domingo, 22 de agosto de 2021

Decodificando o discurso da mentira irradiado pelo grande capital - Série Afeganistão I

Temos visto uma enxurrada de depoimentos, palavras de ordem e análises que somente reproduzem a ideologia pró imperialista e colonialista da moderna democracia burguesa. Chega a incomodar, ouvir ou ler algumas organizações ou pessoas criticarem os EUA por terem, abruptamente, "abandonado" a criminosa ocupação militar ocorrida após o famigerado 11 de setembro de 2001, quando o país asiático foi invadido pelas tropas dos EUA, com o apoio de seus aliados.  Ao fim e ao cabo, essas análises distorcem a realidade e estimulam o incauto crer que a  missão da invasão militar  sempre foi a singela e pura missão de resgatar a liberdade do povo e das mulheres,  a democracia e o bem estar de todos. Nada tão distante da realidade!

Com a intenção de contribuir para o debate sincero, tendo como referência teórica  o marxismo  revolucionário, vamos publicar uma série de artigos que irão nos lembrar da história e da realidade desse povo asiático, vítima, entre tantos outros, dos crimes de guerra, do assassinato de homens, mulheres e crianças, enfim da sanha militar do império  anglo saxão sionista.

Comitê de Solidariedade à luta do povo palestino do RJ


Série Afeganistão

I - O primeiro texto, escrito em agosto/2010, foi extraído do site português Resistir.info: https://www.resistir.info/mur/mur_02ago10.html

 MIGUEL URBANO RODRIGUES E O AFEGANISTÃO

Miguel Urbano Rodrigues – fundador de resistir.info e autor de Nómadas e sedentários na Ásia Central " – conhecia profundamente o Afeganistão, país que visitou quatro vezes até o fim do governo Najibullah. Os seus artigos, que mantêm atualidade, contrastam com a torrente de asneiras acerca do Afeganistão agora debitada pelos media portugueses. 

Crise, luta e esperança

O fim da atual crise de civilização é imprevisível. Inevitável, conduzirá ao desmoronar do capitalismo ou a uma era de barbárie.

Prever datas para o desfecho seria, porém, um exercício de futurologia.

Mas uma certeza se esboça já no horizonte: a derrota espera o imperialismo nas guerras criminosas que os EUA desencadearam para manter e ampliar o sistema de dominação mundial do capital.

Os EUA estão atolados em guerras perdidas no Afeganistão e no Iraque e a sua aliança com o Estado neofascista de Israel é um fator de tensão permanente no Médio Oriente. As estratégias agressivas que desenvolvem na América Latina, na África e na Ásia Oriental são também incompatíveis com as aspirações dos povos ameaçados, contribuindo para o subir da maré antiamericana.

Nesta fase, iniciada com as agressões no Médio Oriente e Ásia Central, o imperialismo estadunidenses encontrou situações históricas muito diferentes da que precedeu o seu envolvimento no Vietnam e a humilhante derrota que ali sofreu. Nos EUA somente uma minoria percebeu que a guerra estava perdida quando Giap desfechou a ofensiva do Tet. A resposta de Johnson e Kissinger, cedendo aos generais do Pentágono, foi a ampliação da escalada. A agressão alastrou para o Laos e Washington enviou mais tropas para a fornalha vietnamita, semeando a morte e a devastação no Sudeste Asiático.

Transcorreram anos até à retirada dos EUA. Os povos foram lentos a compreender que o desfecho da trágica agressão ao Vietnam era o prólogo de uma crise que significou a perda da hegemonia que Washington exercia sobre a economia do Ocidente desde o final da II Guerra. Nada foi igual desde então.

Mas o establishment norte-americano não extraiu as lições implícitas no fracasso das guerras da Coreia e do Vietnam. A estratégia foi reformulada, mas a ambição imperial permaneceu, assumindo novas formas.

O cenário das agressões adquiriu proporções planetárias a partir do desaparecimento da União Soviética.

A primeira guerra do Golfo foi decidida no final da presidência de George Bush pai perante a passividade da URSS, prestes a desintegrar-se. Washington proclamou então que a humanidade havia entrado numa era de paz permanente, sob a égide dos EUA, garantes da Nova Ordem Mundial. Um obscuro epígono do capitalismo, Francis Fukuyama, saudou a morte do comunismo e anunciou o "Fim da História", apontando o neoliberalismo como a ideologia para a eternidade.

O desmentido aos profetas imperiais não tardou.

Quando as torres do Word Trade Center desabaram, o mundo entrou numa fase de turbulências anunciatórias de uma profunda crise de civilização. Após o 11 de Setembro de 2001, Bush filho, alegando necessidade de uma "cruzada contra o terrorismo", e afirmando que Deus estava com os EUA, invadiu o Afeganistão, semeando a morte a destruição naquele remoto país da Ásia Central.

Depois chegou a segunda guerra iraquiana, iniciada à revelia do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A terra milenária da Mesopotâmia foi ocupada, os seus museus saqueados, o seu petróleo e gás entregues às petrolíferas dos EUA, dezenas de milhares de iraquianos chacinados.

Autoproclamando-se nação predestinada, com vocação para redimir a humanidade dos seus pecados, os EUA, sob a batuta da extrema-direita republicana, passaram a atuar como um Estado terrorista, disseminando o terrorismo pelo planeta.

Essa trágica situação somente foi possível pela cumplicidade da União Europeia, do Japão e do Canadá, estados ditos civilizados. Com o seu aval ao establishment bushiano abriram as portas à barbárie.

A eleição de um negro para a Presidência dos EUA gerou a ilusão de que o pesadelo iria findar. Mas Barack Obama, que chegou à Casa Branca com o apoio entusiástico do grande capital, mudou o discurso, mas manteve a politica imperialista. Pior, agravou-a.

O PÂNTANO AFEGÃO

Admiradores do Presidente norte-americano afirmam que ele é um humanista, vítima de uma engrenagem que o instrumentaliza. Mas a defesa que dele fazem não convence.

