terça-feira, 6 de outubro de 2026

Gaza: 3 anos de genocídio

 Por Baby Siqueira Abrão e Rafiqa  Salam 



O 7 de outubro é uma data muito importante para a causa palestina. Foi nesse mesmo dia, mas em 2023, que a resistência palestina mostrou aos sionistas que quase oito décadas de colonialismo, opressão e crueldade não ficariam impunes. Os militantes do Hamas, numa ação planejada durante dois anos (desde 2021), entraram na Palestina ocupada — batizada de "Israel" pelos sionistas —, com o objetivo de percorrer os centros militares inimigos e enfrentar os invasores. Essa ofensiva traduz o anseio por justiça, ao passo que o contraste com os luxuosos assentamentos evidencia a brutal assimetria e a privação de direitos impostas aos palestinos de Gaza desde 2006. 

 O que o Hamas não poderia esperar era se deparar com uma rave no caminho: uma festa em cujo entorno havia apenas dor. A confusão emergiu com a dispersão dos participantes e o terrível ruído ensurdecedor dos helicópteros das forças sionistas. Dentro deles, soldados atiravam para baixo sem critério, atingindo parte dos jovens presentes na festa, e muitos morreram ali mesmo (Sales, 2024; IDF, 2023). O caos, contudo, não desviou os militantes de seus reais planos: a ocupação das centrais do exército da entidade sionista. 

 O serviço de propaganda sionista entrou em ação rapidamente, acusando o Hamas pelo assassinato em massa. Também o acusou de violência (incluindo a sexual), da execução de moradores das colônias sionistas em território palestino roubado pelo inimigo e da degola de bebês.  

 O Hamas emitiu declaração negando tais acusações, afirmando que jamais matariam crianças e civis (Ahmad, 2023). Não era esse o objetivo da ação, por um lado; por outro, o Corão, livro sagrado do Islã, não permite matar senão em legítima defesa, pessoal ou de terceiros. E eles, como muçulmanos, seguem os ensinamentos do Corão. 

 Mais tarde, demonstrou-se que o Hamas falava a verdade. A análise da trajetória das balas — feita pela localização delas nos corpos das vítimas e pela origem de sua fabricação — levou à conclusão de que muitas delas foram disparadas por soldados de Israel (Hankins, 2024). Quanto à degola de bebês, tratou-se de um boato difundido por fontes anônimas a uma jornalista hostil aos palestinos, que divulgou a mentira. Depois de algum tempo, veio o desmentido. 

Cientista político e professor, Norman Finkelstein recusou-se a condenar o Hamas pela ação de 7 de outubro de 2023. “Eles tentaram de tudo [para impedir os ataques a Gaza], incluindo a diplomacia e a resistência pacífica, e nada funcionou. Não tinham escolha a não ser morrer como escravos” (NovaraMedia, 2026), afirmou. Foi além: procurou provas das acusações de violência feitas ao Hamas, em especial fotos, e não encontrou nada, fazendo questão de anunciar publicamente o resultado dessa pesquisa. 

 Filho de sobreviventes do Holocausto e nascido nos Estados Unidos, Finkelstein conhece bem o sofrimento imposto aos judeus pelo nazismo. Antissionista, rejeita terminantemente apoiar Israel e, há muitos anos, denuncia as ações sionistas contra o povo palestino em conferências, entrevistas, artigos e livros. 

 

Uma longa história de traições e mentiras 

 Engana-se quem pensa que o genocídio imposto aos palestinos teve início em 2023. O sofrimento do povo palestino é tão antigo quanto o projeto de apagamento desta nação como país. Ao analisarmos brevemente a história contemporânea, veremos que o território palestino era tema central nas disputas geopolíticas. Ficou sob o domínio do Império Otomano por 400 anos, até o final da Primeira Guerra Mundial, quando os interesses coloniais europeus redefiniram as fronteiras da Ásia Ocidental (que a Europa chama de Oriente Médio). 

 A geopolítica foi influenciada não só pela máxima imperialista "para dominar, tem que dividir", mas por uma ideologia supremacista do século XIX: o sionismo, o que mudaria drasticamente os rumos da Palestina. 

 Em 1896, Theodor Herzl, jornalista austríaco, filho de judeus, publicou O Estado Judeu, livro-manifesto da fundação do sionismo político. Herzl advogava a criação de um Estado onde os judeus pudessem se sentir seguros, longe da perseguição operada pelas populações antissemitas das nações europeias onde viviam. Um ano depois, em 1897, em Basileia, na Suíça, Herzl organizou o primeiro congresso da Organização Sionista Mundial. Exatos 208 representantes do sionismo compareceram para fundar os princípios do movimento, discutir a unificação e estabelecer um lar nacional para os judeus. A escolha recaiu sobre a Palestina. 

