quarta-feira, 9 de maio de 2018

Infrastruturas e vidas destruídas são os feitos da Coligação contra o Daech

por Bachar al-Jaafari [*]

 Cartoon de Latuff.

Senhor Presidente: 

Aristóteles teria dito: "Querer provar coisas que são claras por si mesmas é iluminar o dia com uma lamparina"... 
É um pensamento que me transporta a alguns dos meus colegas presentes nesta sala, os quais comportam-se como se, com o microscópio na mão, procurassem sob as suas objectivas alguns grãos de verdade aqui ou ali, fazendo cara de ignorar o enorme elefante [feito de mentiras e de enganos] que deveria simbolizar esta sessão assim como as anteriores. 

Um enorme elefante que corresponde, evidentemente, à tripla agressão do meu país por Estados Membros permanentes deste Conselho e à ocupação de um terço do seu território por estes três Estados agressores por outros, ocupações acerca das quais retornarei ulteriormente. 

Minha colega representando a delegada permanente dos Estados Unidos declarou orgulhosamente que as forças do seu país haviam retirado 3000 engenhos explosivos em Raqqa. Não teria valido mais que as forças do seu país – as quais ocupavam e ocupam sempre esta cidade – exigissem a entrega do mapa indicando a colocação de mais de 10 mil destes engenhos quando elas protegeram a saída de 4000 elementos terroristas do Daech antes de os reposicionar sobre toda uma região que vai do norte de Deir ez-Zor até Al-Chaddadi? Não teria valido mais que as forças do seu exigissem isso em lugar de se vangloriarem, um ano e meio depois de terem retirado o Daech de Raqqa, de terem conseguido desembaraçar-se de 3000 engenhos explosivos? 

Também gostaria de começar por me dirigir sucintamente ao colega representando o delegado permanente da Suécia, o qual mencionou meu país 16 vezes instando o governo sírio a responder a esta ou aquela pergunta, sem jamais exigir que os Estados Unidos pusessem fim à sua ocupação de uma parte do nosso território; sem jamais exigir que a Turquia e Israel façam o mesmo; sem jamais pedir a condenação da tripla agressão ao meu país neste 14 de Abril; sem jamais pronunciar uma única palavra a propósito do terrorismo que devasta nosso solo sob os auspícios dos Estados, que acabo de citar, e das empresas do gás e do petróleo na nossa região. Quantos pontos omitidos nas vossas propostas, meu caro colega! 

Quanto ao nosso colega francês, ele deu muitas informações aparentemente obtidas junto à organização de invenção francesa, "Médicos sem fronteiras ", a qual é comparável àquelas dos "Capacetes brancos", salvo que esta última é uma invenção dos Serviços de informação britânicos. 

De facto, a organização "Médicos sem fronteiras" está presente em Raqqa sem autorização do governo sírio, assim como a organização Daech. Médicos sem fronteiras que entraram na Síria, à maneira dos traficantes sem fronteiras, criminosos sem fronteiras, opositores sem fronteiras na moda de hoje, agentes sem fronteiras, de uma agressão fronteiras, do terrorismo sem fronteiras; o importante sendo que a ingerência nos assuntos sírios seja "sem fronteiras" para plena satisfação do delegado francês e dos outros. 

Senhor Presidente, 

Em resposta às difamações, às mentiras e à hipocrisia dos comunicados de certos delegados a propósito da missão de inquérito a Douma, gostaria de partilhar convosco certas informações. Naturalmente, elas poderiam a sede da delegada britânica que vos instou a fornecer-lhe o relatório desta missão no prazo de 24 horas. Eu me empenho, pois é inútil fazê-la esperar. 
  • Eu vos havia anteriormente informado que o governo sírio facilitou todos os procedimentos necessários para a chegada da missão de inquérito na Síria. Hoje mesmo, o grupo onusiano entrou em Douma às 15 horas de Damasco, portanto às 8 horas de Nova York, a fim de avaliar a situação securitária no terreno e começar seu a partir de amanhã se o considerar satisfatório. Por outras palavras, a decisão de investigar Douma depende unicamente da equipe da ONU e da OIAC, tendo o governo sírio feito o necessário para lhes facilitar a tarefa. 
  • Além disso, desde ontem, ou seja, desde a sua chegada a Damasco, a equipe pôde ouvir algumas testemunhas do presumido ataque [químico em Douma]; o que significa que ela já começou a trabalhar e que todos os rumores e todas as mentiras que ouviram não visam senão desfigurar sua missão e encobrir a agressão à Síria.
Senhor Presidente, 

