quinta-feira, 14 de novembro de 2013

À sombra da geopolítica dos EUA, ou Como sempre, é a “Grande Israel”

O texto abaixo nos ajuda a entender a estratégia do capital para o Mundo Árabe e as ingerências  táticas aplicadas em cada país onde o projeto de dominação já esta em curso, ou numa fase mais avançada. Portanto, boa leitura e viva a solidariedade entre os povos oprimidos.
(Nota do Blog)


Por : Olga ChetverikovaStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Novo Oriente Médio pensado pelos EUA/Israel
(clique no mapa para aumentar)
Ralph Peters
Há trinta anos, os estrategistas dos EUA introduziram a ideia do “Grande Oriente Médio”, ou “Oriente Médio Expandido” [orig. The Greater Middle East], correspondente ao espaço do Maghreb a Bangladesh, e declararam que esse vasto território passava a ser zona de interesse prioritário dos EUA. 

Em 2006, o programa de domínio pelos EUA nessa região foi renovado e definido mais concretamente: a então secretária de Estado dos EUA Condoleezza Rice introduziu a expressão “O Novo Oriente Médio”, com destaque para um plano para retraçar as fronteiras no Oriente Médio, da Líbia à Síria, Iraque, Irã e até Afeganistão. A estratégica apareceu referida como “um caos construtivo” (...)

No mesmo ano (2006), um mapa do “Novo Oriente Médio” (ver acima) preparado pelo coronel Ralph Peters foi publicado na revista norte-americana Armed Forces Journal que circulou no governo e em círculos políticos e militares mais amplos, preparando a opinião pública para as mudanças iminentes.

Desde o início da “Primavera Árabe”, os EUA vêm se movimentando na direção de uma reestruturação geopolítica da região, a qual, é claro, também levantou a discussão sobre o destino de Israel. Desde então, a questão permanece na agenda. E não importa a forma que assuma, o tom não muda: Israel é invariavelmente apresentada como a vítima.

Assim, na primavera de 2011, no auge da guerra contra a Líbia, quando a Autoridade Palestina levantou a questão de tornar-se membro da ONU, a imprensa-empresa ocidental rapidamente pôs-se a denunciar a traição, por Washington, que estaria “entregando” o Estado Judeu aos islamistas. Hoje, quando o absurdo dessa ideia já é óbvio para todos, a ênfase passou para a ameaça mortal que o Irã representaria para Israel, ênfase que, pelo que se vê, cresce alinhada à deterioração da situação na Síria.

Nesse processo, a questão mais importante está sendo ocultada ou, simplesmente, foi varrida: o agudo interesse que Israel tem na desestabilização dos países árabe-muçulmanos que a cercam; e em manter e expandir a guerra na Síria.

Avraam Shmulevich
O rabino Avraam Shmulevich, um dos criadores da doutrina do “hipersionismo”, influente na elite israelense, falou abertamente sobre as razões desse interesse, em entrevista, em 2011. É interessante: ali, ele via a “Primavera Árabe” como uma bênção para Israel.

O mundo muçulmano, escreveu Avraam Shmulevich, está mergulhando em um estado de caos, e esse desenvolvimento será positivo para os judeus. O caos é o momento perfeito para assumir o controle de uma situação e pôr em operação o sistema da civilização judaica. Exatamente agora, acontece uma batalha pelo lugar de guia espiritual da humanidade: Roma (o Ocidente) ou Israel. (...) Agora é o momento em que devemos tomar em nossas mãos o controle. (...) Não apenas varrer a elite árabe, mas fazê-la comer na nossa mão. (...) Quem alcance a liberdade deve, ao mesmo tempo, ser orientado sobre como usar essa liberdade. E essa orientação, para toda a humanidade, será escrita por nós. (...) O judaísmo florescerá, do incêndio das revoluções árabes.[negritos da autora].

Sobre os objetivos da política externa de Israel, Shmulevich enfatizou a necessidade de manter “as fronteiras naturais ao logo do Nilo e do Eufrates estabelecidas na Torah”, que deverão então ser seguidas na segunda fase da ofensiva – expandindo a hegemonia de Israel para toda a região do Oriente Médio. Também sobre isso, Shmulevich falou com extrema clareza:

Está começando simultaneamente no Oriente Médio uma cadeia de desintegração e reforma. Assad, que atualmente está afogando em sangue os processos revolucionários na Síria, não conseguirá, contudo, manter-se por mais um, dois anos. A revolução está começando na Jordânia. Até os curdos e o Cáucaso estão emergindo como parte integrante do Oriente Médio (...) [negritos da autor].

Não é difícil ver aí um Iraque, ou um Afeganistão, continuados.

Seria possível classificar Shmulevich como pensador marginal, não fosse o fato de que ele repete os princípios fundamentais do plano estratégico que líderes israelenses traçaram em 1982, conhecido como “Plano Yinon”. O plano visava a garantir a superioridade regional para o governo israelense, mediante a desestabilização e a “balcanização”, ou seja, a desestabilização dos estados árabes adjacentes ou, em outras palavras, o mesmo que se leu, reproduzido, no projeto “Novo Oriente Médio” esboçado por Condoleeza Rice e pelo coronel Ralph Peters.

Grande Israel ou Terra Prometida por Oded Yinon
O plano traça “Uma estratégia para Israel nos anos 1980s”, documento preparado por Oded Yinon, jornalista israelense ligado ao Ministério de Negócios Exteriores. Foi publicado primeiro em hebraico, na revista Kivunim [Rumos], do Departamento de Informação da Organização Sionista Mundial, em fevereiro de 1982. No mesmo ano, a Associação de Universitários Árabe-Norte-Americanos publicou uma tradução do texto, assinada e anotada por Israel Shahak [1]. Em março de 2013, o artigo de Israel Shahak foi publicado na página de Michel Chossudovsky na Internet, Global Research.

