terça-feira, 16 de abril de 2019

Os segredos que soubemos graças ao WikiLeaks

A organização revelou presidentes espionados pelos EUA, o manual de torturas do Pentágono, civis assassinados por soldados sorridentes. 

A prisão de Assange é um recado: quem apontar os crimes do poder será duramente castigado

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Desde sua fundação, em 2006, a organização WikiLeaks contribuiu para revelar algumas das atividades mais sombrias levadas a cabo pelas mais altas instâncias do poder político em diversos países.
Através do vazamento anônimo de milhares de documentos, esta rede internacional de ciberativistas, fundada por Julian Assange – detido nessa quinta-feira em Londres – revelou segredos militares, políticos e diplomáticos, gerando notáveis escândalos e denunciando comportamentos não-éticos ou pouco ortodoxos dentro de diferentes organizações de poder.
Espionagem, crimes de guerra, pressões políticas ou diplomáticas, abusos de poder ou más práticas governamentais vieram à tona graças ao trabalho do WikiLeaks.

Vamos relembrar os vazamentos mais importantes realizados por essa organização, alguns dos quais mudaram completamente a percepção de vários acontecimentos na história recente do mundo.

1. Manual do Exercito dos EUA para a prisão de Guantánamo

Em dezembro de 2007, o WikiLeaks publica um manual do Exército dos EUA para os soldados responsáveis pela custódia dos prisioneiros do centro de detenção de Guantánamo.
O texto compila os “procedimentos operacionais padrão” que se aplicam aos internos, que incluem medidas como o uso de cachorros com a intenção de intimidá-los e a restrição de acesso ao local a membros do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
O aumento de problemas de saúde mental e o número de suicídios entre os presos também aparecem compilados no documento.

2. Ataque aéreo a civis em Bagdá

No dia 5 de abril de 2010, a organização comandada por Assange vazou um arrepiante vídeo que mostra como um grupo de civis são atacados com potentes armas de fogo a partir de um helicóptero estadunidense AH-64 Apache, no dia 12 de julho de 2007.
 Os soldados a bordo da aeronave, cujas conversas – muitas vezes, joviais – se escutam na gravação vazada, atiraram contra um grupo de iraquianos, matando 12 deles, entre os quais se encontravam dois colaboradores da agência de notícias Reuters: Namir Noor-Eldeen e Saeed Chmagh.

3. O “diário da guerra do Afeganistão”

Foi o maior vazamento de documentos sigilosos na história militar estadunidense até o momento e se constitui como um grande marco no desempenho informativo do WikiLeaks: no dia 25 de julho de 2010, a organização dirigida por Assange publica 90 mil páginas, divididas em mais de 100 categorias, que coletam diversos incidentes e relatórios sobre a guerra do Afeganistão.
Os documentos revelaram, por exemplo, que os EUA ocultaram brutais massacres cometidos pelos talibãs (que resultaram em duas mil vítimas civis) e os casos de 195 pessoas desarmadas que morreram nas mãos da força de coalização, resultado de disparos motivados pelo medo de que fossem terroristas suicidas. A busca por Osama Bin Laden também está extensamente documentada nesses relatórios.
Soldados estadunidenses nas imediações do aeroporto de Kandahar (Afeganistão), 27 de dezembro de 2001. / Earnie Grafton / Reuters
  WikiLeaks enviou, simultaneamente, esta informação ao jornal estadunidense The New Yortk Times, ao britânico The Guardian e ao Der Spiegel, na Alemanha.

4. Os registros da guerra do Iraque

WikiLeaks supera sua própria façanha apenas três meses depois: no dia 22 de outubro de 2010, vaza quase 400 mil documentos sobre a guerra do Iraque, cujo conteúdo horroriza o mundo.
Esse vazamento massivo inclui uma recontagem de vítimas, elaborada pelo próprio Exército dos Estados Unidos, enumera os falecidos no Iraque em 109.032 e reconhece que cerca de 60% deles são civis. Os documentos também revelam vários casos de soldados estadunidense que mataram civis em postos de controle.
Soldados estadunidenses tomam posição em uma rua de Bagdá (Iraque), 9 de abril de 2003. / Reuters
Outro aspecto escandaloso descoberto nessa impressionante remessa de documentos é a constatação de que os EUA tolerou abusos, torturas, estupros e até execuções sumárias de civis cometidas por forças iraquianas aliadas, as quais supervisionavam e treinavam. 