O Prémio Nobel da Paz tomou decisões que contribuíram para aprofundar a crise mundial. No plano interno a sua política tem sido, no fundamental, de capitulação perante as exigências do grande capital. Significativamente, o seu secretário do Tesouro, Geithner é um político que goza da confiança total de Wall Street.

No terreno internacional, o Presidente aumentou muito o orçamento do Pentágono, pediu ao Congresso verbas colossais para as guerras asiáticas, enviou mais 30.000 militares para o Afeganistão, e faz da vitória nessa guerra uma prioridade da sua politica exterior.

Entretanto, acumula derrotas no teatro afegão. A ofensiva no Helmand foi um fracasso; a de Kandahar foi sucessivamente adiada.

A divulgação dos documentos secretos oferecidos pela WikiLeaks ao NY Times, ao Guardian e ao Der Spiegel instalou o pânico na Casa Branca, e o inquérito do Pentágono sobre a fuga de informações classificadas abalou fortemente a confiança dos americanos no sistema de segurança do Departamento de Defesa.

Em declarações recentes, Julian Assange, o australiano que criou o WikiLeaks, revelou que crimes cometidos pelo exército dos EUA excedem em horror os massacres do Vietnam. A chamada Força Tarefa Conjunta 373 tem por missão abater secretamente chefes talibãs e elementos suspeitos de pertencer à Al Qaeda.

Grupos de matadores especiais intitulados Kia são responsáveis pelo assassínio de centenas de civis em ataques cujas vítimas são designadas nos relatórios como "mortos em ações".

O rol dos crimes das tropas de ocupação da NATO também ocuparia muitas páginas. A chacina de Kunduz, da responsabilidade do contingente alemão, abalou o governo da chanceler Merkel, mas foi apenas uma das muitas matanças de civis cometidas pelas tropas de ocupação.

Julian Assange cita como exemplo das atrocidades dos aliados o bombardeamento de uma aldeia por uma força polaca. Dezenas de pessoas ali reunidas para festejar um casamento morreram num ato de retaliação concebido com crueldade.

Rotineiramente, o alto comando norte-americano promove inquéritos nesses casos para "apurar responsabilidades". Mas ninguém é punido.

Hamid Karzai, o presidente fantoche, protesta e pede providências, mas a indignação é simulada.

Milhares de civis nas aldeias da fronteira paquistanesa foram mortos pelos bombardeamentos realizados pelos drones – os aviões sem piloto. O atual comandante Supremo, o general Petraeus, define essas "missões" assassinas como indispensáveis ao êxito da nova estratégia de luta "contra o terrorismo"

FARSA DRAMÁTICA

Hillary Clinton, o vice-presidente Joe Binden e James Baker, o secretário da Defesa, têm visitado frequentemente o Afeganistão.

A encenação pouco varia. Deslocam-se para levantar o moral das tropas, dizer lhes que estão a lutar pela pátria, pela liberdade e a democracia contra o terrorismo, que a luta exige grandes sacrifícios, mas que a vitória na guerra afegã é uma certeza.

Todos aproveitam para pedir ao Presidente Karzai que "governe democraticamente", afaste colaboradores que não merecem a confiança dos EUA, e ponha termo à corrupção implantada no país.

Karzai faz promessas, reúne assembleias tribais que lhe aprovam a política e repete que é fundamental negociar com os "talibãs recuperáveis". É ele, chefe da máfia, o primeiro responsável pelo sumiço de milhares de milhões de dólares doados em conferências internacionais para o desenvolvimento e reconstrução do país, destruído pela invasão americana. A realidade não alterou o método. Em Kabul, a última dessas conferências acaba de aprovar mais uns milhares de milhões para "ajudar" o Afeganistão.

Entretanto, a produção de ópio, insignificante à data da invasão, aumentou 90% na última década.

É do domínio público que familiares do presidente mantêm íntimas ligações com o negócio da droga.

Nas suas periódicas visitas ao Paquistão, Hillary Clinton admoesta o presidente Asif Zardari pela insuficiência do esforço de guerra nas áreas tribais do Waziristão na fronteira do Afeganistão. Joe Binden repete-lhe o discurso. Ambos insinuam cumplicidade do Exército com as chefias talibãs.

O Primeiro-ministro britânico Cameron ao visitar o país foi tão longe nas suas críticas que o governo de Islamabad cancelou uma visita a Londres do chefe dos serviços de inteligência paquistaneses convidado pelo Intelligence Service.

Crónicas de correspondente europeus em Kabul e declarações de soldados dos EUA regressados da guerra afegã esclarecem que a moral das tropas de combate caiu para um nível muito baixo.

A demissão do general Stanley McChrystal, que criticara numa entrevista o presidente Obama, contribuiu para acentuar o mal-estar no Alto Comando. O general tem um currículo de criminoso, mas as suas opiniões sobre a condução da guerra são partilhadas por muitos oficiais.

Assim vão as coisas na guerra podre do Afeganistão.

No Iraque, a "pacificação" é um mito como demonstra o aumento de mortos em atentados bombistas em Bagdá e na região Norte, controlada pelos kurdos. O discurso de Obama aos veteranos deficientes, no dia 1 de Agosto, sobre a retirada das tropas foi um exercício de hipocrisia, semeado de mentiras e estatísticas falsas.

Na Palestina, Israel continua a bloquear Gaza, bombardeada com frequência, e amplia a construção de casas na Jerusalém árabe e em colonatos na Cisjordânia.

O Irã é atingido por novas sanções, aprovadas pelo Conselho de Segurança, e a CIA promove atentados terroristas no Kuzistão, fronteiro do Iraque, e na província baluche, vizinha do Paquistão.

