de Direitos Humanos e Democracia em Hong Kong (ing. Hong Kong Human Rights and Democracy Act) aprovada ano passado no Congresso dos EUA exige que o governo dos EUA supervisione Hong Kong e puna todos que os EUA considerem violadores de direitos humanos. As sanções contra empresas chinesas e especialmente contra Huawei, expandiram-se recentemente para um já total bloqueio econômico de entregas de chips 5G para aquela empresa – o que deixa ver que os EUA farão absolutamente qualquer coisa para boicotar o sucesso econômico da China.

O tal “pivô para a Ásia” do governo Obama já era movimento de certo modo ainda disfarçado, contra a China. A Estratégica de Defesa Nacional [ing. National Defense Strategy] do governo Trump declarou abertamente que a China seria “concorrente estratégico que usa economia predatória para intimidar vizinhos, ao mesmo tempo em que militariza as relações no Mar do Sul da China”.

O Marine Corps dos EUA está sendo reconfigurado em unidades especialmente projetadas para bloquear o acesso da China, ao mar:

Assim, pequenas forças dos Marine se posicionarão em torno das ilhas da primeira cadeia de ilhas e do Mar do Sul da China, cada elemento com a capacidade para contestar o espaço aéreo e naval usando mísseis antiaéreos e antinavios. Coletivamente, essas forças atritarão forças chinesas, vão inibi-las de avançar e, afinal, como parte de uma campanha conjunta, as empurrarão de volta para território chinês.

A ‘Guerra Fria 2.0’ que os EUA lançaram contra a China passa agora a conhecer significativos contramovimentos.

Os violentos tumultos do ano passado em Hong Kong, aplaudidos pelo borg em Washington DC, demonstraram que o desenvolvimento em Hong Kong está num mau caminho, que pode gerar perigos para a China.

Já não há razão para que a China se auto contenha, na repressão àquela loucura. A economia de Hong Kong já não é relevante. As sanções dos EUA estão chegando independentes do que a China faça ou deixe de fazer em Hong Kong. Os planos dos militares dos EUA são agora uma óbvia ameaça.

Dado que as leis que Hong Kong devia implantar não estão aparecendo, a China agora vai criá-las e implementá-las, ela mesma:

O governo central deve apresentar uma resolução na 6ª-feira para capacitar a mais alta hierarquia de seu corpo legislativo, o Comitê Central do Congresso Popular Nacional [ing. Standing Committee of the National People’s Congress (NPC)], a construir e aprovar uma nova lei de segurança nacional especialmente talhada para Hong Kong – como foi anunciado no fim da 5ª-feira.

Fontes informaram ao Post que a nova lei proibirá atividade secessionista e subversiva, bem como qualquer interferência estrangeira e terrorismo na cidade – todos os desenvolvimentos que têm causado problemas a Pequim já há algum tempo, mas pressionaram mais ao longo do ano passado, com protestos antigoverno cada vez mais violentos.



Segundo fonte chinesa familiar com assuntos de Hong Kong, Pequim chegou à conclusão de que seria impossível para o Conselho Legislativo da cidade aprovar legislação que satisfizesse o artigo 23 da Lei Básica da cidade, dado o clima político. Por isso a solução de se voltar para o Congresso Popular Nacional, para que assuma a responsabilidade.

Dia 28 de maio, o Congresso Nacional Popular votará uma resolução solicitando ao Comitê Central que redija a lei relevante para Hong Kong. É provável que a lei seja promulgado e entre em vigência no final de junho. A lei será parte do Anexo III da Lei Básica que lista as “Leis Nacionais a Ser Aplicadas na Região Administrativa Especial de Hong Kong” [ing. National Laws to be Applied in the Hong Kong Special Administrative Region].
Sob a nova lei, os EUA terão de parar de financiar organizações estudantis, sindicatos antigoverno e organizações de mídia em Hong Kong. Os partidos de oposição não mais poderão manter relações com operações norte-americanas para influenciar a opinião pública ou grupos determinados, em HongKong.

O Departamento de Estado dos EUA condenou imediatamente a medida:

Hong Kong floresceu como bastião da liberdade. Os EUA insistem fortemente em que Pequim reconsidere sua proposta desastrosa, que cumpra seus deveres internacionais e que respeite o alto grau de autonomia de Hong Kong, suas instituições democráticas e liberdades civis, que são chaves para que preserve seu status especial nos termos da lei dos EUA. Qualquer decisão que agrida a autonomia e as liberdades de Hong Kong como garantidas pela Declaração Conjunta Sino-britânica e pela Lei Básica impactará inevitavelmente nossa avaliação de Um País, Dois Sistemas e o status do território. Estamos com o povo de Hong Kong.

