quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A desintegração da Líbia

No verão de 2011, Thierry Meyssan assegurava que não havia primavera arábe na Líbia, que a população não se levantava contra Mouamar el-Kadhafi, mas que os Ocidentais manobravam com o movimento separatista da Cirenaica. Dois anos mais tarde, está consumado : Tripoli perdeu todo o controlo tanto sobre a Cirenaica como sobre o Fezzan, como o constataram os enviados especiais das Nações Unidas. As riquezas do país estão agora, unicamente, nas mãos de gangues e das multinacionais Americanas.
Não se consegue, mais, parar o processo de desintegração da Líbia, iniciado após a assassinato de Mouamar el-Kadhafi. Um novo relatório da ONU testemunha-o : sob o pano de fundo da separação das províncias, no seio da Líbia « libertada do ditador », têm lugar execuções expeditas, uma opressão política massiva e tortura geral.
Segundo o relatório comum da Missão de apoio das Nações Unidas na Líbia, (MANUL) [1], e do Alto-Comissário da ONU para os Direitos do Homem, só no fim do ano de 2011 cerca de 27 pessoas foram mortas nas prisões do país [2]. Nos cárceres estão presas 8.000 pessoas. Elas foram lá enfiadas, em 2011, com o rótulo de « partidários de Kadhafi ». A maior parte dentre elas nem sequer foram oficialmente objeto de um processo de averiguação, e ninguém sabe quanto tempo restarão presas, já que o sistema judiciário praticamente não funciona.
New York Times indica que as pessoas são presas agora, por razões religiosas ou étnicas, ou se são suspeitas de não ser leais « à democracia ». Os prisioneiros com os quais os inspectores da ONU puderam falar relataram que eram espancados, torturados pelo fogo e pela fome nas prisões.
Em Abril deste ano, uma lei foi votada na Líbia para interditar a tortura e condenar os raptos. Mas ela não têm tido aplicação efectiva. Isto não é mais do que uma parte do quadro da desintegração do Estado líbio. As regiões saem pouco a pouco, como nós o prevíramos há dois anos nestas colunas. E, além disso, isto não se passa mais sem derramamento de sangue.
Assim, a 27 de Setembro de, o Fezzan proclamou a sua independência, ou pelo menos a sua completa autonomia [3] ; os chefes tribais decidiram-no assim « devido ao mau trabalho do Congresso ». Em Junho, tinha sido a região, [rica em petróleo], da Cirenaica [4] que retomava a sua liberdade. Das três regiões históricas da Líbia, apenas resta, como parte do conjunto, a Tripolitânia. De momento, não existe força capaz de reunir, de novo, estes três Estados históricos que formavam em conjunto a Líbia desde 1951.

Tradução Alva

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Nota da comunidade palestina sobre a Mostra da Cinema e as relações comerciais e militares com Israel - Porto Alegre


Diante da notícia de que será promovida em Porto Alegre a Semana do Filme Palestino, de 6 a 10 de novembro de 2013, nós, organizações palestino-brasileiras abaixo-assinadas, através da presente, gostaríamos de assinalar que:

1.      A comunidade palestino-brasileira apóia qualquer iniciativa que vise divulgar a cultura do povo palestino, seja via mostra de filmes ou outro meio;

2.      O que a nossa comunidade repudia de forma clara, pública e enérgica é a tentativa de o governo estadual abafar e encobrir as relações comerciais e militares com Israel. Um exemplo é o acordo com a Elbit, envolvida na prática de crimes de guerra durante a agressão militar israelense contra a Faixa de Gaza em 2008-2009, conforme relatório do ex-juiz do Tribunal da Justiça Internacional, Richard goldstone.

3.      Mais uma vez é preciso lembrar todos os governos que os palestinos almejam realizar seus direitos, tais como o direito de retorno, à autodeterminação e a um estado palestino soberano e viável, o que constitui o verdadeiro caminho para a paz no Oriente Médio.