5. O “cabogate”: documentos da diplomacia estadunidenses

No dia 28 de novembro de 2010, o WikiLeaks volta a escandalizar o mundo com o vazamento de mais de 250 mil mensagens do Departamento de Estado dos EUA, que revelam episódios inéditos ocorridos em várias pontos conflituosos do mundo, assim como dados de grande relevância que evidenciam uma parte considerável da política exterior estadunidense, assim como suas obsessões, seus mecanismo e suas várias fontes.
Trata-se de umas das revelações mais profundas e importantes feitas pelo WikiLeaks, na medida em que contribui para a compreensão, por parte dos cidadãos, de como os Estados Unidos conduz de forma sombria suas relações internacionais.
Esses documentos contêm comentários e relatórios elaborados por diferentes funcionários da diplomacia estadunidense, em certas ocasiões escritos com uma linguagem muito sincera, e se referindo a personalidade do mundo todo. Também revelam conteúdos de conversas e reuniões de funcionários de alto escalão, e até relatam desconhecidas atividades que se relacionam diretamente com espionagem.
Em alguns casos, a própria natureza das expressões usadas nessas mensagens pôs em perigo as relações dos Estados Unidos com alguns de seus aliados; outras vezes, chegaram a dificultar certas estratégias estadunidenses na política exterior, como a aproximação com a Rússia ou com certos países árabes.
A documentação foi enviada do servidor do WikiLeaks aos jornais El País (Espanha), Le Monde(França), Der Spiegel (Alemanhã), The Guardian (Reino Unido) e The New York Times (EUA).

6. Os arquivos de Guantánamo

No dia 25 de abril de 2011, o WikiLeaks vazou quase 800 documentos secretos do Pentágono que revelavam que o governo dos EUA utilizou o centro de detenção de Guantánamo de forma ilegal para obter informações de seus presos, muitos do quais não tinham qualquer vínculo com o terrorismo.
Foram 4.759 páginas datadas entre 2002 e 2009, assinadas pelos mais altos comandos da Força Conjunta da base e dirigidas ao Comando Sul do Departamento de Defesa em Miami. Entre eles, havia dossiês confidenciais, entrevistas e memoriais internos que refletiam, por exemplo, o frágil estado mental de alguns presos, como o de uma criança de 14 anos ou de um idoso de 89.
Os EUA chegaram a admitir nesses relatórios que 83 dos 779 reclusos não ofereciam nenhum risco para a segurança da nação e, quanto a outros 77, reconheceu que é “improvável” que fossem uma ameça a seu pais ou para algum de seus aliados. O próprio Exército norte-americano estimou que aproximadamente 20% dos presos foram levados para a prisão de forma arbitrária.

7. Políticas de detenção em Guantánamo e Abu Ghraib

No dia 23 de outubro de 2012, o WikiLeaks revela em abundante documentação – mais de 100 relatórios – detalhes sobre os procedimentos empregados por autoridades militares estadunidenses contra prisioneiros sob sua custódia nas prisões de Abu Gharaib (Iraque) e, de novo, em Guantánamo (Cuba).
Soldados estadunidenses introduzem um prisioneiro nas instalações de Guantánamo (Cuba). 10 de junho de 2008. / Reuters
No dia em que fizeram esse vazamento, os EUA estavam na reta final da campanha eleitoral, próximo das eleições, previstas para o dia 6 de novembro desse mesmo ano, na qual sairia reelegido Barack Obama.
Assange, já recluso na embaixada do Equador, declarou que esses documentos “mostram a anatomia do mostro de detenção criado após o 11 de setembro, a criação de um espaço sombrio em que a lei e os direitos não existem, onde as pessoas podem ser presas sem deixar rastro somente pela vontade do Departamento de Defesa dos EUA”.