Esta reunião realiza-se no dia da Festa nacional síria, a Festa da Independência, na sequência da expulsão do colonialismo francês em 17 de Abril de 1946 e lamentamos ter de dizer que alguns Estados – inclusive a França e aqueles que lançaram sua agressão covarde à Síria em 14 de Abril último – ainda não compreenderam que a vontade de liberdade e de independência doravante está solidamente ancorada entre todos os povos e que as épocas da sua dominação hegemónica fazem parte de um passado longínquo. 

As tentativas de andar para trás não terão êxito, qualquer que seja o porte dos seus navios de guerra, dos seus aviões e dos seus mísseis "belos, novos e inteligentes", qualquer que seja a gravidade das suas ameaças ou a extensão do seu apoio ao terrorismo e aos grupos armados, sob não importa qual pretexto. Os povos de todo o planeta estão fartos das suas violações do Direito internacional sem jamais terem de prestar contas a quem quer que seja. 

A delegação do meu país agradece à delegação da Federação da Russa por ter convocado esta reunião a fim de discutir a situação em Raqqa, esta cidade mártir completamente destruída pelas forças americanas e sua pretensa coligação de luta contra o terrorismo. 

Aqui, não pretendo informar os membros deste Conselho acerca da situação catastrófica desta cidade a partir de uma avaliação da República Árabe Síria, mas sim das conclusões da missão de avaliação das Nações Unidas de que o Ministério sírio dos Negócios Estrangeiros e dos Emigrados recebeu cópia oficial, dia 4 de Abril último, através do Coordenador das Nações Unidas residente em Damasco. Cito: "A cidade de Raqqa enfrenta uma situação crítica necessitando da sua reconstrução total assim como a reestruturação da administração e do conjunto dos serviços públicos a partir do zero". Fim de citação. 

Esta é a avaliação das Nações Unidas, não aquela de "Médicos sem fronteiras" ou de palhaços sem fronteiras! 

Quanto à vastidão das destruições, refiro-me aqui a algumas conclusões da equipe da ONU que foi a Raqqa: 
  • Todos os edifícios estão total ou parcialmente destruídos; dito de outra forma, Raqqa não está destruída em 70 ou 80%, mas em 100%. 
  • A população estimada em cerca de 300 mil habitantes antes da crise não conta mais do que 7000 desde o fim dos ataques da dita Coligação; o que significa que eles removeram 4000 daeschistas mais também fizeram sair os seus 300 mil residentes. 
  • Não há mais nenhum serviço público ou de primeira necessidade: nada de água, nada de electricidade, nada de cobertura de telefone móvel. 
  • Todos os hospitais e dispensários estão destruídos. Não há actualmente nenhum hospital operacional na cidade, abstracção feita dos ditos "Médicos sem fronteiras"!
O que se passou em Raqqa é um exemplo dos crimes entre outros crimes cometidos pela pretensa Coligação internacional conduzida pelos Estados Unidos contra o Daech. 

Uma coligação que jamais teve como finalidade a luta contra o terrorismo, mas sim o objectivo de minar a soberania, a unidade e a integridade territorial do meu país, de tentar enfraquecer as Forças do Exército Árabe Sírio e dos seus aliados face aos grupos terroristas. 

Uma coligação cujos únicos feitos verdadeiros consistiram em ceifar a vida a milhares de civis inocentes com as mais terríveis armas, inclusive armas incendiárias, e em destruir as infraestruturas sírias, inclusive barragens, pontes, hospitais, escolas, instituições e instalações visando o desenvolvimento do povo sírio e dos seus recursos indispensáveis à reconstrução do país, a começar pelos poços e as instalações petro-gasistas, assim como o pessoal encarregado da sua manutenção. 

Aqui, contentar-me-ia em recordar alguns exemplos de massacres de civis, tais como aqueles cometidos em Al-Mayadeen e Al-Boukamal, meados de Maio de 2017; em Al-Sour assim como nas duas aldeias de Al-Dablane e Zibane próximas de Deir-Zor, fim de Junho de 2017; na região de Tal al-Chayer, em 19 de Junho de 2017; na aldeia de Al-Zayanate, em 4 juillet 2017; na aldeia de Al-Kachkach ao sul de Hassaké, em 12 de Julho de 2017; nas aldeias de Al-Chaf'a e Zahret Alouni, em 25 de Fevereiro de 2018; e na aldeia de Al-Bahra, em 20 de Fevereiro de 2018. 