Assina

1-      Comitê em Defesa dos Refugiados Palestinos no Brasil. Dr. Issam Issa
2-      Comitê Democratico Palestino - Brasil
3-      Centro Cultural Árabe Palestino do Rio Grande do Sul. Dr. Nader Alves Bujah.
4-      Sociedade Árabe Palestina de Corumbá - Mato Grosso do Sul.
5-      Centro Cultural Árabe Palestino do Mato Grosso do Sul.
6-      Comitê Catarinense de Solidariedade com o povo Palestino
7-      Comite Gaucho de Solidariedade com o povo palestino
8-      Sociedade Árabe Palestina de Brasilia
9-      Sociedade Arabe Palestina de Chui
10-  Partido Comunista Brasileiro - PCB  
11-  O Centro de Estudos sobre o Oriente Médio
12 - Comitê de Solidariedade à Luta do Povo Palestino - Rio de Janeiro

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Querem perpetuar a ilusão que existe negociação entre dois lados. Há um só poder que é o poder da ocupação, que reina soberano.



JAISAL NOOR, TRNN PRODUCER: Bem-vindos a The Real News NetworkEu sou Jaisal Noor em Baltimore.

Nas notícias sobre os territórios palestinos ocupados, os negociadores israelenses estão agora exigindo que os palestinos concedam sua futura fronteira de estado junto ao muro de separação na Cisjordânia. Os palestinos dizem que isso é ( mais uma - nota do Blog) apropriação de terras ilegal, já que o muro de separação cruza a Linha Verde internacionalmente reconhecida de 1967. Quase 10%da Cisjordânia continuará no lado ocidental da barreira em Israel quando a construção do muro estiver finalizada, de acordo com o grupo de direitos humanos israelense B'Tselem.

Está aqui conosco para discutir isso Shir Hever. Ele é um pesquisador econômico no Alternative Information Center, uma organização palestino-israelense ativa em Jerusalém e Beit Sahour. Ele também é autor de The Political Economy of Israel's Occupation: Repression Beyond Exploitation.

Obrigado por estar conosco, Shir.


NOOR: Então, Shir, queremos saber sua resposta a esta notícia. Já suspeitávamos que Israel quer anexar a maior parte da Cisjordânia. Mas agora eles estão dizendo que querem tomar tudo a oeste do muro. Então queremos sua resposta. E também, o que vai acontecer com a grande quantidade de assentamentos no outro lado do muro?

HEVER: Acho que devemos separar realidade da ficção. E o muro de separação é realidade, é algo que está sendo construído por Israel há 13 anos. E digo isso não porque eles levaram anos construindo o muro, mas porque eles estão constantemente movendo o muro. O muro é parte da política usada por Israel para confiscar (mais - nota do Blog) terra palestina, para separar as populações. E isso é uma realidade com a qual centenas de milhares de palestinos têm que lidar todo dia quando o muro os impede de chegar às suas escolas, hospitais e seus locais de trabalho ou terras.

Mapa do Muro da Vergonha construído por Israel em território palestino
(clique no mapa com o botão direito e abra uma nova janela para visualizar melhor)
Mapa do que restou da Palestina histórica - onde se lê Israel é o lado onde a limpeza étnica promovida desde 1948, pela ocupação sionista, já foi  operada. 

E, de fato, o muro, embora Israel (Palestina ocupada pelos sionistas)* o chame oficialmente de barreira de segurança, num encontro em que estive presente, o general de brigada Yair Golan, o ex-comandante das forças israelenses na Cisjordânia, disse às pessoas presentes que de fato o muro não [foi] construído para garantir segurança. Foi—as ordens que recebeu do governo israelense foram de que o primeiro propósito do muro é separar os povos, quer dizer, que a verdadeira intenção do muro é impedir que israelenses e palestinos se encontrem, se tornem amigos, se casem, e seu propósito secundário é garantir segurança. E isso é uma das razões pela qual o muro está sempre sendo movido, porque eles tentam incorporar mais judeus no lado israelense do muro, mas ao mesmo tempo tentam excluir [o máximo] de palestinos no outro lado, no lado oriental do muro. Essa é a realidade.