 Herzl entrou numa roda-viva diplomática para conseguir apoio político e jurídico para sua ideia, aprovada no congresso da Basileia. Foi conversar com o sultão do Império Otomano, do qual a Palestina era parte, mas o governante se recusou a ceder-lhe o território pretendido, argumentando que este pertencia ao povo e não a ele, sultão. Não cedeu nem mesmo quando Herzl ofereceu-se para pagar a enorme dívida do Império, equivalente, hoje, a centenas de milhares de dólares. A oferta de Herzl, patrocinada por judeus riquíssimos e banqueiros, chegava à casa dos bilhões. Apesar da tentação, o sultão manteve-se irredutível. 

 A saída foi recorrer ao Império Britânico, a maior potência mundial à época. Os britânicos, interessados no controle do canal de Suez e na derrocada do Império Otomano mostraram-se favoráveis à criação de Israel na Palestina. Herzl, porém, não chegou a ver o resultado das conversas que iniciou. Faleceu em 1904, aos 44 anos, com a saúde abalada pelo desgaste do corre-corre político para concretizar a tomada da Palestina. 

 Em 1917, o ministro britânico das Relações Exteriores, Arthur Balfour, dirigiu a Lionel Rothschild a Declaração Balfour (Declaração, 2026), pela qual os monarcas britânicos apoiavam o estabelecimento de um Estado judeu na Palestina. Trocando em miúdos: o Império Britânico autorizava um grupo político estrangeiro a tomar posse de um país que não era seu. Pior: um país habitado há séculos por uma população nativa. Comprove isso no texto da Declaração Balfour, que alavancou a tragédia palestina: 

               Prezado Lorde Rothschild, 

 

Tenho o prazer de transmitir a Vossa Senhoria, em nome do Governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia pelas aspirações judaicas sionistas, que foi submetida e aprovada pelo Gabinete.  

"O Governo de Sua Majestade vê com bons olhos o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu e envidará todos os esforços para facilitar a realização deste objetivo, ficando claramente entendido que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes na Palestina, ou os direitos e o status político desfrutados pelos judeus em qualquer outro país." 

Eu ficaria grato se Vossa Senhoria levasse esta declaração ao conhecimento da Federação Sionista.  

 

Atenciosamente, 

Arthur James Balfour, Ministro das Relações Exteriores 

 

 Palestinos e demais povos árabes rejeitaram de modo enfático o documento. Acusaram de traição o Império Britânico. Seus dirigentes haviam prometido a criação de um Estado árabe caso fossem ajudados, militarmente, no fim do Império Otomano. Os árabes ajudaram. E os britânicos, em vez de cumprir a promessa, trataram de apoiar o estabelecimento de um Estado estrangeiro, judeu, na Palestina[1].

 Os árabes tinham certeza de que a população judia cresceria muito, pondo em risco a autonomia árabe.  Tinham razão: os sionistas podiam ser tudo, menos ingênuos. Theodor Herzl, na conclusão de O Estado Judeu, afirma, textualmente: "Uma irmandade universal não chega nem mesmo a ser um belo sonho. O antagonismo é essencial para os maiores esforços do homem" (Herzl, [1896] 2002, p. 03). 

 Em 1923, já no século XX, o sionista Vladimir Jabotinsky escreveria The Iron Wall (ver Brenner, 2002, p. 32-37), texto em que criticava os sionistas defensores de um acordo com os árabes para criar o Estado judeu na Palestina. Para ele, só poderia haver algum tipo de acordo depois do estabelecimento do Estado judeu, o que possibilitaria aos sionistas a constituição de uma "muralha de ferro" contra os árabes palestinos. Tal muralha seria construída, segundo Jabotinsky, com a força das armas. 

"As populações nativas, civilizadas ou não, sempre têm resistido teimosamente aos colonialistas, não importa se civilizados ou selvagens", escreve Jabotinsky. E continua: "Toda população nativa (...) considera seu território como lar nacional, do qual é a única senhora, e deseja manter essa posição para sempre; recusará admitir não apenas novos senhores, mas também novos parceiros ou colaboradores".  


Com as propostas e os argumentos de The Iron Wall, Jabotinsky fundou o sionismo revisionista, atualmente representado em Israel pelo Likud, partido extremista do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que comanda o presente genocídio palestino. 

 O que Jabotinsky não antevia era a resistência persistente da população nativa da Palestina, que luta até os dias atuais para permanecer em sua terra, apesar das agressões, dos assassinatos, da limpeza étnica e dos massacres perpetrados pelo movimento sionista em Israel.

 

O Mandato Britânico 

 A então Liga das Nações garantiu à Grã-Bretanha, em 1922, um mandato para governar a Palestina. Espremidos entre palestinos e judeus, os britânicos deram o aval para o início do colonato sionista, com a expropriação das terras palestinas. Porém, tiveram de haver-se com revoltas palestinas nas décadas de 1920 e 1930, sob a liderança de Izz ad-Din al-Qassam, que defendia que a única forma de resistir tanto ao colonialismo do imperialismo britânico quanto à imigração sionista em massa era por meio da luta armada organizada. 

