Por Baby Siqueira Abrão e Rafiqa Salam
O 7 de outubro é uma data muito importante
para a causa palestina. Foi nesse mesmo dia, mas em 2023, que a resistência
palestina mostrou aos sionistas que quase oito décadas de colonialismo,
opressão e crueldade não ficariam impunes. Os militantes do Hamas, numa ação
planejada durante dois anos (desde 2021), entraram na Palestina ocupada —
batizada de "Israel" pelos sionistas —, com o objetivo de percorrer
os centros militares inimigos e enfrentar os invasores. Essa ofensiva traduz o
anseio por justiça, ao passo que o contraste com os luxuosos assentamentos
evidencia a brutal assimetria e a privação de direitos impostas aos palestinos
de Gaza desde 2006.
Cientista político e professor, Norman Finkelstein recusou-se a condenar o Hamas pela ação de 7 de outubro de 2023. “Eles tentaram de tudo [para impedir os ataques a Gaza], incluindo a diplomacia e a resistência pacífica, e nada funcionou. Não tinham escolha a não ser morrer como escravos” (NovaraMedia, 2026), afirmou. Foi além: procurou provas das acusações de violência feitas ao Hamas, em especial fotos, e não encontrou nada, fazendo questão de anunciar publicamente o resultado dessa pesquisa.
Uma longa história de traições e mentiras
Engana-se quem pensa que o genocídio imposto aos palestinos teve início em 2023. O sofrimento do povo palestino é tão antigo quanto o projeto de apagamento desta nação como país. Ao analisarmos brevemente a história contemporânea, veremos que o território palestino era tema central nas disputas geopolíticas. Ficou sob o domínio do Império Otomano por 400 anos, até o final da Primeira Guerra Mundial, quando os interesses coloniais europeus redefiniram as fronteiras da Ásia Ocidental (que a Europa chama de Oriente Médio).
Prezado Lorde Rothschild,
Tenho o prazer de transmitir
a Vossa Senhoria, em nome do Governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de
simpatia pelas aspirações judaicas sionistas, que foi submetida e aprovada pelo
Gabinete.
"O Governo de
Sua Majestade vê com bons olhos o estabelecimento na Palestina de um lar
nacional para o povo judeu e envidará todos os esforços para facilitar a
realização deste objetivo, ficando claramente entendido que nada será feito que
possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas
existentes na Palestina, ou os direitos e o status político desfrutados pelos
judeus em qualquer outro país."
Eu ficaria grato se
Vossa Senhoria levasse esta declaração ao conhecimento da Federação
Sionista.
Atenciosamente,
Arthur James
Balfour, Ministro das Relações Exteriores
Palestinos e demais povos árabes rejeitaram
de modo enfático o documento. Acusaram de traição o Império Britânico. Seus
dirigentes haviam prometido a criação de um Estado árabe caso fossem ajudados,
militarmente, no fim do Império Otomano. Os árabes ajudaram. E os britânicos,
em vez de cumprir a promessa, trataram de apoiar o estabelecimento de um Estado
estrangeiro, judeu, na Palestina[1].
"As populações nativas, civilizadas ou não, sempre têm resistido teimosamente aos colonialistas, não importa se civilizados ou selvagens", escreve Jabotinsky. E continua: "Toda população nativa (...) considera seu território como lar nacional, do qual é a única senhora, e deseja manter essa posição para sempre; recusará admitir não apenas novos senhores, mas também novos parceiros ou colaboradores".
Com as propostas e os argumentos de The
Iron Wall, Jabotinsky fundou o sionismo revisionista, atualmente
representado em Israel pelo Likud, partido extremista do primeiro-ministro
Benjamin Netanyahu que comanda o presente genocídio palestino.
O que Jabotinsky não antevia era a resistência persistente da população nativa da Palestina, que luta até os dias atuais para permanecer em sua terra, apesar das agressões, dos assassinatos, da limpeza étnica e dos massacres perpetrados pelo movimento sionista em Israel.
O Mandato Britânico
A então Liga das Nações garantiu à Grã-Bretanha, em 1922, um mandato para governar a Palestina. Espremidos entre palestinos e judeus, os britânicos deram o aval para o início do colonato sionista, com a expropriação das terras palestinas. Porém, tiveram de haver-se com revoltas palestinas nas décadas de 1920 e 1930, sob a liderança de Izz ad-Din al-Qassam, que defendia que a única forma de resistir tanto ao colonialismo do imperialismo britânico quanto à imigração sionista em massa era por meio da luta armada organizada.