Mas quando falamos de negociações [inaud.] sobre as demandas pela equipe de negociadores israelenses e as conversas atuais com os palestinos, nós vamos para o [inaud.] porque essas negociações não são negociações de verdade. Não há dois lados aqui que possam negociar. Há um poder, que é Israel, que é o poder de ocupação, o poder soberano na região, e eles têm controle sobre ambos os lados do que acontece em torno do muro de separação. Eles continuam coletando impostos nos dois lados do muro. Então a única razão pela qual a equipe israelense de negociação está fazendo esse tipo de demanda é para perpetuar a ilusão de que é uma negociação entre dois lados.

E a maneira pela qual o governo israelense está tentando vender as negociações, tanto para o público israelense como para o resto do mundo, como se fosse uma barganha. Então eles começam—os palestinos já disseram que há a fronteira internacionalmente reconhecida de 1967, que é a fronteira estabelecida [inaud.] e esta deveria ser a fronteira internacional e o estado palestino deveria ser criado no outro lado. E isto é. Então Israel disse, esse é sua proposta; faremos uma contraproposta. Nós diremos que o muro de separação deveria ser a fronteira, isto é, vamos anexar [inaud.] algumas áreas, de fato, transformando o território palestino em pequenos enclaves. Mas a razão pela qual estou chamando isso de ficção é porque todos sabem que isto não vai acontecer. Todos sabem também que a liderança palestina nunca aceitará isso, e mesmo o governo israelense não vai prosseguir e torná-la uma oferta real. Eles não vão permitir um estado palestino, um estado palestino soberano, mesmo nos pequenos enclaves restarem após o muro ser considerado a fronteira.

Palestino escala Muro da Vergonha construído por Israel
Onde lê-se ISRAEL é uma colonia sionista construída sobre os destroços e sangue dos palestinos e se localiza na parte ocupada da Palestina histórica(nota  do Blog)

Então a razão pela qual eles estão fazendo essa oferta é para criar a ilusão de que estão barganhando. Mas acho que está claro que as negociações não vão dar certo. Mas acho que todos pensam isso agora. Mas mesmo o governo israelense está tentando ganhar tempo para manter as negociações [inaud.] mais um pouco para eles poderem dizer que estão no meio de um processo de paz, que eles estão tentando fazer o melhor. E isso os ajuda a evitar um pouco da crítica internacional.

NOOR: E em 2004 a Corte Internacional de Justiça considerou que este muro violava a lei internacional. Como exatamente Israel é capaz de exigir que ele seja—ou pedir que seja sua fronteira, como você diz, apenas como postura? Mas fale também como isso é possível.

HEVER: Sim. Devemos entender que Israel não reconhece a validade da lei internacional na prática. Oficialmente, sim. De fato, logo depois que Israel ocupou o território palestino em 1967, eles reconheceram que a Quarta Convenção de Genebra se aplica ao território ocupado. Mas depois mudaram de ideia e decidiram que não se aplicava e não cumprir mais com as leis internacionais, especialmente quando não é conveniente para eles. O muro, dizem, não foi—originalmente o muro foi projetado. Eles dizem que não tem nada a ver com [inaud.] futuras fronteiras. Ele não tem nada a ver com qual área é ocupada ou não. Trata-se apenas de segurança. Mas de alguma maneira aconteceu que a rota do muro não entra em território israelense nem por um centímetro. Toda a rota do muro é dentro do território palestino. Então as considerações sobre segurança são só levadas em conta quando são às custas dos palestinos,  nunca quando são às custas de Israel.

Mas a ideia de que o muro pode ser considerado uma fronteira internacional é absurda. Como Israel pode afirmar isso? Eles podem afirmar isso enquanto os EUA quiserem continuar a charade e dizer ao mundo que há negociações, que os EUA estão mediando entre dois lados como se houvesse mesmo dois lados. Enquanto essa charada continuar, Israel pode dizer o que quiser. Eles podem fazer essas ofertas. Eles sabem que elas não serão aceitas. Mas se a liderança da Autoridade Palestina em Ramallah cair nessa armadilha e fazer uma contraproposta e dizer, bem, não, nós não vamos-- [inaud.] aceitar o muro de separação como fronteira, queremos insistir nas fronteiras de 1967, isso só vai prolongar as negociações. Isto é o que Israel quer, prolongar as negociações.