 As diversas lutas de resistência culminaram na Grande Revolta Árabe de 1936–1939 na Palestina. Todos estes levantes foram fortemente reprimidos, sufocados com violência pelo exército britânico e pelos sionistas. A população nativa não aceitava a presença sionista, que os britânicos incluíram na administração do Mandato. Foram muitos os conflitos, as prisões, as mortes. O ápice dessa situação tensa foi o ataque terrorista praticado pelo grupo armado sionista Irgun, a 22 de julho de 1946, no Hotel King David, em Jerusalém. Os membros do Irgun provocaram uma explosão na área onde se situava a administração do Mandato, matando 91 pessoas e ferindo outras 45. O espaço ocupado pelos britânicos no hotel foi destruído. 

Dois anos após o atentado ao King David, à meia-noite de 14 de maio de 1948, encerrou-se o Mandato Britânico. Algumas horas antes, o sionista David Ben-Gurion, chefe da Agência Judaica, proclamou a fundação – que chamou de “independência” – do Estado de Israel. 

 

A criação de Israel: uma fraude internacional 

Os sionistas apelam para a “criação” de seu Estado pelas Nações Unidas a fim de justificar o genocídio imposto aos palestinos. Esse argumento, contudo, não tem valor algum. A ONU não “criou” Israel, porque a criação de Estados não consta na Carta de fundação da entidade.  

Por esse motivo, quando o brasileiro Oswaldo Aranha afirmou "Declaro criado o Estado de Israel", ao fim da Assembleia Geral de 29 de novembro de 1947, estava desrespeitando a decisão do encontro e violando a Carta da ONU. Estava cometendo uma fraude cujas consequências de extrema violência ninguém sabe quando vão acabar. 

A Assembleia, na verdade, nem sequer tinha autoridade para tomar esse tipo de resolução. Ela não é uma instância decisória; na ONU, esse papel cabe ao Conselho de Segurança. Por isso, a decisão da Assembleia de 1947 foi encaminhar a partilha da Palestina ao Conselho de Segurança. Só ele poderia ceder, ou não, à solicitação sionista.

Mas o Conselho de Segurança jamais se reuniu para deliberar sobre essa pauta. Por um motivo muito simples: o respeito à Carta da ONU, na qual não consta a permissão para a criação de países. O máximo permitido pela Carta é a aceitação do estabelecimento de novos Estados quando a população decide estabelecê-los. E esse não era o caso da partilha da Palestina entre o povo nativo e a organização sionista. 

Houve outras fraudes durante a Assembleia, como conta o cientista político, historiador e professor Michael J. Cohen em Palestine and the Great Powers (1945-1948). Quando Aranha percebeu que a partilha seria rejeitada, suspendeu a Assembleia, que só retornaria após o fim de semana e o Dia de Ação de Graças. Foi período suficiente para os sionistas agirem no sentido de mudar o voto dos delegados presentes à Assembleia.   

Visitaram todos aqueles contrários à partilha, oferecendo muito dinheiro, cheques em branco e fazendo ameaças de quebrar a economia das nações recalcitrantes. Esse procedimento bastou para a partilha receber a indicação de ir ao Conselho de Segurança – que, como dissemos, nunca examinou o caso. 


A opressão sionista e a alma da Resistência Palestina 

Entre a beleza e o árduo trabalho da colheita da azeitona, da produção do puro azeite de oliva, dos figos, das tâmaras e do za'atar no café da manhã, do makluba na hora do almoço, das músicas, das danças e da vida que aflora, teimosa, todos os dias, somos agraciadas pela palestinidade e sentimos pertencer a esse povo resiliente e generoso. Mas há outro lado nisso: no cotidiano, a violência israelense contrasta com a beleza, serpenteando e maltratando a Palestina. 

A opressão sionista é um peso presente na vida das famílias palestinas, seja nos territórios ocupados, nos campos de refugiados ou na diáspora. É uma ferocidade que destrói famílias separadas pelo muro da vergonha, pelo limite de transitar na “Área A”, na “Área 48”, em sua própria capital Jerusalém, nas humilhantes revistas nos postos de controle, na brutalidade contra os presos políticos e no impedimento de os refugiados pisarem onde nasceram. É uma vida sem direitos civis, sem liberdade e sem a possibilidade de ir e vir em seu território histórico. 

A política israelense de apartheid segrega e viola, no todo ou em parte, o povo nativo genuíno — um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Reconheceu estas palavras? É a tipificação do crime de genocídio pela Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio de 1948, das Nações Unidas (ONU). 

O colonialismo de povoamento foi uma intervenção violenta de limpeza étnica perpetrada por milícias sionistas (como Irgun, Lehi e Haganah) e ancorada nos propósitos da imigração em massa de judeus. Em 1948, o projeto de deslocamento forçado de 800 mil palestinos, com assassinatos, massacres e destruição de mais de 500 cidades e aldeias, ficou conhecido como Nakba — palavra em árabe que significa catástrofe. 


