sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Choque de titãs no coração da Terra

por Pepe Escobar [*]
Os loucos anos vinte começaram com o estrondo do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani.

No entanto, um estrondo maior nos aguarda ao longo da década: os vários desdobramentos do Novo Grande Jogo na Eurásia mercê do afrontamento dos Estados Unidos contra a Rússia, a China e o Irã, os três principais pilares da integração na região.

Qualquer ato de mudança neste jogo em termos de geopolítica e geoeconomia terá de ser analisado em conexão com esse choque de grande envergadura.

O Estado Profundo (Deep State) norte-americano e os setores determinantes da classe dominante dos Estados Unidos da América vivem absolutamente aterrorizados com o facto de a China estar a ultrapassar economicamente a "nação indispensável" e de a Rússia a ter superado militarmente . O Pentágono designa oficialmente os três pilares da Eurásia como "ameaças".

As técnicas de guerra híbrida – acompanhadas pela demonização sorrateira incessante – irão proliferar com o objetivo de conter a "ameaça" da China, a "agressão" russa e o "patrocínio do terrorismo" do Irã. O mito do "mercado livre" continuará a sentir-se de maneira asfixiante através da imposição de uma enxurrada de sanções ilegais, eufemisticamente apresentadas como novas "regras" comerciais.

No entanto, tais práticas dificilmente serão suficientes para inviabilizar a parceria estratégica sino-russa. Para desvendar o significado mais profundo dessa parceria é importante compreender que Pequim a define como o rumo para "uma nova era". Isso significa um planejamento estratégico a longo prazo – na perspectiva da data-chave de 2049, o centenário da Nova China.

O horizonte para os múltiplos projetos da Iniciativa Cintura e Estrada (ICE), também conhecida como Nova Rota da Seda, é, de fato, a década de 2040, altura em que Pequim calcula ter tecido completamente um novo paradigma multipolar de nações/parceiros soberanos na Eurásia e além dela, todos associados por um labirinto interligado de cinturas e estradas.

Quanto ao projeto russo – a Grande Eurásia – reflete de alguma maneira a Cintura e Estrada e estará integrado nesse processo. A Iniciativa Cintura e Estrada, a União Econômica da Eurásia, a Organização de Cooperação de Xangai e o Banco de Investimento em Infraestruturas da Ásia convergem na mesma perspectiva.

Realpolitik

Esta "nova era" definida pela parte chinesa depende fortemente de uma estreita coordenação entre Pequim e Moscou em cada setor. O projeto "Made in China 2025" engloba uma série de avanços técnico-científicos. Ao mesmo tempo, a Rússia afirma-se com recursos tecnológicos sem paralelo em armas e sistemas, em níveis que a China ainda não consegue atingir.

Na última cimeira dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) realizada em Brasília, o presidente Xi Jinping disse a Vladimir Putin que "a atual situação internacional, com crescentes instabilidade e incerteza, instou a China e a Rússia a estabelecer uma coordenação estratégica mais estreita". A que Putin respondeu: "Na situação atual, os dois lados devem continuar a manter uma estreita comunicação estratégica".

A Rússia está a mostrar à China como o Ocidente respeita o poder da Realpolitik de qualquer forma; e Pequim está finalmente começando a usá-lo. O resultado é que, após cinco séculos de dominação ocidental – que, aliás, levaram ao declínio das antigas rotas da seda – o Heartland [1] está de volta com estrondo, afirmando a sua influência.

A minha observação pessoal, as viagens que realizei nos últimos dois anos na Ásia Ocidental e Central e as minhas conversas nos últimos dois meses com analistas em Nur-Sultan (Casaquistão), Moscou e Itália permitiram-me mergulhar na complexidade do que algumas mentes afiadas definem como Double Helix (dupla hélice). Estamos cientes dos imensos desafios que há pela frente – ao mesmo tempo que é difícil acompanhar o impressionante ressurgimento do Heartland em tempo real.

Em termos de soft power, o papel de destaque da diplomacia russa tornar-se-á ainda mais importante – sustentado por um Ministério da Defesa liderado por Serguei Shoigu, um tuvano da Sibéria e um braço de inteligência capaz de dialogar construtivamente com todos: Índia/Paquistão, Coreia do Norte/Sul, Irã/Arábia Saudita, Afeganistão.

Esse processo amortece (complexas) questões geopolíticas de uma maneira que ainda ilude Pequim.

Paralelamente, praticamente toda a região Ásia/Pacífico tem agora em consideração a Rússia e a China como forças opostas à superioridade financeira e naval dos Estados Unidos.

Apostas no Sudoeste asiático

O assassinato  direcionado do general Soleimani, por todas as suas consequências a longo prazo, é apenas um movimento no tabuleiro do Sudoeste da Ásia. Em última análise, o que está em jogo é um prêmio macro-geoeconômico: uma ponte terrestre do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo Oriental.

No Verão passado uma reunião trilateral Irã-Iraque-Síria estabeleceu que "o objetivo das negociações é ativar o corredor de carga e transportes" entre os três países "como parte de um plano mais vasto que é o da reativação da Rota da Seda".

Não poderia haver um corredor de ligação mais estratégico, capaz de se interligar simultaneamente com o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul; com a conexão Irã-Ásia Central-China até ao Pacífico; e com Latakia (Síria) em direção ao Mediterrâneo e ao Atlântico.

O que está no horizonte é, de facto, uma sub-seção da Iniciativa Cintura e Estrada no Sudoeste da Ásia. O Irã é um nó central da ICE. A China está fortemente envolvida na reconstrução da Síria; e Pequim e Bagda assinaram vários acordos e criaram um Fundo de Reconstrução Iraquiano-Chinês (receitas de 300 mil barris de petróleo por dia em troca de crédito chinês para as empresas chinesa que reconstroem as infraestruturas iraquianas).

Uma rápida olhadela aos mapas revela o "segredo" da atitude dos Estados Unidos de se recusarem a fazer as malas e a deixar o Iraque, conforme lhes foi exigido pelo Parlamento e pelo primeiro-ministro iraquianos: impedir o ressurgimento desse corredor através de todos os meios necessários. Especialmente quando sabemos que todas as estradas em construção pela China na Ásia Central – passei por muitas delas em Novembro e Dezembro – acabam ligando a China ao Irã.

O objetivo final: unir Xangai ao Mediterrâneo Oriental por terra, através do Heartland.

Por mais que o porto de Gwadar no Mar da Arábia (no Baluchistão paquistanês) seja um nó essencial do Corredor Econômico China-Paquistão, e parte da multifacetada estratégia da China para "escapar ao Estreito de Malaca" (controlado pelos Estados Unidos), a Índia também cortejou o Irã para replicar Gwadar com o porto de Chabahar, no Golfo de Omã.

Enquanto a China pretende ligar o Mar da Arábia ao Xinjiang através do corredor econômico, a Índia deseja conectar-se ao Afeganistão e à Ásia Central via Irã.

No entanto, os investimentos da Índia em Chabahar podem dar em nada, uma vez que Nova Deli ainda está a ponderar se deve tomar parte ativa na estratégia "Indo-Pacífico" dos Estados Unidos; nesse caso, o Irã retirar-se-ia desse processo.

O exercício militar conjunto Rússia-China-Irã em finais de Dezembro, iniciado exatamente em Chabahar, foi um sinal inequívoco dado a Nova Deli. A Índia não pode simplesmente ignorar o Irã ou acaba por perder o seu principal nó de ligação, Chabahar.

Há um fato imutável: todas as partes interessadas têm necessidade de ligações com o Irã. Por razões óbvias, desde o Império Persa, trata-se de um centro privilegiado de todas as rotas comerciais da Ásia Central.

Mais importante ainda é o fato de, para a China, o Irã ser uma questão de segurança nacional. A China investe fortemente no setor energético do Irã. Todo o comércio bilateral é processado na moeda chinesa ou numa cesta de moedas que ignora o dólar norte-americano.

Enquanto isso, os neocons (neoconservadores) dos Estados Unidos sonham ainda com o objetivo de Cheney na década passada: mudança de regime no Irã que permita aos Estados Unidos dominarem o Mar Cáspio como trampolim para a Ásia Central, apenas a um passo de distância de Xinjiang e do incentivo aos procedimentos anti-chineses. Isto poderia ser encarado como uma Nova Rota da Seda ao contrário, para afundar o projeto da China.

A batalha das eras

Um novo livro, The Impact of the Belt and Road Iniciative (O Impacto da Iniciativa Cintura e Estrada) da China, de Jeremy Garlick, da Universidade de Economia de Praga, tem o mérito de admitir que o fato de a ICE "fazer sentido" é "extremamente difícil".

Trata-se de uma tentativa extremamente séria de teorizar sobre a imensa complexidade da Iniciativa Cintura e Estrada, especialmente considerando a abordagem flexível e sincrética da China para elaboração de políticas, bastante desconcertante para os ocidentais. Para atingir o seu objetivo, Garlick entra no paradigma da evolução social do professor Shiping Tang , mergulha na "hegemonia neo-gramsciana" e disseca o conceito de "mercantilismo ofensivo" – tudo como parte de um esforço no sentido do "ecletismo complexo".

O contraste com a vulgar narrativa de demonização da ICE terrestre que emana dos "analistas" norte-americanos é flagrante. O livro aborda em pormenor a natureza multifacetada do transregionalismo da ICE como um processo orgânico em evolução.

Os criadores de políticas imperiais não se preocupam em compreender como e porquê a ICE tem vindo a estabelecer um novo paradigma global. A recente cimeira da OTAN em Londres proporcionou algumas dicas. A NATO adoptou acriticamente três prioridades dos Estados Unidos: política ainda mais agressiva em relação à Rússia; contenção da China (incluindo vigilância militar); e militarização do espaço – uma recuperação da doutrina do domínio do espectro total (Full Spectrum Dominance) de 2002.

Deste modo, a NATO será atraída para a estratégia "Indo-Pacífico", o que significa contenção da China. E como a NATO é o braço armado da União Europeia, isso implica que os Estados Unidos venham a interferir, a todos os níveis, na maneira como a Europa negoceia com a China.