8. Espionagem na Europa

Em junho de 2015, o WikiLeaks publica cinco relatórios da Agência de Seguranção Nacional estadunidense (NSA, em sua sigla em inglês), elaborados a partir das comunicações interceptadas de ex-mandatários franceses como Jacques Chirac e Nicolas Sarkosy, assim como do então presidente Francois Hollande.
Os ciberativistas asseguravam que o “EUA implementaram uma política de espionagem econômica contra a França durante uma década”, por meio de mecanismos como a “interceptação de todos os contratos corporativos franceses e de negociações com valores superiores a 200 milhões de dólares”. Entre as comunicações espionadas pela agência norte-americana, havia discussões sobre a crise financeira na Grécia (inclusive sobre a possibilidade de que o país heleno abandonasse a União Europeia) ou conversas sobre as lideranças da Eurozona, assim como as relações que mantinham o governo de Hollande com o da chanceler Angela Merkel.

9. Espionagem a Netanyahu, Berlusconi e Ban Ki-moon

Apenas 7 meses mais tarde, em fevereiro de 2016, o WikiLeaks revelava novos documentos com mais ações de espionagem feitas pela NSA contra líderes mundiais. Nesse caso, os espionados foram o primeiro-ministro israelense, Benjamim Netanyahu, o ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi e o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.
A agência norte-americana realizou escutas secretas em um encontro entre Ban Ki-monn e Angela Merkel, que também aparece nesses relatórios. Os documentos também apontaram uma conversa entre Netanyahu e Berlusconi e uma reunião privada entre Berlusconi, Merkel e o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy.
Nicolas Sarkozy, Angela Merkel e Silvio Berlusconi em uma reunião do G-20 em Cannes (França), em 3 de novembro de 2011. / Dylan Martinez / Reuters
Os relatórios da NSA reproduzem fielmente o conteúdo desses encontros. Asim, Merkel e Ban conversaram sobre a luta contra as mudanças climáticas; Netanyahu solicita ajuda a Berlusconi para lidar com a administração do presidente Barack Obama; e Sarkozy adverte ao primeiro-ministro italiano sobre os graves perigos que o sistema bancário de seu país enfrenta.

10. O e-mail de Hillary Clinton

No dia 16 de março de 2016, o WikiLeaks publicou um arquivo com mais de 30 mil e-mails recebidos e enviados por Hillary Clinton em seu servidor privado quando desempenhava o cargo de secretária de Estado. Os documentos abarcam um período compreendido entre o dia 30 de junho até o dia 12 de agosto de 2014.
Entre os vazamentos, se encontram 27 mil e-mails do Comitê Nacional Democrata (CND), que revelaram assuntos tão diversos e relevantes como as manobras de vários membros do Partido ou o fornecimento de armas para os extremistas da Síria, entre muitos outros. Os ciberativistas também divulgaram cerca de 50 mil e-mails de John Podesta, o chefe da campanha presidencial de Hillary Clinton, que expôs uma grande quantidade de informações confidenciais da cúpula do Partido Democrata, que incluía estrategias de campanha, transcrições completas de discursos e algumas disputas internas dentro do partido.
Postado : https://outraspalavras.net/internetemdisputa/os-segredos-que-soubemos-gracas-ao-wikileaks/ 
https://www.rt.com/news/

A prisão de Assange é uma advertência da História

A prisão de Julian Assange pela polícia britânica e no interior da embaixada do Equador tem muitos aspectos verdadeiramente repugnantes, desde a traição de Lenin Moreno às mentiras com que essa violação do direito de asilo tentou justificar-se. 

O crime de Assange é divulgar fatos verdadeiros sobre como se comporta a criminosa elite que hoje comanda a maior parte do mundo. E, com Assange, são criminalizadas a difusão da verdade e a dignidade do jornalismo.

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 Entrever Julian Assange sendo arrastado da embaixada equatoriana em Londres é emblemático do tempo que vivemos. O poder contra o direito. O músculo contra a lei. A indecência contra a coragem. Seis policias maltratam um jornalista doente, cujos olhos piscam face à primeira luz natural em quase sete anos.