A vida do povo palestino é de resistência; um povo que sobrevive e luta contra a invasão sionista. São 78 anos desde o início oficial da Nakba (pois esta desgraça precede 1948), e as políticas de colônias israelenses, as demolições de casas, a expulsão dos palestinos de suas legítimas terras e as mudanças toponímicas e geográficas continuam.

 É um genocídio que dura mais de 100 anos, registrado pela história e, nos últimos anos, televisionado pelas mídias alternativas e pelas gravações de vídeos dos próprios palestinos. 

O genocídio do povo palestino, escancarado ao mundo, não é suficiente para sensibilizar a ONU e os governos internacionais a condenar Israel por crimes de guerra e terrorismo. Sem punição e com narrativas distorcidas que transformam os israelenses em vítimas, a pressão sionista — com o apoio e o financiamento dos Estados Unidos — avança em seu projeto expansionista da “Grande Israel”: ocupa as Colinas de Golã na Síria, invade o Líbano, destrói Gaza, negligencia as negociações e os acordos de paz, além de colecionar corpos (dos quais extraem órgãos) no maior genocídio geracional do século XXI. 

Trata-se de uma realidade controlada pelo exército sionista da entidade ocupante, que realiza assassinatos seletivos de jornalistas e repórteres para eliminar testemunhas oculares dos fatos. O colete azul com a inscrição "PRESS" (Imprensa) não garante proteção; pelo contrário, torna-se alvo para o "silenciamento" da realidade. São 263 jornalistas palestinos martirizados desde outubro de 2023, que enobreceram o exercício da profissão e trabalharam até o último suspiro (Israel mata, 2026). Enquanto isso, a mídia corporativa, alinhada ao sionismo, ampara a falácia de que os conflitos começaram em 7 de outubro de 2023. 

 Mas a comunidade internacional escolheu um lado: com amor e solidariedade, milhões de pessoas saíram às ruas em marchas de apoio à liberdade palestina. Manifestações públicas nas universidades, Flotilhas da Liberdade, eventos culturais, artistas e competições esportivas transformam-se em espaços para denúncias do genocídio, da destruição e da proibição de entrada de ajuda humanitária, água, alimentos e medicamentos em Gaza. A solidariedade internacional abraça e defende a Palestina livre, uma vitória da humanidade que ainda não sucumbiu ao caos, pois compreende que o sionismo não causa danos somente à Palestina, mas ao mundo. 

Determinada a romper com essa realidade, a Resistência Palestina e o Eixo da Resistência combatem a entidade ocupante sionista e o imperialismo estadunidense, enfrentando, há décadas, forças bélicas financiadas por países europeus e por monarquias árabes traidoras. A vitória está na unidade revolucionária.                         

 Da dor de dezenas de milhares de mártires e de mais de 150 mil feridos desde outubro de 2023, nasce a força para vencer. A resposta vem de nossas entranhas; mais que sangue, em nossas veias corre resistência. 

 A defesa da Palestina livre é o nosso compromisso em respeito aos palestinos, aos fedayins, aos mártires e a todos que lutam por um Estado palestino único, laico, democrático e soberano sobre seu solo histórico — isto é, sobre seu território de 27000 km², com Jerusalém inteira como capital, com o direito de retorno dos refugiados e com a libertação de todos os presos políticos. 

 Escrever a quatro mãos este texto nos remete à dor da expropriação da vida, carregada de tradições milenares, que pudemos vivenciar — mesmo que pouco — junto aos nossos irmãos palestinos, que nos acolheram com tanto amor!  

 Também nos leva a valorizar os doces momentos compartilhados com as famílias palestinas, amigos e lutadores, resultando no pertencimento que carregamos em nossos corações. 

 Compreendemos que a resistência é cotidiana, coletiva, construída na unidade e desafiadora. As vitórias não a desviam do rumo; a luta é calibrada e fortalecida no terreno, como na histórica resistência palestina e nos destemidos enfrentamentos do Irã e do Iêmen ao sionismo e às agressões de Washington. 

Somos todos palestinos! Sentimos isso quando estamos na Palestina ou em qualquer lugar do mundo, pois não somos indiferentes à barbárie; ao contrário, aprendemos com os combatentes que a libertação da Palestina é a libertação do mundo das mazelas do capitalismo, do imperialismo e do sionismo. A luta do povo palestino é um exemplo a seguir, pois não existe paz sem justiça. 

Viva a Palestina livre do rio ao mar! 

 

As imagens utilizadas neste trabalho reúnem obras de expressivos nomes da arte palestina: Sliman Mansour (1947-2026), artista histórico do movimento de resistência visual; Katalo yousef (1965) — Entrevistado por Rafiqa em seu ateliê em Hebron, Palestina, em 2019, onde conheceu as suas obras em defesa da Palestina;  e Kael Abello (1984) artista e designer gráfico venezuelano, que aborda nas suas produções a memória coletiva, a identidade e as vivências do povo palestino.