NOOR: Shir Hever, muito obrigado pela sua participação.

* notas do blog.

Os nossos meninos: " Se a vida é assim , tem que ser assim..."

OS MENINOS NO LIXO

Publicado em 06/11/2013 por Urariano Motta [*]

Recife (PE) - O Jornal do Commercio, do Recife, nos últimos dias arrancou do sono o jornalismo impresso do Brasil. Quem lê a reportagem No Recife, infância perdida na lama e no lixo não sabe o que mais se destaca, se o texto de Wagner Sarmento e Marina Borges, ou se as fotos de Diego Nigro. As imagens de fotógrafo a esta altura correm o mundo, que se espanta pela composição da cena: uma cabeça de menino mergulhado no lixo e na lama de tal forma, que se torna ele próprio lixo também.

Escreveram os repórteres:

Eles nadam onde nem os peixes se atrevem. De longe, suas cabeças se confundem com os entulhos. Pela falta de quase tudo na terra, mergulham no rio de lixo atrás da sobrevivência. Lá sim tem quase tudo: latinhas, garrafas, papelão, móveis velhos, restos de comida, moscas, animais mortos. Menos dignidade. Lá, no Canal do Arruda, Zona Norte do Recife, o absurdo é rotina....

O trio de crianças se acotovelava entre dejetos mil para catar latas de alumínio e garantir o alimento de duas famílias com, ao todo, 18 pessoas. Nadava em meio a tudo que a cidade vomita. Paulinho, o menor e mais astuto dentro d’água, tapava a boca com veemência. Tinha noção exata do risco que corria. Ainda não sabe ler, mas conhece da vida o suficiente para não deixar entrar uma gota sequer daquela lama de cheiro insuportável e chamariz de doenças. Febre e diarreia são constantes.


O escândalo, o falso espanto que causa a reportagem, é na verdade a descoberta desta coisa comum, a miséria de meninos que sobrevivem entre o descaso e a morte. Isso é tão onipresente que não vemos.

A transformação da pessoa – perdão, do menino, que há quem julgue não ser uma pessoa -, a mudança de alguém em coisa, e o pior tipo de coisa, a sem valor, descartável, é tão secular que virou natural, como se fossem restos de plástico ao lado dos quais nós passamos imersos em nossas vidas, que achamos ser a mais digna da paisagem. A vida, este bem nosso a que outros não têm o direito.

Por que deitar os nossos olhos sobre o que não é gente?

Sobre os meninos do Recife eu já havia notado que as ruas, as avenidas onde eles dormem, jazem, têm nomes poéticos, belos: da Aurora, do Sol, da Boa Vista. Mas essa poesia não lhes cola na pele, ou melhor, neles se cola uma poesia invisível, até porque ninguém mesmo os vê. Eles são à semelhança de ratos pela madrugada, porque com ratos se confundem ao sair das cavernas e cloacas da cidade no escuro da noite. Então eles ficam todos negros, na pele ou na camuflagem dos animais que correm pelo asfalto da avenida.


Quando em grupos, aos bandos, ainda assim ninguém os vê. Ou melhor, às vezes, sim, quando rondam como símios as bolsas e os relógios dos adultos.

Veem-se sem serem vistos, assim como vemos e evitamos no solo um buraco, um obstáculo ou grandes montes de merda. As pessoas fazem a volta e tratam de assuntos mais sérios. Todos estamos já acostumados àqueles figurantes, no cenário.

Os meninos nas ruas são personagens que nem falam, porque estão sempre em porre de sonho, delirantes, com a voz trôpega, plenos do sonho que a cola dá. De repente, alguns deles, os mais sóbrios, os que podem, saltam para a traseira de um ônibus. Então os meninos se transformam em morcegos, à beira da morte nos testes que o motorista faz, ao frear e acelerar e a fazer voltas velozes com os ônibus, para ver se os morcegos se estendem no chão. Às vezes os motoristas conseguem.

Na foto do Jornal do Commercio, procura-se no canal do Arruda uma criança no meio do lixo espesso na água suja. Onde está Wally? Ninguém vê uma cabecinha negra perdida no lixo e podridão do rio. Ou do canal, que no Recife é um braço do rio.

