sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

"Fundos do quintal " a ferro e fogo

A guerra conduzida pelos Estados Unidos contra a Venezuela está em marcha. Independentemente dos contornos militares que vier a assumir, o pretexto político já foi definido – a suposta "ilegitimidade" do novo mandato de Nicolás Maduro –, os encontros conspirativos regionais sucedem-se e as provocações belicistas também, enquanto as pressões diplomáticas se intensificam. Porém, nem tudo poderá correr de feição para os promotores da agressão: a juntar à disponibilidade da Venezuela para resistir ganha forma a possibilidade de a Rússia vir a estabelecer uma base aeronaval permanente em zona insular do território venezuelano.

O patrão e o seu vassalo.
A velha doutrina de Washington sobre o domínio "dos fundos do quintal" – as Américas Central e do Sul – reativada a partir de 2008 com uma série de golpes políticos e diplomáticos, sob fundo militar, parece caminhar sobre rodas. Uns atrás dos outros, os governos latino-americanos que opuseram a soberania à subserviência desaparecem do mapa e os seus sucessores representam agora postos avançados contra os que falta abater: a "troika da tirania", definição estabelecida em Washington para englobar Venezuela, Nicarágua e Cuba; e a Bolívia, que aguarda novo assalto. 

A partir do momento em que se completou no Brasil o processo golpista iniciado em 2016 e os novos dirigentes do país mostraram, em curtos dias, absoluta disponibilidade para se assumirem como servos coloniais, a guerra contra os países renitentes vai sendo afinada, tendo como próximo objetivo a Venezuela. 

A escolha nada tem de surpreendente, trata-se do país que tem referenciadas as principais reservas de hidrocarbonetos do mundo, superiores às da própria Arábia Saudita, circunstância que, em Washington e arredores, é absolutamente incompatível com uma política de soberania nacional. 

Conspiração em Brasília e Bogotá 

Viajando pelo "quintal" para abençoar a posse de Jair Bolsonaro, o secretário de Estado norte-americano e ex-patrão da CIA, Michael Pompeo, concentrou-se em ativas reuniões de bastidores. 

Com o novo presidente brasileiro estabeleceu os próximos passos do que será a "luta contra os regimes autoritários de Venezuela e Cuba". Antes ainda de serem empossados, os novos dirigentes brasileiros tinham multiplicado sinais dando conta da sua vontade de desempenharem um papel principal numa intervenção contra a Venezuela. O vice-presidente e general Hamilton Mourão terá exagerado até no entusiasmo, pelo menos em termos de "timing", oferecendo-se para enviar "uma força de paz" com destino a Caracas. 

A seguir, Pompeo viajou para Bogotá, Colômbia, ao encontro de outro chefe fascista, Iván Duque, com quem delineou o "isolamento diplomático" da Venezuela. 

Kerch reproduzido na Guiana 

Por essa altura, primeiros dias de Janeiro, estava em desenvolvimento uma provocação no terreno, aliás a fazer lembrar metodologicamente a que foi tentada pelo fascismo ucraniano contra a Rússia, em 25 de Novembro, no Estreito de Kerch. 

Em 22 de Dezembro de 2018, a Marinha venezuelana vira-se forçada a expulsar das suas águas territoriais dois navios ao serviço da Exxon Mobil, o principal fornecedor de combustíveis do Pentágono, que ali faziam prospecção de hidrocarbonetos sem terem sido convidados. 

Essa atitude de Caracas em defesa da soberania venezuelana foi qualificada, em 4 de Janeiro, como "uma provocação da Venezuela que põe em causa a segurança coletiva", no artigo 9º da declaração resultante da reunião do chamado Grupo de Lima, a etapa seguinte do périplo de Pompeo. 

Os membros do Grupo de Lima, uma entidade informal constituída por fiéis seguidores regionais das estratégias delineadas por Washington, assumiram esta posição partindo do princípio de que os intrometidos navios estariam em atividade em águas territoriais disputadas entre a Guiana (ex-Guiana Britânica) e a Venezuela. 

Existe, na verdade, uma indefinição de estatuto relativa a um território florestal não habitado de 160 mil quilômetros quadrados e que resultou do fato de os colonizadores britânicos e espanhóis não terem estabelecido esse setor de fronteira entre as Guianas Britânica e Espanhola, hoje território venezuelano. 

O contencioso esteve praticamente congelado entre o século XIX e 2015 – houve um acordo que deixou o assunto entre parêntesis em Genebra, em 1966 – até que surgiram indícios fortes da existência de hidrocarbonetos nas águas territoriais correspondentes a essa zona por definir. 