Outubro/2026


 

 


[1] Um acordo secreto de 1916, entre Reino Unido e França, estabeleceu o domínio das duas potências colonialistas europeias sobre o espólio do império otomano. Os britânicos ficaram com o centro e o sul do Iraque, a Transjordânia (atual Jordânia) e a Palestina. A França obteve a Síria, o Líbano e o sudeste da Turquia. Por esse acordo, denominado Tratado Sykes-Picot (referência aos sobrenomes dos dois negociadores), o império britânico pode determinar o futuro da Palestina.


Referências 

AHMAD, Yakoota al. Hamas denies it killed children in fight with Israel. AA, Ankara, 11 out. 2023. Disponível em: https://www.aa.com.tr/en/middle-east/hamas-denies-it-killed-children-in-fight-with-israel/3015680. Acesso em: 05 out. 2026. 

COHEN, Michael J. Palestine and the great powers (1945-1948). New Jersey: Princeton University Press, 1982. 

DECLARAÇÃO Balfour (1917). Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Declara%C3%A7%C3%A3o_Balfour_(1917). Acesso em: 05 out. 2026.

HANKINS, Amelia. Investiagrion reveals two Nova partygoers shot by Israeli soldier. L’orient Today, Beirut, 22 fev. 2024. Disponível em: https://today.lorientlejour.com/article/1369061/investigation-reveals-two-nova-partygoers-shot-by-israeli-soldier-haaretz.html. Acesso em: 05 out. 2026. 

HERZL, Theodor. Conclusion. The Jewish State, 1896. In: BRENER, Lenni (org.). 51 documents: Zionist collaboration with the nazis. 2ª reimpressão. New Jersey: Barricade Books, 2002, p. 03. 

IDF helicopter fired at Israeli civilians fleeing musicfestival during Hamas’ Oct 7 attack: report. Dawn, Islamabad, 20 de nov. 2023. Disponível em: https://www.dawn.com/news/1790937. Acesso em: 05 out. 2026. 

ISRAEL MATA jornalista Mohammed Al-Najjar em ataque aéreo e eleva a 263 o total de profissionais de mídia palestinos que assassinou desde outubro de 2026. Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, São Paulo, 2026. Disponível em: https://sjsp.org.br/israel-mata-jornalista-mohammed-al-najjar-em-ataque-aereo-e-eleva-a-263-o-total-de-profissionais-de-midia-palestinos-que-assassinou-desde-outubro-de-2023/. Acesso em: 2026. 

NOVARAMEDIA. ‘I won’t condemn Hamas. I refuse to do that’. Youtube, 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/shorts/2Kxm9Vevizs. Acesso em: 05 out. 2026. 

SALES, Ana Gabriela. Israel é principal responsável por mortes em rave, afirma site britânico após investigação. Opera Mundi, São Paulo, 16 jan. 2024. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/guerra-israel-x-palestina/israel-e-responsavel-por-mortes-em-rave-afirma-site-britanico-apos-investigacao/. Acesso em: 05 out. 2026. 


Autoras:
Baby Siqueira Abrão, jornalista, ex-correspondente do jornal Brasil de Fato na Palestina 
Rafiqa Salam, socióloga e ativista da causa palestina 


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A propaganda sionista tem muitos recursos; eles são sempre atualizados.

 

O documentário Naza, aclamado e premiado no Festival de Cinema de Veneza, valida a entidade colonial sionista ...



Apresentado no Festival de Cinema de Veneza , o documentário Naza (que significa dano colateral), de Yuval Abraham e Rachel Szor, financiado em parte pelo jornal britânico The Guardian, recebeu uma ovação estrondosa: mais de 20 minutos de aplausos após sua exibição no Festival de Veneza, além do Prêmio Especial do Júri. O filme é baseado em entrevistas com membros do Exército israelense. Os rostos dos vinte e quatro entrevistados permanecem borrados e suas vozes foram alteradas. As entrevistas ocorreram discretamente, em penumbra, em um terraço com vista para a cidade.

Um jornalista do 20minutes , que assistiu ao filme, escreveu: “  Os depoimentos dos entrevistados são assustadoramente naturais e diretos. Descobrimos que o exército israelense considera aceitável uma margem de erro de 15% no número de mortos e que é legítimo matar suspeitos de terrorismo à noite, no meio de suas famílias, incluindo esposas e filhos. O que é dito é estarrecedor. Um dos soldados compara os ataques a um videogame, e outro admite ter gostado de atirar em palestinos que tentavam chegar a pontos de abastecimento. Esses homens não são monstros. Entre a desumanização inerente aos ataques com drones e um ódio cuidadosamente cultivado, eles cumprem seu dever sem muito remorso. Chegam até a admitir que mataram pessoas inocentes, sabendo que elas não estavam armadas nem representavam ameaça.  ”

Entre políticos de todas as matizes dentro da entidade colonial sionista, o filme e o prêmio que recebeu provocaram indignação. O Ministro da Cultura, Miki Zohar, manifestou-se em 13 de setembro, declarando: “  O ódio ardente dos cineastas por si mesmos, sua disposição em prejudicar sua pátria para receber aplausos de antissemitas em todo o mundo, é incompreensível e constitui traição contra o Estado  ”. Na mesma noite, ele exigiu que os dois cineastas tivessem sua cidadania cassada. Em relação à coalizão de oposição a Netanyahu, os “sionistas liberais”, o ultrarreacionário Avigdor Lieberman, ex-Ministro da Defesa, denunciou  “uma teia de difamação e calúnia contra o Estado de Israel, contra as Forças de Defesa de Israel e contra nossos magníficos combatentes  ”.

