sábado, 28 de março de 2026

A guerra contra o Irã faz parte de uma guerra ocidental mais ampla em frentes de resistência interligadas.

 

O Irã enfrenta uma guerra ocidental mais ampla, com frentes de resistência interligadas que abrangem a Palestina, o Líbano, a Síria, o Sudão, o Yemen e toda a região

 

Por: Dr. Firoz Osman *

A guerra contemporânea não se limita a um único campo de batalha. Ela se desenrola simultaneamente em múltiplas frentes em todo o mundo muçulmano — Palestina, Líbano, Síria, Sudão e, agora, Irã.

Esses não são confrontos isolados, mas sim palcos interligados dentro de uma luta geopolítica mais ampla por poder, recursos e hegemonia ideológica.

Para compreender a atual escalada contra a República Islâmica do Irã, é essencial situá-la num contexto histórico mais amplo, definido pela intervenção, resistência e luta pela soberania no mundo muçulmano.

1979: o ponto de virada

A fase moderna de confronto com o Irã começou com a Revolução Islâmica de 1979.

A revolução popular derrubou o Xá, um monarca cujo poder havia sido consolidado por meio de intervenção estrangeira. Em 1953, um golpe orquestrado pela Agência Central de Inteligência (CIA) depôs o primeiro-ministro democraticamente eleito, Mohammad Mosaddegh, após a nacionalização da indústria petrolífera, que antes era dominada por interesses britânicos.

O Xá, restaurado ao poder, governou através da repressão, perpetrada pela SAVAK, uma temida polícia secreta conhecida pelo uso sistemático de tortura e brutalidade.

A resistência a esse regime apoiado pelo Ocidente cresceu de forma constante, culminando em um levante popular que levou à revolução. Em 11 de fevereiro de 1979, a República Islâmica foi formalmente estabelecida, alterando fundamentalmente o equilíbrio de poder na região.

Irã e Palestina: ideologia e alinhamento

A Revolução Islâmica de 1979 marcou imediatamente uma virada nas prioridades da política externa iraniana.

Em poucos dias, o Irã transferiu a antiga embaixada israelense em Teerã para a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Yasser Arafat tornou-se o primeiro líder estrangeiro a visitar o Irã após a revolução, simbolizando um novo alinhamento estratégico.

Naquele mesmo ano, o fundador da República Islâmica, o aiatolá Ruhollah Khomeini, proclamou o Dia de Al-Quds, uma mobilização global anual realizada na última sexta-feira do Ramadã e dedicada à libertação de Jerusalém.

O Dia Mundial de Quds transcende o mero simbolismo: constitui um instrumento de mobilização política, reafirmação ideológica e expressão global de solidariedade. Ele conecta lutas locais a uma visão mais ampla de unidade dentro da Ummah muçulmana.

O apoio firme e inabalável do Irã à Palestina não é concebido como uma opção diplomática, mas como uma obrigação religiosa e ideológica baseada na defesa dos oprimidos em escala global.

Por que a Revolução de 1979 desestabilizou o Ocidente?

A Revolução Islâmica liderada pelo Aiatolá Khomeini representou muito mais do que uma mudança de regime: alterou a arquitetura da influência ocidental na região.

O Xá havia sido um aliado fundamental, garantindo ao Ocidente o acesso a recursos energéticos, uma dinâmica regional favorável aos seus interesses e um alinhamento estratégico com Israel.

Com a sua queda, os Estados Unidos, o Reino Unido e Israel perderam um dos pilares centrais da sua ordem regional.

Historicamente, dois imperativos estratégicos — o controle dos recursos energéticos e a proteção de Israel — moldaram a política ocidental no Oriente Médio. O surgimento de uma República Islâmica independente e desafiadora colocou ambos à prova.

Contenção: sanções e isolamento

Em resposta, o Irã foi submetido a uma pressão econômica e política constante por parte das potências ocidentais, lideradas pelos Estados Unidos e seus aliados.

Durante décadas, as sanções têm sido usadas como uma ferramenta para enfraquecer a República Islâmica, limitar sua influência e corroer o apoio interno ao seu modelo revolucionário.

Esse padrão transcende o caso iraniano: qualquer Estado que desafie as estruturas dominantes da ordem global fica exposto ao estrangulamento econômico ou ao confronto militar.