Porém, em 9 de Janeiro, o presidente da Venezuela provou, durante uma conferência de imprensa de âmbito internacional, que os navios da Exxon Mobil não estavam em águas disputadas, mas sim em águas venezuelanas na foz do rio Orenoco. Maduro apresentou várias provas: a posição exata em que se encontravam os navios, reveladas por um dos capitães durante conversações com a Marinha venezuelana; o qual admitiu ainda possuir apenas uma autorização escrita do governo da Guiana, que aliás fora derrubado na véspera através de um estranho episódio: o deputado governamental que assegurava a maioria votou contra o executivo numa moção de censura e a seguir fugiu do país, refugiando-se no Canadá. 

O presidente Nicolás Maduro exigiu então, na sequência da apresentação destas provas, que o Grupo de Lima retirasse o artigo 9º do seu comunicado, o que acabou por acontecer, embora com votos contrários do governo fascista paraguaio e, significativamente, do Canadá. 

Doutrina agressiva 

Apesar desse recuo, o Grupo de Lima, regido por Pompeo, deixou estabelecida a sua doutrina agressiva contra a Venezuela ao postular a "ilegitimidade" do novo mandato de Maduro, porque resultante de eleições que não devem ser consideradas por terem tido 54% de abstenções, alegadamente devido a um boicote por setores da oposição fascista dirigida de Washington. 

Ora as abstenções de 54% são comuns nas eleições presidenciais norte-americanas, mesmo sem que haja, como houve na Venezuela, ameaças contra votantes, sabotagem de meios de transporte e outras situações anômalas. 

E 54% foi a abstenção ocorrida, semanas antes, nas eleições que entronizaram Sebastián Piñera, discípulo de Pinochet, como presidente do Chile. Sensivelmente na mesma ocasião foi detectada mais uma gigantesca fraude na eleição de Juan Hernandez nas Honduras, de tal modo que os Estados Unidos e a própria e domesticada Organização dos Estados Americanos (OEA) demoraram mais de um mês a reconhecê-la. 

E que dizer do Brasil, onde as eleições presidenciais se realizaram depois de encarcerado e impedido de concorrer o candidato que, segundo as sondagens, tinha a eleição praticamente assegurada? 

A "ilegitimidade" de Maduro, estabelecida apesar da coexistência de cenários deste tipo, vai ser, doravante, o combustível das ações de guerra contra a Venezuela. 

Eis que se fala da Rússia 



Não é novidade que a campanha contra a Venezuela tem um contexto mais abrangente. Os Estados Unidos confirmam-no ao coletivizarem os objetivos, de modo a englobarem também Cuba, a Nicarágua, a Bolívia, Estados que não prescindem da sua soberania e seguem caminhos próprios de desenvolvimento. 

Não se trata apenas, porém, de abater regimes insubmissos. A estratégia global dos Estados Unidos e aliados implica o reforço de mecanismos de dominação de âmbito militar regional que desencorajem a formação de governos independentes e com pouca vocação para acatar as ordens emanadas do Norte. A intensa atividade do Comando Sul (SouthCom) do Pentágono, a reativação da Quarta Esquadra norte-americana, os exercícios militares gigantescos e provocatórios são sinais permanentes a fazer lembrar que a guerra está em marcha. 

Além disso, o Reino Unido prepara-se para juntar à ocupação militar das Malvinas argentinas a criação, a breve prazo, de uma base aeronaval na região das Caraíbas. Provavelmente na Guiana, admitindo-se que a ebulição política em que este país mergulhou, em 21 de Dezembro, não seja desenquadrada desse objetivo de Londres – e que o Canadá tenha ajudado. 

No contexto geral, porém, também é certo que os países que apostam na soberania política e econômica, como a Venezuela, têm diversificado as suas relações com nações e regiões de outros continentes. Pelo que os interesses dos Estados Unidos e aliados do " fundo do quintal" de Washington não são os únicos no terreno. Outros foram sendo estabelecidos, oriundos de outras regiões. 

As relações entre Caracas e Moscou têm-se aprofundado, do mesmo modo que as da Venezuela com a China. Não sendo de ignorar também o volume de investimento que Pequim tenciona fazer num novo canal interoceânico, alternativo ao do Panamá, a abrir na Nicarágua. 

Além disso, como é de conhecimento geral, a relação de forças mundial está em mudança significativa – a própria supremacia militar é hoje muito mais repartida. 

Daí que esteja a ganhar forma a possibilidade de a Rússia vir a construir uma base aeronaval na ilha de Orchila, em território da Venezuela, a mesma onde o presidente Hugo Chávez esteve encarcerado durante algumas horas, em 2002, enquanto decorria a tentativa de golpe de Estado coordenada pela administração de George W. Bush. 

