Este “espírito” está em toda a Palestina e tem na Faixa de Gaza sua maior expressão, na atualidade, por isso o chamo de “espírito de Gaza”
Por Yasser Jamil Fayad
Hoje, faz
78 anos da Nakba, a maior tentativa de destruição do povo palestino e também a
marca de nascença do Estado de Israel. Muito já foi escrito sobre o período e o
território da Nakba, a grande catástrofe planejada contra o povo palestino, que
levou a expulsão forçada de seu território milenar de cerca de 700 mil
habitantes – metade da população originária à época. Os livros acadêmicos,
literatura, artigos, entrevistas, documentários, filmes etc. giram
principalmente tendo no horizonte a perspectiva do colonizador, ou seja, da
criação do Estado de Israel. Assim, aquele tempo e espaço são reconstruídos e
representados como um momento de festividade dos judeus sionistas e, mesmo, de
certo alívio para o ocidente político em especial, para a Europa, pois se
tratava de uma “compensação”, a sua moda é claro, pelos horrores da Segunda
Grande Guerra. Realizado como veremos à custa de outros horrores, contra outras
pessoas, que nada tinham a ver com os acontecimentos em Europa – eis à moda
europeia. O significado é restrito, desta forma, a vitória do projeto
colonizador e a nascente de um Estado que, permanentemente, iria impor a todo
aquele espaço geográfico e a sua vizinhança seu domínio, como um pedaço do
ocidente político transposto no coração da região do levante. Os palestinos são
nessas versões, da historiografia oficial dos vencedores, “o negativo”, aquilo
que se quer esconder, ocultar, negligenciar, ignorar… todavia, antes de
jogarmos luz sobre os horrores sofridos, no passado e no presente, pela única população
originária da Palestina, é necessário fazer algumas observações.
A primeira delas diz respeito ao holocausto, na
medida em que se questiona comumente como a vítima, na Europa, tornou-se algoz,
na Palestina, em um período tão curto de tempo? A pista para responder esta
questão está a meu ver em Aimé Césaire, no seu fabuloso “Discurso sobre o
Colonialismo”. Para aquelas pessoas, que fizeram e festejaram a Nakba, o
holocausto não se constituiu em um crime universal, isto é, para toda a
humanidade, mas sim, em um crime particular “inaceitável”. No qual europeus
praticavam métodos horríveis de morte e tortura, aceitáveis e toleráveis apenas
para os povos colonizados (não europeus), contra outros europeus – eis “o”
crime, incluindo os de crença religiosa distinta, como os europeus que
professavam o judaísmo. Os horrores sempre foram “aceitáveis” quando foram
feitos contra outros povos em África, Oceania, Ásia e nas Américas. Desta
forma, podemos compreender como foi possível a passagem do holocausto, na Segunda
Grande Guerra, para a produção deliberada de horrores similares contra os
palestinos na Nakba.
A segunda está intimamente ligada à primeira e
diz respeito a um processo característico da colonização, qual seja, a
desumanização do outro (não europeu) como algo “aceitável” e “desejável”. As
descrições, na história oficial israelense e de muitos dos seus cúmplices,
subtraem do tempo e espaço da Nakba a presença do outro (o palestino) e de seu
sofrimento físico e psíquico. A Palestina é apresentada como um espaço vazio ou
pouco habitado por indivíduos (e não um povo!) que não pertenceriam àquele
território. Sendo comum a acusação de que os palestinos seriam na verdade
egípcios, ou iraquianos ou árabes da Península Arábica, mas não originários da
Palestina… pior ainda, os colonizadores que chegavam da Europa seriam os
“legítimos donos” da terra. Esta negação da dignidade do outro é fundamental
para alicerçar as bases de um projeto colonizador que visa o extermínio físico,
cultural (material e imaterial), arqueológico do povo colonizado. Ao retirar a
humanidade dos palestinos, ao negar sua história naquele território, é possível
praticar os horrores de morte e tortura como os realizados na Nakba.