Se o colunista fosse poeta, poderia compor um poema com o nome Os Meninos–Urubus. Ou meninos-ratos. Ou meninos-lixo, simplesmente. Meninos-lixo? Não. Lixo Tudo e Igual, pois uma bola escura à semelhança de cabeça flutua entre plásticos.

Para que tentar a poesia que escapa ao colunista? João Cabral de Melo Neto já expressou como ninguém o encontro de lama e rio, de resistência do homem que procurar sair do que o mata no Capibaribe.

Com as devidas adaptações, porque o menino da foto ainda não é o homem do poema de João Cabral, dele podemos dizer nesta livre interpretação de O Cão sem Plumas:

Aquele canal jamais se abre aos peixes,
ao brilho, à inquietação de faca que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores pobres e negras como negros.
Abre-se numa flora suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues de folhas duras e crespos como um negro.

No Canal do Arruda difícil é saber onde começa o canal
onde a lama começa do canal
onde a terra começa da lama;
onde o novo, onde a pele começa da lama;
onde começa o novo homem daquele menino.

____________________________________________________

Urariano Motta [*] é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista; publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas(Recife, Bagaço, 1997). Este ano lançou o romance O filho renegado de Deus(Recife-Bertrand-Brasil, 2013).
http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/11/meninos-no-lixo.html

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

É URGENTE DESOBEDECER ....



Kenny Arkana com esse RAP intitulado “V pour Verités” (“V de Verdades”). Numa parte diz: “benditos sejam os que se interpõem, os que constroem outra coisa”.



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Bancarrota em casa e pelo mundo: A Síria mostra que Washington é ator geopolítico exaurido

[*] Finian CUNNINGHAM, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

"Rebelde" lança granada (RPG) contra o Exército sírio  em Aleppo (9/10/2013)
A política dos EUA para a Síria poderia ser descrita como “uma comédia de erros”, se o custo, em sofrimento humano, não fosse tão brutal. Depois de criar um pandemônio de terrorismo e desrespeito à lei na Síria, com operações clandestinas de insurgência ao longo dos últimos dois anos e meio, o governo dos EUA parece agora um Dr. Frankenstein que perdeu o controle sobre a besta, ou, melhor dizendo, as bestas...

As criaturas, nascidas do laboratório norte-americanos de golpes para mudança de regime, têm várias formas, de selvagens esquadrões da morte em solo, a grupos de exilados políticos mantidos em hotéis 5 estrelas no Golfo Pérsico.

Mas nenhuma das criaturas parece obedecer ao suposto patrão-criador. A situação está evidentemente fora de controle, e os EUA mostram-se ao mundo como idiotas, loucos, impotentes.

Primeiro, Washington repetiu o pedido, essa semana, para que suas criaturas ativas na oposição síria, a Coalizão Nacional Síria (CNS), participe das conversações políticas de Genebra-2. Mas a CNS fez que nem ouviu.

Então, uma declaração conjunta do bando de mercenários de vários países reunido na Síria, essa semana, tratou de repudiar, furiosamente, publicamente, o CNS e todos os demais grupos políticos.


Tendo visto o fracasso dos grupos políticos que dizem representar a oposição e os grupos revolucionários (...), nós, comandantes dos grupos militares nas províncias do sul, declaramos que não reconhecemos nenhum dos grupos políticos que dizem nos representar e lhes retiramos o nosso apoio.

Foi a segunda bofetada aplicada na chamada Coalizão Nacional que o ocidente tanto promoveu e apoiou. Mês passado, 13 organizações insurgentes nas províncias do norte da Síria também distribuíram declaração em que rejeitam a coalizão e a declaram ilegítima, como representante política.

Significativamente, dentre esses 13 grupos que repudiaram a CNS estava a Frente Al-Nusra, afiliada da Al-Qaeda, e o Exército Sírio Livre. Os governos ocidentais dizm que apoiavam o Exército Sírio Livre do general Salim Idriss, porque ele seria líder “moderado”, sem associação com as redes de extremistas takfiri, como a Frente Al-Nusra.