Sempre para exemplo, a melhor prova de que o objectivo desta coligação ilegítima nunca foi combater o terrorismo, mas sim obstaculizar o Exército Árabe Sírio e seus aliados na sua guerra ininterrupta contra a organização terrorista Daech, está no ataque aéreo efectuado contra o Exército Árabe Sírio no Mont al-Tharda em Deir ez-Zor, em 17 de Setembro de 2016. Devem-se lembrar todos do que se passou neste dia. 

O que se passou é que os aviões americanos da dita coligação tentavam garantir uma passagem segura aos elementos do Daech entre os territórios sírio e iraquiano; tal como foi o caso aquando do ataque de 8 de Fevereiro de 2018 que matou dezenas de combatentes entre as Forças populares supletivas do Exército Sírio, em plena batalha contra o Daech na margem leste do Eufrates. 

A referida coligação não somente atacou as Forças do Exército Árabe Sírio como também apoiou e protegeu os remanescentes da organização terrorista Daech permitindo-lhes sair, com toda a segurança, de Raqqa e de Deir ez-Zor, a maior parte deles sendo terroristas vindos do estrangeiro. Ao assim fazer, ela lhes permitiu voltarem a atacar o Exército Árabe Sírio e seus aliados em Deir ez-Zor. 

Foi assim que os Estados Unidos salvaram os remanescentes do Daech do seu destino inevitável frente ao Exército Árabe Sírio e seus aliados, a fim de que eles possam a continuar a semear o terror ao longo da faixa fronteiriça sírio-iraquiana. E os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha coroaram tudo isso com a sua tripla agressão na madrugada deste sábado 14 de Abril, com a participação da Arábia Saudita, do Qatar e de Israel para se vingarem do Exército Sírio, na sequência da derrota dos braços armados terroristas dos seus governos respectivos em Ghouta oriental. 

Senhor Presidente, 

Discutir as condições humanitárias trágicas provocadas por esta coligação ilegítima em Raqqa leva a discutir o que se passa no "capo de Al-Roukbane". Nesta altura, afirmo que o governo sírio havia aceite encaminhar para ali a ajuda humanitária em cooperação com a Cruz Vermelha internacional e o Crescente Vermelho árabe sírio, mas as forças americanas presentes neste campo impediram-no e colocaram-lhe condições impossíveis de satisfazer. 

Os Estados Unidos são responsáveis pela situação catastrófica neste campo e afirmamos que a principal razão do seu posicionamento é explorar militarmente, para aproveitar os remanescentes do Daech e de outras organizações terroristas tendo em vista suas futuras batalhas contra a Síria, o Iraque, a Líbia e outros países da região e do mundo. 

Para terminar, Senhor Presidente, 

Torno a falar do elefante do princípio da minha intervenção: o cenário político sírio é claro e não precisa nem projectos de resoluções, nem novos mecanismos, nem reuniões quase diárias a diversos títulos, mas precisa sobretudo que o Conselho de Segurança cumpra seu mandato conforme as disposições da sua Carta opondo-se às ocupações americana, turca e israelense do nosso território, assim como aos Estados que sustentam o terrorismo e impõem medidas coercitivas unilaterais ao povo sírio, a fim de que milhões de sírios não se tornem refugiados e deslocados, como disseram certos colegas. 

Com efeito, este conselho não pode enfrentar a vontade dos governos dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da França de fazer desta organização uma organização das Nações Desunidas ou Nações unidas pela violação das disposições da sua Carta, com a invasão de países, a ingerência nos seus assuntos internos, as tentativas de mudança dos seus regimes pela força, as agressões repetidas, a destruição dos povos e das suas civilizações. 

Queira desculpar-me se foi longo, Senhor Presidente. 

Agradeço-vos

[*] Delegado permanente da Síria junto às Nações Unidas. Intervenção diante do Conselho de Segurança reunido em 17 de Abril de 2018 a fim de examinar a situação humanitária em Raqqa e no Campo de Al-Fourkane ocupados pelos Estados Unidos. 