Que esse ultraje tenha acontecido no coração de Londres, na terra da Magna Carta, deveria envergonhar e irritar todos os que dizem temer pelas sociedades “democráticas”. Assange é um refugiado político protegido pelo direito internacional, objeto de asilo ao abrigo de um acordo estrito do qual a Grã-Bretanha é signatária. As Nações Unidas clarificaram-no na decisão jurídica do seu Grupo de Trabalho sobre Detenção Arbitrária.

Mas para o diabo com isso. Deixem entrar os rufias. Dirigida pelos quase fascistas da Washington de Trump, em aliança com o equatoriano Lênin Moreno, um mentiroso Judas latino-americano procurando disfarçar o seu rançoso regime, a elite britânica abandonou o seu derradeiro mito imperial: o da honestidade e da justiça.

Imaginem Tony Blair a ser arrastado da sua casa georgiana de muitos milhões de libras em Connaught Square, Londres, algemado, para ser enviado para a enxovia em Haia. Pelos padrões de Nuremberga, o “crime supremo” de Blair é a morte de um milhão de iraquianos. O crime de Assange é o jornalismo: responsabilizar os rapinantes, expor as suas mentiras e capacitar com a verdade as pessoas em todo o mundo.

A chocante prisão de Assange comporta um aviso para todos os que, como Oscar Wilde escreveu, “costuram as sementes do descontentamento [sem as quais] não haveria avanço para a civilização”. O aviso é explícito para os jornalistas. O que aconteceu com o fundador e editor do WikiLeaks pode acontecer consigo num jornal, num estúdio de TV, na rádio, consigo executando um podcast.

O principal atormentador midiático de Assange, o Guardian, um colaborador do Estado secreto, manifestou o seu nervosismo esta semana com um editorial que atingiu novas alturas no servilismo das ratazanas. O The Guardian explorou o trabalho de Assange e do WikiLeaks naquilo que o seu editor anterior chamou de “o maior furo dos últimos 30 anos”. O jornal apropriou-se das revelações do WikiLeaks e reivindicou os elogios e as riquezas que vieram com isso.

Com nem um centavo indo para Julian Assange ou para o WikiLeaks, um elogiado livro do Guardian levou a um lucrativo filme de Hollywood. Os autores do livro, Luke Harding e David Leigh, voltaram-se contra a sua fonte, abusaram dela e revelaram a senha secreta que Assange havia dado ao jornal em sigilo, que fora concebida para proteger um arquivo digital contendo telegramas vazados de embaixadas norte-americanas.

Com Assange retido na embaixada equatoriana, Harding juntou-se à polícia no exterior e regozijou-se no seu blog que “a Scotland Yard pode ser a última a rir”. O The Guardian publicou desde então uma série de falsidades sobre Assange, não menor das quais uma alegação sem qualquer crédito de que um grupo de russos e o homem de Trump, Paul Manafort, tinham visitado Assange na embaixada. Essas reuniões nunca aconteceram; era falso.

Mas o tom agora mudou. “O caso Assange é uma teia moralmente emaranhada”, opinou o jornal. “Ele (Assange) acredita em publicar coisas que não deveriam ser publicadas…Mas trouxe sempre à luz coisas que nunca deveriam ter sido escondidas.

Essas “coisas” são a verdade sobre o modo homicida como os EUA conduzem as suas guerras coloniais, as mentiras do Ministério das Relações Exteriores britânico na sua negação de direitos a gente vulnerável, como os ilhéus de Chagos, a denúncia de Hillary Clinton como apoiante e beneficiária do jihadismo no Médio Oriente, a descrição detalhada de embaixadores norte-americanos sobre como os governos da Síria e da Venezuela poderiam ser derrubados, e muito mais. Está tudo disponível no site do WikiLeaks.