A Nakba foi uma tentativa de destruição do tecido
social palestino através do desespero ocasionado pelos assassinatos, massacres,
estupros, expulsões, bombardeios, incêndios etc. O que se desejava era o
rompimento das relações de sociabilidade dos palestinos e de sua ligação
ancestral com seu território. Na equação do colonizador, os palestinos se
tornariam uma espécie de “árabe genérico” passível de se difundir e diluir nos
países árabes circunvizinhos. Seria esse, o desejado e planejado, fim do povo
palestino.
Os resultados devastadores que tal evento teve
sobre o tecido social palestino foi tamanho que, no fundo recriou um “novo
palestino”. Os efeitos da diáspora, campos de refugiados e suas condições
precárias de vida, fome, sede, frio, tendas da agência de refugiados da ONU,
desemprego, mortalidade elevada, falta de medicamentos etc. e a vontade de
retomar à Palestina fez com que as novas gerações pós-Nakba saíssem da condição
passiva do sofrimento de seus pais e avós, para uma condição ativa de luta de
libertação nacional. Esse “novo palestino”, muitos sem nunca terem visto a
Palestina, doaram suas vidas a uma legítima e nobre causa. Ajudaram a construir
um legado de luta transmitido para as outras gerações… da qual a Gaza, de hoje,
com uma população de 70% de refugiados, é uma das signatárias dessa herança
como é Jenin, Nablus, Hebron, Qalandiya etc. A Gaza pré-Nakba se transformou e
seu povo mais ainda… reconstruídos pela luta contínua com suas derrotas,
vitórias, sofrimentos etc. Este “espírito” está em toda a Palestina e tem na
Faixa de Gaza sua maior expressão, na atualidade, por isso o chamo de “espírito
de Gaza”.
Todavia é preciso reconhecer que a Nakba gerou
tensões entre as gerações subsequentes de palestinos e aqueles que a viveram –
como ferida aberta produziu mais dores. Alguns jovens do passado não aceitavam
que seus pais tivessem saído da Palestina… “deveriam ter morrido lutando por
ela”. Muitos lutaram e morrem, muitos recuaram e voltaram a lutar logo em
seguida, e é também verdade que muitos daqueles que viveram tal tragédia
planejada achavam, ingenuamente, que aquilo tudo logo passaria e que
retornariam para suas vidas normais. Levaram as chaves das portas na esperança
de logo voltarem, hoje, símbolo da diáspora e desejo de retorno. Ghassan
Kanafani explora parte dessa tensão em seu romance “Retorno a Haifa”, obra em
que os pais são levados pelas circunstâncias dramáticas de violência a deixarem
para trás um filho. O clímax da obra é este reencontro de uma criança criada
por colonos europeus, que se torna soldado israelense, e seus pais biológicos
palestinos. Nesta obra literária que foi adaptada para o teatro, Said,
personagem que fora o pai jovem na Nakba, em um tom de desabafo e angústia (na
versão teatral), diz a sua mulher anos depois: “Não deveríamos ter ido embora”.
Não obstante, o estado de inferioridade militar produzido contra os palestinos,
principalmente pelo Mandato Britânico, à época, mantendo-os com poucas e
obsoletas armas com a finalidade de se tornarem vítimas fáceis, na Nakba, de
grupos judaicos terroristas, bem treinados e equipados, que se transformariam
logo depois no exército regular israelense… a despeito disso tudo… a lição
histórica que ficou foi: nunca sair da Palestina!