Na América Latina, Uribe, nas vésperas de ceder a presidência a Juan Manuel Santos, seu filhote político, criou uma crise com a Venezuela bolivariana ao forjar acusações sobre a presença das FARC em território daquele país. Os EUA, que vão instalar sete novas bases militares na Colômbia, aprovaram imediatamente a provocação.


Neste contexto de escalada militar em múltiplas frentes, a crise interna prossegue. O magro crescimento do PIB esconde a realidade.

O número de casas vendidas é o mais baixo dos últimos anos. Milhares de empresas fecham todos os meses. Em cidades outrora famosas pela riqueza, como Detroit e Pittsburg, bairros inteiros estão hoje desabitados. O desemprego alastra. Nas universidades aumenta o ensino elitista. A tão elogiada reforma dos "cuidados de saúde" dificultou mais o acesso de milhões de imigrantes ilegais aos hospitais (v.Fred Goldstein, odiario.info, 22/04/2010).

O setor financeiro, esse prospero. Os gestores dos grandes bancos continuam a receber reformas e prêmios fabulosos. Um desses gigantes, o Wells Fargo, acumulou lucros de milhares de milhões de dólares com a lavagem do dinheiro da droga (v. Cadima, Avante! , 29/07/2010).

O controlo hegemónico do sistema mediático pelo grande capital impede, porém, a humanidade de tomar consciência da profundidade da crise. Nos EUA, polo do sistema, o discurso do Presidente transmite um panorama otimista da situação, anunciando melhores tempos e vitórias imaginárias.

Somente uma minoria de cidadãos, nos EUA, na Europa, e nos demais continentes estão em condições de descodificar o discurso da mentira irradiado pelo grande capital.


Para as forças progressistas ajudar os povos a compreender a complexidade e a extrema gravidade da crise do sistema é, por isso mesmo, uma tarefa revolucionária. Porque essa compreensão é fundamental para o incremento e dinamização da luta dos trabalhadores em cada país contra o projeto de dominação imposto pelo sistema que ameaça mergulhar a humanidade na barbárie.

Vila Nova de Gaia, 02/Agosto/2010

O original encontra-se em http://www.odiario.info/?p=1698

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Cisjordânia: Forças israelenses matam quatro palestinos durante o ataque ao campo de Jenin

Por Shatha Hanaysha - Jenin, Cisjordânia ocupada

A polícia de fronteira israelense apreendeu os corpos de dois palestinos mortos durante uma operação na madrugada que se transformou em um tiroteio

Pelo menos quatro palestinos foram mortos por forças de segurança israelenses na Cisjordânia ocupada na manhã de segunda-feira durante uma operação no campo de refugiados de Jenin que se transformou em um tiroteio, de acordo com testemunhas e fontes médicas, com dois dos corpos confiscados pela polícia de fronteira israelense.

Testemunhas disseram ao Middle East Eye que o tiroteio explodiu alto no campo de refugiados logo após as orações do amanhecer.

"Vimos uma Vespa na entrada do campo", disse uma testemunha. "Por causa da falta de luz não conseguimos ver no início, depois vimos um jovem deitado ao lado dela."

O jovem deitado no chão foi posteriormente declarado morto e identificado como Saleh Omar, 19.

“Quando três jovens tentaram se aproximar dele, a ocupação (forças) atirou contra eles e esvaziou um cartucho inteiro”, acrescentou a testemunha.

As testemunhas oculares disseram que as forças israelenses prenderam os jovens que haviam acabado de ser baleados, apesar de uma equipe de ambulância tentar negociar para que fossem tratados.

Quatro mortos, dois corpos confiscados

O chefe do hospital governamental de Jenin, Wissam Abu Bakr, disse que dois jovens foram declarados mortos pouco depois de chegar ao hospital por volta das 4h30, identificando-os como Raed Abu Saif, 21, que foi baleado no peito, e Omar, que foi baleado na cabeça.

Parentes choram durante o funeral de Raed Abu Saif, 21, e Saleh Omar, 19, no campo de refugiados de Jenin no norte ocupado da Cisjordânia em 16 de agosto de 2021 (MEE / Shatha Hanaysha)
Parentes choram durante o funeral de Raed Abu Saif, 21, e Saleh Omar, 19, no campo de refugiados de Jenin no norte ocupado da Cisjordânia em 16 de agosto de 2021 (MEE / Shatha Hanaysha)

Abu Bakr acrescentou que pelo menos quatro outros palestinos foram hospitalizados devido aos ferimentos sofridos durante a operação. 

Enquanto isso, Muntaser Sammour, chefe da Sociedade de Prisioneiros Palestinos em Jenin, disse que as forças israelenses levaram os corpos de pelo menos dois jovens palestinos mortos na noite de domingo.

Um, identificado como Amjad Iyad Azmi Husseini, foi inicialmente detido na operação, apenas para que as autoridades israelenses dissessem que ele havia morrido mais tarde. Sammour acrescentou que oficiais israelenses também levaram o corpo de Nour el-din Abdullah Jarrar, 19, morto a tiros durante a operação. 

Testemunhas em Jenin disseram que atiradores israelenses atiraram em palestinos dos telhados de dois edifícios.

“As forças de ocupação atiraram (Jarrar), e acho que acertou o pé porque ele caiu no chão”, disse uma testemunha ao MEE. "Então eles dispararam contra ele e não pararam até que ele morreu.

"Depois de alguns momentos, um jovem (Husseini) avançou e tentou arrastar o corpo de Nour, puxou-o por uma distância de talvez um pouco mais de um metro e parou por um segundo, e então as forças o atingiram imediatamente," o testemunha adicionada.

As forças israelenses também impediram que uma ambulância chegasse a Jarrar e Husseini, antes de levar os dois embora, Husseini mais tarde sucumbindo aos ferimentos.

A polícia de fronteira de Israel alegou ter sido atacada durante uma operação de prisão secreta à procura de um palestino suspeito de envolvimento em atividades "terroristas".