Uma base na qual Moscou encara a possibilidade de estacionar bombardeiros estratégicos, o que traz à memória as angústias vividas pelo establishment de Washington por ocasião da chamada "crise dos mísseis" em Cuba, em 1962. 

Pelo que, por muitas razões, e mais esta, uma guerra na América Latina iniciada com uma agressão dos Estados Unidos e colônias contra a Venezuela soberana pode não ser uma simples e vingativa degola de inocentes. 
16/Janeiro/2019
O original encontra-se em www.oladooculto.com/noticias.php?id=202 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Entenda a nova ofensiva contra a Venezuela

por Romain Migus

 Nicolas Maduro.

A investidura de Nicolas Maduro, em 10 de janeiro, provoca turbulências políticas e midiáticas. Eleito em 20 de maio de 2018, o presidente da Venezuela enfrenta uma operação planejada e consertada pelos Estados Unidos e seus aliados. Tomando como pretexto inicial as condições eleitorais que permitiram a vitória de Maduro, um punhado de governos, repintado para a ocasião em "comunidade internacional", através das transnacionais da comunicação, decidiu aumentar a pressão sobre a Venezuela Bolivariana. 

Como se tornou hábito no caso da Venezuela, a maioria da grande comunicação envolve-se com prazer nas falsas notícias e esquece o próprio significado da ética jornalística. 

É conveniente para o leitor escrupuloso e desejoso de separar a verdade do falso expor os fatos e voltar às condições da eleição de Maduro, analisando a estratégia de Washington para punir um povo julgado, desde há 20 anos, demasiado rebelde e incomodo. 

Os pretextos falaciosos para uma nova ofensiva política 

Nesse novo cenário de desestabilização da Venezuela, as principais justificações invocadas pelos governos que se opõem a Caracas andam à volta das condições da eleição de Nicolas Maduro em maio passado. 

Para entender esses pretextos falaciosos, precisamos voltar um pouco atrás. Em maio de 2016, alguns meses após a vitória da oposição nas eleições legislativas, iniciou-se um processo de diálogo entre o Chavismo e seus opositores na República Dominicana. Uma série de 150 reuniões, lideradas pelo ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Rodriguez Zapatero, o ex-presidente da República Dominicana Leonel Fernandez e o ex-presidente do Panamá, Martin Torrijos, resultou em janeiro de 2018, na elaboração de um acordo sobre a convocação de uma eleição presidencial antecipada e suas garantias eleitorais. 

Como ressaltou Jorge Rodriguez, chefe da comissão de diálogo do governo: "Tudo estava pronto [para a assinatura do acordo] até a mesa onde devíamos fazer nossas declarações oficiais. À tarde, Julio Borges, ex-presidente de direita da Assembleia Nacional, recebeu um telefonema da Colômbia do ex-secretário de Estado norte-americano Rex Tillerson (...). A oposição então anunciou-nos que não assinaria o acordo. De volta a Caracas, José Luis Rodríguez Zapatero enviou uma carta à oposição perguntando-lhe qual era a sua alternativa para se recusar a participar numa eleição que apresentava as garantias sobre as quais ela mesma tinha trabalhado.” [1] 

A oposição venezuelana dividiu-se sobre a estratégia a adotar. Enquanto a ala mais radical decidia não participar, parte da oposição que não desistiu de recuperar o poder através do caminho democrático apresentou um candidato, Henri Falcon. Dois outros candidatos participariam nesta eleição [2] . Por conseguinte, é simplesmente falso afirmar que a oposição boicotou este voto ou que Nicolas Maduro se apresentou sozinho [3] . Esta é uma narrativa com intenções políticas não democráticas. 

Um sistema eleitoral transparente e democrático 

Uma das ladainhas de Washington e dos seus satélites da América Latina ou europeus é dizer que as eleições na Venezuela não estão alinhadas com os padrões internacionais. O que é obviamente falso, mas necessário neste processo político-midiático que visa não reconhecer a legalidade da eleição de 20 de maio de 2018 e a legitimidade do seu resultado. 

Para ver a hipocrisia daqueles governos sobre este conflito, vamos deter-nos por um momento sobre as condições eleitorais oferecidas ao povo venezuelano desde a aprovação por referendo da Constituição Bolivariana, em 15 de dezembro de 1999. O leitor pode facilmente ter uma ideia da transparência das eleições na Venezuela, comparando esses mecanismos eleitorais com os postos em prática no seu próprio país. 

Na Venezuela, para evitar fraudes, as eleições não são organizadas pelo executivo através do Ministério do Interior. A Constituição de 1999, que reconhece a existência de cinco poderes independentes – o executivo, o legislativo, o judiciário, o moral e o poder eleitoral – deixa a este a tarefa de organizar os processos eleitorais, de acordo com a lei orgânica dos processos eleitorais. 

