segunda-feira, 6 de abril de 2026

A produção midiática da vida e da morte desigual

 

Fotografias de meninas vítimas do ataque aéreo conjunto entre EUA e Israel em Minab, exibidas em Teerã, a capital. (Foto: Reuters)

Nas rotinas de produção de notícias ocidentais, o reconhecimento do sofrimento alheio segue uma geometria variável. 

Por Xavier Villar

Algumas mortes merecem retratos, biografias e o processo de luto. Outras, porém, entram para os registros como números anônimos, agregados estatísticos que ocupam o espaço que deveria corresponder a nomes próprios, trajetórias de vida e redes de afeto. De Gaza ao Irã, do Líbano ao Iêmen, populações alvo de regimes de sanções ou violência militar direta aparecem para o público metropolitano como resíduos quantitativos: são contadas, mas não reconhecidas; são documentadas, mas não verdadeiramente presentes.

Essa assimetria não é acidental nem pode ser corrigida por meio de códigos éticos superficiais. Ela deriva de uma arquitetura estrutural que organiza a inteligibilidade do sofrimento de acordo com coordenadas geopolíticas e raciais. O aparato midiático ocidental estabelece uma hierarquia de luto possível, na qual as vidas que demonstram proximidade cultural ou alinhamento político com centros de poder imperial têm acesso à expressão comemorativa, enquanto aquelas posicionadas como antagônicas são reduzidas a meros dados. O que emerge é um regime de valor diferencial para a existência humana, onde a própria possibilidade de ser lamentado segue os padrões da dominação global.

Nesse nível, o problema não é simplesmente de representação, mas de produção ontológica. O jornalismo não reflete passivamente uma realidade preexistente, mas participa da fabricação das estruturas dentro das quais certas vidas aparecem como vidas e outras como meros suportes biológicos para os eventos. A contabilização do sofrimento não é uma operação secundária: é um mecanismo para a classificação moral do mundo.

O número como operador de violência racial

A prática da enumeração cumpre uma função administrativa precisa: suspende o reconhecimento relacional. Quando um atentado abala Paris, Bruxelas ou Berlim, as primeiras edições digitais são preenchidas com rostos, instantâneos domésticos e relatos biográficos que reconstroem trajetórias educacionais, laços afetivos e pequenas histórias do cotidiano. O público metropolitano pode, assim, vivenciar uma forma de luto vicário que, embora efêmera, restaura o status do falecido como sujeito.

Esse processo não é espontâneo. Envolve toda uma infraestrutura para selecionar quais vidas merecem ser narradas, quais famílias são contatadas, quais fotografias circulam e quais biografias são reconstruídas. A individualização dos mortos não é uma propriedade natural das notícias, mas um privilégio distribuído de forma desigual. É um mecanismo de humanização diferencial que depende da posição geopolítica da vítima.

Quando uma violência comparável — ou quantitativamente maior — se desenrola em Gaza, Bagdá ou no sul do Líbano, a cobertura assume uma forma radicalmente diferente. As manchetes oferecem números agregados: “cinquenta mortos em um bombardeio”, “centenas de deslocados”, “milhares sem acesso à água potável”. A abstração numérica funciona como um mecanismo de distanciamento afetivo que interrompe os circuitos de transmissão emocional entre a testemunha remota e a vítima. A aritmética transforma singularidades irredutíveis em uma massa indiferenciada.

Essa mudança de perspectiva não é simplesmente um efeito da velocidade da informação ou da falta de acesso. É uma tecnologia de percepção. A forma como a morte é retratada determina como essa morte pode ser sentida, processada ou ignorada. Os números não se limitam a quantificar: eles simultaneamente despersonalizam, apagam a história e despolitizam.

A raça opera aqui como uma tecnologia de gestão populacional, não como uma categoria ontológica fixa. É um dispositivo móvel que distribui quais vidas devem ser preservadas e quais podem ser expostas à morte prematura, reconstituindo continuamente a arquitetura global da supremacia branca. Nesse sentido, a quantificação é uma operação política, e não epistemológica: ela transforma populações inteiras em unidades intercambiáveis ​​de dano aceitável.

O jornalismo, ao priorizar dados agregados em detrimento de narrativas corporificadas, participa de uma economia necropolítica onde o sofrimento de pessoas não brancas aparece como um desgaste administrável. Essa lógica não requer intenção explícita: ela opera por meio de rotinas profissionais, formatos herdados e convenções editoriais que historicamente consolidaram a hierarquia global de quais vidas importam.

Até mesmo a noção de “cobertura equilibrada” torna-se problemática nesse contexto. A simetria informacional pode coexistir com uma profunda assimetria ontológica, onde todas as mortes são contabilizadas, mas nem todas são tratadas com a mesma compaixão.

Economias visuais e a produção do ingovernável

A produção iconográfica do sofrimento não apenas reflete essa hierarquia, como também a reforça de forma ainda mais profunda. Catástrofes que afetam populações consideradas plenamente humanas — ocidentais, brancas ou politicamente alinhadas — privilegiam a intimidade: a fotografia doméstica, o momento cotidiano interrompido, o rosto individualizado que desencadeia uma resposta emocional imediata. A câmera busca a singularidade, a história, a continuidade biográfica.