O Guardian está compreensivelmente nervoso. Policias secretos já visitaram o jornal e exigiram e conseguiram a destruição ritual de um disco rígido. Nisto o jornal tem experiência. Em 1983 uma funcionária do Ministério do Exterior, Sarah Tisdall, vazou documentos do governo britânico que mostravam quando chegariam à Europa as armas nucleares de cruzeiro norte-americanas. O Guardian foi regado com elogios.
Quando uma ordem judicial exigiu conhecer a fonte, em vez de o editor ir para a prisão em defesa do princípio fundamental de proteção de uma fonte, Tisdall foi traída, processada e cumpriu seis meses de prisão. Se Assange for extraditado para os EUA por publicar o que o Guardian chama de “coisas” verdadeiras, o que impedirá o atual editor, Katherine Viner, de fazer o mesmo, ou o editor anterior, Alan Rusbridger, ou o prolífico propagandista Luke Harding?

O que impedirá os editores do New York Times e do Washington Post, que também publicaram trechos da verdade com origem no WikiLeaks, e o editor do El Pais na Espanha, e o Der Spiegel na Alemanha e o Sydney Morning Herald na Austrália. A lista é longa.
David McCraw, advogado principal do New York Times, escreveu:

“Penso que a acusação [de Assange] seria um precedente muito mau para os editores… de tudo o que eu sei, ele parece estar na posição clássica de um editor e a lei teria muita dificuldade em distinguir entre o New York Times e o WikiLeaks. ”

Mesmo que os jornalistas que publicaram os vazamentos do WikiLeaks não sejam intimados por um júri norte-americano, a intimidação de Julian Assange e Chelsea Manning já será suficiente. O jornalismo real está a ser abertamente criminalizado por rufias. A dissidência tornou-se um devaneio.

Na Austrália, o atual EUA-embrutecido governo está a processar dois informadores que revelaram que os espiões de Canberra montaram escutas nas reuniões do gabinete do novo governo de Timor-Leste, com o propósito expresso de ludibriar a pequena e empobrecida nação quanto à parte do petróleo e recursos de gás no Mar de Timor que lhe é devida. O julgamento será realizado em segredo. O primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, tem o infame reconhecimento da sua participação na criação de campos de concentração para refugiados nas ilhas do Pacífico de Nauru e Manus, onde crianças se automutilam e se suicidam. Em 2014, Morrison propôs campos de detenção em massa para 30.000 pessoas.

O jornalismo real é o inimigo dessas desgraças. Há uma década, o Ministério da Defesa em Londres produziu um documento secreto que descrevia as três principais ameaças à ordem pública: terroristas, espiões russos e jornalistas investigadores. Esta última era designada como a maior ameaça.

O documento foi vazado para o WikiLeaks, que o publicou. “Não tivemos escolha”, disse-me Assange. “É muito simples. As pessoas têm o direito de saber e o direito de questionar e desafiar o poder. É isso a verdadeira democracia."

E se Assange, Manning e outros da sua linha – se houver outros – forem silenciados e “o direito de saber, questionar e desafiar” for retirado?
Na década de 1970, conheci Leni Riefenstahl, amiga íntima de Adolf Hitler, cujos filmes ajudaram a lançar a maldição nazi sobre a Alemanha.
Ela disse-me que a mensagem nos seus filmes, a propaganda, dependia não de “ordens vindas de cima”, mas daquilo que chamava o “vazio submisso” do público.
“Esse vazio submisso incluiu a burguesia liberal e educada?” Perguntei-lhe.
“É claro”, ela disse, “especialmente a elite…. Quando as pessoas deixam de colocar perguntas sérias, são submissas e maleáveis. Tudo pode acontecer.”
E fez.
O resto, poderia ela ter acrescentado, é história.

ODiario.info - 15 de abril, 2019


Tens o direito de te manteres em silêncio

A prisão de Assange foi um ato de vingança do governo dos EUA que fere o cerne do jornalismo

 Resultado de imagem para Tens o direito de te manteres em silêncio - Resistir.info

Resistir.info - 13 de abril, 2019

O dia 11 de abril de 2019 é uma data que se manterá infame nos anais dos “valores” do Ocidente e da “liberdade de expressão”. A imagem é cruel. Um jornalista algemado e arrastado à força, publicamente, do interior duma embaixada, agarrado ao livro de Gore Vidal sobre a História do Estado de Segurança Nacional dos EUA .