O coronel na reserva do Exército dos Estados Unidos Lawrence Wilkerson, chefe de gabinete de Colin Powell de 2001 a 2005, vai directo ao ponto:
"Hoje a América existe para fazer a guerra De que outra maneira poderemos interpretar 19 anos seguidos de guerra e sem fim à vista? Faz parte de quem somos. Faz parte do que é o Império Americano. Vamos mentir, trapacear e roubar, como Pompeo está a fazer, como Trump está a fazer, como Esper está a fazer… e vários outros membros do meu partido político, os republicanos, estão a fazer. Vamos mentir, trapacear e roubar de maneira a fazer o que for preciso para manter esse complexo de guerra. Esta é a verdade de tudo isto. E essa é a agonia".
Moscovo, Pequim e Teerão têm plena consciência das apostas. Diplomatas e analistas estão a trabalhar na tendência do trio para desenvolver um esforço conjunto de modo a protegerem-se entre si de todas as formas de guerra híbrida – incluindo sanções – lançadas contra cada um deles.

Para os Estados Unidos, esta é realmente uma batalha existencial – contra todos os processos de integração da Eurásia, as Novas Rotas da Seda, a parceria estratégica Rússia-China, as armas hipersónicas russas com uma diplomacia flexível, as profundas oposição e revolta contra as políticas norte-americanas através de todo o Sul global, o quase inevitável colapso do dólar norte-americano. Mas é certo que o Império não se irá desvanecer silenciosamente durante a noite. Todos devemos estar preparados para a batalha das eras.
(1) Heartland, "coração da terra" é uma teoria geoestratégica exposta em 1904 pelo geógrafo britânico Halford John Mackinder assente na importância da Eurásia como "Grande Ilha" e cujo desenvolvimento, em termos de interligações terrestres, demonstraria que as grandes potências marítimas estavam confrontadas com os seus limites. Berlim-Moscovo seria o eixo do Heartland, substituído hoje por Moscovo-Pequim mas mantendo-se Rússia, Alemanha e China como "Estados-pivot". O Heartland deve ser entendido hoje, em termos de desenvolvimento, como "deslocado" para Leste, isto é, menos europeu e mais asiático.

[*] Jornalista, brasileiro, colaborador do Asia Times e de várias publicações internacionais

O original encontra-se em thesaker.is/battle-of-the-ages-to-stop-eurasian-integration/
e a tradução em www.oladooculto.com/noticias.php?id=627


Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .


Os loucos anos vinte começaram com o estrondo do assassínio do general iraniano Qasem Soleimani.

No entanto, um estrondo maior nos aguarda ao longo da década: os vários desdobramentos do Novo Grande Jogo na Eurásia mercê do afrontamento dos Estados Unidos contra a Rússia, a China e o Irão, os três principais pilares da integração na região.

Qualquer acto de mudança neste jogo em termos de geopolítica e geoeconomia terá de ser analisado em conexão com esse choque de grande envergadura.

O Estado Profundo (Deep State) norte-americano e os sectores determinantes da classe dominante dos Estados Unidos da América vivem absolutamente aterrorizados com o facto de a China estar a ultrapassar economicamente a "nação indispensável" e de a Rússia a ter superado militarmente . O Pentágono designa oficialmente os três pilares da Eurásia como "ameaças".

As técnicas de guerra híbrida – acompanhadas pela demonização sorrateira incessante – irão proliferar com o objectivo de conter a "ameaça" da China, a "agressão" russa e o "patrocínio do terrorismo" do Irão. O mito do "mercado livre" continuará a sentir-se de maneira asfixiante através da imposição de uma enxurrada de sanções ilegais, eufemisticamente apresentadas como novas "regras" comerciais.

No entanto, tais práticas dificilmente serão suficientes para inviabilizar a parceria estratégica sino-russa. Para desvendar o significado mais profundo dessa parceria é importante compreender que Pequim a define como o rumo para "uma nova era". Isso significa um planeamento estratégico a longo prazo – na perspectiva da data-chave de 2049, o centenário da Nova China.

O horizonte para os múltiplos projectos da Iniciativa Cintura e Estrada (ICE), também conhecida como Nova Rota da Seda, é, de facto, a década de 2040, altura em que Pequim calcula ter tecido completamente um novo paradigma multipolar de nações/parceiros soberanos na Eurásia e além dela, todos associados por um labirinto interligado de cinturas e estradas.

Quanto ao projecto russo – a Grande Eurásia – reflecte de alguma maneira a Cintura e Estrada e estará integrado nesse processo. A Iniciativa Cintura e Estrada, a União Económica da Eurásia, a Organização de Cooperação de Xangai e o Banco de Investimento em Infraestruturas da Ásia convergem na mesma perspectiva.

Realpolitik

Esta "nova era" definida pela parte chinesa depende fortemente de uma estreita coordenação entre Pequim e Moscovo em cada sector. O projecto "Made in China 2025" engloba uma série de avanços técnico-científicos. Ao mesmo tempo, a Rússia afirma-se com recursos tecnológicos sem paralelo em armas e sistemas, em níveis que a China ainda não consegue atingir.

Na última cimeira dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) realizada em Brasília, o presidente Xi Jinping disse a Vladimir Putin que "a actual situação internacional, com crescentes instabilidade e incerteza, instou a China e a Rússia a estabelecer uma coordenação estratégica mais estreita". A que Putin respondeu: "Na situação actual, os dois lados devem continuar a manter uma estreita comunicação estratégica".

A Rússia está a mostrar à China como o Ocidente respeita o poder da Realpolitik de qualquer forma; e Pequim está finalmente começando a usá-lo. O resultado é que, após cinco séculos de dominação ocidental – que, aliás, levaram ao declínio das antigas rotas da seda – o Heartland [1] está de volta com estrondo, afirmando a sua influência.

A minha observação pessoal, as viagens que realizei nos últimos dois anos na Ásia Ocidental e Central e as minhas conversas nos últimos dois meses com analistas em Nur-Sultan (Casaquistão), Moscovo e Itália permitiram-me mergulhar na complexidade do que algumas mentes afiadas definem como Double Helix (dupla hélice). Estamos cientes dos imensos desafios que há pela frente – ao mesmo tempo que é difícil acompanhar o impressionante ressurgimento do Heartland em tempo real.

Em termos de soft power, o papel de destaque da diplomacia russa tornar-se-á ainda mais importante – sustentado por um Ministério da Defesa liderado por Serguei Shoigu, um tuvano da Sibéria e um braço de inteligência capaz de dialogar construtivamente com todos: Índia/Paquistão, Coreia do Norte/Sul, Irão/Arábia Saudita, Afeganistão.

Esse processo amortece (complexas) questões geopolíticas de uma maneira que ainda ilude Pequim.

Paralelamente, praticamente toda a região Ásia/Pacífico tem agora em consideração a Rússia e a China como forças opostas à superioridade financeira e naval dos Estados Unidos.

Apostas no Sudoeste asiático

O assassínio direccionado do general Soleimani, por todas as suas consequências a longo prazo, é apenas um movimento no tabuleiro do Sudoeste da Ásia. Em última análise, o que está em jogo é um prémio macro-geoeconómico: uma ponte terrestre do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo Oriental.

No Verão passado uma reunião trilateral Irão-Iraque-Síria estabeleceu que "o objectivo das negociações é activar o corredor de carga e transportes" entre os três países "como parte de um plano mais vasto que é o da reactivação da Rota da Seda".

Não poderia haver um corredor de ligação mais estratégico, capaz de se interligar simultaneamente com o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul; com a conexão Irão-Ásia Central-China até ao Pacífico; e com Latakia (Síria) em direcção ao Mediterrâneo e ao Atlântico.

O que está no horizonte é, de facto, uma sub-secção da Iniciativa Cintura e Estrada no Sudoeste da Ásia. O Irão é um nó central da ICE. A China está fortemente envolvida na reconstrução da Síria; e Pequim e Bagdade assinaram vários acordos e criaram um Fundo de Reconstrução Iraquiano-Chinês (receitas de 300 mil barris de petróleo por dia em troca de crédito chinês para as empresas chinesa que reconstroem as infraestruturas iraquianas).

Uma rápida olhadela aos mapas revela o "segredo" da atitude dos Estados Unidos de se recusarem a fazer as malas e a deixar o Iraque, conforme lhes foi exigido pelo Parlamento e pelo primeiro-ministro iraquianos: impedir o ressurgimento desse corredor através de todos os meios necessários. Especialmente quando sabemos que todas as estradas em construção pela China na Ásia Central – passei por muitas delas em Novembro e Dezembro – acabam ligando a China ao Irão.

O objectivo final: unir Xangai ao Mediterrâneo Oriental por terra, através do Heartland.

Por mais que o porto de Gwadar no Mar da Arábia (no Baluchistão paquistanês) seja um nó essencial do Corredor Económico China-Paquistão, e parte da multifacetada estratégia da China para "escapar ao Estreito de Malaca" (controlado pelos Estados Unidos), a Índia também cortejou o Irão para replicar Gwadar com o porto de Chabahar, no Golfo de Omã.

Enquanto a China pretende ligar o Mar da Arábia ao Xinjiang através do corredor económico, a Índia deseja conectar-se ao Afeganistão e à Ásia Central via Irão.

No entanto, os investimentos da Índia em Chabahar podem dar em nada, uma vez que Nova Deli ainda está a ponderar se deve tomar parte activa na estratégia "Indo-Pacífico" dos Estados Unidos; nesse caso, o Irão retirar-se-ia desse processo.

O exercício militar conjunto Rússia-China-Irão em finais de Dezembro, iniciado exactamente em Chabahar, foi um sinal inequívoco dado a Nova Deli. A Índia não pode simplesmente ignorar o Irão ou acaba por perder o seu principal nó de ligação, Chabahar.

Há um facto imutável: todas as partes interessadas têm necessidade de ligações com o Irão. Por razões óbvias, desde o Império Persa, trata-se de um centro privilegiado de todas as rotas comerciais da Ásia Central.