Este quadro legal, adotado em 2009, não foi modificado desde então [4] . Em particular, permitiu a eleição de múltiplos representantes da oposição para poderes públicos. Nenhum deles duvidou do sucesso do voto que conquistou e a própria oposição nunca questionou a estrutura legal do processo eleitoral. O que ela poderia no entanto ter feito por meio de um referendo de iniciativa cidadã, previsto para revogar por leis o artigo 74 da Constituição. Sempre se limitou a denunciar os resultados das eleições quando perdeu, ou preventivamente quando sabia que ia perder. 

Relativamente ao voto dos cidadãos [5] , a Venezuela utiliza um sistema eletrônico e manual duplo. Quando alguém entra no gabinete de voto, identifica-se aos assessores com a sua cartão de identidade e ativa a máquina para votar por meio de um reconhecimento biométrico. Portanto, é impossível votar duas vezes. Depois de escolher o candidato de sua escolha, a urna eletrônica emite um bilhete com o nome do candidato, que o eleitor coloca num envelope e deposita numa urna. Finalmente, depois de assinar o registro eleitoral, mergulha o dedo mindinho em tinta indelével para garantir que não repetirá seu voto. 

Nos dias que antecedem a eleição, o Centro Nacional Eleitoral (CNE), órgão que rege o poder eleitoral, convoca todos os partidos políticos participantes nas eleições para uma série de 14 auditorias prévias. Assim são postos à prova, listas de eleitores, o software usado para coletar dados eleitorais, máquinas de votação e seu método de montagem, o sistema biométrico para o reconhecimento do eleitor, tinta indelével, rede de transmissão de dados eleitorais e sistema de totalização de dados [6] . Observadores de cada partido político participam nestas várias auditorias que antecedem o voto dos cidadãos. 

Cada passo deve ser aprovado previamente por todos os participantes para garantir a maior transparência da eleição. E, de fato, eles sempre foram aceites até agora. Acrescente-se que todos os partidos políticos têm o direito de enviar apoiantes como assessores, bem como envolver observadores nacionais e internacionais de sua escolha na monitorização das sessões eleitorais. 

Na noite dos resultados, a CNE procede a uma nova auditoria perante responsáveis dos partidos, onde 54,4% (pelo menos, de acordo com a lei) das assembleias de voto serão sorteadas, em que o resultado eletrônico será verificado. Trata-se então de comparar os resultados obtidos na urna com os resultados eletrônicos. Nunca foi detetado um erro durante os múltiplos processos eleitorais. 

Estas garantias para proteger o resultado levaram o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter a definir o sistema eleitoral venezuelano como "o melhor do mundo" [7] . Foram os mesmos procedimentos que garantiram a transparência de todas as eleições na Venezuela, seja, por exemplo, para as eleições parlamentares de 5 de dezembro de 2015 (vencidas pela oposição) ou para as eleições presidenciais de 20 de maio de 2018 (vencidas pelo Chavismo). 

Como se pode ver, a Venezuela tem mais garantias eleitorais do que muitos países ocidentais, para não falar dos países do grupo de Lima. A transparência da eleição de Nicolas Maduro foi, além disso, validada por mais de 2 000 observadores internacionais da Comunidade do Caribe (Caricom), da União Africana e do Conselho de Peritos Eleitorais Latino-Americanos (Ceela). 

Perante este sistema, entendemos por que uma parte da oposição se recusou a concorrer a uma eleição que teria perdido. Aceitar participar em eleições significa participar nas auditorias e validar a transparência do sistema eleitoral venezuelano. Essa recusa em participar do processo democrático preparou o caminho para a tentativa desestabilizadora que vemos hoje.

Na noite da eleição presidencial 

Para além das garantias eleitorais, os países que questionam a legitimidade do presidente venezuelano tentam criticar os resultados da eleição presidencial. Mais uma vez, este é apenas um pretexto para legitimar a desestabilização da Venezuela. Vamo-nos deter por um momento nestes resultados. 

A eleição presidencial na Venezuela é uma eleição por sufrágio universal direto. O presidente é eleito não conforme acordos parlamentares ou pela escolha de "grandes eleitores", mas diretamente pelo povo. 

Em 20 de maio de 2018, 9 389 056 eleitores votaram nas urnas, ou 46.07% dos cidadãos registrados nas listas eleitorais. A alta taxa de abstenção ainda é usada hoje por oponentes da Revolução Bolivariana para desqualificar a vitória de Nicolas Maduro. É claro que nenhum desses críticos mencionará as dezenas de penalidades financeiras e retaliações à economia do país desde 2014 [8] . Uma perseguição que desencorajou muitos venezuelanos e aumentou a sua desconfiança numa solução eleitoral para acabar com a crise. Além disso, o pedido de boicote das urnas por vários partidos da oposição também teve consequências sobre a taxa de participação. 