Em contraste, a violência contra populações racializadas — palestinos, libaneses, iranianos, afegãos — aparece através de registros genéricos: arquitetura desmoronada, multidões sem nome, corpos reduzidos a silhuetas entre ruínas. A imagem deixa de ser um espaço de identificação e torna-se uma superfície de observação.

Essa gramática visual perpetua a lógica colonial do século XIX: o sofrimento do outro racializado aparece como confirmação de sua desordem civilizacional e como justificativa implícita para a intervenção externa que a controla. A imagem não apenas mostra a destruição: ela produz uma legibilidade política dessa destruição como algo quase natural, inevitável ou culturalmente determinado.

O sofrimento causado pela violência imperial assemelha-se mais a uma catástrofe atmosférica do que ao resultado de decisões políticas identificáveis. As imagens não mostram os responsáveis; mostram os efeitos. E, ao fazê-lo, transformam a morte num espetáculo de barbárie sem sujeito, não numa reivindicação de justiça.

A branquitude, como norma ontológica, permanece invisível, embora organize todo o campo da visibilidade. É o ponto de vista não marcado a partir do qual a humanidade do outro é avaliada, interpretada e distribuída. O outro racializado é simultaneamente hipervisível como massa e desindividualizado como sujeito. É mais visto, mas menos reconhecido.

Essa estrutura visual não é secundária ao conflito político: é uma de suas condições de possibilidade. A guerra contemporânea não é travada apenas com armas, mas também com regimes de visibilidade que determinam que tipo de morte pode circular como notícia e qual é absorvida como ruído estatístico.

Agrupamentos raciais e sanções como guerra silenciosa

Sob essa assimetria, a raça opera como uma tecnologia histórica de gestão populacional. Não como uma essência biológica nem como uma diferença cultural fixa, mas como um mecanismo para produzir hierarquias que emergiram do sistema mundial capitalista-colonial. Esse aparato reorganiza continuamente as fronteiras entre vidas que podem ser protegidas e vidas que podem ser sacrificadas, ajustando seus critérios de acordo com as necessidades da ordem global, mas sempre mantendo o mesmo efeito estrutural.

Intelectuais iranianos que resistem à exploração neoliberal, comunidades palestinas que enfrentam a colonização por assentamentos e populações afegãs após décadas de ocupação são todos retratados pelo aparato midiático sob categorias de ameaça naturalizada. O conflito é reescrito como propriedade do sujeito, e não como resultado de uma estrutura de dominação.

A questão racial opera aqui transformando o antagonismo político em ontologia. Não se resiste à ocupação por ser palestino; torna-se perigoso por resistir, e esse perigo é atrelado à identidade como se fosse uma propriedade inerente. Essa inversão é uma das operações centrais da violência contemporânea: transformar relações de poder em atributos essenciais.

A sintaxe jornalística reforça essa operação por meio de estruturas passivas e nominais que dissolvem a agência. “Um hospital é atingido.” “As sanções são endurecidas.” Essas formas não são neutras: elas eliminam o sujeito da violência e o substituem por processos sem um responsável.

O caso do Irã é paradigmático nesse sentido. As sanções funcionam como uma forma de cerco civil prolongado: interrupção das cadeias de suprimento farmacêutico, restrições a tratamentos médicos, deterioração da infraestrutura de saúde e educação e um bloqueio financeiro sistemático. No entanto, esses efeitos raramente se manifestam como violência estrutural deliberada. São apresentados como dificuldades econômicas ou pressão diplomática.

Uma comparação com o tratamento das sanções em contextos europeus revela uma assimetria estrutural. Quando as populações brancas sofrem consequências econômicas decorrentes de sanções, estas são narradas como crises sociais imediatas, com rostos, testemunhos e dramatizações do cotidiano. Quando as populações racializadas as sofrem, tornam-se abstrações geopolíticas sem sujeito definido.

Desmantelar esse aparato não se trata de ajustar superficialmente a linguagem, mas de transformar a infraestrutura da produção de notícias. Restaurar o uso de nomes próprios onde os números dominam atualmente, e restaurar a autonomia onde a passividade prevalece, não é um gesto estilístico, mas uma reconfiguração epistemológica do campo da informação.

Cada decisão gramatical participa da distribuição do visível e do invisível, do lamentável e do imensurável. A produção da ausência de luto opera por meio da repetição de formas aparentemente neutras: manchetes sem nomes, imagens sem corpos, conflitos sem agentes. Romper com essa lógica significa romper com as convenções que transformam populações inteiras em excedente demográfico.

Enquanto essa transformação não ocorrer, o jornalismo continuará a funcionar como uma das principais tecnologias para legitimar a ordem imperial que busca descrever.

https://www.hispantv.com/noticias/opinion/642195/produccion-mediatica-vida-muerte-desigual

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