Não é (ainda?) A Próxima Guerra Contra a China [ing. The Coming War On China (vídeo), mas alguma malfadada provocação que por enquanto é forte na retórica, mas com pequeno efeito. Nenhuma ação dos EUA conseguirá impedir o governo da China de proteger o próprio território. Hong Kong é cidade chinesa onde, supremas e vigentes, só as leis chinesas, não os dólares norte-americanos.

Os EUA parecem crer que poderiam vencer uma guerra fria contra a China. Esse entendimento é errado.

No front econômico, não se trata de os EUA vencerem ao se separar da China. Trata-se, isso sim, de a Ásia estar-se separando dos EUA:

Desde que começou a guerra tech EUA-China em abril de 2018, com os EUA proibindo a exportação de chips para a ZTE Corporation chinesa, a “des-norte-americanização das cadeias de suprimentos” tem sido palavra sempre presente na indústria de semicondutores.

Taiwan, Vietnã, Tailândia e Indonésia compraram cerca de 50% a mais em produtos chineses em abril de 2020 que no mesmo mês, ano passado. Japão e Coreia exibiram 20% de ganhos. Exportações para os EUA cresceram ano após ano, mas de uma base muito baixa em 2019.

As importações chinesas, da Ásia, também cresceram acentuadamente.

Quando os EUA proíbem empresas que usam software ou máquinas norte-americanas que desenham e produzem chips, de vendê-los para a China, aquelas empresas buscam comprar noutro lugar os mesmos software e máquinas. Quando os EUA tentam fechar o acesso da China a chips de computadores, a China cria sua própria indústria de chips. Dentro de dez anos os EUA terão perdido acesso às empresas mais modernas de então, e todos os mais modernos chips já virão da China. Já hoje, a China já domina o comércio mundial.

O modo caótico como os EUA lidam com sua crise de Covid-19 está sendo observado em todo o mundo. Os que veem com clareza já sabem que a superpotência confiável hoje é a China, não os EUA (“Caso mais de colapso do Império, que de Guerra Fria 2.0“). Os EUA estão esgotados e assim continuarão, ainda por muito tempo:

Por isso não vejo a conversa sobre uma possível “Guerra Fria 2.0” como significativa ou relevante. Qualquer tipo de “guerra fria” entre EUA e China indicaria que os decisores políticos americanos ainda seriam capazes de começar a planejar de forma crível um modo de administrar essa complexa relação com a China. Mas, na realidade, as opções para “administrar” o núcleo dessa relação são lamentavelmente poucas, uma vez que a tarefa central de qualquer liderança dos EUA que surja desse pesadelo que é Covid-19 será administrar o colapso precipitado do império globalizado em cujo topo os EUA estiveram sempre, desde 1945.



Por isso digo, aqui em Washington, na Primavera de 2020: “Deixem que os norte-americanos bufem e soprem em seus novos surtos de sinofobia infantil”. Deixem que ameacem com essa ou aquela versão de alguma nova “Guerra Fria”. Deixem-que disputem eleições – se houver eleições – em termos de “Quem será mais duro com a China?”. A fria realidade mostra que essa conversa, como disse Banquo, não passa de “história contada por um idiota, cheia de som e fúria, que significa nada”.

Em seu livro de 2003, Depois do Império [pdf] (After the Empire) Emmanuel Todd explicou o porquê de os EUA estarem caminhando rumo à perda do status de superpotência:

Todd calmamente e de modo bem direto lista várias tendências negativas, incluindo o enfraquecimento do compromisso com a integração socioeconômica de afro-norte-americanos; uma economia bulímica que cada vez mais depende de fumaça e espelhos da ‘boa-vontade’ de investidores estrangeiros, e uma política externa que desperdiça as reservas de soft power do país, enquanto seu comportamento militarista de incendiário-bombeiro enfrenta resistência cada vez maior.
A crise da pandemia Covid-19 pôs tudo isso a nu, à vista de todos.

Será que, como Todd previu, os EUA terão agora de ceder seu status de superpotência? Ou iniciarão uma grande guerra contra a China, para desviar as atenções e tentar provar alguma sua ainda suposta superioridade?*******