Michel Chossudovsky
Esse documento, que é parte da formação da “Grande Israel”, escreve Chossudovsky na introdução ao artigoé a pedra de toque de poderosas facções sionistas dentro do atual governo de Netanyahu, do Partido Likud e do establishment militar e de inteligência israelense (...). Vistas no atual contexto, a guerra contra o Iraque, a guerra de 2006 contra o Líbano, a guerra de 2011 contra a Líbia, a atual guerra contra a Síria, para nem falar do processo de “mudança de regime” no Egito, têm de ser compreendidos em relação àquele Plano Sionista para o Oriente Médio” [negritos da autora].

O plano está baseado em dois princípios fundamentais que determinam as condições da sobrevivência de Israel em seu ambiente árabe:

(1) Israel tem de tornar-se potência imperial regional; e

(2) Israel tem de fragmentar toda a área circundante em estados menores, mediante a dissolução de todos os estados árabes existentes. O tamanho desses estados dependerá da composição étnica e religiosa de cada um. Sobretudo: a criação de novos estados baseados na religião será fonte de legitimidade moral para o governo israelense. (negritos do Blog)

Deve-se dizer que a ideia de fragmentar os estados árabes do mundo não é nova. Existe há muito tempo no pensamento estratégico sionista, [2] mas a matéria de Yinon, como  Shahak já destacara em 1982, ofereceu um “plano acurado e detalhado do então governo sionista (de Sharon e Eitan) para o Oriente Médio, baseado na divisão dos territórios em estados pequenos, e na dissolução dos estados árabes existentes”.

Aqui, Shahak chama a atenção para dois pontos:

Israel Shahak
(1) A ideia de que todos os estados árabes devam ser quebrados, por Israel, em unidades menores, ocorre seguidas vezes no pensamento estratégico dos israelenses. E

(2) A forte conexão com o pensamento dos neoconservadores nos EUA, que inclui a ideia da “defesa do ocidente”, é muito proeminente, mas é puramente retórica, porque o real objetivo do autor do trabalho é construir um império israelense e convertê-lo em potência mundial (“Em outras palavras”, Shahak comenta, “o objetivo de Sharon é enganar os norte-americanos, depois de ter enganado todos os demais”).

O principal ponto do qual Oded Yinin parte é que o mundo está nos estágios iniciais de uma nova época histórica, cuja essência estaria na “visão racionalista, humanista, como pedra basilar sobre a qual se apoiam a vida e as realizações da civilização ocidental desde a Renascença”.

A seguir, Yinon oferece as ideias do “Clube de Roma” sobre a limitação dos recursos do planeta, insuficientes para atender as necessidades econômicas e demográficas da humanidade.

Oded Yinon
Num mundo no qual há 4 bilhões de seres humanos e recursos econômicos e de energia que não crescem proporcionalmente para atender à demanda da humanidade, não é realista esperar atender todas as demandas da Sociedade Ocidental, i.e. o desejo e a aspiração ao consumo ilimitado. A visão segundo a qual a ética não tem papel determinante na direção que o Homem tome, e que só suas necessidades materiais contam – essa visão está se tornando dominante hoje, quando vemos um mundo do qual quase todos os valores estão desaparecendo. Estamos perdendo a capacidade para avaliar as coisas mais simples, especialmente no que tenha a ver com a simples questão de o que é o Bem e o que é o Mal.

O mundo caminha para uma guerra global por recursos, e isso diz respeito, em primeiro lugar, ao Golfo Pérsico. Avaliando a situação do mundo árabe-muçulmano em relação a isso, o “Plano Yinon” anota:

No longo prazo, esse mundo não conseguirá existir dentro de seu atual quadro nas áreas em torno de nós [de Israel], sem passar por genuínas mudanças revolucionárias. O Mundo Árabe Muçulmano está construído como temporário castelo de cartas erguido por estrangeiros (França e Grã-Bretanha nos séculos 19-20), sem que os planos e desejos dos habitantes tenham sido levados em consideração. Foi arbitrariamente dividido em 19 estados, todos feitos de diferentes combinações de minorias e grupos étnicos que são hostis uns aos outros, de tal modo que cada estado árabe muçulmano hoje enfrenta a destruição étnica e social de dentro para fora, e em alguns já há guerra civil (...).

Mundo Árabe Muçulmano (legendado)
(clique na imagem para aumentar)
Depois de pintar um quadro misto do mundo muçulmano árabe e não árabe, Yinon conclui:

Esse quadro de minoria nacional étnica que se estende do Marrocos à Índia e da Somália à Turquia aponta para a ausência de estabilidade e uma rápida degeneração em toda a região. Se se soma a esse quadro o quadro econômico, vê-se que toda a região está construída como um castelo de cartas, incapaz de sobreviver aos seus graves problemas.

Nesse ponto, Yinon chega a listar as novas “oportunidades para transformar a situação” que Israel deve aproveitar na década seguinte.

Quanto à Península do Sinai, implica estabelecer controle sobre o Sinai como reserva estratégica, econômica e de energia para o longo prazo. Diz Yinon:

O Egito, no atual quadro político doméstico, já é um cadáver, ainda mais se se considera a crescente divisão entre muçulmanos e cristãos. Assim sendo, o objetivo de Israel nos anos 1980s, no seu front ocidental, é dividir territorialmente o Egito em distintas regiões geográficas [negritos da autora].

Sobre o front oriental de Israel, mais complicado que o front ocidental, Yinon escreve:

A total dissolução do Líbano em cinco províncias serve como precedente para todo o mundo árabe incluindo Egito, Síria, Iraque e a Península Arábica e já está seguindo aquela trilha. A dissolução da Síria e do Iraque depois, em áreas etnicamente ou religiosamente uniformes, como no Líbano, é o primeiro objetivo de Israel no front oriental para o longo prazo, enquanto a dissolução do poder militar desses estados fica como objetivo primário no curto prazo [negritos da autora]. 
A Síria cairá em partes, segundo sua estrutura étnica e religiosa, dividida em vários estados, como o Líbano de hoje, de modo que haverá um estado xiita alawita no litoral; um estado sunita na área de Aleppo; outro estado sunita em Damasco, hostil ao vizinho do norte; e os drusos criarão seu estado, talvez até em nosso Golan, e com certeza no Hauran e no norte da Jordânia.

