quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Dez maneiras pelas quais a Operação Tempestade de Al-Aqsa destruiu o mito da invencibilidade de Israel e transformou o mundo.


Da devastação de Gaza e do crescente isolamento de Israel ao colapso de sua fachada de invencibilidade, a Operação Tempestade de Al-Aqsa expôs as vulnerabilidades de uma ordem apoiada pelos EUA, baseada na força militar e na impunidade política.

Por Humaira Ahad

Hala era criança em Gaza quando o regime israelense assassinou seus pais. Nos anos que se seguiram, ela aprendeu a linguagem da perda antes mesmo de ter idade suficiente para entender a ocupação que a causara. Mesmo assim, quando perguntada sobre o que lhe restava, ela ainda se apegava a algo: sua fé em Deus e a crença de que a vida poderia, de alguma forma, continuar além das ruínas.

Esse é o paradoxo que permeia o mundo após a Operação Tempestade de Al-Aqsa, em 7 de outubro de 2023. De um lado, havia uma potência ocupante apoiada pelos Estados Unidos, armada com algumas das armas mais sofisticadas do planeta e considerada por muito tempo praticamente intocável.

Por outro lado, havia uma população numa prisão a céu aberto, cujas casas podiam ser destruídas, cujas famílias podiam ser separadas, e cuja questão existencial se recusava a desaparecer.

O dia 7 de outubro estilhaçou a falsa fachada de invencibilidade de Israel. O que aconteceu em Gaza rasgou o véu que encobria a ordem política que permitia que a questão palestina fosse adiada enquanto o regime aprofundava sua ocupação e Washington continuava a protegê-lo.

As consequências foram enormes, desde a devastação de Gaza e a crescente pressão legal e diplomática sobre Israel até a transformação da opinião pública, a disseminação de protestos pró-Palestina em todo o mundo, o rompimento de alianças regionais e a eventual expansão da guerra para o Irã, Líbano, Iêmen, Estados Unidos e as rotas energéticas cruciais da região.

Existem muitas maneiras de mensurar a profunda transformação que o mundo sofreu após os eventos de 7 de outubro. Aqui estão dez das mais importantes.

A Palestina estava se aproximando da condição de Estado e da libertação.

Antes de 7 de outubro, o reconhecimento internacional da Palestina já era considerável. O Estado da Palestina, que declarou sua independência em 1988, era reconhecido por aproximadamente 139 Estados-membros da ONU. Posteriormente, após o genocídio israelense em Gaza, houve uma nova onda de reconhecimento.

Em 2024, Barbados, Jamaica, Trinidad e Tobago e Bahamas reconheceram a Palestina, seguidos por Espanha, Irlanda, Noruega, Eslovênia e Armênia. O movimento acelerou em 2025.

Em 21 de setembro, o Reino Unido e o Canadá tornaram-se os primeiros países do G7 a reconhecer a Palestina, juntando-se à Austrália e a Portugal. No dia seguinte, França, Bélgica, Luxemburgo, Malta, Andorra e Mônaco seguiram o exemplo numa cúpula da ONU copresidida pela França e pela Arábia Saudita.

Quatro dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (Reino Unido, França, Rússia e China) reconheceram a Palestina, deixando os Estados Unidos como o único país entre os cinco que não o fez.

A importância disso não foi meramente numérica. Durante décadas, os governos ocidentais sustentaram que o reconhecimento só deveria ocorrer após as chamadas negociações.

Após 7 de outubro, essa lógica começou a ruir. A questão palestina não podia mais ser adiada indefinidamente enquanto as negociações para a criação de um Estado fracassassem.

Muitos especialistas consideram esse reconhecimento um prelúdio para a libertação definitiva de todos os territórios ocupados das garras do regime do apartheid, responsável pelo assassinato de crianças.

Os crimes de Israel foram levados aos mais altos tribunais do mundo.

O genocídio em Gaza, que se seguiu à Operação Tempestade de Al-Aqsa, também mudou o cenário da luta palestina: do campo de batalha para os tribunais internacionais.

Em dezembro de 2023, a África do Sul apresentou uma queixa por genocídio contra Israel ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ). O TIJ emitiu medidas provisórias em janeiro de 2024 e novas decisões em março e maio.

Em julho de 2024, o mais alto tribunal da ONU declarou que o abuso do status de potência ocupante por Israel torna sua presença no território palestino ocupado ilegal. Enfatizou que a permanência de Israel é ilícita e deve cessar o mais rápido possível.

O Tribunal Internacional de Justiça chegou a citar diversas políticas, incluindo a expansão de assentamentos israelenses ilegais na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental, a exploração de recursos naturais, a anexação e políticas discriminatórias contra os palestinos, todas as quais, segundo o tribunal, violam o direito internacional.

A batalha legal foi importante porque mudou o discurso em torno da Palestina. Instituições jurídicas internacionais estavam examinando a conduta de Israel na guerra contra Gaza e a legalidade da própria ocupação.

O processo estabeleceu as bases legais para sanções, contestações às exportações de armas e campanhas de boicote.

Em setembro de 2026, o Reino Unido, a França e o Canadá anunciaram que iriam impor um conjunto significativo de sanções ao regime israelense pela expansão de seus assentamentos na Cisjordânia ocupada.

 

Mandado de prisão contra Netanyahu emitido pelo TPI

Em 21 de novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e seu ex-ministro da Guerra, Yoav Gallant.

O tribunal declarou que havia motivos razoáveis ​​para acreditar que ambos eram responsáveis ​​pelo crime de guerra de usar a fome como método de guerra, bem como pelos crimes contra a humanidade de assassinato, perseguição e outros atos desumanos. Também concluiu que havia motivos razoáveis ​​para acreditar que eles eram responsáveis ​​por dirigir intencionalmente ataques contra civis.

As decisões judiciais estenderam as consequências legais da guerra genocida de Israel em Gaza para além do campo de batalha, alcançando a esfera da diplomacia internacional.

Para Netanyahu em particular, a ordem judicial complicou suas viagens a países signatários do Estatuto de Roma, o tratado que criou o Tribunal Penal Internacional (TPI). Atualmente, o Tribunal conta com 125 Estados Partes, cujas obrigações incluem cooperar com ele em casos que se enquadrem em sua jurisdição.

A consequência prática é que uma visita diplomática pode envolver uma questão jurídica, além de seu propósito político: se o país anfitrião seria obrigado a agir de acordo com a ordem do TPI caso Netanyahu entrasse em seu território.