Estranhamente, para os propagandistas pró-ocidente, o Exército Sírio Livre parece já não estar lendo os manuais e memorandos “certos”, e já se aliou publicamente aos “extremistas”. Em outras palavras, não há diferença alguma entre “moderados” e “extremistas”; ou entre “rebeldes do bem” e “rebeldes do mal”.

Mapa atualizado/legendado da Guerra na Síria até set/2013
(clique na imagem para visualizar)
Essa distinção sem qualquer fundamento na realidade já está sendo vista por todos, claramente, como ficção de propaganda, que governos ocidentais fabularam para criar, para eles mesmos, alguma cobertura política e moral para conseguirem inventar uma guerra criminosa de agressão à Síria – ocultados por trás da mentira de que estariam apoiando rebeldes “bons”, pró-democracia e pró-liberdade.

Vergonhosamente, a empresa-imprensa ocidental, chamada “indústria do jornalismo”, ajudou muito a armar essa fachada escandalosa, em vez de investigar rigorosamente os fatos e expor as mentiras.

A verdade é que governos ocidentais lançaram uma onda de terrorismo contra a Síria, desde março 2011, servindo-se como disfarce da “Primavera Árabe”, com vistas ao objetivo geopolítico de promover mais uma “mudança de regime”. Essa onda de agressão para desestabilizar o governo do presidente Bashar al-Assad sempre incluiu centenas de grupos de mercenários de variadas tendências extremistas, a maioria dos quais saídos de cerca de 30 países, dentre os quais Líbia, Tunísia, Egito, Arábia Saudita, Afeganistão e Rússia, além de estados ocidentais como Austrália, Grã-Bretanha, França e Canadá.

A ilusória divisão que o ocidente divulgou, entre “moderados” e “extremistas”, foi pelos ares nos massacres acontecidos na província de Latakia, no oeste da Síria, em agosto. Até a ONG Human Rights Watch, em geral muito atenta aos interesses da agenda política do ocidente, noticiou centenas de atrocidades contra civis em ataques a várias vilas na província de Latakia. Dentre essas atrocidades, o sequestro de mais de 200 mulheres e crianças, cujo destino ainda não se conhece até hoje. Há notícias, de fontes dignas de crédito, de que todos foram assassinados para “produzir” os cadáveres apresentados como vítimas do “ataque químico” de East Ghouta, dia 21/8. Durante o ataque em Latakia, o comandante do Exército Sírio Livre, general Idriss, foi filmado em campo, discursando sobre o sucesso da campanha que comandava.

"Rebeldes" da OTAN circulam por bairro semi destruído em Homs em 15/9/2013
O que se vê, pois, são os planos tantas vezes requentados, em que os EUA e seus aliados regionais, inundam a Síria com terroristas, ao mesmo tempo em que obram para construir um governo-à-espera, constituído de exilados carreiristas e políticos oportunistas. Esses fantoches políticos deveriam ter-se mudado para Damasco, para assumir o governo, no instante em que a população abandonasse a defesa do governo de Assad, apavorada sob a ameaça dos terroristas e dos esquadrões da morte. Mas nada aconteceu conforme o ocidente planejara.

A “mudança de regime” planejada para a Síria foi plano absolutamente insustentável, porque não levou em consideração a legitimidade do governo do presidente Assad; o profissionalismo do exército sírio; a robusta aliança regional entre Síria, Rússia e Irã; e a competência da diplomacia russa, sobretudo no Conselho de Segurança da ONU, onde os russos fizeram gorar, uma a uma, as manobras dos EUA. Além do mais, o eixo dos EUA não levou em consideração a forte oposição da opinião pública ocidental, farta de guerras, e contra as sujas maquinações imperialistas dos EUA no Oriente Médio.

Condenada a esse seu jogo incompetente, Washington vê-se agora às voltas com uma total confusão, cercada de incoerências, das quais não consegue safar-se. Seus mercenários em campo estão sendo derrotados e voltam-se uns contra os outros, em furiosas disputas internas. A Frente Al-Nusra, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante/Síria [orig. Islamic State of Iraq and Shams, ISIS] e o Exército Sírio Livre são hoje maior ameaça uns aos outros, do que ameaçam o Exército Nacional Sírio.