Passados anos, os palestinos especialmente da
Faixa de Gaza, sofreram mais uma vez os horrores da morte e da tortura. O
primeiro genocídio com imagens instantâneas, de fotos e vídeos da história da
humanidade, certamente marcou e marcará definitivamente o século XXI. As
explosões, incêndios, corpos mutilados, crianças assassinadas, hospitais e
ambulâncias como alvos, jornalistas assassinados, escolas destruídas, refúgios
de civis bombardeados, massacres de palestinos famintos à procura de comida,
destruição de infraestruturas civis, prisões em massa, uso deliberado de fome e
sede com armas de guerra etc. ao mesmo tempo, com festas de colonos judeus
diante dos massacres aos palestinos, imagens de soldados estuprando civis
palestinos e depois sendo libertados, soldados saqueando as casas palestinas
invadidas, imagens de jovens israelenses ridicularizando as vítimas palestinas
e seus sofrimentos em mídias sociais, as arquibancadas construídas por
israelenses para assistirem com binóculos os bombardeios em Gaza, apoio nas
pesquisas de opinião da população israelense ao genocídio, declarações de altos
cargos do governo israelense em favor do genocídio etc. ainda estão sendo
processados no mundo afora através de livros, filmes, literatura, palestras,
debates etc. Ainda que o impacto concreto de mais este horrendo evento
planejado contra os palestinos não esteja totalmente claro, o que vimos, foi
definitivamente a morte do mito da “eterna vítima”, construído em torno dos
judeus europeus após o holocausto, em simultâneo, da moralidade política
liberal do ocidente e de seus organismos internacionais.
O genocídio de cerca de 65 mil pessoas de forma
direta e estimado entre 150 mil a 300 mil, incluindo as formas indiretas como
falta de medicamentos, cirurgias, diálises renais, quimioterapias, alimentos,
água potável etc., tinha a cristalina intenção de produzir uma nova Nakba.
Diante das formas modernas de guerra e seus instrumentais mais destrutivos
seria novamente possível produzir o desespero através de assassinatos,
massacres, estupros, expulsões, bombardeios, incêndios etc. Conjuntamente, de
levar a fragmentação política interna pela delação e entrega dos guerrilheiros
palestinos, como se os que lutam e resistem fossem “os culpados” e, não, a
colonização judaica. A esperança judaica sionista era levar a população da
Faixa de Gaza a se desfazer e, por fim, abandonar o seu território milenar em
direção ao Egito. Para tanto, a população era deslocada sob bombardeios do
norte da Faixa de Gaza, local mais populoso, para o sul da Faixa de Gaza, na
fronteira com Egito. As cenas de horrores, assassinatos e torturas são
chocantes durante todo esse período, contudo a resposta não foi a almejada pelo
colonizador.
Décadas de lutas, resistências, resiliências,
formações políticas, debates internos, organizações populares, obras literárias
reflexivas (como a de Ghassan Kanafani), poesias de combate, encontros com
outras experiências anticolonialistas, avaliações e reavaliações táticas,
assembleias etc. formaram um povo distinto daquele de 1948. Um povo mais
experimentado, mais consciente de si mesmo, seus aliados e inimigos – um povo
forjado na luta! Os palestinos marcharam mais de 30 km, em direção ao norte da
Faixa de Gaza, território sabidamente sem água, alimentos, moradia, estruturas
hospitalares e de saúde, estruturas educacionais etc., tampouco traíram os seus
guerrilheiros denunciando sua presença ou sabotando a luta. Foi como se Gaza
estivesse respondendo firmemente ao passado da Nakba e ao presente do
genocídio, dizendo, em alto e bom-tom: “Nunca sairemos da Palestina e
continuaremos a lutar!”
Eis o espírito de Gaza, que sintetiza o melhor da
longa história de luta do povo palestino, diante do genocídio sua resposta foi
o da anti-Nakba!
Da certeza de que nunca mais ocorrerá outra
Nakba.
É também este espírito, que se espalha e anima a
luta de tantos outros povos… hoje, ele está também no Irã e Líbano.
https://causaoperaria.org.br/2026/a-anti-nakba-o-espirito-de-gaza-em-resposta-ao-genocidio/
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