Isso colocou os governos dos Estados-membros do TPI em uma posição difícil, entre suas relações diplomáticas com Israel e suas obrigações sob o Estatuto de Roma.

O assunto já gerou diversas reações. O Reino Unido e a Irlanda indicaram que respeitarão suas obrigações legais em relação à ordem judicial.

A Itália também reconheceu as obrigações decorrentes de sua adesão ao TPI. Outros Estados-membros, como Bélgica, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Lituânia, Países Baixos, Noruega, Eslovênia, Espanha, Suécia e Suíça, também são partes do Estatuto de Roma.

A guerra genocida de Israel contra Gaza criou uma segunda arena de confronto. Processos judiciais, mandados de prisão e questionamentos sobre o cumprimento do direito internacional tornaram-se parte das consequências diplomáticas do genocídio, sujeitando Israel ao escrutínio jurídico internacional.

Na ONU, os números se tornaram mais difíceis de ignorar.

A Assembleia Geral da ONU tornou-se mais um indicador da mudança diplomática após 7 de outubro. Os números foram impressionantes. Em 27 de outubro de 2023, a Assembleia pediu um cessar-fogo humanitário imediato em Gaza, com 120 países votando a favor, 14 contra e 45 abstendo-se.

Sete meses depois, a divisão tornou-se ainda mais acentuada. Em maio de 2024, 143 países apoiaram uma resolução que elevava os direitos da Palestina nas Nações Unidas e instava o Conselho de Segurança da ONU a reconsiderar seu pedido de adesão plena. Apenas nove votaram contra, incluindo Israel e os Estados Unidos, enquanto 25 se abstiveram.

Em setembro, a Assembleia Geral da ONU foi além. Votou por 124 a 14, com 43 abstenções, para exigir que o regime israelense encerrasse sua “presença ilegal” no território palestino ocupado em 12 meses. Essa resolução foi baseada no parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça de julho de 2024, que concluiu que a permanência de Israel no território palestino ocupado era ilegal.

Em conjunto, as votações ofereceram um panorama claro do crescente isolamento diplomático de Israel na Assembleia Geral da ONU.

Em questões diretamente relacionadas a Gaza, à ocupação e à criação de um Estado palestino, Israel ficou cada vez mais isolado, e os Estados Unidos frequentemente figuravam entre os poucos países que votavam a seu favor.

A importância dessas votações residia em sua natureza política. Votação após votação demonstrou que Israel estava perdendo terreno no cenário diplomático mais amplo, enquanto o apoio aos direitos palestinos ganhava força em grande parte da comunidade internacional.

O resultado foi um crescente distanciamento entre o regime israelense e a maioria dos Estados-membros da ONU, uma mudança que tornou cada vez mais difícil para Israel conter as repercussões diplomáticas do genocídio.

A imagem de Israel desmoronou completamente, até mesmo nos Estados Unidos.

Talvez a evidência mais clara de mudança após os eventos de 7 de outubro não tenha vindo dos governos e líderes mundiais, mas do público em geral, do sul da Ásia à África e aos Estados Unidos.

Durante décadas, Israel gozou de uma vantagem significativa na simpatia do público americano graças aos seus intensos esforços de lobby. Essa vantagem desapareceu completamente.

Na pesquisa Gallup de fevereiro de 2026, 41% dos americanos disseram sentir mais simpatia pelos palestinos, em comparação com 36% que sentiram mais simpatia pelos israelenses. Esta é a primeira vez, desde que a Gallup começou a fazer essa pergunta em 2001, que os palestinos assumem a liderança.

A mudança foi impressionante. Em 2023, 54% dos americanos se mostravam mais simpáticos aos israelenses do que aos palestinos, em comparação com 31%. Em 2025, a diferença havia diminuído para 46% a favor de Israel e 33% a favor da Palestina. Em fevereiro de 2026, os números estavam iguais.

Entre os jovens americanos, a mudança foi ainda mais acentuada. O Gallup descobriu que 53% dos americanos entre 18 e 34 anos simpatizavam mais com os palestinos, em comparação com apenas 23% que simpatizavam mais com os israelenses. Isso representou um recorde negativo para Israel nessa faixa etária.

A divisão política era igualmente acentuada. Cerca de 65% dos democratas disseram simpatizar mais com os palestinos, em comparação com 17% que simpatizavam mais com os israelenses.

E essa mudança não se limitou aos Estados Unidos.

Uma pesquisa do Pew Research Center realizada em 36 países entre fevereiro e maio de 2026 revelou que, em média, 67% dos entrevistados expressaram uma opinião desfavorável sobre Israel. Em nenhum dos países pesquisados ​​a maioria tinha uma visão favorável de Israel.

Os números nos Estados Unidos foram igualmente impressionantes: 60% dos entrevistados expressaram uma opinião desfavorável sobre Israel, em comparação com 37% que a viam favoravelmente. Entre os americanos de 18 a 34 anos, o número foi ainda maior, com 74% expressando uma opinião desfavorável.

Os dados sugerem uma mudança profunda na percepção pública de Israel, especialmente entre as gerações mais jovens.

Para um regime que durante décadas beneficiou de forte apoio público nos Estados Unidos e de estreitos laços políticos com governos ocidentais, a mudança representa uma perda significativa da boa vontade internacional na qual grande parte dessa relação se baseava.

A Palestina se transformou em um movimento de massas nas ruas e nos campi universitários.

A mudança na opinião pública não se limitou às pesquisas de opinião. Ela se tornou visível nas ruas, nos campi universitários e, por fim, nas urnas de votação em todo o mundo.

Nos Estados Unidos, o Crowd Counting Consortium, um projeto que envolve a Universidade de Connecticut e o Ash Center de Harvard, registrou aproximadamente 12.400 protestos pró-Palestina entre 7 de outubro de 2023 e 7 de junho de 2024.

A magnitude do evento foi extraordinária e se estendeu muito além das maiores cidades dos Estados Unidos. Durante as cinco primeiras semanas após 7 de outubro, o consórcio registrou mais de 950 eventos em 48 estados, que atraíram milhões de pessoas.

Os protestos logo se espalharam para as universidades do país, transformando os campi em alguns dos locais mais visíveis de oposição ao genocídio israelense em Gaza. O consórcio registrou mais de 3.700 dias de protestos em 525 escolas, distribuídas em 317 localidades. Acampamentos foram montados em mais de 130 instituições, e 3.645 pessoas foram presas em escolas.