A "balcanização" da Síria pensada por Israel (Plano Yinon)
O Iraque, rico em petróleo, por um lado, e internamente fracionado, por outro, é candidato garantido a alvo de Israel. A dissolução do Iraque é até mais importante para nós que a da Síria (...) Todos os tipos de confrontação inter-árabes nos ajudará [ajudará Israel] no curto prazo e encurtará o caminho até o objetivo mais importante de quebrar o Iraque em áreas por religião, como na Síria e no Líbano. No Iraque, é possível uma divisão em províncias por linhas étnicas/religiosas, como a Síria durante os otomanos. Assim, haverá três (ou mais) estados em torno das três maiores cidades: Basra, Bagdá e Mosul; e áreas xiitas no sul separadas do norte sunita e curdo.

Toda a Península Arábica é candidata natural à dissolução, dadas as pressões internas e externas, e é inevitável [negritos da autora], especialmente na Arábia Saudita, independente de que sua economia baseada no petróleo permaneça intacta ou enfraqueça no longo prazo. As rixas e fraturas internas são desenvolvimento claro e natural, à vista da atual estrutura política.

A Jordânia é alvo estratégico imediato no curto prazo, mas não no longo prazo, porque não é real ameaça no longo prazo depois da dissolução, do fim do longo reinado do rei Hussein e da transferência de poder para os palestinos no curto prazo. Não há possibilidade alguma de que a Jordânia continue a existir com a estrutura atual, por longo tempo [negritos da autora], e a política de Israel, seja na paz, seja na guerra, tem de ser dirigida à liquidação da Jordânia do atual regime e à transferência daquele território para a maioria palestina. Mudar o regime a leste do rio também porá fim ao problema dos territórios densamente povoados de árabes a oeste do rio Jordão. (...) Só reinarão coexistência genuína e paz sobre a terra, quando os árabes entenderem que sem governo judeu entre o Jordão e o mar eles jamais terão nem segurança nem existência [negritos da autora]. Só terão nação deles e segurança, na Jordânia.

Na sequência, Yinon lista os objetivos internos estratégicos de Israel e os modos de alcançá-los, enfatizando a necessidade de sérias mudanças no mundo[negritos da autora].

Dispersar a população é assim objetivo doméstico estratégico da mais alta ordem; sem isso, deixaremos de existir em quaisquer fronteiras. Judea, Samaria e a Galileia são nossa única garantia para a existência nacional (...) Alcançar nossos objetivos no front oriental depende, antes, de realizarmos esse objetivo estratégico interno. A transformação da estrutura política e econômica, para permitir que se alcancem esses objetivos estratégicos, é a chave para obter toda a mudança [negritos da autora]. Temos de mudar, de uma economia centralizada na qual o governo está extensamente envolvido, para um mercado aberto e livre e temos de mudar, da dependência atual em que dependemos dos contribuintes norte-americanos para nosso desenvolvimento, para uma infraestrutura econômica genuinamente produtiva. Se não conseguirmos fazer livre e voluntariamente essa mudança,seremos forçados a ela pelos desenvolvimentos mundiais, especialmente nas áreas das finanças, energia e política, e pelo nosso crescente isolamento. 

Rápidas mudanças no mundo também trarão mudanças na condição dos judeus em todo o mundo, para os quais Israel se converterá não só no último recurso, mas na única opção existencial.

Avaliando esse plano, podem-se extrair 
as seguintes conclusões.

Em primeiro lugar, dado que traça objetivos estratégicos de Israel, é plano de longo prazo, particularmente importante hoje. Em segundo lugar, a possibilidade de realizar a estratégia externa aí exposta envolve sérias mudanças, na posição da própria Israel e em escala mundial. E isso é, exatamente, o que começou a acontecer em meados dos anos 1980s.

Com a classe governante global em transição para uma estratégia neoliberal, Israel experimentou mudanças profundas, que resultaram em o país acabar controlado por 18 das famílias mais ricas. O capital israelense foi ativamente investido fora de Israel, e o mercado israelense, por sua vez, revelou-se amplamente aberto ao capital estrangeiro. Resultado dessa ativa “integração” no sistema econômico global, o capital israelense misturou-se de tal modo ao capital transnacional, que a noção de uma “economia nacional de Israel” perdeu completamente qualquer significado. Nessas condições, a transição de Israel para um expansionismo ativo até se tornou possível, embora se tenha manifestado pela infiltração intelectual e econômica, não pelo controle militar ou pela presença de forças. O mais importante é o envolvimento do território em geral, no centro do qual está Israel.

Shmulevich também se referiu a isso, ao apontar que um dos conceitos fundamentais do judaísmo é “ser a força que guia a civilização humana e demarca os padrões para a civilização humana”.

Exemplo dessa união árabe-israelense é a criação do fundo de investimentos Markets Credit Opportunity (EMCO) com 1 bilhão de dólares do grupo bancário suíço Credit Suisse AG e o envolvimento de três dos maiores acionistas do banco – o IDB Group de Israel; o fundo estatal de investimentos do Qatar, Qatar Investment Authority; e a empresa privada saudita de investimentos, Olayan Group.

Ainda mais revelador, é o fato de que a Arábia Saudita entregou à empresa G4S, a mais antiga empresa de segurança de Israel, o trabalho de prover a segurança dos peregrinos que visitam Mecca (o perímetro considerado vai do aeroporto de Dubai aos Emirados e à área de Jeddah). Um braço saudita da companhia já está em operação desde 2010, com meios para recolher informação pessoal não só dos peregrinos, mas também de todos os passageiros que voem por Dubai.

G4S empresa de Israel é responsável pela segurança dos peregrinos em Meca
No que tenha a ver com o planejado “caos no mundo muçulmano”, Israel está operando por procuração, exclusivamente mediante agências de inteligência, enquanto vai preservando o mito de que seria “uma vítima do islamismo”. Quanto a isso, as explicações de Israel Shahak, sobre por que a publicação do plano estratégico de Israel não implica qualquer risco particular para Israel, ainda são relevantes e pertinentes.