Mais importante ainda é o facto de, para a China, o Irão ser uma questão de segurança nacional. A China investe fortemente no sector energético do Irão. Todo o comércio bilateral é processado na moeda chinesa ou numa cesta de moedas que ignora o dólar norte-americano.

Enquanto isso, os neocons (neoconservadores) dos Estados Unidos sonham ainda com o objectivo de Cheney na década passada: mudança de regime no Irão que permita aos Estados Unidos dominarem o Mar Cáspio como trampolim para a Ásia Central, apenas a um passo de distância de Xinjiang e do incentivo aos procedimentos anti-chineses. Isto poderia ser encarado como uma Nova Rota da Seda ao contrário, para afundar o projecto da China.

A batalha das eras

Um novo livro, The Impact of the Belt and Road Iniciative (O Impacto da Iniciativa Cintura e Estrada) da China, de Jeremy Garlick, da Universidade de Economia de Praga, tem o mérito de admitir que o facto de a ICE "fazer sentido" é "extremamente difícil".

Trata-se de uma tentativa extremamente séria de teorizar sobre a imensa complexidade da Iniciativa Cintura e Estrada, especialmente considerando a abordagem flexível e sincrética da China para elaboração de políticas, bastante desconcertante para os ocidentais. Para atingir o seu objectivo, Garlick entra no paradigma da evolução social do professor Shiping Tang , mergulha na "hegemonia neo-gramsciana" e disseca o conceito de "mercantilismo ofensivo" – tudo como parte de um esforço no sentido do "ecletismo complexo".

O contraste com a vulgar narrativa de demonização da ICE terrestre que emana dos "analistas" norte-americanos é flagrante. O livro aborda em pormenor a natureza multifacetada do transregionalismo da ICE como um processo orgânico em evolução.

Os criadores de políticas imperiais não se preocupam em compreender como e porquê a ICE tem vindo a estabelecer um novo paradigma global. A recente cimeira da NATO em Londres proporcionou algumas dicas. A NATO adoptou acriticamente três prioridades dos Estados Unidos: política ainda mais agressiva em relação à Rússia; contenção da China (incluindo vigilância militar); e militarização do espaço – uma recuperação da doutrina do domínio do espectro total (Full Spectrum Dominance) de 2002.

Deste modo, a NATO será atraída para a estratégia "Indo-Pacífico", o que significa contenção da China. E como a NATO é o braço armado da União Europeia, isso implica que os Estados Unidos venham a interferir, a todos os níveis, na maneira como a Europa negoceia com a China.

O coronel na reserva do Exército dos Estados Unidos Lawrence Wilkerson, chefe de gabinete de Colin Powell de 2001 a 2005, vai directo ao ponto:
"Hoje a América existe para fazer a guerra De que outra maneira poderemos interpretar 19 anos seguidos de guerra e sem fim à vista? Faz parte de quem somos. Faz parte do que é o Império Americano. Vamos mentir, trapacear e roubar, como Pompeo está a fazer, como Trump está a fazer, como Esper está a fazer… e vários outros membros do meu partido político, os republicanos, estão a fazer. Vamos mentir, trapacear e roubar de maneira a fazer o que for preciso para manter esse complexo de guerra. Esta é a verdade de tudo isto. E essa é a agonia".
Moscovo, Pequim e Teerão têm plena consciência das apostas. Diplomatas e analistas estão a trabalhar na tendência do trio para desenvolver um esforço conjunto de modo a protegerem-se entre si de todas as formas de guerra híbrida – incluindo sanções – lançadas contra cada um deles.

Para os Estados Unidos, esta é realmente uma batalha existencial – contra todos os processos de integração da Eurásia, as Novas Rotas da Seda, a parceria estratégica Rússia-China, as armas hipersónicas russas com uma diplomacia flexível, as profundas oposição e revolta contra as políticas norte-americanas através de todo o Sul global, o quase inevitável colapso do dólar norte-americano. Mas é certo que o Império não se irá desvanecer silenciosamente durante a noite. Todos devemos estar preparados para a batalha das eras.

(1) Heartland, "coração da terra" é uma teoria geoestratégica exposta em 1904 pelo geógrafo britânico Halford John Mackinder assente na importância da Eurásia como "Grande Ilha" e cujo desenvolvimento, em termos de interligações terrestres, demonstraria que as grandes potências marítimas estavam confrontadas com os seus limites. Berlim-Moscou seria o eixo do Heartland, substituído hoje por Moscou-Pequim mas mantendo-se Rússia, Alemanha e China como "Estados-pivot". O Heartland deve ser entendido hoje, em termos de desenvolvimento, como "deslocado" para Leste, isto é, menos europeu e mais asiático.

[*] Jornalista, brasileiro, colaborador do Asia Times e de várias publicações internacionais


Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

A revolução nos assuntos militares ainda não reconhecida pelos ignaros


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1 - A incapacidade das elites ocidentais de entenderem a realidade

O novo livro Andrei Martyanov (AM), The (Real) Revolution in Military Affairs [1] prossegue e desenvolve teses anteriormente expostas em "Losing American Supremacy: The myopia of American Strategic planning" , [2] do qual, para além da descrição dos novos sistemas militares russos, salientamos os seguintes pontos:
  • O grande problema com os manipuladores é acabarem por acreditar na própria manipulação
  • O poder militar dos EUA é apenas eficaz contra Estados política, económica e militarmente enfraquecidos.
  • A insanidade dos belicistas constitui um enorme perigo para a paz mundial.
Esta nova obra demonstra como o mito da invulnerabilidade dos EUA chegou ao fim e como a sua capacidade militar está totalmente posta em causa. A questão, porém, agrava-se com a disfuncionalidade do seu sistema e dos seus "aliados"/satélites, que continuam a propagandear os EUA como exemplo de defesa de democracia, direitos humanos e supremacia geopolítica, enquanto agridem direta ou indiretamente outros países.

O problema dos seus "cientistas políticos" é uma obstinada falta de vontade de lidar com os fatos (9). Assim não é de surpreender que a mitologia do excepcionalismo militar e tecnológico dos EUA conduza a graves lacunas e a uma espécie de miopia no seu planeamento estratégico (13).

A constante regurgitação de velhas verdades com novos rótulos, serve apenas para a promoção da gente que as inventa. Além disto, a educação das populações sobre as questões militares e geopolíticas é, em geral, feita por filmes e séries de Hollywood que apresentam a guerra como um jogo de vídeo (25-28).

O extremamente baixo nível educacional do corpo jornalístico dos EUA (109) pode ser observado na deturpação de processos históricos, como por exemplo considerar fator decisivo para a derrota nazista na 2ª Guerra Mundial o poder aéreo dos EUA (ou a invasão da Normandia), quando 80% da máquina de guerra nazi foi destruída na Frente Leste pela URSS (127-128).

2 - O liberalismo, a propaganda e a Armadilha de Tucídides

"Analistas militares" de poltrona não podem conceber nem dispõem do mínimo de conhecimentos de matemática, física, princípios de tática e operacionais para avaliar a guerra moderna (2). Apenas grandes pensadores como Paul Craig Roberts (ou Michael Hudson, Finiam Cunningham, André Vitchek, etc, publicados neste site) reconhecem a crise econômica e intelectual do liberalismo, bem como o seu fracasso total em proporcionar qualquer resposta coerente acerca do que é realmente um bom padrão de vida – quando grande parte da espécie humana que vive fora das fronteiras dos EUA suporta diariamente a luta pela mera sobrevivência. Isto equivale a dizer que um imenso número de pessoas, mesmo nações inteiras, tem de combater pela própria vida (4 - 5).

A triste realidade é a luta pela vida devido a fatores não naturais, como as sanções aplicadas ao Iraque que levaram à morte de centenas de milhares de crianças ou a destruição da relativamente estável e próspera Líbia. (5) A que podemos acrescentar o Afeganistão, Síria, Iêmen, Venezuela, etc.

O liberalismo nas suas manifestações contemporâneas, tal como a globalização capitalista, tem um recorde de usar as ameaças como primeira ferramenta das relações internacionais. A globalização é agressiva em primeiro lugar porque se baseia em puros interesses econômicos e em convicções de superioridade cultural. (7)

O liberalismo dos EUA é um eufemismo para o imperialismo e capitalismo financeiro. (108) Um país que desde 1945 é responsável pela morte de milhões de civis com a destruição de nações e culturas, que se retirou unilateralmente de tratados de não proliferação, como o crucial de 1972 sobre ABM. Um país que parece subestimar os efeitos da perda de qualquer sentido moral e de uma completa falta de sabedoria (158).

A teoria militar dos EUA baseia-se no que é conhecido como a Armadilha de Tucídides: "o crescimento do poder de Atenas e o alarme que isto causava a Esparta, tornava a guerra inevitável" (16).

Esta tese é aplicada à China (ou à Rússia) em que a proteção por meios militares e diplomáticos das suas zonas marítimas e fronteiras é considerada uma ameaça aos EUA, ignorando que estes países se encontram rodeados por largas dezenas de bases militares dos EUA. Parece portanto que o direito de auto defesa não lhes é reconhecido.

Os EUA, levados pela crença absurda no seu "excepcionalismo", vão ao ponto de não permitirem a emergência de outros poderes econômicos e militares paralelos (p. 185). Esta visão do mundo, constitui uma convicção temerária, dadas as consequências de "destruição mutuamente assegurada" (acrônimo em inglês MAD) que os países enfrentam, com o atual poder nuclear (17).

3 - O poder geopolítico dos EUA e os seus falsos princípios

As elites ocidentais exibem uma total incapacidade de compreensão das realidades na idade dos mísseis. A desvalorização das capacidades russas conduz a uma absoluta incompreensão dos problemas militares que enfrentam. Por exemplo, "especialistas" concluíam que a ponte que a Rússia construiu ligando a Crimeia, tornava difícil grandes navios (da OTAN) moverem-se entre o Mediterrâneo e o Mar Negro. A questão que deveriam colocar não era se podiam atingir o Mar de Azov, mas se "grandes navios" da OTAN sobreviveriam na viagem para a ponte da Crimeia (105).