Os protestos não foram um fenômeno exclusivamente americano. O banco de dados Armed Conflict Location & Event Data (ACLED) registrou aproximadamente 4.200 protestos em quase 100 países durante as três primeiras semanas após 7 de outubro.

Representaram 38% de todas as manifestações registadas em todo o mundo durante esse período, e quase 86% foram classificadas como pró-Palestina. Mais de 600 foram registadas nos Estados Unidos.

O que começou como um protesto de rua foi se incorporando cada vez mais à política formal. Nos Estados Unidos, a campanha “Indeciso” durante as primárias democratas de 2024 angariou aproximadamente 704.000 votos em todo o país até junho de 2024, indicando oposição à abordagem do ex-presidente Joe Biden em relação ao genocídio entre uma parcela significativa do eleitorado democrata.

No Reino Unido, cinco candidatos independentes que fizeram campanha contra a guerra de Israel em Gaza conquistaram assentos nas eleições gerais de 2024, incluindo o ex-líder trabalhista Jeremy Corbyn.

A importância residia não apenas no número de manifestações. Tratava-se de um movimento crescente de eleitores, estudantes e manifestantes que denunciavam os crimes de Israel em espaços públicos e campanhas políticas, tornando a perda de apoio cada vez mais visível.

 

Apoiar Israel tornou-se uma decisão política e econômica mais difícil.

Finalmente, a pressão passou das declarações diplomáticas para os armamentos e o comércio.

Em setembro de 2024, o Reino Unido suspendeu cerca de 30 das suas aproximadamente 350 licenças de exportação de armas para o regime israelense, alegando um “risco claro” de que alguns equipamentos “pudessem ser usados ​​em graves violações do direito internacional humanitário”.

A decisão não resultou em um embargo total de armas devido aos fortes laços entre os dois países, mas representou uma mudança significativa em relação ao comércio militar irrestrito com Israel, principalmente devido à pressão pública no Reino Unido.

A Alemanha, um dos fornecedores de armas mais importantes para o regime israelense durante décadas, também passou a sofrer crescente pressão em relação às suas exportações.

Segundo dados do SIPRI, a Alemanha foi responsável por cerca de 30% das principais importações de armas de Israel entre 2019 e 2023. Posteriormente, Berlim impôs restrições a certas exportações militares que poderiam ser usadas em Gaza, antes de retomá-las após o chamado cessar-fogo.

Outros governos adotaram medidas que foram além das restrições a armas. A Bolívia rompeu relações diplomáticas com Israel em 2023, seguida pela Colômbia em 2024. A Turquia suspendeu o comércio com Israel, enquanto a Espanha, a Eslovênia e os Países Baixos introduziram diversas restrições que afetam armas ou comércio.

Essas medidas refletiram uma mudança notável no custo político de manter relações estreitas com o regime israelense.

Para governos que por muito tempo consideraram seus laços com Israel praticamente isentos de críticas internacionais, o genocídio em Gaza tornou essa posição cada vez mais difícil de manter.

A venda de armas, os acordos comerciais e as relações diplomáticas deixaram de ser assuntos de política externa. Tornaram-se questões políticas internas, assuntos jurídicos e fontes de pressão internacional.

Quanto mais o genocídio se prolongava, mais os governos eram forçados a fazer uma escolha que antes conseguiam evitar: manter os laços estabelecidos com o regime, enfrentando uma oposição crescente tanto a nível interno como internacional, ou impor restrições e cumprir o direito internacional.

A dinâmica da Ásia Ocidental mudou.

Antes de 7 de outubro, os Estados Unidos estavam trabalhando para negociar um acordo que poderia ter estabelecido relações formais entre a Arábia Saudita e Israel, com base nos "acordos de normalização" alcançados por vários estados árabes no âmbito dos chamados Acordos de Abraão.

A operação de descontaminação em Al-Aqsa interrompeu essa trajetória. A Arábia Saudita foi forçada a recuar e declarar que a normalização das relações com Israel não poderia mais ser dissociada da questão palestina. Riade afirmou que qualquer acordo exigiria um caminho crível e irreversível para o estabelecimento de um Estado palestino.

Isso representou uma mudança significativa no cenário diplomático. A questão palestina, que o crescente processo de “normalização” parecia cada vez mais capaz de relegar às margens da diplomacia regional, voltou a ocupar o centro do palco.

As consequências foram muito além das relações do regime com o reino. A ordem regional que os Estados Unidos buscavam construir por meio de laços de segurança mais estreitos entre os EUA e os países árabes tornou-se cada vez mais marcada por guerras e confrontos militares.

Em 2026, as repercussões regionais se espalharam ainda mais. A guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã levou o confronto diretamente ao Golfo Pérsico, com a República Islâmica lançando ataques retaliatórios contra os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e o Bahrein.

Os governos do Golfo Pérsico, que passaram anos buscando a integração econômica, a normalização das relações diplomáticas e laços de segurança mais estreitos com Washington, viram-se envolvidos em um crescente confronto militar ao lado dos Estados Unidos, enquanto simultaneamente lançavam ataques contra o Irã.

As consequências forçaram uma reavaliação da arquitetura de segurança da região.

Para os Estados do Golfo, a estreita aliança com Washington sempre foi apresentada como uma fonte de proteção. Mas, à medida que a guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã se intensificava, essa mesma aliança os expôs cada vez mais a represálias e transformou seu território em parte de um campo de batalha regional mais amplo.

 

A guerra chegou ao Irã e colocou em xeque sua estrutura de segurança.

Em 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram uma grande agressão militar contra o Irã — a segunda guerra não provocada em um ano — enquanto as negociações nucleares ainda estavam em andamento.

A agressão militar teve como alvo infraestruturas militares e civis em todo o país, e resultou também no martírio do Líder da Revolução Islâmica do Irã e de muitos altos comandantes militares e funcionários do governo.

A resposta do Irã demonstrou rapidamente que a guerra não se limitaria ao seu território. Teerã lançou ondas de mísseis e drones contra territórios ocupados por Israel e contra bases e instalações militares americanas em todo o Golfo Pérsico, estendendo o confronto ao Bahrein, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e outros países que abrigam bases americanas.