Chamando atenção para o fato de que, se houvesse esse risco, só poderia vir do mundo árabe e dos EUA, Shahak lembrou:

O mundo árabe até agora se mostrou incapaz de fazer análise racional detalhada da sociedade israelense-judaica (...) Nessa situação, mesmo os que gritam contra os perigos do expansionismo israelense (que são perigos muito reaisfazem-no não por conhecimento factual e detalhado, mas porque acreditam em mitos (...) Os especialistas israelenses assumem que, no geral, os árabes não darão atenção às discussões israelenses sobre o futuro.

A situação é semelhante nos EUA, onde toda a informação sobre Israel é distribuída pela imprensa-empresa de direita pró-Israel. Isso tudo considerado, Shahak chega à seguinte conclusão:

Por hora, portanto, dada a situação real de que Israel é efetivamente uma sociedade fechada para o resto do mundo, porque o mundo deseja permanecer de olhos fechados, a publicação não terá consequências; e os movimentos iniciais de tal plano já em execução continuam viáveis.




Notas dos tradutores:

[1] Israel Shahak (1933-2001) tornou-se conhecido como crítico das ideias de políticos israelenses sobre não judeus. Foi professor de Química Orgânica na Universidade Hebraica de Jerusalém, presidente da Liga Israelense pelos Direitos Humanos e Direitos Civis e publicou inúmeros estudos, entre os quais The Non-Jew in the Jewish State [Não judeus no estado judeu], Israel’s Global Role: Weapons for Repression [O papel global de Israel: armas para repressão] e Jewish History, Jewish Religion: The Weight of Three Thousand Years[História dos judeus, religião dos judeus: o peso de 3 mil anos].

[2] É o que escreve Livia Rokach, em seu livro Israel’s Sacred Terrorism [O terrorismo sagrado de Israel] (1980), publicado pela mesma Associação. O livro baseia-se nas memórias de Moshe Sharett, o primeiro ministro de Negócios Estrangeiros de Israel e ex-primeiro-ministro; expõe o plano sionista com vistas à Líbia e o processo de seu desenvolvimento em meados dos anos 1950s. A primeira massiva invasão da Líbia, em 1978, contribuiu para o desenvolvimento desse plano até os menores detalhes; e a invasão de junho de 1982 visou a implementar parte do plano, pelo qual a Síria e a Jordânia teriam de ser divididas.

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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A desintegração da Líbia

No verão de 2011, Thierry Meyssan assegurava que não havia primavera arábe na Líbia, que a população não se levantava contra Mouamar el-Kadhafi, mas que os Ocidentais manobravam com o movimento separatista da Cirenaica. Dois anos mais tarde, está consumado : Tripoli perdeu todo o controlo tanto sobre a Cirenaica como sobre o Fezzan, como o constataram os enviados especiais das Nações Unidas. As riquezas do país estão agora, unicamente, nas mãos de gangues e das multinacionais Americanas.
Não se consegue, mais, parar o processo de desintegração da Líbia, iniciado após a assassinato de Mouamar el-Kadhafi. Um novo relatório da ONU testemunha-o : sob o pano de fundo da separação das províncias, no seio da Líbia « libertada do ditador », têm lugar execuções expeditas, uma opressão política massiva e tortura geral.
Segundo o relatório comum da Missão de apoio das Nações Unidas na Líbia, (MANUL) [1], e do Alto-Comissário da ONU para os Direitos do Homem, só no fim do ano de 2011 cerca de 27 pessoas foram mortas nas prisões do país [2]. Nos cárceres estão presas 8.000 pessoas. Elas foram lá enfiadas, em 2011, com o rótulo de « partidários de Kadhafi ». A maior parte dentre elas nem sequer foram oficialmente objeto de um processo de averiguação, e ninguém sabe quanto tempo restarão presas, já que o sistema judiciário praticamente não funciona.
New York Times indica que as pessoas são presas agora, por razões religiosas ou étnicas, ou se são suspeitas de não ser leais « à democracia ». Os prisioneiros com os quais os inspectores da ONU puderam falar relataram que eram espancados, torturados pelo fogo e pela fome nas prisões.
Em Abril deste ano, uma lei foi votada na Líbia para interditar a tortura e condenar os raptos. Mas ela não têm tido aplicação efectiva. Isto não é mais do que uma parte do quadro da desintegração do Estado líbio. As regiões saem pouco a pouco, como nós o prevíramos há dois anos nestas colunas. E, além disso, isto não se passa mais sem derramamento de sangue.
Assim, a 27 de Setembro de, o Fezzan proclamou a sua independência, ou pelo menos a sua completa autonomia [3] ; os chefes tribais decidiram-no assim « devido ao mau trabalho do Congresso ». Em Junho, tinha sido a região, [rica em petróleo], da Cirenaica [4] que retomava a sua liberdade. Das três regiões históricas da Líbia, apenas resta, como parte do conjunto, a Tripolitânia. De momento, não existe força capaz de reunir, de novo, estes três Estados históricos que formavam em conjunto a Líbia desde 1951.

Tradução Alva

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Nota da comunidade palestina sobre a Mostra da Cinema e as relações comerciais e militares com Israel - Porto Alegre


Diante da notícia de que será promovida em Porto Alegre a Semana do Filme Palestino, de 6 a 10 de novembro de 2013, nós, organizações palestino-brasileiras abaixo-assinadas, através da presente, gostaríamos de assinalar que:

1.      A comunidade palestino-brasileira apóia qualquer iniciativa que vise divulgar a cultura do povo palestino, seja via mostra de filmes ou outro meio;

2.      O que a nossa comunidade repudia de forma clara, pública e enérgica é a tentativa de o governo estadual abafar e encobrir as relações comerciais e militares com Israel. Um exemplo é o acordo com a Elbit, envolvida na prática de crimes de guerra durante a agressão militar israelense contra a Faixa de Gaza em 2008-2009, conforme relatório do ex-juiz do Tribunal da Justiça Internacional, Richard goldstone.

3.      Mais uma vez é preciso lembrar todos os governos que os palestinos almejam realizar seus direitos, tais como o direito de retorno, à autodeterminação e a um estado palestino soberano e viável, o que constitui o verdadeiro caminho para a paz no Oriente Médio.