As diversas lutas de resistência culminaram na Grande Revolta Árabe de 1936–1939 na Palestina. Todos estes levantes foram fortemente reprimidos, sufocados com violência pelo exército britânico e pelos sionistas. A população nativa não aceitava a presença sionista, que os britânicos incluíram na administração do Mandato. Foram muitos os conflitos, as prisões, as mortes. O ápice dessa situação tensa foi o ataque terrorista praticado pelo grupo armado sionista Irgun, a 22 de julho de 1946, no Hotel King David, em Jerusalém. Os membros do Irgun provocaram uma explosão na área onde se situava a administração do Mandato, matando 91 pessoas e ferindo outras 45. O espaço ocupado pelos britânicos no hotel foi destruído.
Dois anos após o atentado ao King David, à meia-noite de 14 de maio de 1948, encerrou-se o Mandato Britânico. Algumas horas antes, o sionista David Ben-Gurion, chefe da Agência Judaica, proclamou a fundação – que chamou de “independência” – do Estado de Israel.
A criação de Israel: uma fraude internacional
Os sionistas apelam para a “criação” de seu Estado pelas Nações Unidas a fim de justificar o genocídio imposto aos palestinos. Esse argumento, contudo, não tem valor algum. A ONU não “criou” Israel, porque a criação de Estados não consta na Carta de fundação da entidade.
Por esse motivo, quando o brasileiro Oswaldo Aranha afirmou "Declaro criado o Estado de Israel", ao fim da Assembleia Geral de 29 de novembro de 1947, estava desrespeitando a decisão do encontro e violando a Carta da ONU. Estava cometendo uma fraude cujas consequências de extrema violência ninguém sabe quando vão acabar.
A Assembleia, na verdade, nem sequer tinha autoridade para tomar esse tipo de resolução. Ela não é uma instância decisória; na ONU, esse papel cabe ao Conselho de Segurança. Por isso, a decisão da Assembleia de 1947 foi encaminhar a partilha da Palestina ao Conselho de Segurança. Só ele poderia ceder, ou não, à solicitação sionista.
Mas o Conselho de Segurança jamais se reuniu para deliberar sobre essa pauta. Por um motivo muito simples: o respeito à Carta da ONU, na qual não consta a permissão para a criação de países. O máximo permitido pela Carta é a aceitação do estabelecimento de novos Estados quando a população decide estabelecê-los. E esse não era o caso da partilha da Palestina entre o povo nativo e a organização sionista.
Houve outras fraudes durante a Assembleia, como conta o cientista político, historiador e professor Michael J. Cohen em Palestine and the Great Powers (1945-1948). Quando Aranha percebeu que a partilha seria rejeitada, suspendeu a Assembleia, que só retornaria após o fim de semana e o Dia de Ação de Graças. Foi período suficiente para os sionistas agirem no sentido de mudar o voto dos delegados presentes à Assembleia.
Visitaram todos
aqueles contrários à partilha, oferecendo muito dinheiro, cheques em branco e
fazendo ameaças de quebrar a economia das nações recalcitrantes. Esse
procedimento bastou para a partilha receber a indicação de ir ao Conselho de
Segurança – que, como dissemos, nunca examinou o caso.
A opressão sionista e a alma da Resistência Palestina
Entre a beleza e o árduo trabalho da colheita da azeitona, da produção do puro azeite de oliva, dos figos, das tâmaras e do za'atar no café da manhã, do makluba na hora do almoço, das músicas, das danças e da vida que aflora, teimosa, todos os dias, somos agraciadas pela palestinidade e sentimos pertencer a esse povo resiliente e generoso. Mas há outro lado nisso: no cotidiano, a violência israelense contrasta com a beleza, serpenteando e maltratando a Palestina.
A opressão sionista é um peso presente na vida das famílias palestinas, seja nos territórios ocupados, nos campos de refugiados ou na diáspora. É uma ferocidade que destrói famílias separadas pelo muro da vergonha, pelo limite de transitar na “Área A”, na “Área 48”, em sua própria capital Jerusalém, nas humilhantes revistas nos postos de controle, na brutalidade contra os presos políticos e no impedimento de os refugiados pisarem onde nasceram. É uma vida sem direitos civis, sem liberdade e sem a possibilidade de ir e vir em seu território histórico.