A retaliação expôs a vulnerabilidade oculta por trás da aparente superioridade militar dos EUA. Os Estados Unidos podiam projetar uma força imensa na região, mas falharam em proteger a extensa rede de bases, pessoal e infraestrutura necessária para manter essa presença.

Uma avaliação subsequente feita pelo inspetor-geral do Pentágono concluiu que os ataques retaliatórios iranianos danificaram ou destruíram centenas de edifícios e estruturas em bases americanas no Kuwait, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Iraque e Jordânia.

Os ataques também contribuíram para uma grande escassez de munições essenciais para os Estados Unidos e forçaram os militares a modificar a forma como mobilizavam seu pessoal, equipamento e instalações de suprimento.

Os danos não se limitaram às instalações militares. As missões diplomáticas dos EUA em quatro países sofreram prejuízos estimados em US$ 184 milhões, enquanto milhares de cidadãos americanos foram evacuados da região.

A guerra também teve um custo enorme para Washington: o Pentágono estimou que, até o final de junho, os custos haviam chegado a mais de US$ 33 bilhões, incluindo mais de US$ 22 bilhões em munições usadas.

As consequências logísticas foram igualmente reveladoras. Danos e interrupções nas instalações americanas forçaram os planejadores do país a depender mais de infraestrutura distante, como a de Diego Garcia, no Oceano Índico. Em alguns casos, os ciclos de reabastecimento chegaram a 14 ou 18 dias.

O órgão de fiscalização do Pentágono alertou que as mudanças na presença militar dos EUA na região podem se tornar permanentes.

A resposta do Irã também desafiou noções preconcebidas sobre o equilíbrio de poder na região. Apesar de enfrentar uma coalizão militar EUA-Israel muito maior, o Irã conseguiu manter a retaliação em múltiplas frentes, atacando posições americanas e de seus aliados e desestabilizando a infraestrutura militar regional.

O Irã demonstrou que a superioridade militar não se traduzia em controle indiscutível da região e que Teerã mantinha a capacidade de influenciar os custos, a geografia e a duração de qualquer guerra que lhe fosse imposta.

Ormuz transformou a guerra imposta em um choque econômico.

Em seguida, surgiu o Estreito de Ormuz, um dos pontos estratégicos de energia mais importantes do mundo, e a perturbação que se seguiu à guerra de 28 de fevereiro provocou uma forte recuperação nos mercados de petróleo.

A Administração de Informação Energética dos EUA (EIA) informou que o petróleo Brent, que havia começado 2026 em torno de US$ 61 por barril, chegou a US$ 118 no final de março, à medida que paralisações e interrupções generalizadas no fornecimento se intensificaram.

Em abril, os efeitos já não se restringiam ao Golfo Pérsico. A interrupção do fluxo de petróleo pressionou os mercados globais, à medida que os compradores se esforçavam para encontrar fontes alternativas de abastecimento. A EIA descreveu a situação resultante como uma contração extrema do mercado a curto prazo.

A restrição do tráfego pelo Estreito de Ormuz alterou a escala da guerra. O Irã demonstrou sua capacidade de controlar a infraestrutura da qual depende a economia internacional. Os custos passaram de orçamentos militares e bases danificadas para mercados de combustíveis, transporte marítimo, inflação e crescimento econômico.

O resultado foi uma mudança surpreendente no equilíbrio convencional. Os Estados Unidos e Israel poderiam impor uma guerra ao Irã, mas Teerã poderia impor custos que se estendiam muito além do campo de batalha, impactando as forças americanas, a infraestrutura do Golfo Pérsico e os mercados globais de energia.

Em 7 de outubro, a ordem política que havia permitido que a questão palestina permanecesse em segundo plano desmoronou. Israel enfrentou um crescente isolamento diplomático e jurídico, o apoio público diminuiu, a chamada normalização regional foi interrompida e a guerra se espalhou para o Irã.

O Irã demonstrou que nem mesmo o poderio militar esmagador dos EUA foi capaz de impedir Teerã de retaliar, atacando alvos americanos na região e forçando Washington a arcar com custos militares e estratégicos significativos.

O dia 7 de outubro representou uma sentença de morte estratégica para a antiga ordem regional. Expôs a fragilidade oculta por trás da aparente força de Israel e dos Estados Unidos, demonstrando a rapidez com que suas suposições sobre segurança, dissuasão e controle regional poderiam ruir. O que parecia uma ordem estável revelou-se subitamente um mecanismo suscetível a ser desafiado e transformado internamente pela própria região.

O Hamas reafirma que a resistência continuará até que a Palestina seja libertada.

 

Membros das Brigadas Al-Qassam, o braço armado do Hamas, na Faixa de Gaza. (Foto: Getty Images)

No terceiro aniversário de 7 de outubro, o Hamas reafirma seu compromisso com a resistência, a unidade palestina e a plena implementação do acordo de cessar-fogo.

“ 7 de outubro de 2023 é um capítulo histórico em nossa luta contínua, o título de uma grande epopeia nacional, e a resistência é um direito legítimo até derrotarmos a ocupação, libertarmos nossa terra e nossos locais sagrados ”, declarou o Movimento de Resistência Islâmica Palestina (Hamas) em um comunicado divulgado na quarta-feira para marcar o terceiro aniversário da Operação Tempestade de Al-Aqsa.

O movimento enfatizou que este dia incorpora todos os significados de heroísmo, resistência e solidariedade nacional na gloriosa terra de Gaza, e conseguiu fazer com que a voz do povo palestino oprimido fosse ouvida em todo o mundo, após décadas de indiferença e cumplicidade com as políticas de ocupação destinadas a liquidar sua causa e seu direito inerente à autodeterminação.

O Hamas afirmou que a operação palestina ocorreu após décadas de ocupação, cerco, assassinatos e privação dos direitos palestinos e, portanto, observou que apresentar o dia 7 de outubro como o início do conflito constitui uma “distorção da realidade”.

 

O movimento elogiou a resiliência da população palestina na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém, e observou que o retorno dos palestinos às suas cidades e casas, mesmo em meio às ruínas, demonstra seu apego à sua terra e sua rejeição aos planos de deslocamento forçado.

O Hamas acusou Israel de perpetrar um "genocídio e assassinato em massa" em Gaza, afirmando que, nos últimos três anos, mais de 74.000 palestinos foram mortos e cerca de 175.000 ficaram feridos, enquanto milhares permanecem desaparecidos.