Assina

1-      Comitê em Defesa dos Refugiados Palestinos no Brasil. Dr. Issam Issa
2-      Comitê Democratico Palestino - Brasil
3-      Centro Cultural Árabe Palestino do Rio Grande do Sul. Dr. Nader Alves Bujah.
4-      Sociedade Árabe Palestina de Corumbá - Mato Grosso do Sul.
5-      Centro Cultural Árabe Palestino do Mato Grosso do Sul.
6-      Comitê Catarinense de Solidariedade com o povo Palestino
7-      Comite Gaucho de Solidariedade com o povo palestino
8-      Sociedade Árabe Palestina de Brasilia
9-      Sociedade Arabe Palestina de Chui
10-  Partido Comunista Brasileiro - PCB  
11-  O Centro de Estudos sobre o Oriente Médio
12 - Comitê de Solidariedade à Luta do Povo Palestino - Rio de Janeiro

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Querem perpetuar a ilusão que existe negociação entre dois lados. Há um só poder que é o poder da ocupação, que reina soberano.



JAISAL NOOR, TRNN PRODUCER: Bem-vindos a The Real News NetworkEu sou Jaisal Noor em Baltimore.

Nas notícias sobre os territórios palestinos ocupados, os negociadores israelenses estão agora exigindo que os palestinos concedam sua futura fronteira de estado junto ao muro de separação na Cisjordânia. Os palestinos dizem que isso é ( mais uma - nota do Blog) apropriação de terras ilegal, já que o muro de separação cruza a Linha Verde internacionalmente reconhecida de 1967. Quase 10%da Cisjordânia continuará no lado ocidental da barreira em Israel quando a construção do muro estiver finalizada, de acordo com o grupo de direitos humanos israelense B'Tselem.

Está aqui conosco para discutir isso Shir Hever. Ele é um pesquisador econômico no Alternative Information Center, uma organização palestino-israelense ativa em Jerusalém e Beit Sahour. Ele também é autor de The Political Economy of Israel's Occupation: Repression Beyond Exploitation.

Obrigado por estar conosco, Shir.


NOOR: Então, Shir, queremos saber sua resposta a esta notícia. Já suspeitávamos que Israel quer anexar a maior parte da Cisjordânia. Mas agora eles estão dizendo que querem tomar tudo a oeste do muro. Então queremos sua resposta. E também, o que vai acontecer com a grande quantidade de assentamentos no outro lado do muro?

HEVER: Acho que devemos separar realidade da ficção. E o muro de separação é realidade, é algo que está sendo construído por Israel há 13 anos. E digo isso não porque eles levaram anos construindo o muro, mas porque eles estão constantemente movendo o muro. O muro é parte da política usada por Israel para confiscar (mais - nota do Blog) terra palestina, para separar as populações. E isso é uma realidade com a qual centenas de milhares de palestinos têm que lidar todo dia quando o muro os impede de chegar às suas escolas, hospitais e seus locais de trabalho ou terras.

Mapa do Muro da Vergonha construído por Israel em território palestino
(clique no mapa com o botão direito e abra uma nova janela para visualizar melhor)
Mapa do que restou da Palestina histórica - onde se lê Israel é o lado onde a limpeza étnica promovida desde 1948, pela ocupação sionista, já foi  operada. 

E, de fato, o muro, embora Israel (Palestina ocupada pelos sionistas)* o chame oficialmente de barreira de segurança, num encontro em que estive presente, o general de brigada Yair Golan, o ex-comandante das forças israelenses na Cisjordânia, disse às pessoas presentes que de fato o muro não [foi] construído para garantir segurança. Foi—as ordens que recebeu do governo israelense foram de que o primeiro propósito do muro é separar os povos, quer dizer, que a verdadeira intenção do muro é impedir que israelenses e palestinos se encontrem, se tornem amigos, se casem, e seu propósito secundário é garantir segurança. E isso é uma das razões pela qual o muro está sempre sendo movido, porque eles tentam incorporar mais judeus no lado israelense do muro, mas ao mesmo tempo tentam excluir [o máximo] de palestinos no outro lado, no lado oriental do muro. Essa é a realidade.

Mas quando falamos de negociações [inaud.] sobre as demandas pela equipe de negociadores israelenses e as conversas atuais com os palestinos, nós vamos para o [inaud.] porque essas negociações não são negociações de verdade. Não há dois lados aqui que possam negociar. Há um poder, que é Israel, que é o poder de ocupação, o poder soberano na região, e eles têm controle sobre ambos os lados do que acontece em torno do muro de separação. Eles continuam coletando impostos nos dois lados do muro. Então a única razão pela qual a equipe israelense de negociação está fazendo esse tipo de demanda é para perpetuar a ilusão de que é uma negociação entre dois lados.

E a maneira pela qual o governo israelense está tentando vender as negociações, tanto para o público israelense como para o resto do mundo, como se fosse uma barganha. Então eles começam—os palestinos já disseram que há a fronteira internacionalmente reconhecida de 1967, que é a fronteira estabelecida [inaud.] e esta deveria ser a fronteira internacional e o estado palestino deveria ser criado no outro lado. E isto é. Então Israel disse, esse é sua proposta; faremos uma contraproposta. Nós diremos que o muro de separação deveria ser a fronteira, isto é, vamos anexar [inaud.] algumas áreas, de fato, transformando o território palestino em pequenos enclaves. Mas a razão pela qual estou chamando isso de ficção é porque todos sabem que isto não vai acontecer. Todos sabem também que a liderança palestina nunca aceitará isso, e mesmo o governo israelense não vai prosseguir e torná-la uma oferta real. Eles não vão permitir um estado palestino, um estado palestino soberano, mesmo nos pequenos enclaves restarem após o muro ser considerado a fronteira.