Os gastos militares dos EUA são superiores à soma da despesa militar dos sete países seguintes. Apesar disto é absolutamente clara a continuada perda de capacidade militar face à nação que pensavam ter derrotado na guerra fria. (47) Um único submarino estratégico de mísseis da futura classe Columbia custa tanto como oito submarinos da classe Borei (no mínimo equivalentes) três dos quais já operacionais (48).

Os porta-aviões proporcionam grandiosas visões, mas a guerra moderna deixa pouco espaço para estes navios (30). Uma simples salva de vários 3M22 Zircon, cujo custo total é de algumas dezenas de milhões de dólares, pode destruir estruturas navais, como os porta-aviões, de dezenas de milhares de milhões de dólares (49).

Os modelos usados para as definições geoestratégicas dos EUA, mostraram estar completamente errados. Previam um firme declínio da Rússia ao longo dos anos. As revelações de Putin em março de 2018, não apenas demonstraram esses erros como tornaram tais modelos irrelevantes (50).

Em 2015, Obama declarou que as sanções deixariam a Rússia em frangalhos. Como a economia russa se porta bastante bem, pergunta-se com que critérios foi analisada a realidade russa? (31) A narrativa econômica e militar dos EUA sofre portanto de uma dissonância cognitiva, incapaz de encarar os fatos e vive de grosseiros modelos errôneos.

AM descreve e discute alguns modelos matemáticos da avaliação militar e geoestratégica, mostrando como os modelos utilizados pelos EUA e a OTAN pouco têm a ver com a realidade. Por exemplo, ao considerar o PIB e as despesas militares como grandezas principais, omitem que o seu PIB se encontra inflacionado pela especulação e outro capital fictício, não podendo ser comparado com o da China que se baseia em valores da economia real. Quanto às despesas militares pouco contam quando se está perante a revolução militar introduzida pelo armamento hipersônico (63).

Se o poder geopolítico se baseasse nas despesas militares, a guerra genocida da Arábia Saudita contra o Iêmen teria terminado há muito, uma vez que as despesas militares sauditas equivalem às da Rússia (134).

Os chamados estudos sobre a Rússia não passam de um conjunto de lugares comuns, banalidades e ultrajantes mentiras (constantemente debitadas pelos media) procurando enganar os povos da América e da Europa (162). A Rússia já não vê os EUA como uma parte com a qual valha a pena negociar. O ministro dos Negócios Estrangeiros Lavrov, ao não responder a uma pergunta do correspondente do Washington Post, disse-lhe para escrever o que quisesse pois o que seria apresentado ao público americano seria sempre deturpado (147-148).

Em 2018, numa sondagem conduzida pela Gallup, apenas 30% disseram aceitar a liderança global dos EUA, tanto como para a Rússia ou a China. Porém, escapou à Gallup que os EUA são invariavelmente vistos como a principal ameaça à paz mundial (152).

4 - Acerca das capacidades militares dos EUA e da Rússia

Os adversários que os EUA encontrarão agora pela frente nada têm a ver com a tremenda incapacidade tática e estratégica do exército iraquiano (22) ou dos Talibans no Afeganistão.

O Irã tem capacidade de produção militar. As milícias xiitas do Iêmen mostraram não só as capacidades militares derivadas do Irã como a fraqueza das defesas anti-míssil dos EUA no ataque a instalações petrolíferas da Arábia Saudita.

Em 2013 foi calculado que um ataque dos EUA ao Irã custaria à economia mundial 2,8 milhões de milhões de dólares só nos primeiros três meses. Note-se que o estudo não incluía a extensão das perdas em vidas e material dos EUA, nem as consequências geopolíticas de tal comportamento (138-139).

A Rússia dispõe de armamento convencional que permite atacar alvos em termos operacionais ou estratégicos não apenas na Europa, mas na América do Norte, sem falar da força de dissuasão nuclear (56). As operações da Rússia na Síria mostraram a extraordinária precisão dos mísseis Kalibur X-101 com alcance de 5 000 km e 3M14 com alcance de 2 500 km lançados bem do interior da Rússia. Pela primeira vez na sua história as instalações da OTAN e EUA na Europa, Médio Oriente e partes dos EUA estão dentro do alcance de mísseis não balísticos, quer em versões convencionais quer nucleares (57).

O míssil Zircon 3M22, com alcance superior a 1 000 km, velocidade Mach 9, e as suas versões aligeiradas para navios reescreveram totalmente a guerra naval (68). O Zircon pode também ser lançado pela aviação ou por submarino. Os EUA não podem ignorar que uma salva de 2, 4 ou 6 mísseis hipersônicos não podem ser parada por nenhum sistema dos EUA ou quaisquer outros (65).

A OTAN enfrenta mísseis hipersônicos capazes de manobras evasivas extraordinariamente rápidas, particularmente na aproximação ao alvo, como o P-800 Onyx e os famosos Kalibr (85). Os mísseis KH-32, podem aliás atacar alvos praticamente na vertical (112).

O recente míssil Kinzal, Mach 10, alcance de 2 000 km (que cobre em 10 minutos), deixa vulneráveis as esquadras navais dos EUA, podendo ser lançados de MiG-31K, fora do alcance da aviação inimiga (91).

A guerra é por definição altamente probabilística e as probabilidades são um elemento crucial da análise militar (59). AM apresenta o cálculo de quantos mísseis defensivos seriam necessários para derrubar um único míssil hipersônico Zircon. Admitindo uma probabilidade altamente inflacionada de 0,2, seriam necessários 11. Com uma probabilidade de 0,1 seriam necessários 21. O quadro complica-se radicalmente considerando uma salva de quatro Zircon, lançados de dois submarinos em diferentes posições (66-67).

AM refere-se ainda aos avanços técnicos dos novos submarinos ultra-silenciosos em termos de detecção a centenas de quilômetros e do seu armamento de mísseis quer contra navios quer contra outros submarinos.

As capacidades russas ficaram demonstradas ao permitirem que as repúblicas do Donbass vencessem os exércitos numericamente superiores de Kiev, nas devastadoras batalhas de Ilovaisk e Debaltsevo, utilizando os meios russos de guerra eletrônica (EW) suprimindo as comunicações do inimigo (85). Os modernos sistemas estratégicos russos de interferências podem inviabilizar as comunicações da NATO até 5 000 km. (157).

Na Síria uma salva de seis Kalibr lançados do moderno navio russo SSK levou 15 segundos a ser lançada o que deixaria poucas hipóteses à defesa antiaérea a reagir (99).

A aviação tem também sido objeto de intensa modernização com os bombardeiros TU-22M3M que podem disparar mísseis KH32 (1 000km, Mach 4) ou Kinzal (2 000km, Mach 9) (100). Quanto ao SU-35 é considerado superior ao F-35, cujo medíocre desempenho como invisível ou furtivo (shelter aircraft) e duvidosa sobrevivência num conflito real é reconhecida por vários países da OTAN (131).

Quanto aos mísseis defensivos são famosos os S-400, capazes de deter os F-35 (118-119). O mais recente S-500 é capaz de realizar intercetações exo-atmosféricas de mísseis balísticos, derrubar aviões AWAC (centros de comando e controlo dos EUA) estabelecendo zonas de exclusão para a aviação da OTAN, que teria de operar em zonas de densa EW russa (123-124). Sistemas laser Peresvet estão também já disponíveis e o seu desenvolvimento prossegue como um dos pilares da defesa russa (178).

A China tem atualmente o seu próprio programa de engenhos hipersônicos e tem adquirido sistemas de defesa anti-míssil S-400, criando um sério impedimento para eventuais ataques à China. Segundo o estudo de um instituto australiano, os EUA não são mais o poder dominante no Pacífico ocidental e teriam que se esforçar muito para vencer um conflito contra a China, podendo mesmo perdê-lo. [3]

5 - O fim da invulnerabilidade dos EUA

Os EUA produzem resultados bastante medíocres no campo militar, mas proporcionam contudo imensas teorias sobre como vencer guerras (7). O nível de fantasia que percorre os EUA está patente no estudo de uma "autoridade" em aviação de combate, D. Ochmaneck, que "previu" que para derrotar a Rússia seriam necessários 28 esquadrões de caças e sete esquadrões de bombardeiros, cerca de 800 aviões (120). Esta "autoridade" ignora as capacidades já demonstradas pela Rússia em EW e que os aviões "invisíveis" dos EUA são detetáveis pelos novos radares russos (121).

O recente míssil Avangard, capaz de Mach 27, torna qualquer sistema de defesa inútil. Estão também já operacionais mísseis de propulsão nuclear 9M730 Petrel, subsônicos, praticamente sem limite de alcance ou tempo no ar que podem atacar nas mais inesperadas direções (108-109). O novo míssil balístico intercontinental RS-25 Sarmat, com alcance praticamente ilimitado, pode atacar os EUA a partir do hemisfério Sul (184). São paradigmas completamente novos para os falcões de Washington.

Os dissuasores nucleares da Rússia, e em menor grau da China, são atualmente capazes de atravessar os existentes sistemas anti-balísticos dos EUA e destruir este país (101). As elites do ocidente têm, assim, graves conflitos com as realidades da era dos mísseis. Acreditam que em caso de guerra entre a OTAN e a Rússia, Londres, Bruxelas ou Washington estariam muito longe de sofrer quaisquer danos. Nada pode estar mais longe da verdade que o mito da retaguarda segura em que se baseiam os planificadores da OTAN e do Pentágono (106).

Os mísseis Zircon e Kinzal modificaram completamente a guerra naval. Num cenário abstrato de guerra convencional, os EUA não poderiam aproximar os seus porta-aviões mais perto que 2 000 km da linha de costa russa, sob pena de os perder, tornando-se, portanto, inútil a sua principal força de ataque (190).

Mesmo a China com o novo míssil YJ-12 contra navios constitui uma séria ameaça ao poder naval dos EUA. O general norte-americano, John E. Hyten, afirmou que o armamento hipersônico da China e da Rússia, dada a sua velocidade e manobrabilidade pode derrotar a maior parte das defesas existentes (...) não existem contra-medidas (93).