Em sua declaração, o movimento palestino saudou o aumento dos protestos e campanhas internacionais com o objetivo de boicotar e interromper a cooperação com Israel, e instou a expansão dessas iniciativas, bem como a responsabilização dos representantes israelenses perante a justiça internacional.

O Hamas reiterou também seu compromisso em construir uma "estratégia de combate nacional e unificada", com a participação de todas as facções palestinas, que constitui a forma de confrontar os planos do regime israelense.

Em relação ao cessar-fogo, o Hamas tem afirmado que mentém  seus compromissos no âmbito do acordo e que está trabalhando com os mediadores para garantir seu sucesso. Ao mesmo tempo, responsabilizou os Estados Unidos e os países mediadores e garantidores de pressionarem Israel para que cumpra suas obrigações.

O movimento exige a cessação completa dos ataques, a entrada de ajuda humanitária para a população de Gaza, a reconstrução do enclave e a retirada total das forças israelenses da Faixa.

Ele também pediu ao Tribunal Penal Internacional (TPI) e ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) que processem os responsáveis ​​pelo genocídio perpetrado por Israel contra o povo palestino, particularmente em Gaza, nos últimos três anos.

O Hamas também instou os países árabes e islâmicos e outros apoiadores da causa palestina a intensificarem suas ações políticas e populares contra a guerra, o deslocamento forçado e o uso da fome como arma contra os palestinos.

O documento também enfatiza o direito dos palestinos de se defenderem e resistirem à ocupação israelense e tem como objetivo o Estado palestino independente, com plena soberania e Jerusalém (Al-Quds) como sua capital.

Ele acrescenta que, desde que o acordo de cessar-fogo mediado pelos EUA entrou em vigor, cerca de 1.500 palestinos foram mortos e mais de 5.000 ficaram feridos, enquanto as operações militares israelenses, as prisões e a demolição de casas em Jerusalém e na Cisjordânia continuam.

Em 7 de outubro de 2023, a Resistência Palestina, liderada pelo Hamas, realizou a Operação Tempestade de Al-Aqsa, uma série de ataques coordenados contra alvos israelenses na Palestina ocupada, em resposta a décadas de abusos e crimes cometidos pelo regime israelense.

Essa operação serviu de pretexto para o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, desencadear um genocídio na Faixa de Gaza, onde, nos últimos três anos e apesar de um cessar-fogo em vigor há um ano, mais de 74.000 palestinos foram mortos e mais de 175.000 ficaram feridos em bombardeios israelenses. Além disso, aproximadamente 90% da infraestrutura da Faixa de Gaza foi destruída.

ncl

https://www.hispantv.com/noticias/palestina/671882/hamas-resistencia-seguir-hasta-liberar-palestina

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Gaza: 3 anos de genocídio

 Por Baby Siqueira Abrão e Rafiqa  Salam 



O 7 de outubro é uma data muito importante para a causa palestina. Foi nesse mesmo dia, mas em 2023, que a resistência palestina mostrou aos sionistas que quase oito décadas de colonialismo, opressão e crueldade não ficariam impunes. Os militantes do Hamas, numa ação planejada durante dois anos (desde 2021), entraram na Palestina ocupada — batizada de "Israel" pelos sionistas —, com o objetivo de percorrer os centros militares inimigos e enfrentar os invasores. Essa ofensiva traduz o anseio por justiça, ao passo que o contraste com os luxuosos assentamentos evidencia a brutal assimetria e a privação de direitos impostas aos palestinos de Gaza desde 2006. 

 O que o Hamas não poderia esperar era se deparar com uma rave no caminho: uma festa em cujo entorno havia apenas dor. A confusão emergiu com a dispersão dos participantes e o terrível ruído ensurdecedor dos helicópteros das forças sionistas. Dentro deles, soldados atiravam para baixo sem critério, atingindo parte dos jovens presentes na festa, e muitos morreram ali mesmo (Sales, 2024; IDF, 2023). O caos, contudo, não desviou os militantes de seus reais planos: a ocupação das centrais do exército da entidade sionista. 

 O serviço de propaganda sionista entrou em ação rapidamente, acusando o Hamas pelo assassinato em massa. Também o acusou de violência (incluindo a sexual), da execução de moradores das colônias sionistas em território palestino roubado pelo inimigo e da degola de bebês.  

 O Hamas emitiu declaração negando tais acusações, afirmando que jamais matariam crianças e civis (Ahmad, 2023). Não era esse o objetivo da ação, por um lado; por outro, o Corão, livro sagrado do Islã, não permite matar senão em legítima defesa, pessoal ou de terceiros. E eles, como muçulmanos, seguem os ensinamentos do Corão. 

 Mais tarde, demonstrou-se que o Hamas falava a verdade. A análise da trajetória das balas — feita pela localização delas nos corpos das vítimas e pela origem de sua fabricação — levou à conclusão de que muitas delas foram disparadas por soldados de Israel (Hankins, 2024). Quanto à degola de bebês, tratou-se de um boato difundido por fontes anônimas a uma jornalista hostil aos palestinos, que divulgou a mentira. Depois de algum tempo, veio o desmentido. 

Cientista político e professor, Norman Finkelstein recusou-se a condenar o Hamas pela ação de 7 de outubro de 2023. “Eles tentaram de tudo [para impedir os ataques a Gaza], incluindo a diplomacia e a resistência pacífica, e nada funcionou. Não tinham escolha a não ser morrer como escravos” (NovaraMedia, 2026), afirmou. Foi além: procurou provas das acusações de violência feitas ao Hamas, em especial fotos, e não encontrou nada, fazendo questão de anunciar publicamente o resultado dessa pesquisa. 

 Filho de sobreviventes do Holocausto e nascido nos Estados Unidos, Finkelstein conhece bem o sofrimento imposto aos judeus pelo nazismo. Antissionista, rejeita terminantemente apoiar Israel e, há muitos anos, denuncia as ações sionistas contra o povo palestino em conferências, entrevistas, artigos e livros. 

 

Uma longa história de traições e mentiras 

 Engana-se quem pensa que o genocídio imposto aos palestinos teve início em 2023. O sofrimento do povo palestino é tão antigo quanto o projeto de apagamento desta nação como país. Ao analisarmos brevemente a história contemporânea, veremos que o território palestino era tema central nas disputas geopolíticas. Ficou sob o domínio do Império Otomano por 400 anos, até o final da Primeira Guerra Mundial, quando os interesses coloniais europeus redefiniram as fronteiras da Ásia Ocidental (que a Europa chama de Oriente Médio). 