Palestino escala Muro da Vergonha construído por Israel
Onde lê-se ISRAEL é uma colonia sionista construída sobre os destroços e sangue dos palestinos e se localiza na parte ocupada da Palestina histórica(nota  do Blog)

Então a razão pela qual eles estão fazendo essa oferta é para criar a ilusão de que estão barganhando. Mas acho que está claro que as negociações não vão dar certo. Mas acho que todos pensam isso agora. Mas mesmo o governo israelense está tentando ganhar tempo para manter as negociações [inaud.] mais um pouco para eles poderem dizer que estão no meio de um processo de paz, que eles estão tentando fazer o melhor. E isso os ajuda a evitar um pouco da crítica internacional.

NOOR: E em 2004 a Corte Internacional de Justiça considerou que este muro violava a lei internacional. Como exatamente Israel é capaz de exigir que ele seja—ou pedir que seja sua fronteira, como você diz, apenas como postura? Mas fale também como isso é possível.

HEVER: Sim. Devemos entender que Israel não reconhece a validade da lei internacional na prática. Oficialmente, sim. De fato, logo depois que Israel ocupou o território palestino em 1967, eles reconheceram que a Quarta Convenção de Genebra se aplica ao território ocupado. Mas depois mudaram de ideia e decidiram que não se aplicava e não cumprir mais com as leis internacionais, especialmente quando não é conveniente para eles. O muro, dizem, não foi—originalmente o muro foi projetado. Eles dizem que não tem nada a ver com [inaud.] futuras fronteiras. Ele não tem nada a ver com qual área é ocupada ou não. Trata-se apenas de segurança. Mas de alguma maneira aconteceu que a rota do muro não entra em território israelense nem por um centímetro. Toda a rota do muro é dentro do território palestino. Então as considerações sobre segurança são só levadas em conta quando são às custas dos palestinos,  nunca quando são às custas de Israel.

Mas a ideia de que o muro pode ser considerado uma fronteira internacional é absurda. Como Israel pode afirmar isso? Eles podem afirmar isso enquanto os EUA quiserem continuar a charade e dizer ao mundo que há negociações, que os EUA estão mediando entre dois lados como se houvesse mesmo dois lados. Enquanto essa charada continuar, Israel pode dizer o que quiser. Eles podem fazer essas ofertas. Eles sabem que elas não serão aceitas. Mas se a liderança da Autoridade Palestina em Ramallah cair nessa armadilha e fazer uma contraproposta e dizer, bem, não, nós não vamos-- [inaud.] aceitar o muro de separação como fronteira, queremos insistir nas fronteiras de 1967, isso só vai prolongar as negociações. Isto é o que Israel quer, prolongar as negociações.

NOOR: Shir Hever, muito obrigado pela sua participação.

* notas do blog.

Os nossos meninos: " Se a vida é assim , tem que ser assim..."

OS MENINOS NO LIXO

Publicado em 06/11/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - O Jornal do Commercio, do Recife, nos últimos dias arrancou do sono o jornalismo impresso do Brasil. Quem lê a reportagem No Recife, infância perdida na lama e no lixo não sabe o que mais se destaca, se o texto de Wagner Sarmento e Marina Borges, ou se as fotos de Diego Nigro. As imagens de fotógrafo a esta altura correm o mundo, que se espanta pela composição da cena: uma cabeça de menino mergulhado no lixo e na lama de tal forma, que se torna ele próprio lixo também.

Escreveram os repórteres:

Eles nadam onde nem os peixes se atrevem. De longe, suas cabeças se confundem com os entulhos. Pela falta de quase tudo na terra, mergulham no rio de lixo atrás da sobrevivência. Lá sim tem quase tudo: latinhas, garrafas, papelão, móveis velhos, restos de comida, moscas, animais mortos. Menos dignidade. Lá, no Canal do Arruda, Zona Norte do Recife, o absurdo é rotina....

O trio de crianças se acotovelava entre dejetos mil para catar latas de alumínio e garantir o alimento de duas famílias com, ao todo, 18 pessoas. Nadava em meio a tudo que a cidade vomita. Paulinho, o menor e mais astuto dentro d’água, tapava a boca com veemência. Tinha noção exata do risco que corria. Ainda não sabe ler, mas conhece da vida o suficiente para não deixar entrar uma gota sequer daquela lama de cheiro insuportável e chamariz de doenças. Febre e diarreia são constantes.


O escândalo, o falso espanto que causa a reportagem, é na verdade a descoberta desta coisa comum, a miséria de meninos que sobrevivem entre o descaso e a morte. Isso é tão onipresente que não vemos.

A transformação da pessoa – perdão, do menino, que há quem julgue não ser uma pessoa -, a mudança de alguém em coisa, e o pior tipo de coisa, a sem valor, descartável, é tão secular que virou natural, como se fossem restos de plástico ao lado dos quais nós passamos imersos em nossas vidas, que achamos ser a mais digna da paisagem. A vida, este bem nosso a que outros não têm o direito.

Por que deitar os nossos olhos sobre o que não é gente?

Sobre os meninos do Recife eu já havia notado que as ruas, as avenidas onde eles dormem, jazem, têm nomes poéticos, belos: da Aurora, do Sol, da Boa Vista. Mas essa poesia não lhes cola na pele, ou melhor, neles se cola uma poesia invisível, até porque ninguém mesmo os vê. Eles são à semelhança de ratos pela madrugada, porque com ratos se confundem ao sair das cavernas e cloacas da cidade no escuro da noite. Então eles ficam todos negros, na pele ou na camuflagem dos animais que correm pelo asfalto da avenida.


Quando em grupos, aos bandos, ainda assim ninguém os vê. Ou melhor, às vezes, sim, quando rondam como símios as bolsas e os relógios dos adultos.

Veem-se sem serem vistos, assim como vemos e evitamos no solo um buraco, um obstáculo ou grandes montes de merda. As pessoas fazem a volta e tratam de assuntos mais sérios. Todos estamos já acostumados àqueles figurantes, no cenário.

Os meninos nas ruas são personagens que nem falam, porque estão sempre em porre de sonho, delirantes, com a voz trôpega, plenos do sonho que a cola dá. De repente, alguns deles, os mais sóbrios, os que podem, saltam para a traseira de um ônibus. Então os meninos se transformam em morcegos, à beira da morte nos testes que o motorista faz, ao frear e acelerar e a fazer voltas velozes com os ônibus, para ver se os morcegos se estendem no chão. Às vezes os motoristas conseguem.