"A força policial de fronteira disparou contra os terroristas e os neutralizou. Não houve vítimas entre nossas fileiras", disse um oficial à AFP. As forças israelenses comumente usam o termo "neutralizado" para indicar que alguém foi morto.

Embora Israel tenha retido corpos de palestinos desde 1967, com muitos enterrados nos infames " cemitérios de números ", a prática aumentou exponencialmente desde o Palestinian 2015. 

Em 2020, o gabinete de segurança de Israel decidiu que agora poderia reter os corpos de todos os palestinos assassinados, acusados ​​de realizar ataques contra israelenses, não apenas aqueles que dizem ser membros do Hamas.

A política é contrária ao direito internacional, com a  Convenção de Genebra  declarando que as partes de um conflito armado devem enterrar os mortos umas das outras com honra. 

Bassam al-Saadi, líder do movimento Jihad Islâmica em Jenin, disse ao MEE que o campo de refugiados foi alvo de violentos ataques israelenses desde a Primeira Intifada, mas que as tensões recentes sobre a expansão dos assentamentos estavam “colocando grande pressão nas ruas palestinas ”.

“Esses jovens estavam na flor da juventude”, disse ele sobre os jovens mortos na segunda-feira. “O sangue deles foi misturado com o solo do acampamento de Jenin, e eles juraram que as forças de ocupação não pisariam no solo do acampamento”.

Demonstrações em andamento

Os habitantes de Jenin e da cidade de Beita realizaram várias manifestações nas últimas semanas contra a expansão dos assentamentos, desencadeando violentos confrontos nos quais as forças israelenses mataram vários palestinos e deixaram centenas de feridos.

Moradores de Beita têm protestado desde maio contra o assentamento selvagem de Eviatar instalado nas proximidades sem a permissão oficial das autoridades israelenses.

O assentamento foi evacuado no início de julho, mas as tropas do exército israelense permanecem estacionadas lá enquanto as autoridades deliberam sobre seu destino.

Se o assentamento for aprovado por Israel, seus fundadores terão permissão para fixar residência lá de forma mais permanente.

Os residentes de Beita prometeram continuar sua campanha até que o exército também deixe o posto avançado.

Israel ocupou a Cisjordânia durante a guerra de 1967 e todos os assentamentos judeus lá são considerados ilegais pelo direito internacional.

Quase meio milhão de pessoas vivem em assentamentos israelenses na Cisjordânia, ao lado de 2,8 milhões de palestinos.

https://www.middleeasteye.net/news/west-bank-israel-palestinian-jenin-raid-palestinians-shot-killed



quinta-feira, 3 de junho de 2021

Palestina: Uma trégua tênue


NESTA quinta-feira (03/06), às 18h,
a Web Rádio Censura Livre, em parceria com o Coletivo de Coletivos (Casulo, CCOB, FAS, MMA e GPMC), transmite o evento organizado pelo Centro Cultural Octávio Brandão (CCOB), cujo tema será: Palestina - uma trégua tênue
Convidado(a)s:
➡️ Maristela R Santos - coordenadora do Comitê de Solidariedade à Luta do Povo Palestino e mestre em História, com graduação em Ciênciais Sociais
➡️ Ramez Philippe Maalouf - mestre e doutor em Geografia Humana-USP, especialista em Oriente
Médio
↔️ Júlio Vieira (mediador) - Conselho Diretivo do Centro Cultural Octávio Brandão
Para assistir, acesse aqui 👇🏿
👏🏾 A atividade está inserida no projeto "Quintas Político-Culturais" do Coletivo de Coletivos, em parceria com a Web Rádio Censura Livre, e faz parte da campanha político-solidária e de luta com a arrecadação de contribuições para confecção e distribuição de máscaras e panfletos e doação de alimentos, nas favelas e regiões de periferia do Rio de Janeiro.
*
💻 Você pode ouvir a emissora no aplicativo RadiosNet
@radiocensuralivre
📲 WhatsApp: (21) 9 6553-8908
📧 E-mail: contatoclweb@clwebradio.com
🎙️📼 Ouça o podcast dos programas em: Anchor FM, Spotify e Google Podcast.


https://www.facebook.com/149688861907827/posts/1574357476107618/

terça-feira, 1 de junho de 2021

Palestina tem o direito de se defender

 



Por Sayid Marcos Tenório, para Desacato.info.

O mundo amanhece nesta sexta-feira 21 de maio com as imagens de milhares de palestinos de Gaza e outras cidades da Palestina ocupada comemorando o cessar fogo negociado no dia anterior com a mediação do Egito, entre a resistência palestina e as forças da ocupação. Os 11 dias de ataques causaram enorme destruição e a vida de 232 palestinos, entre eles 65 crianças, 39 mulheres e 17 pessoas idosas. Do lado israelense, 12 mortos, sendo 2 crianças. Certamente muitas pessoas devem se perguntar se há motivos para comemoração.

Relembrando que este conflito de maio de 2021 teve início quando colonos judeus-sionistas de extrema-direita apoiados pelas forças militares da ocupação israelense, passaram a atacar o bairro árabe de Sheikh Jarrah, em Jerusalém, praticando invasões, saques, incendiando terras agrícolas, violência física contra palestinos e apropriações ilegais de propriedades. O ponto crucial se deu quando colonos e militares israelenses invadirem a sagrada Mesquita de Al-Aqsa em pleno período do Ramadã, dispararam bombas no seu interior e deram início a um incêndio com o intuído de destruir a Mesquita, no exato momento em que milhares de palestinos faziam a oração do Maghrib, uma das cinco orações obrigatórias no Islã e que ocorre na hora do pôr do sol.

Como forma de apoio e solidariedade aos palestinos de Jerusalém e de que não há separação entre Jerusalém e Gaza, a resistência palestina sediada em Gaza – Hamas e Jihad Islâmica, passaram a disparar foguetes em direção aos territórios ocupados como forma de apoio aos palestinos de Jerusalém. Alguns desses foguetes atingiram os arredores do Aeroporto de Tel Aviv e a cidade de Haifa, no norte de Israel, o que ensejou uma retaliação de Israel com largas proporções, com destruições e centenas de mortos e feridos.