Apesar disso, 30,45% dos eleitores registrados votaram em Nicolas Maduro. Este valor é superior ao do presidente chileno Sebastián Piñera (26,5%), do presidente argentino Mauricio Macri (26,8%) e do presidente Donald Trump (27,20%). Sem mencionar as percentagens obtidas na primeira volta pelo presidente colombiano (21%) ou pelo presidente Emmanuel Macron (18,19%). Obviamente, ninguém contesta a legitimidade de suas eleições apesar da baixa proporção de eleitores que os escolheram. 

Uma estratégia coordenada e planificada a partir de Washington 

Após a eleição de Nicolas Maduro, os Estados Unidos fortaleceram a coligação contra a Venezuela na região. Em 27 de junho de 2018, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, anunciou o seu tom no Brasil: "A liberdade e a democracia serão restauradas na Venezuela. Os Estados Unidos pedem ao Brasil que tome uma posição firme contra o regime de Nicolas Maduro" [9] . Fazendo eco, o secretário de Estado Mike Pompeo afirmou em 21 de setembro de 2018, que os Estados Unidos "continuarão a aumentar o nível de pressão" contra o país bolivariano. Este mesmo Pompeo realizou várias reuniões com os chefes dos governos brasileiro, peruano e colombiano para preparar a operação de 10 de janeiro. 

Foi na reunião do Grupo Lima, realizada em 4 de janeiro de 2019, que realmente foi definido o cenário. Durante este cenáculo, os governos membros dessa internacional anticomunista [10] concordaram numa série de ações contra Caracas. Note-se que o governo mexicano, agora chefiado pelo presidente progressista Andrés Manuel López Obrador, não subscreveu este documento e reafirmou a vontade do seu país de não interferir nos assuntos internos de outra nação, cortando com as posições belicistas do governo precedente e do grupo de Lima. 

O documento aprovado em Lima é uma verdadeira declaração de guerra [11] . Na presença do secretário de Estado dos EUA (por videoconferência), os governos que se opunham à Revolução Bolivariana concordaram em aumentar a pressão diplomática contra a Venezuela e perseverar na intenção de abrir uma investigação na Tribunal Penal Internacional contra o Estado venezuelano. Ação apoiada além disso pela França [12] . 

Os membros do grupo de Lima condenam a crise econômica na Venezuela, mas adotam uma resolução para reforçar o bloqueio financeiro contra aquele país. O texto adotado prevê listas de personalidades legais com as quais esses países "não deverão trabalhar, terão que impedir o acesso ao seu sistema financeiro e, se necessário, congelar os seus ativos e recursos econômicos". Do mesmo modo, a resolução obriga os países membros do grupo de Lima a pressionar os organismos financeiros internacionais a que pertencem para impedir a concessão de novos créditos à República Bolivariana da Venezuela. 

Mais surpreendente ainda, esta declaração conjunta exige que o governo "de Nicolas Maduro e as Forças Armadas da Venezuela renunciem a todos os tipos de ações que violariam a soberania de seus vizinhos" . Essa acusação é baseada numa recente reação venezuelana a uma exploração de petróleo autorizada pela Guiana numa área territorial exigida pelos dois países vizinhos [13] . Trata-se novamente de um pretexto que faz eco de fatos denunciados pelo presidente da Venezuela em 12 de dezembro de 2018. 

Num discurso na televisão, Nicolas Maduro revelou a presença de 734 mercenários nas bases militares de Eglin, na Flórida, e Tolemaida, na Colômbia. O seu objetivo é atacar a Venezuela ou preparar um ataque sob falsa bandeira para justificar uma intervenção militar contra a nação bolivariana. Maduro também revelou que o assessor de segurança nacional dos EUA, John Bolton, pediu ao novo vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, que organize provocações militares na fronteira com a Venezuela [14] . A declaração do Grupo Lima, portanto, parece reforçar as suspeitas de agressão emitidas pelo Estado venezuelano. 

Depois de ter qualificado a eleição de Nicolas Maduro como ilegítima, o grupo de Lima instou o presidente venezuelano a não assumir a presidência e a "transferir provisoriamente o poder executivo para a Assembleia Nacional". Não importa que Nicolas Maduro tenha sido eleito graças ao mesmo sistema eleitoral que permitiu a eleição do poder legislativo. O objetivo procurado por Washington e seus aliados não é democrático, é político: colocar a oposição à frente do país produtor de petróleo. 