Rachel Szor, diretora, e Yuval Abraham, jornalista investigativo que se aventurou na produção de documentários, são também os autores, em 2024, do filme No Other Land, que mostra a realidade da pressão da ocupação colonial sobre os palestinos da Cisjordânia, através da aldeia de Massafer Yata, as demolições de casas pelo Estado colonial sionista, as prisões arbitrárias, os assassinatos e a resistência dos palestinos que reconstroem as casas destruídas à noite.

Poderíamos terminar por aqui e juntar-nos ao coro de elogios e àqueles que consideram Abraham e Szor heróis, mas a realidade mostrada por este filme e a análise que pode ser feita do evento no Festival de Cinema de Veneza são muito mais complexas.

 

A validação de um crime pelos criminosos.

O público entusiasmado do Festival de Cinema de Veneza e as pessoas que celebram os dois "heróis", particularmente a "esquerda" unânime na França, ilustram perfeitamente o problema. Em termos concretos, um filme feito por cidadãos da entidade sionista tornou a realidade palestina suficientemente crível para ser confrontada. Simplesmente porque um israelense diz isso. Hoje, o filme é celebrado porque soldados sionistas relatam os detalhes do assassinato de palestinos. Não vivenciamos tal fervor ou emoção quando os palestinos relataram esses mesmos detalhes, quando os habitantes de Gaza filmaram seus filhos sob os escombros e seus médicos amputando os feridos sem anestesia. A arrogância ocidental não reagiu de fato à considerável quantidade de imagens e depoimentos que documentam a aniquilação de famílias inteiras e o assassinato de jornalistas enquanto relatavam a verdade. A julgar por essas reações entusiasmadas, pode-se concluir que havia necessidade de uma voz vinda de dentro do próprio exército de ocupação para confirmar a realidade do que vem acontecendo há três anos à vista de todos. Que falha moral leva a suspender a credibilidade do testemunho de uma vítima até que este seja validado por um membro do exército de seu opressor?

Estamos inegavelmente testemunhando uma negação dos direitos dos palestinos, já que o Festival de Cinema de Veneza não mostra seu próprio sofrimento, filmado por eles , mas apenas a perspectiva, por mais criticada que seja, do exército colonial ocupante. Além disso, havia dois filmes palestinos no festival, incluindo "Cidadão Osama", de Ahmed Hassouna, um diretor palestino de Gaza. A sinopse oficial de seu documentário diz: "  Em Gaza, entre os bombardeios e seus sonhos cinematográficos, um jornalista navega entre o dever profissional, as ansiedades familiares e a emoção de se tornar pai, lutando para preservar o que resta da humanidade em um mundo mergulhado no caos.  " No entanto, "Cidadão Osama" foi selecionado apenas fora de competição no Festival de Cinema de Veneza ; nem o diretor nem os atores puderam comparecer.

Grande parte da pequena burguesia ideológica ocidental não consegue ou não quer acreditar na narrativa palestina, rotulando-os de terroristas, islamistas e antissemitas, e só lhe dão crédito quando os "mocinhos" da "democracia" colonial sionista a validam. Esta é a dura realidade com a qual o Festival de Cinema de Veneza nos confronta . E não é novidade. Basta lembrarmos de Valsa com Bashir , lançado em 2008. O título se referia a uma cena em que um soldado sionista atirava enquanto dançava no coração de Beirute, cercado por retratos de Bachir Gemayel, aliado do inimigo sionista no Líbano! O filme revisitava a invasão do Líbano e os massacres de Sabra e Shatila através das memórias, pesadelos e remorso — coitado — deste soldado das Forças de Defesa de Israel. Ele, naturalmente, ganhou um Globo de Ouro em 2009, concedido ao Estado colonial sionista, o mesmo que perpetrou esses massacres no Líbano!

 

Os sionistas se beneficiam disso.

Com o filme Naza e seus depoimentos angustiantes sobre os crimes da ocupação, a mesma questão ressurge em relação ao significado desse fascínio. E quais são as suas consequências? O sangue de palestinos e libaneses é relegado a um segundo plano, em detrimento da crise psicológica de um soldado que participou da invasão, do genocídio, dos assassinatos, das demolições e das mutilações. Em última análise, sua consciência moral assume o protagonismo, e sua confissão se torna uma conquista digna de prêmios e aplausos entusiasmados.