Duas questões são postas e sobre elas gostaria de opinar. A primeira diz respeito ao direito de cada uma das partes em agir de sua maneira no que diz respeito no conflito. Como sempre, os setores que apoiam o regime de apartheid sionista, tiraram da gaveta o manjado conceito de que Israel tem o direito de se defender, jargão repetido pelo presidente Joe Biden, que veio acompanhado da declaração de que os EUA manteriam a ajuda militar anual a Israel no valor de 3,8 bilhões de dólares.i

Me somo às vozes que afirmam ser legítimo o direito do Hamas e outras forças da resistência palestina de confrontarem por todos os meios os ataques e a violência do ocupante sionista, mesmo sabendo da assimetria de condições militares para o combate e do alto preço a ser pago por suas investidas contra o inimigo.

Os fatos históricos demonstram fartamente que o agressor tem sido Israel, que praticou ataques assimétricos contra Gaza e as forças do Hamas em 2008/2009, 2012, 2014, 2015, 2018 e o deste ano de 2021, como forma de legitimar a ocupação, expandir ilegalmente o território do chamado “Estado judeu” e destruir a infraestrutura de Gaza, gerando o caos como forma de enfraquecer a resistência palestina que luta há 73 anos pela instauração de um Estado palestino soberano e o retorno dos refugiados expulsos desde 1948.

O Hamas quer destruir Israel ou se defende dos ataques?

O Movimento de Resistência Islâmica surgiu com força perante o olhar do Ocidente, após o resultado das eleições para o Conselho Legislativo Palestinoii, realizadas em 25 de janeiro 2006. O resultado foi surpreendente, tendo o Hamas eleito 76 dos 132 deputados, enquanto o seu maior rival, o Fatah de Yasser Arafat e Mahmoud Abbas, conseguiu 43 cadeiras. A pergunta imediata foi: como o Hamas conseguiu vencer as eleições na Palestina, sendo um movimento quase proscrito e considerado “grupo terrorista” pelos EUA e pela União Europeia?

Podemos afirmar que a vitória do Hamas nas eleições de 2005 e a crescente força que detém na sociedade palestina são decorrentes de um longo trabalho social e político de resistência nas condições da Palestina ocupada, que remonta à sua criação em 1987, e não apenas em decorrência à oposição aos Acordos de Oslo, as divisões internas no Fatah e Autoridade Palestina, ou a sua crescente capacidade de enfrentar o inimigo sionista.

No início de 2017 o Hamas aprovou um novo Programa, declarando-se um movimento nacional palestino, islâmico, de libertação e resistência. E que a sua meta é “libertar a Palestina e confrontar o projeto sionista.” Diz também que a Palestina é um território que se estendo do rio Jordão ao Mediterrâneo, como uma unidade territorial integral. Não há nenhuma formulação no Documento de Princípios Gerais e Políticas do Hamas, sobre a extinção, destruição ou negação da existência de Israel, como alardeiam os sionistas e os seus defensores. iii

Na nova formulação programática, o Hamas sustenta que Israel não é um Estado normal. Que se trata de um Estado colonial de colonos judeus askenazes, kazares e sefarditasiv com posicionamentos políticos de extrema-direita e islamofóbicos, trazidos da Europa e criado durante e depois da expulsão em massa e expropriação do povo palestino. Desde 1948 até os dias atuais, milhões de palestinos continuam sendo vítimas de ocupação, exílio e dispersão. Para o Hamas, reconhecer Israel efetivamente significaria aceitar o que fizeram ao povo palestino e legitimar todas as reivindicações e mitos sionistas sobre os quais se assenta a criação de Israel.

As agressões de Israel contra a Palestina ocupada que acompanhamos neste mês de maio são parte do projeto colonial europeu denominado pelos palestinos como Nakba, palavra árabe que significa catástrofe, para designar os eventos sinistros que se sucederam após a fundação do chamado estado judeu de Israel, em 15 de maio de 1948.

Não bastasse a expulsões e desenraizamento de mais de 750 mil palestinos, a destruição de 400 vilas e aldeias, após os eventos de maio de 1948, o recém-criado “Estado judeu” passou a deter 78% da Palestina histórica, restando apenas a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza. Lembremos que em novembro de 1947, a ONU de maneira ilegal e injusta autorizou a partilha da Palestina em dois territórios para permitir a criação de um estado judeu.v Posteriormente a agressão dos seis dias em 1967, Israel avançou sobre os 22% restantes. Daí em diante, o projeto de colonização não parou mais e o seu objetivo final e? a completa desenraizac?a?o e destruição da Palestina.

No que diz respeito a atuação das Forças de Defesa de Israel (IDF na sigla em inglês) nos conflitos mencionados, é gritante a semelhança com os acontecimentos de 1948. Com a diferença atual de que o jovem palestino que enfrentava os tanques do ocupante atirando pedras, responde agora lançando mísseis de precisão, como o Ayyash 250-K, desenvolvidos e fabricados pelo Hamas, graças a assistência do chamado eixo da resistência, frente de luta anti-imperialista formado pelo Irã, Hezbollah libanês, Síria e forças da resistência iraquiana.

Tenho sido questionado por várias pessoas, reclamando de uma suposta incapacidade dos palestinos em negociar com o regime de ocupação, com a tola ilusão de que isso diminuiria a violência de Israel contra palestinos e frearia a expansão da ocupação. No que respondo: de que adianta os palestinos aceitarem novos acordos, como os ineficazes Acordos de Oslo em 1993, se Israel simplesmente os ignora e não os cumpre?

De que adiantam novas decisões chanceladas por organismos internacionais, se elas são obstinadas e ilegalmente ignoradas pelos sionistas? Israel age como se estivesse acima da lei e de toda a comunidade internacional. Vive de acordo com a sua lei da forc?a, onde o mais forte consegue o que quer e passa por cima dos mais fracos, impunemente.