Esta tentativa de golpe institucional, já implementada noutros países da região [15] , faz parte da estratégia de substituição de poderes políticos legítimos. Em julho de 2017, a oposição criou ilegalmente um Supremo Tribunal de Justiça "no exílio", com sede no Panamá, e um cargo de Procurador-Geral da Nação "no exílio" em Bogotá. Essas autoridades fantoches tentam, desde então, substituir-se aos legítimos poderes venezuelanos. 

Em ligação com uma Assembleia Nacional, declarada em atentado judicial em março de 2017 [16] , essas paródias de poderes públicos realizaram um julgamento simulado na sede do Parlamento colombiano (sic) e condenaram o presidente venezuelano Nicolas Maduro a uma pena de 18 anos e 3 meses de prisão. [17] 

Para ilustrar esta situação absurda, imagine-se por um momento que um grupo de "coletes amarelos" franceses designava um ministro da Justiça e um Procurador Geral "no exílio" e que eles organizavam na Duma russa um julgamento simulado para condenar Emmanuel Macron a 18 anos de prisão. Isto faria sorrir, mas o que aconteceria se vários Estados em todo o mundo reconhecessem como legítimos esses poderes judiciais "no exílio"? Ouviríamos certamente um grande número de vozes gritando, e com razão, contra a interferência estrangeira ou mesmo uma tentativa de golpe. O exemplo que acabamos de mencionar pode parecer ridículo, mas é o que está a acontecer na Venezuela. 

Estas manobras não são feitas de ânimo leve. O ataque fracassado por meio de um drone carregado de explosivos C4, que ocorreu em 4 de agosto de 2018, não visava apenas eliminar Nicolas Maduro, mas todas as autoridades públicas da nação, com o objetivo de os substituir pelos seus fantoches ilegais [18] . A constituição de poderes paralelos não é um circo político-midiático, mas parte integrante de um golpe institucional em preparação. 

Da mesma forma, declarar Nicolas Maduro ilegítimo é uma mensagem virulenta para os principais parceiros econômicos de Caracas (China, Rússia ou Turquia), notificando-os que os acordos assinados com o governo bolivariano não serão reconhecidos quando Nicolas Maduro for derrubado. Um conflito com o país poderia ter repercussões muito além de suas fronteiras. Sergei Riabkov, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, advertiu "os entusiastas de Washington a não cair na tentação da intervenção militar" na Venezuela [19] . 

Por outro lado, é também uma mensagem para as forças armadas nacionais porque, se o presidente Maduro é ilegítimo, isso equivale a decapitar o poder militar do seu comandante em chefe. 

É nesta perspectiva que o cenário desenvolvido pelos Estados Unidos e seus aliados deve ser decifrado. De acordo com a resolução do Grupo de Lima, a Assembleia Nacional da Venezuela, em desacato ao tribunal e cujas decisões são nulas e sem efeito [20] , declarou que a tomada de posse de Nicolas Maduro é uma "usurpação de poder" . Como resultado, está a prepara-se para ilegalmente assumir o poder executivo durante um "período de transição". Em 8 de janeiro, uma lei sobre a transição foi discutida no hemiciclo venezuelano com o objetivo de tomar o poder executivo a partir de 10 de janeiro. 

Durante as discussões, Américo de Grazia apelou a todos os setores para se alinharem com as autoridades paralelas criadas pela oposição e tomarem as ruas "em coordenação com as ações internacionais, nacionais e institucionais" [21] . 

Quanto ao novo presidente do órgão legislativo, Juan Guaidó, apelou aos militares venezuelanos para derrubarem o governo a partir de 10 de janeiro [22] . 

O cenário está montado. A prova de força iminente. Resta saber que personalidades políticas e das mídias justificarão a violação da soberania da Venezuela e a falta de respeito por suas instituições. 
 