Trata-se de uma verdadeira revolução que altera a dinâmica do poder global em que os EUA não podem mais ditar a sua vontade sem receio de se tornarem eles próprios vulneráveis. Não importa quanta quantidade de propaganda e auto-engrandecimento continue a esconder este facto (112). Os EUA podem adiar o seu reconhecimento e as elites no poder continuar a acender os rastilhos de uma guerra global, acreditando que os EUA seriam poupados à morte e destruição planeadas para outras terras. Esta crença é perigosa e absolutamente ilusória (150).

Na Síria num ataque de 103 Tomahawk (misseis de cruzeiro) em abril de 2018 foram derrubados 71, apesar de a Síria apenas dispor de antigos sistemas soviéticos, embora melhorados. Nem o S-300 ou o S-400 estiveram envolvidos na operação (116-117). O receio de encontrar mísseis S-200, impede Israel (e EUA) de fazer uso do F-22 ou F-35. Acredita-se que um F-35 israelense tenha sido atingido na Síria (119).

Em fevereiro de 2019, Putin afirmou que a Rússia havia sido obrigada a desenvolver o seu armamento não só contra as ameaças diretas, mas também contra as regiões onde se localizam os centros onde tais decisões tivessem sido tomadas (167).

Neste momento, nem sequer se pode falar de paridade entre os EUA e a Rússia nos campos de defesa aérea, armamento hipersônico, desenvolvimento de mísseis. Em todos estes campos os EUA perderam o domínio tecnológico e estão largos anos atrás (125). Isto, devido à sua miopia, arrogância, mitologias criadas e inabilidade para aprender lições baseadas em factos e cálculos exatos (132).

6 - Concluindo

O espantoso desenvolvimento do armamento russo provém dos tempos soviéticos. Os elevados conhecimentos de física, eletrônica, novos materiais, sobreviveram à época criminosa de Yeltsin e dos "liberais", adorados como grandes democratas pelo ocidente. A descrição que AM faz das capacidades tecnológicas e militares já disponíveis na época soviética mostram que a URSS não morreu de morte natural, nem se suicidou, foi assassinada, contra a vontade esmagadora do seu povo, por traidores que apenas desejavam partilhar com o imperialismo da pilhagem global dos países dominados.

Já nos anos 1980 a URSS dispunha de mísseis contra navios e de meios de detecção que utilizavam múltiplos tipos de sensores (80-81). Desenvolviam-se mísseis hipersônicos, navios eram equipados com radares capazes de detecção para lá do horizonte, até 400 km (modo passivo) e 250 km (modo ativo). A URSS era líder nas tecnologias de mísseis teleguiados (103).

A capacidade de defesa antiaérea foi posta à prova no Vietnan: só durante os 24 meses da operação Rollig Thunder os EUA perderam 881 aviões. Em 1973, na guerra do Yom Kippur (19 dias) Israel perdeu 100 aviões em grande parte devido aos mísseis SAM (113).

Para AM, o poder imperialista dos EUA corresponde exatamente ao que Lenine definiu em "O imperialismo, estado supremo do capitalismo". Porém, os EUA têm declinado não só militarmente, mas também em termos ideológicos e econômicos. Caído o véu da propaganda e dos mitos da sua capacidade militar, o que resta revelará um país que não poderá mais manter o atual nível discricionário de despesa militar e endividamento.

As elites dos EUA tornaram-se temerárias porque não dispõem de reais bases de conhecimentos militares. A sua crença no "excepcionalismo" constitui a principal ameaça à paz mundial, porque o seu poder militar não é capaz de assegurar a alegada supremacia, que continua a ser uma convicção fundamental dessas pessoas (154).

A questão que se coloca é se os políticos dos EUA podem ignorar a escala dos problemas que o seu país enfrenta (144). O povo dos EUA está sujeito a uma incessante propaganda de promoção de estilos de vida bizarros e estranhos conceitos esotéricos, admitindo, embora escamoteando, as injustiças reais da sua radical estratificação social (168).

Os EUA assumem-se como um poder benevolente capaz de espalhar a democracia globalmente, inclusivamente por meio da força, o que é tão absurdo como impossível. Baseiam-se em falsas premissas como, hipocritamente, considerar que a Rússia apoia forças terroristas, o que equivale a uma declaração de guerra, embora se demonstre ser falso (153).

Dizer que o mundo está em mudança é um truísmo. Porém, o mundo mudou claramente em 2014, quando a Rússia trouxe de volta a Crimeia e não permitiu que os fantoches de Kiev capturassem as jovens repúblicas do Donbass. Na Síria confirmaram-se as capacidades militares da Rússia, criando um forte abalo de histeria nos EUA (168).

O aparecimento na Venezuela de conselheiros militares russos é um claro aviso aos EUA de que não deixariam cair este país nas mãos de uma conspiração de lacaios treinados e financiados pelos EUA (170). A Coreia do Norte não se deixou intimidar e voltou-se para a Rússia (e a China) como garantias da sua segurança. A China não se deixou intimidar e continua o desenvolvimento massivo do seu armamento (171).

A menos que desencadeiem um holocausto nuclear, no qual seriam certamente aniquilados, a era do imperialismo dos EUA está acabada, embora não tenhamos ainda visto o fim da sua autoproclamada posição hegemônica (173).

Os EUA mantêm pelo mundo um imensamente dispendioso aparelho militar inútil em caso de conflito face à moderna tecnologia. Contudo, ter no poder fanáticos que têm zero qualificações em assuntos externos ou especialmente sobre a guerra moderna é a receita para o desastre.

Poderá a elite dos EUA produzir um verdadeiro homem de Estado? A resposta é não. Nos EUA a elite política está ocupada com a sua própria reeleição e a tratar de obter subsídios para as suas campanhas. As suas burocracias (e da UE) estão recheadas de advogados, economistas, jornalistas, "cientistas políticos" que não fazem a mínima ideia do que seria uma guerra com a China, para não falar da Rússia (163).

Como pode então ser possível evitar uma guerra global, quando as elites que crescentemente conduzem o mundo para ela são ignorantes sobre a real natureza dessa guerra?

Educar o povo em geral, pode ajudar, porém para além de teorias controversas o importante é mostrar o que a guerra é em si: uma sangrenta, horrível realidade que apenas traz morte, sofrimento e destruição (27-28).

[1] Ed. Clarity Press, Atlanta, 2019, 225p., ISBN13 9781949762075.   Entre parêntesis os números das páginas a que se referem transcrições e comentários ao texto de AM.
[2] Ver resistir.info/v_carvalho/martyanov_resenha_1.html   e   resistir.info/v_carvalho/martyanov_resenha_2.html
[3] Study: U.S. No Longer Dominant Power in the Pacific, www.informationclearinghouse.info/52140.htm

Ver também:
  • "A revolução (real) nos assuntos militares" , The Saker, 10/Dez/19

    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
  • Por que os EUA precisam da guerra?



     Despesas militares atingem níveis inéditos

    Empreiteiros da defesa vendem sucata ao governo dos EUA a preços exorbitantes

    por Vladimir Platov [*]
     

    Em 2003 um sítio alternativo com sede na Bélgica, o Indy Media, publicou um artigo inteligente intitulado "Why America Needs War", escrito pelo renomado historiador e cientista político Dr. Jacques R. Pauwels.

    Dado o facto de este artigo ter sido republicado recentemente por um conhecido e respeitado site de media alternativa, o Global Research , muita atenção foi atraída para as intermináveis guerras de Washington. No artigo acima mencionado, era declarado que as guerras são um terrível desperdício de vidas e recursos e, por esse motivo, a maioria das pessoas se opõe, em princípio, às guerras.

    No entanto, com os EUA presos num estado perpétuo de conflito com outros atores internacionais, é de perguntar o que há de errado com os políticos americanos. Será que todos eles sofrem de alguma doença mental?
    A razão porque os eventos que observamos no cenário global estão realmente a verificar-se é o facto de os EUA confiarem no que Pauwels descreve como a "economia de guerra" na qual os EUA se apoiam há mais de um século. Esta economia permite que indivíduos e empresas ricas se beneficiem da violência e do derramamento de sangue, o que os torna propensos a advogar guerras ao invés de resolver pacificamente os conflitos. Contudo, o artigo afirma que sem guerras quentes ou frias esse sistema não pode senão produzir o resultado esperado na forma de lucros cada vez maiores, que os ricos e poderosos da América consideram como seu direito inato. Está claro que os EUA não podiam escapar das garras da Grande Depressão sem entrar na Segunda Guerra Mundial, como foi afirmado no artigo acima mencionado:
    Durante a Segunda Guerra Mundial, os possuidores de riqueza e altos executivos das grandes corporações aprenderam uma lição muito importante: durante uma guerra há dinheiro a ser ganho, muito dinheiro. Por outras palavras, a árdua tarefa de maximizar lucros – a atividade chave na economia capitalista americana – pode ser absolvida com muito mais eficiência através da guerra do que através da paz. No entanto, para isso é necessária a cooperação benevolente do estado.
    Contudo, o povo dos Estados Unidos não percebeu esta mudança pois estava hipnotizado pelo crescimento rápido dos salários e pelas empresas em expansão que precisavam de um número cada vez maior de novos empregados. Por isso não houve uma oposição real ao belicismo dos EUA dentro do país, o que significa que Washington estará à procura de novos inimigos mesmo quando não tem nenhum. Isto resulta em que estados como Rússia, China, Irão, Coreia do Norte, Cuba e Venezuela – que estavam dispostos, num momento ou outro, a discutirem suas diferenças com os EUA – serem antagonizados e designados como uma ameaça para os EUA e sua segurança nacional.

    Eis porque as despesas militares nos EUA continuam a disparar, com programas de investigação e desenvolvimento para os militares a receberem financiamentos sem precedentes. No entanto, o que está a ser apresentado como uma corrida rumo a maior segurança representa um desvio desavergonhado do dinheiro pago pelo contribuinte americano para os bolsos dos principais empreiteiros da defesa. Seria apenas lógico se o sistema legal dos EUA, ao invés de investigar relatos duvidosos da suposta intromissão da Rússia nas eleições estado-unidenses, examinasse mais atentamente como o dinheiro sangrento está a moldar o mundo da política dos EUA.