O que resta às forças da resistência palestinas fazer diante do desejo avassalador de um povo oprimido e usurpado há tantas décadas, que continua firma na luta pelo respeito aos seus mais legítimos direitos?

O povo palestino tem o legítimo direito de existir e de resistir a ocupação sionista, ao apartheid e a? limpeza étnica, com todas as medidas e métodos possíveis. É totalmente legítima a reação da resistência palestina diante das agressões de Israel, tendo como forças mais destacadas o Hamas e a Jihad Islâmicavi. Essas reações da resistência estão em consonância com a Carta das Nações Unidasvii e o direito internacional, que asseguram os povos oprimidos o legítimo direito de defesa por todos os meios, sejam pedras ou mísseis, como foi no Vietnam, na Argélia, no Sahara Ocidental, no Iêmen ou na Palestina.

i Informação disponível em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57141776. Acesso em 17/5/2021.

ii O Conselho Legislativo Palestino é o Poder Legislativo da Autoridade Palestina (AP). Foi criado em 1995 como resultado do Acordo do Oslo II. É um órgão unicameral que inicialmente era composto por 132 membros, que são eleitos num sistema misto que envolve o voto proporcional e o majoritário em 16 distritos eleitorais da Cisjordânia e Faixa de Gaza. A última eleição foi realizada em 2006, quando o Hamas elegeu a maior bancada.

iii TENÓRIO, Sayid Marcos. Palestina: do mito da terra prometido à terra da resistência. 1ª Ed. – São Paulo : Anita Garibaldi, IBRASPAL, 2019.

iv BISHARAT, Rasem Shaban Mohama. A história dos Khazares judeus. Portal Brasil de Fato. Disponível em: https://www.diarioliberdade.org/mundo/antifascismo-e-anti-racismo/30577-a-hist%C3%B3ria-dos-khazares-judeus.html. Acesso em: 17/5/ 2021.

v TENÓRIO, 2019. Pag 115.

vi A Jihad Islâmica foi fundada em 1981 por por Fathi Shaqaqi, Abd Al Aziz Awda e estudantes da Universidade Islâmica de Gaza, embora o nome tenha sido formalmente adotado em 1987. Surgiu através da rede da Irmandade Muçulmana na Palestina, mas se transformou em uma organização distinta, influenciada pela Revolução Islâmica do Irã.

vii A Carta das Nações Unidas é o documento fundacional da ONU e foi assinada por 50 países em São Francisco, em 26 de junho de 1945. Disponível em https://brasil.un.org/pt-br/91220-carta-das-nacoes-unidas. Acesso em: 17/5/ 2021

Sayid Marcos Tenório é historiador, Vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (Anita Garibaldi/Ibgraspal, 2019)

http://desacato.info/palestina-tem-o-direito-de-se-defender-por-sayid-marcos-tenorio/

NAKBA: o povo palestino continuará resistindo

 

Por Sayid Marcos Tenório

Estamos assistindo estarrecidos a escalada de violência, bombardeios com destruição e mortes por parte de Israel nos territórios palestinos ocupados. As agressões do ocupante sionista que vêm ocorrendo neste mês maio de 2021 é parte da Nakba, palavra árabe que significa tragédia, para designar os eventos sinistros que se sucederam após a fundação do chamado estado judeu de Israel, em 15 de maio de 1948.

Nos dias que se seguiram ao anúncio da criação do “Estado judeu”, mais de 700 mil palestinos foram expulsos de suas casas, mais de 200 vilarejos foram ocupados, saqueados e destruídos e inúmeras cidades esvaziadas.

Quando a primeira Nakba foi concluída pelas forças sionistas, o novo estado de Israel compreendia 78% da Palestina histórica, restando apenas a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza, que estavam sob o controle da Jordânia e do Egito, respectivamente. Na agressão de 1967, Israel avançou sobre os 22% restantes e a colonização começou logo em seguida e não parou mais e o seu objetivo final e? a completa desenraizac?a?o e destruição da Palestina.

É gritante a simetria dos acontecimentos de 1948 com o que estamos assistindo atualmente na cidade sagrada de Jerusalém, onde colonos judeus-sionistas de extrema-direita, apoiados pelas forças militares da ocupação estão atacando o Bairro Sheikh Jarrah, e praticando invasões, saques, incendiando terras agrícolas, violência e apropriações ilegais de propriedades.

Uma das cenas mais dantescas foi a dos colonos judeus-sionistas racistas atacando e jogando bombas no interior da sala de oração lotada de palestinos na Mesquita Al-Aqsa, um local sagrado para mais de 2 bilhões de muçulmanos em todo o mundo e em pleno período do sagrado mês do Ramadã.

Nesta situação de permanente agressões, o povo palestino não tem escolha a não ser resistir a? ocupação e as investidas opressivas contra a terra palestina, seu povo, recursos e lugares sagrados. Porém, esperança dos palestinos na vitória cresce a cada agressão. Já é possível notar que o equilíbrio de forças mudou. Houve um dia em que o jovem palestino se defendia atirando pedras. Hoje, responde ao inimigo lançando mísseis de precisão, como o Ayyash 250-K, desenvolvidos e fabricados pela resistência graças a assistência do chamado eixo da resistência, frente de luta anti-imperialista formado pelo Irã, Hezbollah libanês, Síria e forças da resistência iraquiana.

Apesar das diferenças de condições militares com a enorme superioridade israelense, o inimigo sionista fica mais fraco a cada ano. Hoje sabe-se que o exército que se apresentava como um “exército nunca derrotado”, não passa de um exército que não verá mais a cor de vitória. Sobretudo após as experiências da Guerra dos 33 Dias no Líbano e das guerras recentes com enfrentamentos diretos da resistência em Gaza.