[1] Cathy Dos Santos, "Venezuela. «Il faut diversifier notre économie sans toucher au social»", L´Humanité, 03/04/2018, www.humanite.fr/... 
[2] Bertucci, pastor evangélico envolvido no escândalo dos Panama Papers, foi candidato independente, assim como Reynaldo Quijada, apoiado por uma fração do trotskismo venezuelano. Eles receberam respetivamente 10,82% e 0,39% dos votos. 
Notemos que a percentagem de Bertucci é explicada mais pela novidade dessa oferta eleitoral num clima de desconfiança em relação aos partidos políticos do que por um avanço do evangelismo político na Venezuela. De facto, o voto dos evangelistas está dividido. O Partido Evangelista Organización Renovadora Auténtica (ORA) apoiou Nicolas Maduro. 
[3] Sobre as notícias falsas de proibição de partidos políticos na Venezuela, ler Thierry Deronne, "L'interdiction d'un parti qui n'existe pas", Venezuela Infos, 29/01/2018,  venezuelainfos.wordpress.com/... 
[4] Esta lei complementa a Lei Orgânica do Poder Eleitoral aprovada em 2002 
[5] O autor dessas linhas já participou nas eleições municipais e regionais de 2013 
[6] Ler a lista de auditorias no site do National Electo Center   www.cne.gov.ve/web/sistema_electoral/tecnologia_electoral_auditorias.php 
Convidamos os leitores corajosos a aprofundar os sistemas de auditoria lendo os longos relatórios técnicos da CNE (em espanhol) 
www.cne.gov.ve/... 
[7] "Jimmy Carter: "El sistema electoral venezolano es el mejor del mundo", RT, 20/09/2012, actualidad.rt.com/... 
[8] Romain Migus, "Chronologie des sanctions économiques contre le Venezuela", Venezuela en Vivo, atualizado em 07/01/2019,www.romainmigus.info/2019/01/chronologie-des-sanctions-economiques.html 
[9] "Mike Pence : La libertad será restaurada en Venezuela", El Nacional, 27/06/2018, www.el-nacional.com/... 
[10] Os governos membros do grupo Lima são os da Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia. Assim como o México, que se recusou a assinar a última declaração. 
[11] Documento disponivel em www.gob.pe/institucion/rree/noticias/24270-declaracion-del-grupo-de-lima 
[12] Palais de l'Elysée, "Communiqué relatif à la situation au Venezuela", 30/09/2018, disponível em www.elysee.fr/... 
[13] Manuel Palma, "Los buques de la discordia: Venezuela y Guyana reavivan la disputa por su diferendo territorial", RT, 28/12/2018, actualidad.rt.com/... 
[14] Luigino Bracci, "Maduro denuncia: Más de 700 paramilitares entrenan en Colombia para ejecutar golpe de Estado en su contra", AlbaCiudad,12/12/2018,albaciudad.org/2018/12/maduro-golpe-de-estado-john-bolton/ 
[15] Designadamente nas Honduras (2009), no Paraguay (2012), no Brésil (2016) ou no Equateur (2017). 
[16] Após a eleição dos deputados em dezembro de 2015, uma denúncia foi apresentada pelos candidatos de PSUV no Estado da Amazónia pela compra de votos pelos seus opositores eleitos. O tribunal de justiça tendo sancionado esta fraude, o tribunal do poder eleitoral exigiu que a eleição destes três cargos de deputados fosse feita novamente. Como a presidência da Assembleia Nacional recusou submeter-se aos poderes judiciais e eleitorais, a Assembleia Nacional foi declarada em ultraje ao tribunal. As decisões e votos que emanam do poder legislativo são, portanto, nulos e sem efeito, desde que a presidência da Assembleia Nacional não autorize o retorno às urnas. Deve-se notar que a oposição tem uma maioria absoluta de 122 deputados em 167 lugares. 
[17] "TSJ en el exilio condenó a Maduro a 18 años y 3 meses de prisión", El Nacional, 15/08/2018, www.el-nacional.com/... 
[18] Romain Migus, "Le drone médiatique explose en plein vol", Venezuela en Vivo, 08/08/2018, www.romainmigus.info/... 
[19] "El Gobierno ruso advirtió a Estados Unidos contra una posible intervención militar en Venezuela", SputnikNews, 09/01/2019, mundo.sputniknews.com/ 
[20] Ver explicação no ponto 16. 
[21] Maritza Villaroel, "Asamblea Nacional arranca proceso para Ley de Transición", Site de l'Assemblée Nationale du Venezuela, 08/01/2019,www.asambleanacional.gob.ve/... 
[22] "El golpismo venezolano no descansa", Pagina12, 05/01/2019, www.pagina12.com.ar/... (tradução francesa disponivel em venesol.org/... ) 


O original encontra-se em RT France 
e em www.romainmigus.info/2019/01/tout-comprendre-sur-la-nouvelle.html 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O mito da democracia ocidental

17/12/2018, Paul Craig Roberts, “Information Clearing House”