Na foto do Jornal do Commercio, procura-se no canal do Arruda uma criança no meio do lixo espesso na água suja. Onde está Wally? Ninguém vê uma cabecinha negra perdida no lixo e podridão do rio. Ou do canal, que no Recife é um braço do rio.

Se o colunista fosse poeta, poderia compor um poema com o nome Os Meninos–Urubus. Ou meninos-ratos. Ou meninos-lixo, simplesmente. Meninos-lixo? Não. Lixo Tudo e Igual, pois uma bola escura à semelhança de cabeça flutua entre plásticos.

Para que tentar a poesia que escapa ao colunista? João Cabral de Melo Neto já expressou como ninguém o encontro de lama e rio, de resistência do homem que procurar sair do que o mata no Capibaribe.

Com as devidas adaptações, porque o menino da foto ainda não é o homem do poema de João Cabral, dele podemos dizer nesta livre interpretação de O Cão sem Plumas:

Aquele canal jamais se abre aos peixes,
ao brilho, à inquietação de faca que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores pobres e negras como negros.
Abre-se numa flora suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues de folhas duras e crespos como um negro.

No Canal do Arruda difícil é saber onde começa o canal
onde a lama começa do canal
onde a terra começa da lama;
onde o novo, onde a pele começa da lama;
onde começa o novo homem daquele menino.

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Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista; publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus(Recife-Bertrand-Brasil, 2013).
http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/11/meninos-no-lixo.html

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

É URGENTE DESOBEDECER ....



Kenny Arkana com esse RAP intitulado “V pour Verités” (“V de Verdades”). Numa parte diz: “benditos sejam os que se interpõem, os que constroem outra coisa”.



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Bancarrota em casa e pelo mundo: A Síria mostra que Washington é ator geopolítico exaurido

[*] Finian CUNNINGHAM, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"Rebelde" lança granada (RPG) contra o Exército sírio  em Aleppo (9/10/2013)
A política dos EUA para a Síria poderia ser descrita como “uma comédia de erros”, se o custo, em sofrimento humano, não fosse tão brutal. Depois de criar um pandemônio de terrorismo e desrespeito à lei na Síria, com operações clandestinas de insurgência ao longo dos últimos dois anos e meio, o governo dos EUA parece agora um Dr. Frankenstein que perdeu o controle sobre a besta, ou, melhor dizendo, as bestas...

As criaturas, nascidas do laboratório norte-americanos de golpes para mudança de regime, têm várias formas, de selvagens esquadrões da morte em solo, a grupos de exilados políticos mantidos em hotéis 5 estrelas no Golfo Pérsico.

Mas nenhuma das criaturas parece obedecer ao suposto patrão-criador. A situação está evidentemente fora de controle, e os EUA mostram-se ao mundo como idiotas, loucos, impotentes.

Primeiro, Washington repetiu o pedido, essa semana, para que suas criaturas ativas na oposição síria, a Coalizão Nacional Síria (CNS), participe das conversações políticas de Genebra-2. Mas a CNS fez que nem ouviu.

Então, uma declaração conjunta do bando de mercenários de vários países reunido na Síria, essa semana, tratou de repudiar, furiosamente, publicamente, o CNS e todos os demais grupos políticos.


Tendo visto o fracasso dos grupos políticos que dizem representar a oposição e os grupos revolucionários (...), nós, comandantes dos grupos militares nas províncias do sul, declaramos que não reconhecemos nenhum dos grupos políticos que dizem nos representar e lhes retiramos o nosso apoio.

Foi a segunda bofetada aplicada na chamada Coalizão Nacional que o ocidente tanto promoveu e apoiou. Mês passado, 13 organizações insurgentes nas províncias do norte da Síria também distribuíram declaração em que rejeitam a coalizão e a declaram ilegítima, como representante política.

Significativamente, dentre esses 13 grupos que repudiaram a CNS estava a Frente Al-Nusra, afiliada da Al-Qaeda, e o Exército Sírio Livre. Os governos ocidentais dizm que apoiavam o Exército Sírio Livre do general Salim Idriss, porque ele seria líder “moderado”, sem associação com as redes de extremistas takfiri, como a Frente Al-Nusra.

Estranhamente, para os propagandistas pró-ocidente, o Exército Sírio Livre parece já não estar lendo os manuais e memorandos “certos”, e já se aliou publicamente aos “extremistas”. Em outras palavras, não há diferença alguma entre “moderados” e “extremistas”; ou entre “rebeldes do bem” e “rebeldes do mal”.

Mapa atualizado/legendado da Guerra na Síria até set/2013
(clique na imagem para visualizar)
Essa distinção sem qualquer fundamento na realidade já está sendo vista por todos, claramente, como ficção de propaganda, que governos ocidentais fabularam para criar, para eles mesmos, alguma cobertura política e moral para conseguirem inventar uma guerra criminosa de agressão à Síria – ocultados por trás da mentira de que estariam apoiando rebeldes “bons”, pró-democracia e pró-liberdade.

Vergonhosamente, a empresa-imprensa ocidental, chamada “indústria do jornalismo”, ajudou muito a armar essa fachada escandalosa, em vez de investigar rigorosamente os fatos e expor as mentiras.

A verdade é que governos ocidentais lançaram uma onda de terrorismo contra a Síria, desde março 2011, servindo-se como disfarce da “Primavera Árabe”, com vistas ao objetivo geopolítico de promover mais uma “mudança de regime”. Essa onda de agressão para desestabilizar o governo do presidente Bashar al-Assad sempre incluiu centenas de grupos de mercenários de variadas tendências extremistas, a maioria dos quais saídos de cerca de 30 países, dentre os quais Líbia, Tunísia, Egito, Arábia Saudita, Afeganistão e Rússia, além de estados ocidentais como Austrália, Grã-Bretanha, França e Canadá.