Como é notório, os crimes de Israel são acobertados pelos Estados Unidos, que lhes fornecem apoio político, dinheiro e armas para matar palestinos. Nos Estados Unidos entra governo e sai governo e a política em relação a Israel é sempre a mesma. Após as recentes agressões o “democrata” Joe Biden, como fiel representante do lobby judaico das armas e bancos, apressou-se em declarar que Israel tem o direito de se defender. Certamente sugerindo que os palestinos não têm o mesmo direito, porque para o imperialismo os palestinos não têm direito algum.

No entanto, e apesar das constantes agressões e violações de Israel e mesmo sabendo que resistir ao imperialismo e ao sionismo tem um elevado custo do ponto de vista humano, social e econômico, o povo palestino continua resistindo bravamente para proteger suas terras e seus ancestrais. A luta por Jerusalém será até a vitória definitiva, que é a conquista da Palestina Livre, do Rio ao Mar.

O povo palestino tem o direito legítimo de existir e de resistir a ocupação sionista, ao apartheid e a? limpeza ética, com todas as medidas e métodos possíveis. É legítima a reação da resistência de Gaza, tendo à frente o Movimento de Resistência Islâmica – HAMAS e a Jihad Islâmica diante das agressões de Israel. Essa reação nada mais é do que a aplicação prática da Carta das Nações Unidas e do direito internacional que asseguram os povos oprimidos reagir por todos os meios. Assim foi no Vietnam, assim está sendo na Palestina, na Síria, no Iraque e no Iêmen.

O respeito a? justiça exige que se cumpra com o direito ao Estado palestino totalmente soberano e independente, com Jerusalém sua capital eterna e ecumênica. Só haverá paz quando estes preceitos forem atendidos, com o direito de regresso dos refugiados, a compensação e a permanência de todos na terra palestina, pondo fim a doença do sionismo que ceifou a vida, as terras, as casas e os sonhos de milhões de homens e mulheres na Palestina.

Seria louvável que as pessoas que se manifestaram estarrecidas nas redes sociais com os crimes de ódio racista nos Estados Unidos e as manifestações do Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), e igualmente com a deplorável operação policial na Favela do Jacarezinho, que resultou no assassinato de 28 pessoas, observassem as muitas semelhanças entre o cotidiano das favelas do Rio de Janeiro com a Palestina, por exemplo, na forma dos assassinatos, nas escolas fechadas, no desemprego, no medo, nas invasões e demolições de casas, na negação do direito de ir e vir, além de tantos outros problemas.

Sayid Marcos Tenório é historiador e Vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (IBRASPAL). É autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019)

http://desacato.info/nakba-o-povo-palestino-continuara-resistindo-por-sayid-marcos-tenorio/

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Israel: este é o começo do fim?

 

Imagem em destaque: Palestinos se protegem enquanto forças israelenses disparam contra manifestantes na fronteira de Gaza em 14 de dezembro de 2018 [Mohammed Asad / Monitor do Oriente Médio]

A atual crise Palestina-Israel se aprofunda e se amplia: o número de vítimas aumenta  , a fumaça dos prédios destruídos enegrece o céu de Gaza, há  tumultos nas ruas de muitas cidades israelenses e da Cisjordânia; A polícia israelense interrompe os  fiéis na mesquita de Al-Aqsa enquanto protege colonos judeus extremistas que gritam slogans genocidas -  “morte aos árabes”  - em marchas inflamadas pelos bairros palestinos.

Subjacente a toda essa erupção de tensões entre o opressor e os oprimidos, estavam as frágeis expulsões legalizadas de seis famílias palestinas que residiam há muito tempo no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental ocupada. Esses despejos resumem a longa provação palestina de perseguição e banimento no que  resta de sua terra natal.

Enquanto esse caos continua, as luzes permaneceram escandalosamente fracas na ONU. Líderes ocidentais pedem calma de ambos os lados, como se ambos compartilhassem a mesma culpa, enquanto perversamente afirmam a unilateralidade do “direito de Israel de se defender” , o que supõe que Israel tenha sido atacado do nada.

Este é apenas mais um ciclo de violência exibindo o confronto insolúvel entre um povo nativo oprimido por um intruso colonial encorajado por um senso de direito exclusivo de colonizador fundamentado na religião?

Ou estamos testemunhando o início do fim da luta de um século do povo palestino para defender sua pátria contra o desdobramento do projeto sionista que roubou suas terras, atropelou sua dignidade e fez com que palestinos vitimizassem estranhos no que havia sido seu lar nacional durante séculos?

Somente o futuro pode desvendar totalmente essa incerteza assustadora. Enquanto isso, podemos esperar mais derramamento de sangue, morte, indignação, dor, injustiça e contínua interferência geopolítica.

O espírito de resistência

Os eventos da semana passada deixaram claro que os palestinos estão resistindo à opressão prolongada com seu espírito de resistência intacto, e se recusam a ser pacificados, independentemente da gravidade das adversidades impostas.

Também somos levados a compreender que a liderança israelense e a maior parte de seu público não estão mais com humor nem mesmo para fingir receptividade a uma alternativa pacífica para a conclusão de seu empreendimento colonial, apesar de sua dependência de uma versão armada de governo do apartheid.

Para os israelenses e grande parte do Ocidente, a narrativa central continua a ser a violência de uma organização “terrorista”, o Hamas, desafiando o estado pacífico de Israel com intenções destrutivas, fazendo com que a resposta israelense pareça razoável. É, portanto, enquadrado não apenas como uma resposta aos foguetes do Hamas, mas também como uma dura lição punitiva para o povo de Gaza, concebida para deter ataques futuros.

Os mísseis e drones israelenses são considerados "defensivos", enquanto os foguetes são atos de "terrorismo", embora os alvos humanos israelenses raramente sejam atingidos, e apesar do fato de ser o armamento israelense que causa 95 por cento da morte e destruição generalizadas entre os mais de dois milhões de civis palestinos em Gaza. Eles foram vítimas de um bloqueio ilegal e paralisante que, desde 2007, trouxe grande sofrimento ao enclave empobrecido, lotado e  traumatizado , com níveis de desemprego acima de 50% .