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Como é possível haver ainda quem acredite que o ocidente seja algum tipo de aliança de grandes democracias, nas quais o governo serviria ao povo?
Em lugar algum, em todo o ocidente, exceto talvez na Hungria e na Áustria, o governo serve a povo algum.
A quem servem os governos ocidentais? Washington serve a Israel, ao complexo militar/de segurança, a Wall Street, aos grandes bancos e às empresas-monstro do combustível fóssil.
E todo o resto do ocidente serve a Washington.
Em lugar algum, de todo o ocidente, o povo tem qualquer importância. A classe trabalhadora norte-americana, traída pelos Democratas que exportaram para a Ásia todos os seus empregos, elegeu Donald Trump, e o povo norte-americano foi imediatamente descartado pela candidata Democrata Hillary Clinton como “os deploráveis de Trump.”
Os Democratas, como os Republicanos norte-americanos, servem ao poder, não ao povo.
Na Europa, por todos os cantos a democracia é esmagada.
A primeira-ministra britânica May converteu o Brexit em subserviência à União Europeia. Traiu o povo britânico e ainda não apareceu pendurada num poste, o que mostra o quanto os britânicos estão engolindo, em matéria de aceitar traições. O povo britânico aprendeu que não tem qualquer valor, que não conta. Que os britânicos são nada.
Os gregos elegeram um governo de esquerda que prometeu protegê-los contra a União Europeia, o FMI e os grandes banqueiros, mas que imediatamente vendeu e entregou os gregos embrulhados em acordos de arrocho (ditos “de austeridade”, mas não é austeridade: é arrocho) que destruíram o que restava da soberania grega e dos padrões de vida decente dos gregos. Hoje, a União Europeia já reduziu a Grécia a país do Terceiro Mundo.
Os franceses saíram às ruas em revolta durante semanas contra o presidente francês, um homem que serve a tudo e a todos, exceto ao povo francês.
Veem-se hoje protestos massivos em Bruxelas, Bélgica, onde metade do governo já renunciou em protesto contra o governo ter assinado um pacto pelo qual o povo belga será substituído por migrantes da África, do Oriente Médio e da Ásia, mão de obra mais barata. Os governos corruptos e desprezíveis que assinaram esse pacto representam interesses estrangeiros e o dinheiro de George Soros, não os próprios cidadãos que elegeram aqueles governos corruptos e desprezíveis.
Por que os cidadãos acabaram tão impotentes, a ponto de os governos já poderem pôr os interesses de estrangeiros acima dos interesses dos cidadãos?
As razões são várias. A principal delas é que o povo está desarmado, e a propaganda adestrou-o a aceitar a violência do Estado armado contra o povo e a não responder com violência ao uso ilegal da violência do Estado contra os próprios cidadãos.
Em resumo, até que os povos conquistados da Europa matem a polícia que serve à elite governante e goza a cada nova brutalidade que inflige aos que pagam os impostos que pagam os salários dos policiais armados; até que roubem as armas da polícia e matem os políticos corruptos que entregaram o povo, de mãos amarradas e desarmados, aos maiores inimigos do povo, os povos da Europa continuarão a ser povos conquistados, ocupados e oprimidos.
Faz pouco tempo, Chris Hedges, um dos últimos verdadeiros jornalistas ainda sobreviventes, disse sem meias palavras que, sem revolução violenta que lancete o tumor da superioridade do governo sobre o povo, a liberdade continuará morta, mais morta que pedras pisadas do cais, em todo o ocidente.
A questão a enfrentarmos é se os povos do ocidente estão mesmo mortos, definitivamente descerebrados e presos na Matrix, exaustos, cansados demais para se porem sobre os próprios pés e defender a própria liberdade.
A Resistência está acontecendo na França, na Bélgica, mas o governo que vendeu e entregou a Grécia ainda não foi enforcado num poste de luz de rua. Os norte-americanos foram tão completamente descerebrados que creem que Rússia, China, Irã, Síria, Coreia do Norte e Venezuela seriam seus inimigos, quando é absolutamente evidente e claro que o Grande Inimigo do povo dos EUA é o governo “deles mesmos”, que se aquartela em Washington.
Exceto os meus leitores norte-americanos, todos os norte-americanos estão trancados dentro da Matrix. E matarão quem sugerir que eles quebrem as cadeias e saiam de lá, porque lá dentro, no túmulo onde apodrecem, todas as explicações são simples e tranquilizadoras. Qualquer um, homem ou mulher, civil ou militar, letrado ou analfabeto, que siga a ‘liderança’ de Washington é perfeito imbecil.
Washington é mestra da propaganda de desdemocratização suposta democratizante. A propaganda de Washington apodrece o mundo, já apodreceu até o governo russo, o qual, pelo que dizem todos os jornais, crê estupidamente que aceitar o que Washington diga seria o segredo do sucesso para os russos.
Governo que creia em acordos com Washington se autocondena à desgraça.
Em resumo, é o seguinte: se aceitar provocações evita guerras, certo, pode ser política correta. Mas se aceitar provocações só encoraja mais provocações, cada vez mais ensandecidas, até que a guerra seja inevitável, nesse caso uma resposta mais robusta injeta cautela no processo de provocar, ao tempo em que aceitar provocações só faz encorajar o agressor.

Traduzida por Vila Mandinga