Certamente, revelar o crime pode servir à verdade. Mas transformar isso em uma celebração da consciência sionista permite ao Estado colonial acumular capital moral e à entidade colonial aprimorar sua imagem, enquanto os direitos das vítimas permanecem suspensos ou são esquecidos. Assim, a Ocupação consegue absorver a condenação de seus crimes e apresentá-la como prova de sua capacidade de autocrítica, sem, contudo, questionar seus fundamentos. Esta é a sua obra, este filme que ele produziu. A coragem dessa confissão não concede ao Estado um atestado de inocência; Na melhor das hipóteses, isso lhes rende mais um prêmio de cinema. Sangue palestino e árabe não pode ser usado para melhorar a imagem da ocupação!

Esses depoimentos certamente podem fornecer evidências para responsabilização, mas transformar essa confissão em um ato de bravura moral, enquanto se oculta a identidade dos envolvidos, equivale a celebrá-los e absolvê-los de toda responsabilidade. O sangue palestino não pode ser usado para reabilitar a imagem daqueles que o derramaram. Tudo o que observamos neste filme coloca os sionistas no centro das atenções. 

O filme apresenta os crimes de guerra da entidade colonial sionista contra os palestinos de uma forma que se recusa a humanizá-los. Porque mal os vemos.

Um internauta publicou esta mensagem no X: “  Dois colonos gravam entrevistas com colonos genocidas para que testemunhem sobre como exterminaram os palestinos nativos, garantindo-lhes o anonimato para protegê-los de possíveis julgamentos e prisões. O filme recebeu uma ovação de pé no Festival de Cinema de Veneza. Israel criou um gênero cinematográfico específico, ‘ Atire e Chore ’ , baseado no choque psicológico sentido por soldados israelenses após matar palestinos ou libaneses.” 

Estamos, mais uma vez, no cerne do problema. Porque esse “gênero cinematográfico”, como descrito, transforma os perpetradores do genocídio em vítimas traumatizadas de um sistema colonial que nunca é questionado. 

Todos esses filmes comoventes são aclamados e premiados em festivais de cinema ocidentais, como o Naza em Veneza. 

Esses países imperialistas ocidentais, ao premiarem essas obras de propaganda, apoiam o colonialismo substituto dos sionistas. Todos eles tentam nos fazer acreditar que a eliminação dos nativos era inevitável, enquanto fingem ter se sentido incomodados com isso, como em Valsa com Bashir.

Ou talvez sugiram a existência de uma minoria de colonos que se opõem a esses "excessos" e que a colonização deva ser mais "humanitária"; que uma parte da sociedade colonial demonstre humanidade, como os cineastas de Naza . 

O filme pode, portanto, ser interpretado como "Existe uma realidade de resistência antissionista dentro da entidade colonial ", o que é uma mentira, e todos os que elogiam o filme sabem disso. Mas a mensagem é esta: "Há esperança dentro da sociedade colonial sionista; portanto, a entidade colonial pode e deve ser reabilitada".

 Na realidade, a sociedade da entidade colonial está repleta de sionismo, e os dois cineastas servem, na melhor das hipóteses, como símbolos. Entre esses colonos, sejam eles quem forem, uma humanidade é, em última análise, reconhecida, ao contrário dos povos indígenas exterminados, que não são considerados seres humanos e, portanto, não merecem que os porta-vozes dos imperialistas ocidentais lhes estendam um microfone para relatar seu próprio extermínio. Durante três anos, nenhum jornalista ou cineasta ocidental conseguiu penetrar no vasto gueto da morte que é Gaza, e nenhum "sionista humanitário" produziu um filme épico sobre a revolta do gueto de Gaza, ao contrário do que foi feito em relação à Revolta do Gueto de Varsóvia ou aos campos de extermínio alemães. O objetivo desse "gênero cinematográfico" é permitir a continuidade do extermínio e da limpeza étnica, oferecendo um disfarce baseado na autovitimização tanto de soldados quanto de alguns colonos.

Por fim, serve também para absolver os sionistas. Naza cumpre ainda uma função crucial de propaganda: permite que os sionistas, plenamente conscientes das ações de sua entidade genocida e apoiando-a incondicionalmente, finjam choque e descoberta repentina, ao mesmo tempo que percebem a imagem manchada da marca. Transforma-os, superficialmente, em seres "morais". Por exemplo, o apresentador de TV sionista Raviv Drucker assistiu ao filme. Ele comentou que se viu "  como os alemães durante a Segunda Guerra Mundial, descobrindo o que seu país havia feito  " .

O resumo de Naza e sua projeção é o seguinte: ele não cita nomes, portanto nenhuma acusação pode ser feita contra qualquer indivíduo que tenha participado ativamente do genocídio; ele revela, com grande alarde, o que todos já sabem há séculos; e, finalmente, ele é uma forma de estender compaixão àqueles que cometem genocídio. Como se eles já não recebessem muito mais empatia do que suas vítimas!