Ver também:
  • Nouvelle passe d'armes au Conseil de sécurité entre la Fédération de Russie et les pays occidentaux à propos de la situation humanitaire en Syrie 

    O original encontra-se em The Syrian Mission to the United Nations 
    e a versão em francês em www.legrandsoir.info/... 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


  • DIA 16 MAIO - A PALESTINA EM DEBATE - LETRAS/UFRJ

    An-Nakba: 70 Anos de Resistência Palestina
     A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e atividades ao ar livre

    Em 2018 completam-se 70 anos da criação do Estado de Israel, evento conhecido entre os palestinos como “a tragédia”, “a catástrofe” (an-nakba– النكبة). Em um ano de manifestações e confrontos violentos que já causaram a morte de dezenas de palestinos, o Setor de Estudos Árabes da Faculdade de Letras - UFRJ, convida todos para o evento “An-Nakba: 70 Anos de Resistência Palestina”, a fim de debater e refletir sobre essa data que deixou marcas tão profundas nos palestinos e em todo o Oriente Médio.

     

     

    QUARTA-FEIRA  16 DE MAIO

     Programação - Auditório G2

     

    • A PALESTINA EM DEBATE - 9H30

    Debatedores confirmados:
    Adel Bakkour - Sírio, graduando em Relações Internacionais pela UFRJ, professor de árabe na ONG Abraço Cultural
    Maristela dos Santos Pinheiro - Cientista social pela UFRJ e mestre em História pela UFF, coordenadora do Comitê de Solidariedade à Luta do Povo Palestino - RJ
    Ramez Maalouf - Doutor em Geografia Humana pela USP e especialista em História das Relações Internacionais pela UERJ

     

    • LITERATURA DE COMBATE - 13H 

    A resistência na poesia de Fadwa Tuqan e de Mahmoud Darwish 

    Alunos de graduação em Letras: Português - Árabe da UFRJ

     

    • A PALESTINA NO CINEMA: DISCUTINDO O DIREITO DE RETORNO - 14H 

    Exibição do filme “O sal desse mar” (2008), de Annemarie Jacir 

    Debatedora: Celia Daniele Moreira - Mestre e doutoranda em História pela UFRJ e ex-professora do Setor de Estudos Árabes da Faculdade de Letras - UFRJ 


    Comissão Organizadora: Debora Ramalho, Isabela Alves e Letícia Fretheim, alunas de graduação em Letras: Português - Árabe 
     

    terça-feira, 8 de maio de 2018

    C.I.A. Fomenta Comércio de Heroína no Afeganistão

     