    Recordemos que o orçamento militar dos EUA para 2020 atingiu pela primeira vez o montante assombroso de 750 mil milhões de dólares! [NR] Nas últimas décadas, os Estados Unidos investiram cerca de 30 mil milhões de dólares em vários programas de armas, todos eles com um grau ou outro de falha, de acordo com The National Interest.

    Não faltam relatos da mídia a mostrarem o completo fracasso das modernas armas americanas as quais, apesar das enormes quantias desperdiçadas no seu desenvolvimento, não podem proteger nem os Estados Unidos nem os seus aliados.

    Por exemplo, The National Interest recentemente fez o esforço de fazer uma comparação entre o caça russo Su-35 e um total de quatro competidores americanos: F-15s, F-16s, F-22s e F-35s. A publicação chegou a uma conclusão decepcionante de que, apesar da maciça campanha publicitária que acompanhou o desenvolvimento do F-35, ele não pode aguentar-se diante dos seus equivalentes russos.

    O malfadado F-35 foi incluído recentemente na lista das piores armas já produzidas pelo Exército dos EUA devido aos seus custos inacreditavelmente altos e questões de fiabilidade, diz o Business Insider. Portanto, não é de surpreender que, além do presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, que anunciou sua intenção de comprar caças russos Su-35 e Su-57, em vez do material dos EUA, a Alemanha também tenha deixado claro que não tem intenção de adquirir esta caríssima catástrofe alada dos Estados Unidos. Para por mais lenha na fogueira, o portal americano We Are The Mighty (Nós somos os poderosos) listou recentemente um total de três caças russos entre os cinco jatos mais rápidos da história da aviação militar.

    No mar, a situação não é melhor. No caso de um hipotético conflito militar entre os Estados Unidos e a Rússia, mesmo no Mar Negro, grupos de porta-aviões americanos seriam obliterados rapidamente por submarinos russos a diesel, sistemas de mísseis móveis terrestres e pequenos mas perigosos botes com mísseis. Isso antes mesmo de as unidades de aviação com base terrestre armadas com mísseis anti-navio hipersonicos batizados como Dagger intervirem, afirma The National Interest. Outra publicação enfatiza que as corvetas russas de mísseis, que custam US$30 milhões por unidade, têm um alcance quatro vezes superior ao dos últimos destróiers e cruzadores dos EUA que têm um preço de 2 mil milhões de dólares.

    Mas foram os sistemas americanos de defesa antimísseis, especialmente o Patriot, que recentemente se cobriram com uma vergonha escandalosa. Um ano atrás, o presidente Donald Trump anunciou que entre as novas prioridades do Pentágono a venda dos sistemas de defesa antimísseis dos EUA aos seus aliados era realmente muito alta. Para atingir esse objetivo, Washington tentou forçar aqueles estados que escolheram soluções muito mais eficazes – o S-300 e o S-400 da Rússia a repensarem sua decisão. Estas tentativas resultaram em Washington aprovar sanções contra alguns de seus aliados mais próximos, como a Turquia, a Índia e o Marrocos.

    Enquanto isso, The National Interest admite que o novo S-500 russo é de longe o sistema de defesa aérea mais eficaz que existe, ao passo que The Hill reconhece que as armas hipersonicas da Rússia tornaram sem sentido sistemas de defesa antimísseis americanos como Patriot e THAAD.

    Há um ano, os Estados Unidos anunciaram que uma rede de interceptores, radares e linhas de comunicação de mísseis terrestres e de superfície a um preço de 180 mil milhões de dólares poderia proteger o país de um ataque limitado lançado pela RPDC ou pelo Irã. No entanto, logo após esta declaração, sistemas de defesa aérea produzidos nos EUA não conseguiram repelir um ataque surpresa de drones às refinarias de petróleo sauditas, demonstrando portanto sua baixa eficácia. Ao mesmo tempo, não será descabido lembrar que um total de 88 lançadores do Patriot cobre a fronteira norte da Arábia Saudita, com mais três destróieres da US Navy armados com o sistema Aegis estacionados ao largo da mesma área. Nenhum destes sistemas respondeu ao ataque.

    Mais uma vez, durante um ataque de retaliação lançado pelo Irã, os sistemas de defesa aérea americanos foram impotentes para abater um único míssil lançado contra duas bases americanas no Iraque.

    É por isso que um certo número de clientes militares ocidentais recentemente tem dado passos para adquirir alternativas russas. Isto resultou de falhas graves nos sistemas de defesa aérea produzidos nos EUA, tais como o Patriot, cujos repetidos fracassos se tornaram aparentes recentemente em Israel, Arábia Saudita e Iraque. O último destes clientes foi a Coreia do Sul, que há muito demonstra forte interesse em jatos militares russos e sistemas de defesa aérea, mas não conseguiu adquiri-los devido à pressão exercida por Washington.

    Estes fatos mostram que os veículos e aeronaves militares publicitados pela mídia ocidental são bons só como sucata. Na verdade, isto tornou-se claro para toda a gente, quando Washington decidiu mostrar seus veículos blindados enferrujados na parada montada no ano passado para a comemoração do Dia da Independência.
    16/Janeiro/2020
     
    [NR] Para comparação:   O PIB português é da ordem dos 200 mil milhões de dólares.

    Ver também:

  • Lockheed Martin Will Replace F-35’s Faulty Computer System With Cloud-Based Programs

    [*] Especialista em Médio Oriente, colabora na revista New Eastern Outlook .

    O original encontra-se em www.globalresearch.ca/...


    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
  • quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

    EUA intensificam sua guerra "democrática" pelo petróleo do Médio Oriente



    Os meios de comunicação de referência estão evitando cuidadosamente o método oculto por trás da aparente loucura americana em assassinar o general da Guarda Revolucionária Islâmica Qassim Suleimani para iniciar o Ano Novo. A lógica por trás do assassinato foi uma aplicação da consagrada política global dos EUA, não apenas uma "loucura" da personalidade de Donald Trump por ação impulsiva. Seu assassinato do líder militar iraniano Suleimani foi na verdade um ato de guerra unilateral que viola o direito internacional, mas foi um passo lógico numa estratégia americana consagrada. Foi explicitamente autorizado pelo Senado na lei de financiamento do Pentágono que aprovou no ano passado.

    O assassinato destinava-se a escalar a presença dos EUA no Iraque a fim de manter o controle das reservas de petróleo da região e apoiar as tropas Wahabi da Arábia Saudita (Isis, Al Quaeda no Iraque, Al Nusra e outras divisões que na verdade são a legião estrangeira da América) para apoiar o controle dos EUA do petróleo do Oriente Próximo como um baluarte do US dólar. Isto permanece como a chave para o entendimento desta política e a razão porque ela está em processo de escalada, não de abrandamento.

    Participei de discussões sobre esta política quando foi formulada há quase cinquenta anos atrás, quando trabalhava no Hudson Instituto e comparecia a reuniões na Casa Branca, encontrava-me com generais em vários think tanks das forças armadas e com diplomatas nas Nações Unidas. Meu papel era como economista especializado em balança de pagamentos, especializado durante uma década na Chase Manhattan, na Arthur Andersen e em grupos de estudo da indústria de petróleo e de gastos militares. Estas foram duas das três principais dinâmicas da política externa e da diplomacia americanas. (A terceira preocupação era como travar uma guerra numa democracia em que os eleitores rejeitavam a conscrição após a Guerra do Vietnan.)

    Os media e a discussão pública têm desviado a atenção desta estratégia ao propalar especulações de que o presidente Trump fez isso, não para combater a (não)ameaça de impeachment como um volteio, ou para apoiar impulsos israelenses por espaço vital (lebensraum) ou simplesmente para render a Casa Branca à síndrome do ódio neocon pelo Irã. O contexto real da ação dos neocon foi a balança de pagamentos e o papel do petróleo e da energia como uma alavanca de longo prazo da diplomacia americana.

    A dimensão da balança de pagamentos

    O principal déficit da balança de pagamentos dos EUA tem sido os gastos militares no exterior. Todo o déficit de pagamentos, começando com a Guerra da Coreia em 1950-51 e estendendo-se pela Guerra do Vietnan da década de 1960, foi o responsável por forçar a retirada do dólar da paridade com ouro em 1971. O problema enfrentado pelos estrategistas militares dos Estados Unidos era como continuar a apoias as 800 bases militares dos EUA em todo o mundo e apoiar tropas aliadas sem perder a alavancagem financeira dos EUA.

    A solução acabou por ser substituir o ouro por títulos do Tesouro dos EUA (IOUs) como a base das reservas dos bancos centrais estrangeiros. Depois de 1971, os bancos centrais estrangeiros tinham pouca opção sobre o que fazer com a sua entrada contínua de dólares, exceto reciclá-los para a economia dos EUA através da compra de títulos do US Tesouro. O efeito dos gastos militares estrangeiros dos EUA, portanto, não corroeu a taxa de câmbio do dólar e nem mesmo forçou o Tesouro e o Federal Reserve a aumentar taxas de juros para atrair divisas que compensassem as saídas de dólares na conta militar. De fato, os gastos militares estrangeiros dos EUA ajudaram a financiar o déficit do orçamento federal dos EUA.

    A Arábia Saudita e outros países OPEP do Médio Oriente rapidamente tornaram-se um pilar do dólar. Depois que destes países quadruplicarem o preço do petróleo (em retaliação pelos Estados Unidos quadruplicarem o preço das suas exportações de cereais, um dos pilares da balança comercial dos EUA), os bancos americanos foram inundados com um influxo de muitos depósitos estrangeiros – os quais foram emprestados ao países do Terceiro Mundo numa explosão de empréstimos podres que explodiu em 1972 com a insolvência do México e destruiu o crédito dos governos do Terceiro Mundo durante uma década, forçando-o a depender dos Estados Unidos via FMI e Banco Mundial).

    Para coroar tudo, é claro, o que a Arábia Saudita não salva em ativos dolarizados com os seus ganhos na exportação de petróleo é gasto na compra de centenas de milhares de milhões de dólares de armas exportadas pelos EUA. Isto tranca-a na dependência do fornecimento de peças de reposição e reparações dos EUA e permite que os Estados Unidos desliguem o equipamento militar saudita a qualquer momento, caso os sauditas tentem atuar de modo independente da política externa dos EUA.