 

A ambiguidade de Yuval Abraham

Em abril de 2024, Yuval Abraham estava entre os muitos intelectuais "de esquerda" dentro da sociedade colonial sionista que espalharam mentiras sobre estupros supostamente perpetrados pela Resistência. O New York Times, um jornal firmemente pró-sionista, como sabemos, teve que se render após uma investigação de quatro meses em março de 2024, revelando que não havia encontrado nenhuma evidência. Sem se deixar abalar, a mídia do estado colonial sionista tentou fazer com que ex-prisioneiras da Resistência Palestina se manifestassem, uma das quais cumpriu esse papel de forma vaga após permanecer em silêncio por várias semanas. Eis o conteúdo da mensagem de Yuval Abraham: "  O silêncio daqueles que passaram meses semeando dúvidas sobre os depoimentos israelenses de estupro é vergonhoso. Hoje, quando uma refém corajosa descreve em detalhes como foi acorrentada e torturada sexualmente, é igualmente vergonhoso." Aqueles que exploram esses fatos para justificar crimes em Gaza são igualmente culpados. Propagandistas, todos eles…  ." 

Assim como outros sionistas, ele amplificou mentiras inventadas sobre estupros perpetrados por palestinos que jamais ocorreram. Essas mentiras contribuíram para mergulhar a opinião pública da entidade colonial sionista em um frenesi genocida, exacerbando ainda mais sua sede de sangue e fornecendo um pretexto perfeito para que os "progressistas" ocidentais permanecessem inertes e não fizessem nada. O próprio propósito dessa farsa de estupro em massa era fazer com que esses "progressistas" ocidentais percebessem o genocídio como uma punição justificada. Tudo não passou de uma mentira, e Yuval Abraham ajudou a legitimá-la.

O próprio Yuval Abraham serviu no exército de ocupação colonial. E, em todas as suas publicações, ele enquadrou o contexto de forma degradante, colocando o ocupante e o povo ocupado em pé de igualdade na condenação, embora reconhecesse a existência da ocupação. Ele é como os nossos colonialistas "bem-intencionados" na França, que vilipendiam Netanyahu (mas não o sionismo) e o Hamas, tratando colonizador e colonizado da mesma forma. Essa abordagem não pode contribuir para o fim da colonização.

Finalmente, após o lançamento de No Other Land , Abraham afirmou ter uma ligação com os atores palestinos e sua aldeia. Desde então, vários moradores foram sequestrados, um assistente de direção palestino foi assassinado pelo exército de ocupação, a aldeia sofreu ainda mais destruição e, em seu segundo filme, não há nenhum palestino. Onde termina essa "ligação"?

 

Para concluir

Sob cada pedra destacada pela "esquerda" colonialista de boas intenções e pela pequena burguesia, esconde-se uma enguia. E esta é grande!

A validação, três anos depois, quando um colono fala a verdade, por parte de todos os "esquerdistas" hipócritas, pode parecer surpreendente. No entanto, decorre da dificuldade, ou mesmo da incapacidade, deles em compreender a realidade da colonização. Para eles, a sociedade colonial sionista é uma sociedade "normal", uma "democracia", como diria Sophie Binet. Contudo, embora seja uma democracia burguesa, e não uma verdadeira democracia como as dos países imperialistas ocidentais, é impossível esquecer que ela se distingue por ser uma sociedade de colonos, e que a identidade colonial tem um caráter muito específico. No âmbito de um colonialismo baseado na substituição demográfica forçada das populações indígenas por colonos estrangeiros, estes desenvolvem seu próprio modo de acumulação de capital — em termos de terras, recursos ou exploração do trabalho indígena — durante o processo de invasão. Trata-se de uma forma distinta de acumulação de riqueza, específica tanto da sociedade de colonos quanto dos próprios indivíduos, além daquela que beneficia a metrópole com a existência e o funcionamento do assentamento. Entre os seis milhões de colonos, principalmente de origem europeia, apenas alguns são genuinamente antissionistas; Após uma longa jornada pessoal para se libertarem da doutrinação, consideram-se palestinos, sendo sua identidade "israelense" meramente o produto de uma necessidade imposta. Pode-se, portanto, afirmar que praticamente toda a sociedade da entidade sionista é uma sociedade de colonos, pois, apesar das dissensões internas, apoia um regime colonial que não questiona e no qual se baseiam seus privilégios e condições materiais. Aqueles que não compreendem a fase imperialista, nem a natureza fundamental dessa colonização substitutiva, não podem entender ou aceitar essa realidade evidente.

Obviamente, esta análise pode ser perturbadora e colocar alguns numa difícil contradição. Inicialmente, pode-se saudar esta conquista, esta revelação que ajuda na luta contra as ações do Estado colonial sionista e seus apoiadores imperialistas ocidentais. Mas então percebe-se que essa suposta capacidade de autorreflexão é intrinsecamente parte do sistema em funcionamento dentro do Estado pária, apoiado por uma esmagadora maioria da população colonizadora. E, como se compreende, os cineastas, por mais respeitáveis ​​que sejam, são, na verdade, os garantes de um Estado irreformável. 

Isso força todos os apoiadores sinceros da libertação da Palestina a confrontar o único caminho que levará ao fim do horror deste genocídio em curso: o desmantelamento da entidade colonial sionista genocida .

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