    Últimos levantamentos oficiais apontam ao menos um milhão de mulheres, e 100 mil crianças toxicodependentes no Afeganistão. “Graças à invasão dos EUA, o Afeganistão é um narco-estado hoje”, diz a representante da Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão, em entrevista exclusiva.
    Pelo menos um milhão de mulheres e 100 mil crianças são toxicodependentes no Afeganistão, revelou neste domingo (11) o chefe do Departamento Antidrogas do Ministério da Saúde Pública do país Centro-Asiático, Shahpor Yusuf, em evento em um centro de reabilitação de drogas na capital afegão de Cabul para marcar o Dia Internacional da Mulher (8 de março).
    Há entre 900 mil e milhões de mulheres, e cerca de 100 mil crianças que se viciaram em droga“, disse o funcionário afegão de acordo com a agência afegã de notícias TOLO News. Yusuf acrescentou que as crianças estavam abaixo da idade de 10 anos.
    De acordo com Cabul, os centros de reabilitação no Afeganistão têm capacidade para ajudar apenas uma pequena porcentagem de dependentes. Mas o problema parece estar longe do número de centros de reabilitação de drogas no país, que fornece atualmente nada menos que 93% do ópio mundial, de acordo com últimos dados de United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC).
    Marwa Musavi, uma afegã em tratamento no centro de reabilitação, afirmou que é inútil estar ali. “Quando sairmos, voltaremos à droga pois há contrabandistas [e revendedores]. Eles devem ser impedidos. É a realidade”.
    Estes mais recentes números fornecidos por Cabul certamente indicam que as estatísticas do ano passado divulgadas pelo governo afegão foram subestimadas, ao ter informado que o total de dependentes no país é superior a três milhões: o número tende a ser bem superior, dada apenas a quantidade de mulheres e crianças viciadas em uma nação de 34,6 milhões de habitantes, já que a grande maioria de drogados pertence ao sexo masculino.
    Ao mesmo tempo, a Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA, na sigla em inglês) publicou uma carta em persa, denunciando que mais de dezesseis anos após a invasão liderada pelos EUA, prometendo libertar as mulheres afegãs, estas continuam sendo mortas “em um inferno no Afeganistão, fomentado pelos Estados Unidos e seus talibans, seu Estado Islamita [EI], seus jihadistas e seus tecnocratas em nosso país“.
    RAWA afirmou que os talibans e o EI não são os únicos grupos no Afeganistão que causam sofrimento às mulheres. “As tropas dos EUA e da OTAN, suas Forças Armadas em operações militares, especialmente através de ataques aéreos em várias províncias” destroem casas, hospitais e escolas matando civis, incluindo crianças.
    O Grande Negócio do Tráfico de Drogas da C.I.A.
    Friba, representante da RAWA que não menciona o nome real já que as mulheres revolucionárias do Afeganistão atuam na clandestinidade em território afegão, diz em entrevista exclusiva que a C.I.A. continua liderando o tráfico de drogas de seu país,para fora. “As drogas foram vistas como a maneira mais rápida e fácil de ganhar dinheiro para financiar os proxies da C.I.A. e forças paramilitares, em diferentes países do mundo“. E a líder afegã acrescenta: “Graças à invasão dos EUA, o Afeganistão é um narco-estado hoje”.
    O envolvimento direto da C.I.A. no tráfico de drogas remonta há muito tempo, não só no Afeganistão mas também em todo o mundo, como no escândalo Irã-Contras. O agora morto governador da província de Kandahar, Wali Karzai, um dos maiores traficantes de drogas do Afeganistão, esteve há muito tempo na folha de pagamento da C.I.A. Wali era irmão de Hamid Karzai, ex-presidente do Afeganistão escolhido pelos EUA pouco depois do início da ocupação, em outubro 2001.
    Desde que o regime de Washington invadiu o país da Ásia Central, tem havido aumento meteórico da produção de opio no Afeganistão. Quando os “libertadores” norte-americanos invadiram – contra toda as leis internacionais e contra a própria Constituição estadunidense – o território afegão há 16 anos e meio, a produção do mesmo ópio que Tio Sam prometia erradicar no país passou a crescer imediata e vertiginosamente: desde 1994, quando o Taliban assumiu o poder em meio a um vácuo político deixado por EUA e URSS, o número de hectares da produção de ópio vinha caindo ano a ano, chegando a apenas 8 mil em 2001. No ano seguinte, já subiu para 74 mil para não mais parar de crescer, assustadoramente.
    De acordo com UNODC, a área total no cultivo de papoula do opio (de cuja planta se produz a heroína) no Afeganistão foi estimada em 328 mil hectares em 2017. Vale lembrar, diante desses fatos, que a sociedade dos Estados Unidos é, de longuíssima data, a maior consumidora mundial de drogas. No caso particular da heroína, havia nos EUA 189 mil usuários do entorpecente; em 2016, este número altou para nada menos que 4,5 milhões (fonte).
    Tal realidade, afegã e estadunidense, portanto, não é mera coincidência estando a C.I.A.em questão, projetada para gerar caos e violência mundo afora, a começar dentro de casa, a fim de ampliar o domínio global do 1% do topo da pirâmide.