    Portanto, manter o dólar como moeda de reserva mundial tornou-se um dos suportes principais dos gastos militares dos EUA. Os países estrangeiros não têm de pagar diretamente ao Pentágono por estes gastos. Eles simplesmente financiam o Tesouro e o sistema bancário dos EUA.

    O medo deste desenvolvimento foi uma das principais razões pelas quais os Estados Unidos atuaram contra a Líbia, cujas reservas estrangeiras eram mantidas em ouro, não em dólares, o que instava outros países africanos a seguirem o exemplo a fim de se libertarem da "Diplomacia do Dólar". Hillary e Obama invadiram-na, agarraram seus stocks de ouro (ainda não temos ideia de quem acabou com esse ouro no valor de milhares de milhões de dólares) e destruiu o governo da Líbia, seu sistema público de educação, sua infraestrutura pública e as demais políticas não-neoliberais.

    A grande ameaça a isto é a desdolarização, pois a China, a Rússia e outros países procuram evitar a reciclagem de dólares. Sem a função do dólar como o veículo para a poupança mundial – com efeito, sem o papel do Pentágono em criar a dívida do Tesouro que é o veículo para as reservas dos bancos centrais do muno – os EUA se veriam constrangidos militarmente e portanto diplomaticamente, como acontecia sob o padrão divisas-ouro.

    Esta é a mesma estratégia que os EUA têm seguido na Síria e no Iraque. O Irã  estava a ameaçar esta estratégia de dolarização e o seu esteio na diplomacia estado-unidense do petróleo.

    A indústria do petróleo como esteio da balança de pagamentos dos EUA e da diplomacia estrangeira

    A balança comercial é respaldada pelo petróleo e excedentes agrícolas. O petróleo é a chave, porque é importado por empresas americanas quase sem nenhum custo para a balança de pagamentos (os pagamentos acabam nas administrações da indústria do petróleo como lucros e pagamentos à gestão), ao passo que os lucros nas vendas das empresas petrolíferas dos EUA a outros países são remetidos para os Estados Unidos (via centros de evasão fiscal offshore, durante muitos anos sobre a Libéria e o Panamá). E, como observado acima, os países da OPEP foram instruídos a manter suas reservas oficiais na forma de títulos dos EUA (ações e títulos, bem como títulos de dívida do Tesouro, mas não a compra direta de empresas dos EUA consideradas economicamente importantes). Financeiramente, os países da OPEP são estados clientes da Área do Dólar.

    A tentativa americana de manter esse esteio explica a oposição dos EUA a quaisquer medidas de governos estrangeiros para reverter o aquecimento global [NR] e o estado atmosférico (weather) extremo causado pela dependência mundial do petróleo patrocinada pelos EUA. Quaisquer ações da Europa e de outros países que reduzisse a dependência das vendas de petróleo dos EUA e, portanto, a capacidade de os EUA controlarem a torneira global do petróleo como um meio de controle e coação, são encaradas como atos hostis.

    O petróleo também explica a oposição dos EUA às exportações de combustíveis da Rússia via Nordstream. Os estrategas dos EUA querem tratar a energia como um monopólio nacional dos EUA. Outros países podem se beneficiar da maneira que a Arábia Saudita tem feito – enviando seus excedentes para a economia dos EUA – mas não para suportar o seu próprio crescimento econômico e diplomacia. O controle do petróleo implica portanto apoio ao continuado aquecimento global [NR] como parte inerente da estratégia dos EUA.

    Como uma nação "democrática" pode travar guerra e terrorismo internacionais

    A Guerra do Vietnan mostrou que as democracias modernas não podem montar exércitos para qualquer grande conflito militar, porque isto exigiria uma conscrição dos seus cidadãos. Isto levaria qualquer governo que tentasse tal projeto a ser votado para fora do poder. E sem tropas não é possível invadir um país para conquistá-lo.

    O corolário desta percepção é que as democracias têm apenas duas opções quando se trata de estratégia militar: Elas só podem empregar poder aéreo, bombardeando oponentes; ou elas podem criar uma legião estrangeira, ou seja, contratar mercenários ou apoiar governos estrangeiros que providenciem este serviço militar.

    Aqui, mais uma vez, a Arábia Saudita desempenha um papel crítico, através do seu controle dos Wahabi Sunita transformados em terroristas jihadistas dispostos a sabotar, bombardear, assassinar, explodir e combater qualquer alvo designado como um inimigo do "Islã", o eufemismo para a atuação da Arábia Saudita como estado do cliente dos EUA. (A religião realmente não é a chave; não sei de nenhum ISIS ou ataque Wahabi semelhante a alvos israelenses.) Os Estados Unidos precisam que os sauditas forneçam ou financiem wahabistas loucos. Assim, além de desempenharem um papel chave na balança de pagamentos dos EUA pela reciclagem dos seus ganhos com a exportação de petróleo em ações, títulos e outros investimentos nos EUA, a Arábia Saudita fornece mão-de-obra apoiando os membros Wahabi da legião estrangeira americana, o ISIS e Al-Nusra/Al Qaeda. O terrorismo tornou-se o modo "democrático" de hoje da política militar dos EUA.

    O que torna a guerra do petróleo da América no Médio Oriente "democrática" é que esta é a única espécie de guerra que uma democracia pode travar – uma guerra aérea, seguida por um exército terrorista odioso que compensa o facto de nenhuma democracia poder colocar em campo o seu próprio exército no mundo de hoje. O corolário é que o terrorismo se tornou o modo "democrático" de fazer a guerra.

    Do ponto de vista dos EUA, o que é uma "democracia"? No vocabulário orwelliano de hoje, significa qualquer país que apoie a política externa dos EUA. Bolívia e Honduras tornaram-se "democracias" desde seus golpes, juntamente com o Brasil. O Chile, sob Pinochet era uma democracia de livre mercado no estilo Chicago. O mesmo acontecia com o Irã  sob o xá e a Rússia sob Yeltsin – mas não desde que elegeu o presidente Vladimir Putin, tal como a China sob o presidente Xi.

    O antónimo de "democracia" é "terrorista". Isso significa simplesmente uma nação disposta a combater para se tornar independente da democracia neoliberal dos EUA. Isto não inclui os exércitos por procuração dos EUA.

    O papel do Irã como inimigo norte-americano

    O que obstaculiza a dolarização, o petróleo e a estratégia militar dos EUA? Obviamente, a Rússia e a China têm sido visadas como inimigos estratégicos de longo prazo por buscarem suas próprias políticas econômicas e diplomacia independentes. Mas a seguir a elas, o Irã está na mira dos Estados Unidos há quase setenta anos.

    O ódio americano ao Irão começa com sua tentativa de controlar sua própria produção, exportações e ganhos de petróleo. Isso remonta a 1953, quando Mossadegh foi derrubado porque pretendia soberania interna sobre o petróleo da Anglo-Persian. O golpe da CIA-MI6 substituiu-o pelo flexível Xá, que i
    mpôs um estado policial para impedir a independência iraniana da política dos EUA. Os únicos lugares físicos livres da polícia eram as mesquitas. Isso fez da República Islâmica o caminho de menor resistência para o derrube do xá e a reafirmação da soberania iraniana.

    Os Estados Unidos chegaram a termos com a independência petrolífera da OPEP em 1974, mas o antagonismo em relação ao Irão estende-se a considerações demográficas e religiosas. O apoio iraniano à sua população xiita e ao Iraque e outros países – enfatizando o apoio aos pobres e a políticas quase-socialistas em vez do neoliberalismo – tornou-o o principal rival religioso do sectarismo sunita da Arábia Saudita e do seu papel como legião estrangeira americana dos Wahabi.

    Os EUA opuseram-se ao general Suleimani, acima de tudo, porque ele estava combatendo contra o ISIS e outros terroristas apoiados pelos EUA na tentativa de romper a Síria e substituir o regime de Assad por um conjunto de líderes locais acomodatícios com os EUA – o velho estratagema britânico "dividir e conquistar". Na ocasião, Suleimani havia cooperado com tropas americanas no combate contra grupos do ISIS que ficaram "fora de linha", o que significa a linha do partido dos EUA. Mas todas as indicações são de que ele estava no Iraque para trabalhar com o governo que procurava recuperar o controle dos campos de petróleo que o presidente Trump jactou-se em alta voz de capturar.

    Já no início de 2018, o presidente Trump pediu ao Iraque que reembolsasse os EUA pelo custo de "salvar sua democracia" pelo bombardeamento do remanescente da economia de Saddam. O reembolso era para assumir a forma de Petróleo Iraquiano. Mais recentemente, em 2019, o presidente Trump perguntou: por que não simplesmente agarrar o petróleo iraquiano. O gigantesco campo petrolífero tornou-se o prémio da guerra do petróleo de Bush-Cheney após o 11 de Setembro. "'Foi em geral uma reunião muito comum e discreta", disse a Axios uma fonte que estava na sala. E então, no final, Trump diz algo provocante, com um sorriso afectado no rosto e diz: 'Então, o que vamos fazer acerca do petróleo?' " [1]

    A ideia de Trump de que os EUA deveriam "obter algo" dos seus gastos militares na destruição das economias iraquiana e síria reflecte simplesmente a política dos EUA.

    No final de Outubro de 2019, o New York Times informou que: "Nos últimos dias, Trump estabeleceu as reservas de petróleo da Síria como uma nova lógica para parecer inverter o curso e enviar centenas de tropas adicionais para o país devastado pela guerra. Ele declarou que os Estados Unidos "asseguraram" campos de petróleo no nordeste caótico do país e sugeriu que a captura (seizure) do principal recurso natural do país justifica que os EUA ampliem ainda mais sua presença militar ali. 'Tomamos e garantimo-lo', disse Trump sobre o petróleo da Síria durante declarações na Casa Branca no domingo, depois de anunciar a morte do líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi. " [2] Um funcionário da CIA lembrou ao jornalista que tomar o petróleo do Iraque era uma promessa da campanha de Trump.