 A geopolítica foi influenciada não só pela máxima imperialista "para dominar, tem que dividir", mas por uma ideologia supremacista do século XIX: o sionismo, o que mudaria drasticamente os rumos da Palestina. 

 Em 1896, Theodor Herzl, jornalista austríaco, filho de judeus, publicou O Estado Judeu, livro-manifesto da fundação do sionismo político. Herzl advogava a criação de um Estado onde os judeus pudessem se sentir seguros, longe da perseguição operada pelas populações antissemitas das nações europeias onde viviam. Um ano depois, em 1897, em Basileia, na Suíça, Herzl organizou o primeiro congresso da Organização Sionista Mundial. Exatos 208 representantes do sionismo compareceram para fundar os princípios do movimento, discutir a unificação e estabelecer um lar nacional para os judeus. A escolha recaiu sobre a Palestina. 

 Herzl entrou numa roda-viva diplomática para conseguir apoio político e jurídico para sua ideia, aprovada no congresso da Basileia. Foi conversar com o sultão do Império Otomano, do qual a Palestina era parte, mas o governante se recusou a ceder-lhe o território pretendido, argumentando que este pertencia ao povo e não a ele, sultão. Não cedeu nem mesmo quando Herzl ofereceu-se para pagar a enorme dívida do Império, equivalente, hoje, a centenas de milhares de dólares. A oferta de Herzl, patrocinada por judeus riquíssimos e banqueiros, chegava à casa dos bilhões. Apesar da tentação, o sultão manteve-se irredutível. 

 A saída foi recorrer ao Império Britânico, a maior potência mundial à época. Os britânicos, interessados no controle do canal de Suez e na derrocada do Império Otomano mostraram-se favoráveis à criação de Israel na Palestina. Herzl, porém, não chegou a ver o resultado das conversas que iniciou. Faleceu em 1904, aos 44 anos, com a saúde abalada pelo desgaste do corre-corre político para concretizar a tomada da Palestina. 

 Em 1917, o ministro britânico das Relações Exteriores, Arthur Balfour, dirigiu a Lionel Rothschild a Declaração Balfour (Declaração, 2026), pela qual os monarcas britânicos apoiavam o estabelecimento de um Estado judeu na Palestina. Trocando em miúdos: o Império Britânico autorizava um grupo político estrangeiro a tomar posse de um país que não era seu. Pior: um país habitado há séculos por uma população nativa. Comprove isso no texto da Declaração Balfour, que alavancou a tragédia palestina: 

               Prezado Lorde Rothschild, 

 

Tenho o prazer de transmitir a Vossa Senhoria, em nome do Governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia pelas aspirações judaicas sionistas, que foi submetida e aprovada pelo Gabinete.  

"O Governo de Sua Majestade vê com bons olhos o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu e envidará todos os esforços para facilitar a realização deste objetivo, ficando claramente entendido que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes na Palestina, ou os direitos e o status político desfrutados pelos judeus em qualquer outro país." 

Eu ficaria grato se Vossa Senhoria levasse esta declaração ao conhecimento da Federação Sionista.  

 

Atenciosamente, 

Arthur James Balfour, Ministro das Relações Exteriores 

 

 Palestinos e demais povos árabes rejeitaram de modo enfático o documento. Acusaram de traição o Império Britânico. Seus dirigentes haviam prometido a criação de um Estado árabe caso fossem ajudados, militarmente, no fim do Império Otomano. Os árabes ajudaram. E os britânicos, em vez de cumprir a promessa, trataram de apoiar o estabelecimento de um Estado estrangeiro, judeu, na Palestina[1].

 Os árabes tinham certeza de que a população judia cresceria muito, pondo em risco a autonomia árabe.  Tinham razão: os sionistas podiam ser tudo, menos ingênuos. Theodor Herzl, na conclusão de O Estado Judeu, afirma, textualmente: "Uma irmandade universal não chega nem mesmo a ser um belo sonho. O antagonismo é essencial para os maiores esforços do homem" (Herzl, [1896] 2002, p. 03). 

 Em 1923, já no século XX, o sionista Vladimir Jabotinsky escreveria The Iron Wall (ver Brenner, 2002, p. 32-37), texto em que criticava os sionistas defensores de um acordo com os árabes para criar o Estado judeu na Palestina. Para ele, só poderia haver algum tipo de acordo depois do estabelecimento do Estado judeu, o que possibilitaria aos sionistas a constituição de uma "muralha de ferro" contra os árabes palestinos. Tal muralha seria construída, segundo Jabotinsky, com a força das armas. 

"As populações nativas, civilizadas ou não, sempre têm resistido teimosamente aos colonialistas, não importa se civilizados ou selvagens", escreve Jabotinsky. E continua: "Toda população nativa (...) considera seu território como lar nacional, do qual é a única senhora, e deseja manter essa posição para sempre; recusará admitir não apenas novos senhores, mas também novos parceiros ou colaboradores".  


Com as propostas e os argumentos de The Iron Wall, Jabotinsky fundou o sionismo revisionista, atualmente representado em Israel pelo Likud, partido extremista do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que comanda o presente genocídio palestino. 

 O que Jabotinsky não antevia era a resistência persistente da população nativa da Palestina, que luta até os dias atuais para permanecer em sua terra, apesar das agressões, dos assassinatos, da limpeza étnica e dos massacres perpetrados pelo movimento sionista em Israel.

 

O Mandato Britânico 

 A então Liga das Nações garantiu à Grã-Bretanha, em 1922, um mandato para governar a Palestina. Espremidos entre palestinos e judeus, os britânicos deram o aval para o início do colonato sionista, com a expropriação das terras palestinas. Porém, tiveram de haver-se com revoltas palestinas nas décadas de 1920 e 1930, sob a liderança de Izz ad-Din al-Qassam, que defendia que a única forma de resistir tanto ao colonialismo do imperialismo britânico quanto à imigração sionista em massa era por meio da luta armada organizada. 