    Graças à sua máquina de propaganda mentirosa copiada de [Joseph] Goebbels [ministro de Propaganda de Adolf Hitler], os EUA conseguiram sair impunes de muitas das suas atividades criminosas não apenas na Guerra do Afeganistão, mas também nas guerras do Iraque, da Líbia e da Síria, ao mentir para o seu próprio povo”, denuncia Friba.
    Em maio de 2009, Malalaï Joya, ativista afegã pelos direitos humanos, escritora e ex-parlamentar expulsa injustamente do cargo por denunciar, frente a frente, os criminosos senhores da guerra do Afeganistão, estupradores e traficantes de droga, concedeu uma entrevista ao jornal brasileiro O Tempo (Minas Gerais), em que denunciou o direto envolvimento da C.I.A. no comércio afegão de drogas, e o controle direto sobre as rotas anuais das drogas a nível global.
    A repórter brasileira Renata Medeiros cortou e modificou totalmente a entrevista com a ativista afegã. No mesmo dia da publicação, tanto na versão impressa quanto no sítio de O Tempo, este autor, tradutor do sítio de Joya, enviou a tradução da entrevista “fantasia” ao Afeganistão, sem saber o que estava ocorrendo.
    Joya levou um susto com a publicação e, indignada, enviou logo em seguida a este autor a versão original da entrevista– incluindo cabeçalhos dos diversos correios eletrônicos trocados com o jornal mineiro, a fim de servir como prova do quanto o jornalismo brasileiro tem estado manchado de sangue mundo afora – inclusive no Afeganistão, enquanto eterno “lambedor de botas” da C.I.A.
    (Apenas no ano passado, foram mais de 10 mil civis assassinados, vítimas das bombas e dos mais diversos ataques violentos como consequência de uma criminosa invasão batizada de Operção Liberdade Duradoura. O ano de 2017 assistiu, silenciosamente, mais um recorde histórico de mortes de inocentes afegãos, em sua maioria mulheres e crianças).
    Abaixo, a passagem da entrevista original em que Joya denuncia aos “catadores de migalhas” de Tio Sam a questão do ópio em seu país, reforçando as denúncias de Friba inclusive no que diz respeito à subserviência dos meios de comunicação aos ditames de Washington.
    (Para terminar a “fanfarra” da “liberdade de imprensa e de expressão” da cínica jornalada tupiniquim, assim que este autor incluiu em seu livro de 2012 a versão original da entrevista de Joya a O Tempo, comparando com a versão publicada por este, o jornaleco mineiro retirou a entrevista “travesti” de seu sítio na Internet).
    ———- Forwarded message ———-
    From: Defense Committee for Malalai Joya mj(at)
    malalaijoya.com
    Date: Fri, May 29, 2009 at 12:33 AM
    Subject: Re: Interview (brazilian newspaper)
    To: Renata Medeiros (…) @ (e-mail)
    (…)
    [Renata Medeiros] O que você pode dizer da produção de ópio no Afeganistão? É mais um problema em seu país?
    [Malalaï Joya] “O único setor em que o Afeganistão avançou além da imaginação nos últimos anos, tem sido no cultivo e no tráfico de drogas, e agora o Afeganistão produz 93% do ópio mundial, que apresenta um aumento de 4.500% desde 2001.
    Um dos objetivos ocultos da Guerra do Afeganistão foi, especificamente, restaurar o comércio de drogas patrocinado pela CIA e exercer controle direto sobre as rotas do setor anul de drogas global, na faixa de US$ 600 bilhões. A economia de narcóticos no Afeganistão é algo projetado da CIA, apoiado pela política externa dos EUA. Portanto, é muito compreensível ver isso desde outubro de 2001, o cultivo de papoula de ópio aumentou e há relatos de que mesmo o exército dos EUA está envolvido no tráfico de drogas.
    A máfia das drogas está no poder afegão, apoiada pelo Ocidente. Recentemente, a mídia ocidental informou que Wali Karzai, irmão de Hamid Karzai, administra a maior rede de drogas no leste do Afeganistão, e é fato que funcionários de alto escalão do governo estão envolvidos neste negócio sujo.
    Os esforços contra os narcóticos também são meras mentiras e nada mais que dramas. Um ex-senhor da guerra chamado General Khodiedad, é ministro de combate aos narcóticos e outro ex-senhor da guerra e conhecido narcotraficante chamado General Daud, é o chefe da unidade anti-narcóticos!
    (...)
    O ópio representa um dos maiores perigos para o futuro do Afeganistão.
    (…)
    Nenhuma vírgula acima foi, jamais, publicada pelo jornal brasileiro.
    Pois então, a quem serve a grande mídia tão “defensora” da “liberdade de imprensa e de expressão”? Será possível que algum mortal ainda se deixa enganar? O (T)tempo tratou de confirmar a quem ainda tinha alguma dúvida, entre outras coisas, que o comércio de drogas realmente movimenta o mundo. E inegavelmente as grandes empresas de mídia são, no mínimo, cúmplices desse negócio sujo e bilionário, irrecuperavelmente de joelhos diante do Império.
    O Tempo não integra, exatamente, o grupo da denominada grande mídia do País, porém segue fielmente sua linha. Á época da censura acima reportada, Arnaldo Jabor compunha a lista de comentaristas do conservador e policialesco jornaleco mineiro.
    Global Research, March 16, 2018
    Versão em inglês :
    Postado: https://www.globalresearch.ca/c-i-a-fomenta-comercio-de-heroina-no-afeganistao/5632440