    Isso explica a invasão do Iraque por petróleo em 2003, e novamente este ano, como o presidente Trump disse: "Por que simplesmente não tomamos o petróleo deles?" Também explica o ataque Obama-Hillary à Líbia – não apenas pelo seu petróleo, mas por investir suas reservas estrangeiras em ouro ao invés de reciclar suas receitas excedentes de petróleo em títulos do Tesouro dos EUA – e, é claro, por promover um estado socialista laico.

    Explica porque os neoconservadores dos EUA temiam o plano de Suleimani de ajudar o Iraque a reafirmar o controle do seu petróleo e a resistir aos ataques terroristas ao Iraque apoiados pelos EUA e pela Arábia Saudita. Foi isso que tornou o seu assassínio um impulso imediato.

    Os políticos americanos desacreditaram-se ao começarem a sua condenação de Trump dizendo, como fez Elizabeth Warren, quão "má" pessoa era Suleimani, como ele havia matado tropas americanas ao planear a defesa iraquiana de bombardementos rodoviários e outras políticas que tentavam repelir a invasão dos EUA para agarrar o seu petróleo. Ela estava simplesmente a papaguear a descrição de Suleimani como um monstro feita pelos media americanos, desviando a atenção da questão política que explica porque ele foi assassinado agora.

    A contra-estratégia dos EUA para a diplomacia do petróleo, do dólar e do aquecimento global

    Esta estratégia continuará até que países estrangeiros a rejeitem. Se a Europa e outras regiões não o fizerem, sofrerão as consequências desta estratégia dos EUA na forma de uma guerra crescente patrocinada pelos EUA por meio do terrorismo, do fluxo de refugiados e da aceleração do aquecimento global [NR] e de condições climáticas extremas.

    A Rússia, a China e seus aliados já lideram o caminho da desdolarização como meio de conter a política militar global dos EUA como meio de apoio à sua balança de pagamentos. Mas todo mundo agora está a especular sobre qual deveria ser a resposta do Irão.

    A pretensão – ou mais precisamente, o diversionismo – dos media norte-americanos no fim-de-semana foi descrever os Estados Unidos como estando sob ataque iminente. O presidente da municipalidade de Blasio posicionou policias em cruzamentos importantes para nos informar o quão iminente é o terrorismo iraniano – como se fosse o Irão, não a Arábia Saudita que montou o 11 de Setembro, e como se o Irão tivesse de facto efectuado alguma acção contundente contra os Estados Unidos. Os media e os tertulianos da televisão saturaram o público com advertências de terrorismo islâmico. Os âncoras da televisão estão simplesmente a sugerir onde será mais provável que ocorram os ataques.

    A mensagem é que o assassinato do general Soleimani foi para nos proteger. Como Donald Trump e vários porta-vozes militares disseram, ele havia matado americanos – e agora eles devem estar a planear um ataque enorme que ferirá e matará muitos mais americanos inocentes. Esta posição tornou-se a postura da América no mundo: fraca e ameaçada, exigindo uma forte defesa – na forma de um forte ataque.

    Mas qual é o interesse real do Irão? Se é realmente minar a estratégia do dólar e do petróleo, a primeira política deve ser a retirada das forças militares dos EUA do Oriente Próximo, incluindo a ocupação americana dos seus campos de petróleo. Acontece que o ato precipitado do presidente Trump agiu como um catalisador, provocando exatamente o oposto do que ele queria. Em 5 de Janeiro, o parlamento iraquiano reuniu-se para insistir em que os Estados Unidos saíssem. O general Suleimani era um convidado, não um invasor iraniano. São as tropas americanas que estão no Iraque em violação do direito internacional. Se eles partirem, Trump e os neocons perdem o controle do petróleo – e também da sua capacidade de interferir na defesa mútua iraniano-iraquiana-síria-libanesa.

    Para além do Iraque, surge a Arábia Saudita. Tornou-se o Grande Satanás, o defensor do extremismo wahabista, a legião terrorista dos exércitos mercenários dos EUA que lutam para manter o controle das reservas de petróleo e de divisa estrangeira do Oriente Próximo, a causa do grande êxodo de refugiados para a Turquia, Europa e para onde mais puderem fugir das armas e do dinheiro fornecidos pelos apoiantes americanos do Isis, da Al Qaeda no Iraque e das suas legiões aliadas sauditas wahabistas.

    O ideal lógico, em princípio, seria destruir o poder saudita. Esse poder jaz nos seus campos de petróleo. Eles já foram atacados por modestas bombas iemenitas. Se os neocons americanos ameaçarem seriamente o Irão, a sua resposta seria o bombardeio e a destruição por atacado dos campos de petróleo sauditas, juntamente com os do Kuwait e xeques aliados do Oriente Próximo. Isto acabaria com o apoio saudita aos terroristas wahabistas, bem como ao dólar americano.

    Uma tal atuação seria, sem dúvida, coordenada com um apelo aos palestinos e outros trabalhadores estrangeiros na Arábia Saudita se levantassem e expulsassem a monarquia e seus milhares de vassalos familiares.

    Além da Arábia Saudita, o Irão e outros defensores de uma ruptura diplomática multilateral com o unilateralismo neoliberal e neocon dos EUA deveriam pressionar a Europa a retirar-se da NATO, na medida em que esta organização funciona principalmente como uma ferramenta militar centrada nos EUA na sua diplomacia do dólar e do petróleo e, portanto, opondo-se às políticas de mudança climática [NR] e de confrontação militar que ameaçam tornar a Europa parte do turbilhão dos EUA.

    Finalmente, o que podem fazer os opositores à guerra dos EUA para resistir à tentativa neocon de destruir qualquer parte do mundo que resista à autocracia neoliberal dos EUA? Esta foi a resposta mais decepcionante ao longo do fim-de-semana. Eles estão debater. Não foi útil para Warren, Buttigieg e outros acusarem Trump de agir precipitadamente, sem pensar nas consequências das suas acções. Aquela abordagem evita o reconhecimento de que a sua acção na verdade tinha uma lógica – trace uma linha na areia, para dizer que sim, a América IRÁ à guerra, combaterá o Irão, fará qualquer coisa para defender seu controle do petróleo do Oriente Próximo e ditará à OPEP a política dos bancos centrais, defenderá suas legiões do ISIS como se qualquer oposição a esta política fosse um ataque aos próprios Estados Unidos.

    Posso entender a resposta emocional ou ainda novos pedidos de impeachment de Donald Trump. Mas isso é uma óbvia não-solução, em parte porque tem sido obviamente um movimento partidário do Partido Democrata. Mais importante é a falsa e egoísta acusação de que o presidente Trump ultrapassou seu limite constitucional ao cometer um ato de guerra contra o Irão ao assassinar Soleimani.

    O Congresso endossou o assassínio cometido por Trump e é totalmente culpado por ter aprovado o orçamento do Pentágono com a remoção pelo Senado da emenda à Lei de Autorização de Defesa Nacional de 2019 que Bernie Sanders, Tom Udall e Ro Khanna haviam inserido na versão da Câmara dos Deputados, explicitamente não autorizando o Pentágono a travar guerra contra o Irã ou assassinar seus responsáveis. Quando este orçamento foi enviado ao Senado, a Casa Branca e o Pentágono (também conhecido como complexo militar-industrial e neoconservadores) removeram aquela restrição. Era uma bandeira vermelha anunciando que o Pentágono e a Casa Branca realmente pretendiam fazer guerra contra o Irão e/ou assassinar seus responsáveis. Faltou ao Congresso coragem para discutir este ponto no primeiro plano das discussões públicas.

    Por trás de tudo isso está o ato do 11 de Setembro de inspiração saudita, que retira o único poder do Congresso de travar guerra – sua Autorização para o Uso da Força Militar, de 2002 (2002 Authorization for Use of Military Force), tirada da gaveta ostensivamente contra a Al Qaeda, mas na verdade o primeiro passo no longo apoio dos Estados Unidos ao próprio grupo que foi responsável pelo 11 de Setembro, os sequestradores sauditas de aviões.

    A questão é: como fazer com que os políticos do mundo – EUA, Europa e Ásia – vejam como a política americana de tudo ou nada está a ameaçar novas ondas de guerra, refugiados, interrupção do comércio de petróleo no Estreito de Ormuz e, finalmente, global aquecimento [NR] e dolarização neoliberal impostas a todos os países. É um sinal de quão pouco poder existe nas Nações Unidas que não haja nenhum país a clamar por um novo julgamento de crimes de guerra no estilo de Nuremberga, nenhuma ameaça de retirada da OTAN ou mesmo de evitar manter reservas sob a forma de dinheiro emprestado ao Tesouro dos EUA para financiar o orçamento militar dos EUA.
    05/Janeiro/2020
    [1] www.axios.com/... O artigo acrescenta: "Na reunião de Março, o primeiro-ministro iraquiano respondeu: 'O que quer dizer isso?' segundo a fonte na sala. E Trump diz: 'Bem, fizemos muito, fizemos muito por lá, gastamos triliões por lá e muitas pessoas têm falado sobre o petróleo' ". ?

    [2] Michael Crowly, " 'Keep the Oil': Trump Revives Charged Slogan for new Syria Troop Mission' ", The New York Times, 26/Outubro/2019. https://www.nytimes.com/2019/10/26/us/politics /trump-syria-oil-fields.html . O artigo acrescenta: "Eu disse para ficarem com o petróleo", tornou a dizer Trump. "Se vão para o Iraque, que fiquem com o petróleo. Eles nunca o fizeram. Nunca o fizeram". ?

    [NR] Hudson sabe muito de economia, finanças e balanças de pagamentos – mas não de climatologia.   Aparentemente deixou-se influenciar pela mistificação aquecimentista , agora transformada numa espécie de nova "religião" global.   Mas o mundo já tem problemas reais suficientes e não precisa inventar outros adicionais.


    O original encontra-se em thesaker.is/america-escalates-its-democratic-oil-war-in-the-near-east/

    Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .



    https://www.youtube.com/watch?v=SE_X8nBrGIU&feature=youtu.be