A política israelense de apartheid segrega e viola, no todo ou em parte, o povo nativo genuíno — um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Reconheceu estas palavras? É a tipificação do crime de genocídio pela Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio de 1948, das Nações Unidas (ONU).
O colonialismo de povoamento foi uma intervenção violenta de limpeza étnica perpetrada por milícias sionistas (como Irgun, Lehi e Haganah) e ancorada nos propósitos da imigração em massa de judeus. Em 1948, o projeto de deslocamento forçado de 800 mil palestinos, com assassinatos, massacres e destruição de mais de 500 cidades e aldeias, ficou conhecido como Nakba — palavra em árabe que significa catástrofe.
A vida do povo palestino é de resistência;
um povo que sobrevive e luta contra a invasão sionista. São 78 anos desde o
início oficial da Nakba (pois esta desgraça precede 1948), e as políticas de
colônias israelenses, as demolições de casas, a expulsão dos palestinos de suas
legítimas terras e as mudanças toponímicas e geográficas continuam.
É um genocídio que dura mais de 100 anos, registrado pela história e, nos últimos anos, televisionado pelas mídias alternativas e pelas gravações de vídeos dos próprios palestinos.
O genocídio do povo palestino, escancarado ao mundo, não é suficiente para sensibilizar a ONU e os governos internacionais a condenar Israel por crimes de guerra e terrorismo. Sem punição e com narrativas distorcidas que transformam os israelenses em vítimas, a pressão sionista — com o apoio e o financiamento dos Estados Unidos — avança em seu projeto expansionista da “Grande Israel”: ocupa as Colinas de Golã na Síria, invade o Líbano, destrói Gaza, negligencia as negociações e os acordos de paz, além de colecionar corpos (dos quais extraem órgãos) no maior genocídio geracional do século XXI.
Trata-se de uma realidade
controlada pelo exército sionista da entidade ocupante, que realiza
assassinatos seletivos de jornalistas e repórteres para eliminar testemunhas
oculares dos fatos. O colete azul com a inscrição "PRESS" (Imprensa)
não garante proteção; pelo contrário, torna-se alvo para o
"silenciamento" da realidade. São 263 jornalistas palestinos
martirizados desde outubro de 2023, que enobreceram o exercício da profissão e
trabalharam até o último suspiro (Israel mata, 2026). Enquanto isso, a mídia
corporativa, alinhada ao sionismo, ampara a falácia de que os conflitos
começaram em 7 de outubro de 2023.
Mas a comunidade internacional escolheu um lado: com amor e solidariedade, milhões de pessoas saíram às ruas em marchas de apoio à liberdade palestina. Manifestações públicas nas universidades, Flotilhas da Liberdade, eventos culturais, artistas e competições esportivas transformam-se em espaços para denúncias do genocídio, da destruição e da proibição de entrada de ajuda humanitária, água, alimentos e medicamentos em Gaza. A solidariedade internacional abraça e defende a Palestina livre, uma vitória da humanidade que ainda não sucumbiu ao caos, pois compreende que o sionismo não causa danos somente à Palestina, mas ao mundo.
Determinada a
romper com essa realidade, a Resistência Palestina e o Eixo da Resistência
combatem a entidade ocupante sionista e o imperialismo estadunidense,
enfrentando, há décadas, forças bélicas financiadas por países europeus e por
monarquias árabes traidoras. A vitória está na unidade revolucionária.
Da dor de dezenas
de milhares de mártires e de mais de 150 mil feridos desde outubro de 2023,
nasce a força para vencer. A resposta vem de nossas entranhas; mais que sangue,
em nossas veias corre resistência.
A defesa da Palestina livre é o nosso compromisso em respeito aos palestinos, aos fedayins, aos mártires e a todos que lutam por um Estado palestino único, laico, democrático e soberano sobre seu solo histórico — isto é, sobre seu território de 27000 km², com Jerusalém inteira como capital, com o direito de retorno dos refugiados e com a libertação de todos os presos políticos.
Escrever a quatro mãos este texto nos remete à dor da expropriação da vida, carregada de tradições milenares, que pudemos vivenciar — mesmo que pouco — junto aos nossos irmãos palestinos, que nos acolheram com tanto amor!
Também nos leva a valorizar os doces momentos compartilhados com as famílias palestinas, amigos e lutadores, resultando no pertencimento que carregamos em nossos corações.