Palestina: Cerco e Resistência

Enquanto o Irã enfrentava sanções, a Palestina sofria sob um regime de apartheid e cerco.

Por quase duas décadas, Gaza permaneceu sob bloqueio: sua população confinada, monitorada e submetida a um estrangulamento econômico sistemático. Apesar disso, os movimentos de resistência palestinos desenvolveram extensas redes clandestinas que lhes permitiram organizar, treinar e sustentar sua luta pela libertação dos territórios ocupados.

O apoio do Irã, juntamente com a coordenação com grupos como o Movimento de Resistência Islâmica Libanês (Hezbollah), contribuiu para a consolidação dessa infraestrutura de resistência.

Normalização árabe e traição estratégica

Paralelamente ao sofrimento palestino, vários estados árabes caminharam gradualmente para a normalização das relações com o regime israelense, em detrimento da causa palestina.

Países como Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão estabeleceram ou fortaleceram seus laços com Israel, priorizando a estabilidade de seus regimes, a cooperação econômica e as garantias de segurança.

Essa mudança refletiu um cálculo mais amplo: a sobrevivência das elites governantes em detrimento da solidariedade com a Palestina. A dependência da proteção militar ocidental, particularmente por meio das bases americanas no Golfo Pérsico, reforçou essa orientação.

7 de outubro: Choque estratégico

Em 7 de outubro de 2023, o Movimento de Resistência Islâmica Palestina (Hamas) lançou uma operação em larga escala nos territórios ocupados, denominada "Operação Tempestade de Al-Aqsa", (em unidade com todas as facções da resistência palestina)-Nota do tradutor.
Essa operação desafiou antigas suposições sobre a invulnerabilidade militar israelense e desencadeou uma escalada regional. Também reativou uma rede de grupos aliados, incluindo o Hezbollah no Líbano, o movimento popular iemenita Ansar Allah e várias facções armadas no Iraque.

Essa constelação, frequentemente descrita como o “Eixo da Resistência”, demonstrou pressão coordenada e multifrontal contra Israel e seus aliados regionais e extrarregionais.

Por que o Irã apoia a Palestina?

Embora a Palestina não seja mencionada explicitamente na Constituição iraniana, a liderança do país baseia seu apoio em princípios mais amplos: defender os oprimidos, opor-se à injustiça e comprometer-se com a unidade muçulmana.

O artigo 152 da Constituição iraniana estrutura a política externa em torno desses princípios, fornecendo a base para sua postura consistentemente pró-Palestina.

A narrativa de resistência é reforçada através de figuras consideradas mártires, incluindo Ahmed Yassin, Abdel Aziz al-Rantisi, Ismail Haniyeh, Yahya Sinwar, Seyed Hasan Nasrallah, Qasem Soleimani e Abu Mahdi al-Muhandis, entre outros.

Essas figuras são concebidas não apenas como líderes revolucionários, mas também como símbolos de resistência.

Histórias de sacrifício — como as que descrevem Sinwar lutando até seus últimos momentos ou o aiatolá Khamenei se recusando a se esconder apesar das ameaças à sua vida — fortalecem o moral e legitimam a continuação da luta contra o que é apresentado como uma coalizão israelense-americana.

Liderança e autoridade moral

As narrativas atribuídas a figuras como o aiatolá Khamenei destacam um modelo de liderança baseado na partilha de riscos e na coerência moral.

A premissa é clara: um líder não pode exigir sacrifícios sem fazê-los.

Essa abordagem se baseia profundamente na memória histórica islâmica, particularmente no legado do Imam Hussein ibn Ali (P), onde a firmeza diante da extrema adversidade é considerada a expressão máxima de integridade.

Guerra, poder e o futuro

A atual guerra contra a República Islâmica do Irã — amplamente considerada ilegal e injustificada — não pode ser reduzida a um único fator.

Isso reflete tensões estruturais mais profundas: entre independência e controle externo, entre resistência e normalização, entre compromisso ideológico e pragmatismo político.

O que fica claro é que as guerras na Palestina, no Irã e em toda a região não são fenômenos isolados. São manifestações interligadas de uma luta maior que continuará a moldar o panorama político e moral do mundo muçulmano.

* O Dr. Firoz Osman é um autor e analista radicado na África do Sul, autor de Shattering Zionist Myths e coautor de Why Israel ?.


Texto retirado de um artigo publicado na Press TV.

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