O mecanismo é brutal. Julian Assange, cofundador da WikiLeaks, foi detido porque os EUA assim o exigiam desde o governo britânico Tory que, por sua vez, declarou discretamente não ter pressionado o Equador a revogar o pedido de asilo de Assange.
Os EUA esquecem, como por magia, os problemas financeiros do Equador, ordenando ao FMI que proceda ao empréstimo de uns providenciais 4,2 mil milhões de dólares . Imediatamente depois disso, os diplomatas equatorianos “convidam” a Polícia Metropolitana de Londres a entrar na sua embaixada e prender o seu hóspede de longa data.

Vamos diretos ao assunto. Julian Assange não é um cidadão norte-americano, é australiano. A WikiLeaks não é uma organização de media com sede nos EUA. Se o governo dos EUA conseguir extraditar Assange, processá-lo e encarcerá-lo, legitimará o seu direito de perseguir quem quer que seja, de qualquer modo, em qualquer parte, em qualquer altura.
 Podem chamar-lhe o Assassínio do Jornalismo

Arranjem-me essa password

O processo do Departamento de Justiça dos EUA contra Assange é, no mínimo, inconsistente. Na essência, tem tudo a ver com a divulgação de informações confidenciais em 2010 – 90 mil ficheiros militares sobre o Afeganistão, 400 mil ficheiros sobre o Iraque e 250 mil mensagens diplomáticas espalhadas por todo o planeta.

Assange é acusado de ajudar Chelsea Manning, o antigo analista de informações do exército dos EUA, a obter esses documentos. Mas ainda é mais sofisticado. Também é acusado de “encorajar” Manning a reunir mais informações.

Não há outra forma de interpretar isso. Isto representa, sem quaisquer entraves, uma total criminalização da prática jornalística
De momento, Assange é acusado de “conspiração para a prática de intrusão informática”. A acusação alega que Assange ajudou Manning a decifrar uma password nos computadores do Pentágono ligados à Rede de Protocolos Secretos da Internet (SIPRNet).
Registos de conversa, em março de 2010, obtidos pelo governo dos EUA, Manning fala com alguém chamado “Ox” ou, em alternativa, “associação de imprensa”. O Departamento de Justiça está convencido de que este interlocutor é Assange. Mas tem de o provar, sem sombra de dúvida.

Manning e essa pessoa, alegadamente Assange, travam “diálogos”. “Durante uma conversa, Manning disse a Assange que “depois deste carregamento, é tudo o que tenho”. A que Assange respondeu: “Segundo a minha experiência, os olhos curiosos nunca deixam de ver”‘.

Nada disto faz sentido. As empresas de media publicam rotineiramente fugas ilegais de informações confidenciais. Manning ofereceu os documentos que já havia descarregado para o New York Times e o Washington Post – e que foram recusados. Só depois disso se aproximou a WikiLeaks.

A alegação de que Assange tentou ajudar a decifrar uma password de computador tem sido avançada desde 2010. O Departamento de Justiça, no tempo de Obama, recusou-se a aceitá-la, consciente do que isso significaria em termos de possível ilegalização do jornalismo de investigação.
Não admira que as empresas de media norte-americanas, privadas de um importante furo jornalístico, tenham começado a difamar a WikiLeaks como um agente russo.

A opção nuclear

O grande Daniel Ellsberg – dos Documentos do Pentágono – já havia advertido em 2017: “Obama abriu a campanha legal contra a imprensa, perseguindo as raízes das notícias investigativas sobre segurança nacional – as fontes – e Trump vai perseguir os investigadores (e os seus patrões, os editores). Para usar uma metáfora, a acusação de Assange é um “primeiro uso” da “opção nuclear” contra a Primeira Emenda, de proteção duma imprensa livre”.