Compreendemos que a resistência é cotidiana, coletiva, construída na unidade e desafiadora. As vitórias não a desviam do rumo; a luta é calibrada e fortalecida no terreno, como na histórica resistência palestina e nos destemidos enfrentamentos do Irã e do Iêmen ao sionismo e às agressões de Washington.
Somos todos
palestinos! Sentimos isso quando estamos na Palestina ou em qualquer lugar do
mundo, pois não somos indiferentes à barbárie; ao contrário, aprendemos com os
combatentes que a libertação da Palestina é a libertação do mundo das mazelas
do capitalismo, do imperialismo e do sionismo. A luta do povo palestino é um
exemplo a seguir, pois não existe paz sem justiça.
Viva a Palestina
livre do rio ao mar!
As imagens utilizadas neste trabalho reúnem obras de expressivos
nomes da arte palestina: Sliman Mansour (1947-2026), artista histórico do
movimento de resistência visual; Katalo yousef (1965) — Entrevistado por Rafiqa
em seu ateliê em Hebron, Palestina, em 2019, onde conheceu as suas obras em
defesa da Palestina; e Kael Abello (1984) artista e designer
gráfico venezuelano, que aborda nas suas produções a memória coletiva, a
identidade e as vivências do povo palestino.
Outubro/2026
[1] Um acordo secreto de 1916, entre Reino Unido e França, estabeleceu
o domínio das duas potências colonialistas europeias sobre o espólio do império
otomano. Os britânicos ficaram com o centro e o sul do Iraque, a Transjordânia
(atual Jordânia) e a Palestina. A França obteve a Síria, o Líbano e o sudeste
da Turquia. Por esse acordo, denominado Tratado Sykes-Picot (referência aos
sobrenomes dos dois negociadores), o império britânico pode determinar o futuro
da Palestina.
Referências
AHMAD, Yakoota al. Hamas denies it killed children in fight with Israel. AA, Ankara, 11 out. 2023. Disponível em: https://www.aa.com.tr/en/middle-east/hamas-denies-it-killed-children-in-fight-with-israel/3015680. Acesso em: 05 out. 2026.
COHEN, Michael J. Palestine and the great powers (1945-1948).
New Jersey: Princeton University Press, 1982.
DECLARAÇÃO Balfour (1917).
Wikipedia. Disponível em:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Declara%C3%A7%C3%A3o_Balfour_(1917). Acesso em:
05 out. 2026.
HANKINS, Amelia. Investiagrion reveals two Nova partygoers shot by
Israeli soldier. L’orient Today, Beirut, 22 fev. 2024. Disponível em: https://today.lorientlejour.com/article/1369061/investigation-reveals-two-nova-partygoers-shot-by-israeli-soldier-haaretz.html. Acesso
em: 05 out. 2026.
HERZL, Theodor. Conclusion. The Jewish State, 1896. In:
BRENER, Lenni (org.). 51 documents: Zionist collaboration with the nazis.
2ª reimpressão. New Jersey: Barricade Books, 2002, p. 03.
IDF helicopter fired at Israeli civilians fleeing musicfestival
during Hamas’ Oct 7 attack: report. Dawn, Islamabad, 20 de
nov. 2023. Disponível em: https://www.dawn.com/news/1790937. Acesso em: 05 out. 2026.
ISRAEL MATA jornalista Mohammed Al-Najjar em ataque
aéreo e eleva a 263 o total de profissionais de mídia palestinos que assassinou
desde outubro de 2026. Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de
São Paulo, São Paulo, 2026. Disponível em: https://sjsp.org.br/israel-mata-jornalista-mohammed-al-najjar-em-ataque-aereo-e-eleva-a-263-o-total-de-profissionais-de-midia-palestinos-que-assassinou-desde-outubro-de-2023/. Acesso em: 2026.
NOVARAMEDIA. ‘I won’t condemn Hamas. I refuse to do that’. Youtube, 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/shorts/2Kxm9Vevizs. Acesso em: 05 out. 2026.
SALES, Ana Gabriela. Israel é principal responsável
por mortes em rave, afirma site britânico após investigação. Opera Mundi,
São Paulo, 16 jan. 2024. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/guerra-israel-x-palestina/israel-e-responsavel-por-mortes-em-rave-afirma-site-britanico-apos-investigacao/. Acesso
em: 05 out. 2026.



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