 As diversas lutas de resistência culminaram na Grande Revolta Árabe de 1936–1939 na Palestina. Todos estes levantes foram fortemente reprimidos, sufocados com violência pelo exército britânico e pelos sionistas. A população nativa não aceitava a presença sionista, que os britânicos incluíram na administração do Mandato. Foram muitos os conflitos, as prisões, as mortes. O ápice dessa situação tensa foi o ataque terrorista praticado pelo grupo armado sionista Irgun, a 22 de julho de 1946, no Hotel King David, em Jerusalém. Os membros do Irgun provocaram uma explosão na área onde se situava a administração do Mandato, matando 91 pessoas e ferindo outras 45. O espaço ocupado pelos britânicos no hotel foi destruído. 

Dois anos após o atentado ao King David, à meia-noite de 14 de maio de 1948, encerrou-se o Mandato Britânico. Algumas horas antes, o sionista David Ben-Gurion, chefe da Agência Judaica, proclamou a fundação – que chamou de “independência” – do Estado de Israel. 

 

A criação de Israel: uma fraude internacional 

Os sionistas apelam para a “criação” de seu Estado pelas Nações Unidas a fim de justificar o genocídio imposto aos palestinos. Esse argumento, contudo, não tem valor algum. A ONU não “criou” Israel, porque a criação de Estados não consta na Carta de fundação da entidade.  

Por esse motivo, quando o brasileiro Oswaldo Aranha afirmou "Declaro criado o Estado de Israel", ao fim da Assembleia Geral de 29 de novembro de 1947, estava desrespeitando a decisão do encontro e violando a Carta da ONU. Estava cometendo uma fraude cujas consequências de extrema violência ninguém sabe quando vão acabar. 

A Assembleia, na verdade, nem sequer tinha autoridade para tomar esse tipo de resolução. Ela não é uma instância decisória; na ONU, esse papel cabe ao Conselho de Segurança. Por isso, a decisão da Assembleia de 1947 foi encaminhar a partilha da Palestina ao Conselho de Segurança. Só ele poderia ceder, ou não, à solicitação sionista.

Mas o Conselho de Segurança jamais se reuniu para deliberar sobre essa pauta. Por um motivo muito simples: o respeito à Carta da ONU, na qual não consta a permissão para a criação de países. O máximo permitido pela Carta é a aceitação do estabelecimento de novos Estados quando a população decide estabelecê-los. E esse não era o caso da partilha da Palestina entre o povo nativo e a organização sionista. 

Houve outras fraudes durante a Assembleia, como conta o cientista político, historiador e professor Michael J. Cohen em Palestine and the Great Powers (1945-1948). Quando Aranha percebeu que a partilha seria rejeitada, suspendeu a Assembleia, que só retornaria após o fim de semana e o Dia de Ação de Graças. Foi período suficiente para os sionistas agirem no sentido de mudar o voto dos delegados presentes à Assembleia.   

Visitaram todos aqueles contrários à partilha, oferecendo muito dinheiro, cheques em branco e fazendo ameaças de quebrar a economia das nações recalcitrantes. Esse procedimento bastou para a partilha receber a indicação de ir ao Conselho de Segurança – que, como dissemos, nunca examinou o caso. 


A opressão sionista e a alma da Resistência Palestina 

Entre a beleza e o árduo trabalho da colheita da azeitona, da produção do puro azeite de oliva, dos figos, das tâmaras e do za'atar no café da manhã, do makluba na hora do almoço, das músicas, das danças e da vida que aflora, teimosa, todos os dias, somos agraciadas pela palestinidade e sentimos pertencer a esse povo resiliente e generoso. Mas há outro lado nisso: no cotidiano, a violência israelense contrasta com a beleza, serpenteando e maltratando a Palestina. 

A opressão sionista é um peso presente na vida das famílias palestinas, seja nos territórios ocupados, nos campos de refugiados ou na diáspora. É uma ferocidade que destrói famílias separadas pelo muro da vergonha, pelo limite de transitar na “Área A”, na “Área 48”, em sua própria capital Jerusalém, nas humilhantes revistas nos postos de controle, na brutalidade contra os presos políticos e no impedimento de os refugiados pisarem onde nasceram. É uma vida sem direitos civis, sem liberdade e sem a possibilidade de ir e vir em seu território histórico. 

A política israelense de apartheid segrega e viola, no todo ou em parte, o povo nativo genuíno — um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Reconheceu estas palavras? É a tipificação do crime de genocídio pela Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio de 1948, das Nações Unidas (ONU). 

O colonialismo de povoamento foi uma intervenção violenta de limpeza étnica perpetrada por milícias sionistas (como Irgun, Lehi e Haganah) e ancorada nos propósitos da imigração em massa de judeus. Em 1948, o projeto de deslocamento forçado de 800 mil palestinos, com assassinatos, massacres e destruição de mais de 500 cidades e aldeias, ficou conhecido como Nakba — palavra em árabe que significa catástrofe. 


A vida do povo palestino é de resistência; um povo que sobrevive e luta contra a invasão sionista. São 78 anos desde o início oficial da Nakba (pois esta desgraça precede 1948), e as políticas de colônias israelenses, as demolições de casas, a expulsão dos palestinos de suas legítimas terras e as mudanças toponímicas e geográficas continuam.

 É um genocídio que dura mais de 100 anos, registrado pela história e, nos últimos anos, televisionado pelas mídias alternativas e pelas gravações de vídeos dos próprios palestinos. 

O genocídio do povo palestino, escancarado ao mundo, não é suficiente para sensibilizar a ONU e os governos internacionais a condenar Israel por crimes de guerra e terrorismo. Sem punição e com narrativas distorcidas que transformam os israelenses em vítimas, a pressão sionista — com o apoio e o financiamento dos Estados Unidos — avança em seu projeto expansionista da “Grande Israel”: ocupa as Colinas de Golã na Síria, invade o Líbano, destrói Gaza, negligencia as negociações e os acordos de paz, além de colecionar corpos (dos quais extraem órgãos) no maior genocídio geracional do século XXI. 

Trata-se de uma realidade controlada pelo exército sionista da entidade ocupante, que realiza assassinatos seletivos de jornalistas e repórteres para eliminar testemunhas oculares dos fatos. O colete azul com a inscrição "PRESS" (Imprensa) não garante proteção; pelo contrário, torna-se alvo para o "silenciamento" da realidade. São 263 jornalistas palestinos martirizados desde outubro de 2023, que enobreceram o exercício da profissão e trabalharam até o último suspiro (Israel mata, 2026). Enquanto isso, a mídia corporativa, alinhada ao sionismo, ampara a falácia de que os conflitos começaram em 7 de outubro de 2023. 