As atuais acusações do Departamento de Justiça – basicamente, o roubo de uma password de computador – são apenas a ponta da avalanche. Pelo menos por enquanto, a publicação não é um crime. Mas, se for extraditado, Assange pode ser acusado adicionalmente por conspirações extra e até violação da Lei de Espionagem de 1917.

Mesmo que ainda tenham de obter o consentimento de Londres para aumentar as acusações, não faltam advogados no Departamento de Justiça para arranjar subterfúgios e fabricar um crime a partir do nada.

Jennifer Robinson, a competente advogada de Assange, sublinhou corretamente que a detenção dele é “uma questão de liberdade de expressão” porque “trata-se das formas como os jornalistas podem comunicar com as suas fontes”. O inestimável Ray McGovern, que sabe uma ou duas coisas sobre a comunidade de informações dos EUA, evocou um requiem pelo quarto estado .
O contexto total da detenção de Assange surge em plena luz quando examinado na sequência de Chelsea Manning ter passado um mês em prisão solitária numa cadeia da Virgínia por se recusar a denunciar Assange perante um grande júri. Não restam dúvidas de que a tática do Departamento da Justiça é fazer Manning ceder através de quaisquer meios disponíveis.

Esta é a equipa legal de Manning : “A acusação contra Julian Assange, hoje revelada, foi obtida um ano antes de Chelsea ter comparecido perante o grande júri e ter-se recusado a prestar testemunho. O facto de esta acusação já existir há mais de um ano confirma o que a equipa legal de Chelsea e a própria Chelsea têm dito desde que ela recebeu a primeira intimação para comparecer perante um Grande Júri federal no distrito leste de Virgínia – ou seja, que obrigando Chelsea a depor seria uma duplicação da prova já na posse do grande júri e não seria necessária para os advogados dos EUA obterem uma acusação de Assange”.

O Estado Profundo ataca

A bola agora está do lado de um tribunal britânico. Assange certamente vai permanecer na prisão durante uns meses, sem fiança, enquanto decorre o dossiê dos EUA para a extradição. Provavelmente, o Departamento da Justiça tem conversado com Londres sobre como um juiz “correto” pode proferir o resultado desejado.
Assange limitou-se a publicar. Não revelou absolutamente nada. O New York Times, tal como o Guardian, também publicou o que Manning descobriu. Collateral Murder , entre dezenas de milhares de peças de provas, devia estar sempre na primeira linha de todo o debate – trata-se dos crimes de guerra praticados no Afeganistão e no Iraque.

Portanto, não admira que o Departamento de Estado dos EUA não perdoe a Manning e a Assange, mesmo que o New York Times, em mais uma ocasião de descarados critérios duplos, possa escapar. O drama necessitará por fim de ser encerrado no distrito leste de Virgínia, porque os aparelhos de segurança nacional e de informações há anos que trabalham neste guião a tempo inteiro.
Enquanto diretor da CIA, Mike Pompeo foi direto ao assunto: “Chegou a altura de chamar à WikiLeaks o que ela é na realidade: um serviço de informações não estatal e hostil, incitado com frequência por atores estatais como a Rússia”.
O que representa uma verdadeira declaração de guerra: sublinha que a WikiLeaks é perigosa só por ter praticado jornalismo de investigação.

As atuais acusações do Departamento de Justiça nada têm a ver com o anunciado Russiagate. Mas espera-se que o subsequente futebol político seja bombástico.

O campo de Trump, neste momento, está dividido. Assange ou é um herói popular que combate o pântano do Estado Profundo ou um modesto fantoche do Kremlim. Simultaneamente, Joe Manchin, um senador democrata sulista, tal como o proprietário de uma plantação do século XIX regozija-se por Assange ser agora “propriedade nossa”. A estratégia dos Democratas será usar Assange para chegar a Trump.

E há a União Europeia, da qual mais tarde ou mais cedo a Grã-Bretanha poderá já não fazer parte. A União Europeia estará vigilante quanto à extradição de Assange para a “América de Trump”, enquanto o Estado Profundo não garantir que todos os jornalistas, estejam onde estiverem, têm o direito de se manterem em silêncio.

Tradução de Margarida Ferreira