A ilusória divisão que o ocidente divulgou, entre “moderados” e “extremistas”, foi pelos ares nos massacres acontecidos na província de Latakia, no oeste da Síria, em agosto. Até a ONG Human Rights Watch, em geral muito atenta aos interesses da agenda política do ocidente, noticiou centenas de atrocidades contra civis em ataques a várias vilas na província de Latakia. Dentre essas atrocidades, o sequestro de mais de 200 mulheres e crianças, cujo destino ainda não se conhece até hoje. Há notícias, de fontes dignas de crédito, de que todos foram assassinados para “produzir” os cadáveres apresentados como vítimas do “ataque químico” de East Ghouta, dia 21/8. Durante o ataque em Latakia, o comandante do Exército Sírio Livre, general Idriss, foi filmado em campo, discursando sobre o sucesso da campanha que comandava.

"Rebeldes" da OTAN circulam por bairro semi destruído em Homs em 15/9/2013
O que se vê, pois, são os planos tantas vezes requentados, em que os EUA e seus aliados regionais, inundam a Síria com terroristas, ao mesmo tempo em que obram para construir um governo-à-espera, constituído de exilados carreiristas e políticos oportunistas. Esses fantoches políticos deveriam ter-se mudado para Damasco, para assumir o governo, no instante em que a população abandonasse a defesa do governo de Assad, apavorada sob a ameaça dos terroristas e dos esquadrões da morte. Mas nada aconteceu conforme o ocidente planejara.

A “mudança de regime” planejada para a Síria foi plano absolutamente insustentável, porque não levou em consideração a legitimidade do governo do presidente Assad; o profissionalismo do exército sírio; a robusta aliança regional entre Síria, Rússia e Irã; e a competência da diplomacia russa, sobretudo no Conselho de Segurança da ONU, onde os russos fizeram gorar, uma a uma, as manobras dos EUA. Além do mais, o eixo dos EUA não levou em consideração a forte oposição da opinião pública ocidental, farta de guerras, e contra as sujas maquinações imperialistas dos EUA no Oriente Médio.

Condenada a esse seu jogo incompetente, Washington vê-se agora às voltas com uma total confusão, cercada de incoerências, das quais não consegue safar-se. Seus mercenários em campo estão sendo derrotados e voltam-se uns contra os outros, em furiosas disputas internas. A Frente Al-Nusra, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante/Síria [orig. Islamic State of Iraq and Shams, ISIS] e o Exército Sírio Livre são hoje maior ameaça uns aos outros, do que ameaçam o Exército Nacional Sírio.

Mas, seja lá o que for que organize ou venha a forjar-se entre esses grupos, todos os seus movimentos e pensamentos são de furiosa rejeição à oposição política inventada no ocidente e apoiada pelo ocidente.

John Kerry
Como já se sabe, a oposição política arquitetada pelo ocidente já se declarou completamente contra qualquer diálogo em Genebra, apesar das insistentes súplicas do secretário de estado dos EUA, John Kerry. Esses peões políticos reagem provavelmente, afinal, e com fúria, ante a percepção de que foram usados de fato, sim, como peões.

As conversações de Genebra que visavam a constituir um novo governo de consenso na Síria, estavam marcadas para junho de 2012, mas, desde então, foram várias vezes adiadas, porque EUA e seus aliados no golpe da “mudança de regime”, Grã-Breanha e França, precisavam de tempo para convencer seus clientes sírios exilados a não participar. E, agora, os EUA precisam de que seus peões participem das conversações – porque Washington já tem de trabalhar com o fato de que foi derrotada no campo militar.

Quando a Rússia jogou uma boia de salvação política aos EUA, mês passado, sob a forma de acordo com a Síria para o desarmamento químico dos sírios, para ajudar Washington a extrair-se do desastroso caminho da guerra, parte do acordo implicava apressar a realização das conversações de Genebra, marcadas para o mês seguinte, na capital da Suíça.

Há apenas um ano, Washington e seus aliados só investiam no golpe da “mudança de regime” na Síria. Para isso, fomentaram uma guerra suja, contratando legiões de grupos terroristas mercenários. Nenhuma diferença fazia que muitos daqueles “contratados” fossem de organização franqueada da Al-Qaeda e estivessem na lista oficial dos EUA de organizações terroristas.

Toda essa agenda militar clandestina resultou em rematado fracasso. O ponto de virada aconteceu há cerca de quatro meses, com a derrota dos grupos mercenários na região de Qusayr. Com a agenda militar clandestina fazendo água, o falso ataque químico encenado em East Ghouta foi a última esperança de Washington para conseguir atacar diretamente a Síria, em guerra aberta, tentando ainda forçar sua obsessiva “mudança de regime”.

Washington e seus aliados, contudo, não previram a oposição firme de suas próprias populações a mais essa ação de aventureirismo militar. O eixo de Washington tampouco avaliou corretamente a resistência internacional a mais esse surto de militarismo. O alerta do presidente russo Vladimir Putin, contra qualquer ataque que os EUA tentassem, ressoou fundo em muita gente comum em todo o mundo, inclusive na opinião pública nos EUA e Europa.

Tendo-se deixado prender nas cordas, Washington recebeu uma ajuda luxuosa, quando o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, conseguiu arrancar de Kerry o acordo das armas químicas sírias, em Genebra, dia 14/9.

Aquele movimento dos russos repôs o processo político no centro do palco.

Esta semana, Lavrov disse que os EUA devem “usar todo o poder que tenham” para levar a oposição síria, com suas múltiplas facções, a fazer bom uso das conversações de Genebra-2.

Sergey Lavrov

O principal obstáculo nessa via política ainda é a incapacidade de nossos parceiros [os EUA] para conseguir que a oposição síria, sobre a qual os EUA sempre velaram, decida ir a Genebra e sentar para negociar com o governo.

Lavrov é um estadista e não usaria linguagem grosseira. Mas a essência do que disse pode ser facilmente traduzida: Washington criou tal monstruosidade na Síria, que agora já não tem poder para controlar seus próprios monstros.

Num mundo que já sabe que o governo dos EUA está quebrado, em total bancarrota financeira, já se vê também, claramente, que os EUA já são também força geopolítica falida. Em bancarrota em casa e pelo mundo, a Síria mostra que Washington é ator geopolítico exaurido.




[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.