 Mas a comunidade internacional escolheu um lado: com amor e solidariedade, milhões de pessoas saíram às ruas em marchas de apoio à liberdade palestina. Manifestações públicas nas universidades, Flotilhas da Liberdade, eventos culturais, artistas e competições esportivas transformam-se em espaços para denúncias do genocídio, da destruição e da proibição de entrada de ajuda humanitária, água, alimentos e medicamentos em Gaza. A solidariedade internacional abraça e defende a Palestina livre, uma vitória da humanidade que ainda não sucumbiu ao caos, pois compreende que o sionismo não causa danos somente à Palestina, mas ao mundo. 

Determinada a romper com essa realidade, a Resistência Palestina e o Eixo da Resistência combatem a entidade ocupante sionista e o imperialismo estadunidense, enfrentando, há décadas, forças bélicas financiadas por países europeus e por monarquias árabes traidoras. A vitória está na unidade revolucionária.                         

 Da dor de dezenas de milhares de mártires e de mais de 150 mil feridos desde outubro de 2023, nasce a força para vencer. A resposta vem de nossas entranhas; mais que sangue, em nossas veias corre resistência. 

 A defesa da Palestina livre é o nosso compromisso em respeito aos palestinos, aos fedayins, aos mártires e a todos que lutam por um Estado palestino único, laico, democrático e soberano sobre seu solo histórico — isto é, sobre seu território de 27000 km², com Jerusalém inteira como capital, com o direito de retorno dos refugiados e com a libertação de todos os presos políticos. 

 Escrever a quatro mãos este texto nos remete à dor da expropriação da vida, carregada de tradições milenares, que pudemos vivenciar — mesmo que pouco — junto aos nossos irmãos palestinos, que nos acolheram com tanto amor!  

 Também nos leva a valorizar os doces momentos compartilhados com as famílias palestinas, amigos e lutadores, resultando no pertencimento que carregamos em nossos corações. 

 Compreendemos que a resistência é cotidiana, coletiva, construída na unidade e desafiadora. As vitórias não a desviam do rumo; a luta é calibrada e fortalecida no terreno, como na histórica resistência palestina e nos destemidos enfrentamentos do Irã e do Iêmen ao sionismo e às agressões de Washington. 

Somos todos palestinos! Sentimos isso quando estamos na Palestina ou em qualquer lugar do mundo, pois não somos indiferentes à barbárie; ao contrário, aprendemos com os combatentes que a libertação da Palestina é a libertação do mundo das mazelas do capitalismo, do imperialismo e do sionismo. A luta do povo palestino é um exemplo a seguir, pois não existe paz sem justiça. 

Viva a Palestina livre do rio ao mar! 

 

As imagens utilizadas neste trabalho reúnem obras de expressivos nomes da arte palestina: Sliman Mansour (1947-2026), artista histórico do movimento de resistência visual; Katalo yousef (1965) — Entrevistado por Rafiqa em seu ateliê em Hebron, Palestina, em 2019, onde conheceu as suas obras em defesa da Palestina;  e Kael Abello (1984) artista e designer gráfico venezuelano, que aborda nas suas produções a memória coletiva, a identidade e as vivências do povo palestino.

Outubro/2026


 

 


[1] Um acordo secreto de 1916, entre Reino Unido e França, estabeleceu o domínio das duas potências colonialistas europeias sobre o espólio do império otomano. Os britânicos ficaram com o centro e o sul do Iraque, a Transjordânia (atual Jordânia) e a Palestina. A França obteve a Síria, o Líbano e o sudeste da Turquia. Por esse acordo, denominado Tratado Sykes-Picot (referência aos sobrenomes dos dois negociadores), o império britânico pode determinar o futuro da Palestina.


Referências 

AHMAD, Yakoota al. Hamas denies it killed children in fight with Israel. AA, Ankara, 11 out. 2023. Disponível em: https://www.aa.com.tr/en/middle-east/hamas-denies-it-killed-children-in-fight-with-israel/3015680. Acesso em: 05 out. 2026. 

COHEN, Michael J. Palestine and the great powers (1945-1948). New Jersey: Princeton University Press, 1982. 

DECLARAÇÃO Balfour (1917). Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Declara%C3%A7%C3%A3o_Balfour_(1917). Acesso em: 05 out. 2026.

HANKINS, Amelia. Investiagrion reveals two Nova partygoers shot by Israeli soldier. L’orient Today, Beirut, 22 fev. 2024. Disponível em: https://today.lorientlejour.com/article/1369061/investigation-reveals-two-nova-partygoers-shot-by-israeli-soldier-haaretz.html. Acesso em: 05 out. 2026. 

HERZL, Theodor. Conclusion. The Jewish State, 1896. In: BRENER, Lenni (org.). 51 documents: Zionist collaboration with the nazis. 2ª reimpressão. New Jersey: Barricade Books, 2002, p. 03. 

IDF helicopter fired at Israeli civilians fleeing musicfestival during Hamas’ Oct 7 attack: report. Dawn, Islamabad, 20 de nov. 2023. Disponível em: https://www.dawn.com/news/1790937. Acesso em: 05 out. 2026. 

ISRAEL MATA jornalista Mohammed Al-Najjar em ataque aéreo e eleva a 263 o total de profissionais de mídia palestinos que assassinou desde outubro de 2026. Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, São Paulo, 2026. Disponível em: https://sjsp.org.br/israel-mata-jornalista-mohammed-al-najjar-em-ataque-aereo-e-eleva-a-263-o-total-de-profissionais-de-midia-palestinos-que-assassinou-desde-outubro-de-2023/. Acesso em: 2026. 

NOVARAMEDIA. ‘I won’t condemn Hamas. I refuse to do that’. Youtube, 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/shorts/2Kxm9Vevizs. Acesso em: 05 out. 2026. 

SALES, Ana Gabriela. Israel é principal responsável por mortes em rave, afirma site britânico após investigação. Opera Mundi, São Paulo, 16 jan. 2024. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/guerra-israel-x-palestina/israel-e-responsavel-por-mortes-em-rave-afirma-site-britanico-apos-investigacao/. Acesso em: 05 out. 2026. 


Autoras:
Baby Siqueira Abrão, jornalista, ex-correspondente do jornal Brasil de Fato na Palestina 
Rafiqa Salam, socióloga e ativista da causa palestina