No confronto atual, o controle de Israel sobre o discurso internacional teve sucesso em descontextualizar a linha do tempo da violência, levando assim aqueles com pouco conhecimento do que induziu a enxurrada de foguetes do Hamas a acreditar falsamente que a destruição em Gaza foi uma reação israelense de retaliação a centenas de foguetes lançados por grupos armados do Hamas e Gaza.

Com abusos de linguagem que podem até surpreender Orwell, o terrorismo de Estado de Israel é reprimido pelo mundo junto com a rejeição da diplomacia de paz do Hamas nos últimos 15 anos, que repetidamente buscou um cessar-fogo permanente e uma coexistência pacífica.

Vitórias simbólicas

Para os palestinos e aqueles em solidariedade com sua luta, Israel conscientemente permitiu que a população subjugada da ocupada Jerusalém Oriental experimentasse uma série de humilhações angustiantes que ocorreram durante o período sagrado das observâncias religiosas muçulmanas no Ramadã, esfregando sal nas feridas abertas recentemente pelo Sheik Despejos de Jarrar. Isso teve o efeito inevitável de refrescar as memórias palestinas de suas experiências definidoras de limpeza étnica dias antes da observância anual da Nakba em 15 de maio.

Isso equivaleu a uma reconstituição metafórica daquele crime massivo de expulsão que acompanhou o estabelecimento de Israel em 1948, que culminou na demolição de várias centenas de aldeias palestinas que sinalizaram uma firme intenção israelense de tornar o banimento permanente.

Ao contrário da África do Sul, que nunca reivindicou ser uma democracia, Israel se legitimou apresentando-se como uma democracia constitucional. Esta decisão de ser uma democracia veio com um alto preço de engano e autoengano, necessitando até hoje de uma luta contínua para fazer o apartheid funcionar para garantir a supremacia judaica enquanto esconde a subjugação palestina.

Por décadas, Israel teve sucesso em esconder essas características do apartheid do mundo porque o legado do Holocausto deu crédito acrítico à narrativa sionista de fornecer santuário para os sobreviventes do pior genocídio conhecido pela humanidade.

Além disso, a presença judaica " estava fazendo o deserto florescer ", ao mesmo tempo que virtualmente apagava as queixas da Palestina, ainda mais desconsideradas por visões hasbara do atraso palestino em contraste com as proezas modernizadoras israelenses e, mais tarde, justapondo uma caricatura política dos dois povos , retratando a adesão judaica aos valores ocidentais em oposição ao abraço palestino do terrorismo.

Desenvolvimentos recentes nos domínios simbólicos da política que controlam o resultado das “ Guerras de Legitimidade ” obtiveram várias vitórias para a luta palestina. O Tribunal Penal Internacional autorizou a investigação da criminalidade israelense na Palestina Ocupada desde 2015, apesar da oposição vigorosa da liderança do governo israelense, totalmente apoiado pelos Estados Unidos. A investigação em Haia, embora prossiga com diligente respeito pelas legalidades envolvidas, não foi abertamente engajada por Israel, mas imediatamente denunciada pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu como “puro anti-semitismo”.

Além disso, as alegações de  apartheid israelense  foram inequivocamente confirmadas em um relatório acadêmico encomendado pela ONU, concluindo que as políticas e práticas israelenses foram concebidas para garantir a subjugação palestina e a dominação judaica. Isso também foi denunciado de forma semelhante pelos líderes israelenses.

Nos últimos meses, tanto a B'Tselem , a principal ONG de direitos humanos de Israel, quanto a Human Rights Watch , publicaram estudos cuidadosamente documentados que chegam à mesma conclusão surpreendente de que Israel realmente administra um regime de apartheid em toda a Palestina histórica, isto é, a Territórios Palestinos Ocupados mais o próprio Israel ( a Palestina histórica).

Embora esses dois desenvolvimentos não aliviem o sofrimento palestino ou os efeitos comportamentais da negação duradoura dos direitos básicos, eles são vitórias simbólicas significativas que endurecem o moral da resistência palestina e fortalecem os laços de solidariedade global. O histórico de lutas contra o colonialismo desde 1945 permite chegar à conclusão de que o lado que ganhar uma guerra de legitimidade acabará por controlar o resultado político, apesar de ser mais fraco militar e diplomaticamente.

'Então você ganha'

O fim do jogo do apartheid sul-africano reforça essa reavaliação da mudança no equilíbrio de forças na luta palestina. Apesar de ter o que parecia ser um controle eficaz e estável da maioria da população africana por meio da implementação de estruturas brutais de apartheid, o regime racista entrou em colapso sob o peso combinado da resistência interna e da pressão internacional.

As pressões externas incluíram uma campanha BDS amplamente endossada, que contou com o apoio da ONU e reveses militares em Angola contra as forças cubanas e de libertação. Israel não é a África do Sul em vários aspectos importantes, mas a combinação de resistência e solidariedade aumentou dramaticamente na semana passada.

Israel já perdeu os principais argumentos legais e morais, quase reconhecendo essa interpretação por sua forma desafiadora de mudar de assunto com acusações imprudentes de anti-semitismo, e está em processo de perder o argumento político.

O próprio senso de vulnerabilidade de Israel a um cenário sul-africano foi exposto por esta tendência crescente de rotular os apoiadores do BDS e críticos severos como "anti-semitas", o que parece, no contexto do presente desenvolvimento, melhor descrito como "um ataque de pânico geopolítico".


Richard Falk é um estudioso de direito internacional e relações internacionais que lecionou na Universidade de Princeton por quarenta anos. Em 2008, ele também foi nomeado pela ONU para um mandato de seis anos como Relator Especial para os Direitos Humanos Palestinos.