Mas, seja lá o que for que organize ou venha a forjar-se entre esses grupos, todos os seus movimentos e pensamentos são de furiosa rejeição à oposição política inventada no ocidente e apoiada pelo ocidente.

John Kerry
Como já se sabe, a oposição política arquitetada pelo ocidente já se declarou completamente contra qualquer diálogo em Genebra, apesar das insistentes súplicas do secretário de estado dos EUA, John Kerry. Esses peões políticos reagem provavelmente, afinal, e com fúria, ante a percepção de que foram usados de fato, sim, como peões.

As conversações de Genebra que visavam a constituir um novo governo de consenso na Síria, estavam marcadas para junho de 2012, mas, desde então, foram várias vezes adiadas, porque EUA e seus aliados no golpe da “mudança de regime”, Grã-Breanha e França, precisavam de tempo para convencer seus clientes sírios exilados a não participar. E, agora, os EUA precisam de que seus peões participem das conversações – porque Washington já tem de trabalhar com o fato de que foi derrotada no campo militar.

Quando a Rússia jogou uma boia de salvação política aos EUA, mês passado, sob a forma de acordo com a Síria para o desarmamento químico dos sírios, para ajudar Washington a extrair-se do desastroso caminho da guerra, parte do acordo implicava apressar a realização das conversações de Genebra, marcadas para o mês seguinte, na capital da Suíça.

Há apenas um ano, Washington e seus aliados só investiam no golpe da “mudança de regime” na Síria. Para isso, fomentaram uma guerra suja, contratando legiões de grupos terroristas mercenários. Nenhuma diferença fazia que muitos daqueles “contratados” fossem de organização franqueada da Al-Qaeda e estivessem na lista oficial dos EUA de organizações terroristas.

Toda essa agenda militar clandestina resultou em rematado fracasso. O ponto de virada aconteceu há cerca de quatro meses, com a derrota dos grupos mercenários na região de Qusayr. Com a agenda militar clandestina fazendo água, o falso ataque químico encenado em East Ghouta foi a última esperança de Washington para conseguir atacar diretamente a Síria, em guerra aberta, tentando ainda forçar sua obsessiva “mudança de regime”.

Washington e seus aliados, contudo, não previram a oposição firme de suas próprias populações a mais essa ação de aventureirismo militar. O eixo de Washington tampouco avaliou corretamente a resistência internacional a mais esse surto de militarismo. O alerta do presidente russo Vladimir Putin, contra qualquer ataque que os EUA tentassem, ressoou fundo em muita gente comum em todo o mundo, inclusive na opinião pública nos EUA e Europa.

Tendo-se deixado prender nas cordas, Washington recebeu uma ajuda luxuosa, quando o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, conseguiu arrancar de Kerry o acordo das armas químicas sírias, em Genebra, dia 14/9.

Aquele movimento dos russos repôs o processo político no centro do palco.

Esta semana, Lavrov disse que os EUA devem “usar todo o poder que tenham” para levar a oposição síria, com suas múltiplas facções, a fazer bom uso das conversações de Genebra-2.

Sergey Lavrov

O principal obstáculo nessa via política ainda é a incapacidade de nossos parceiros [os EUA] para conseguir que a oposição síria, sobre a qual os EUA sempre velaram, decida ir a Genebra e sentar para negociar com o governo.

Lavrov é um estadista e não usaria linguagem grosseira. Mas a essência do que disse pode ser facilmente traduzida: Washington criou tal monstruosidade na Síria, que agora já não tem poder para controlar seus próprios monstros.

Num mundo que já sabe que o governo dos EUA está quebrado, em total bancarrota financeira, já se vê também, claramente, que os EUA já são também força geopolítica falida. Em bancarrota em casa e pelo mundo, a Síria mostra que Washington é ator geopolítico exaurido.




[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O deserto da democracia de Israel: " Nosso povo quer queimar os africanos!"

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Netanyahu e a "bomba" do Irã
Da tribuna da Assembleia Geral da ONU, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu dedicou-se a aproximar e confundir os mais assustadores detalhes de males feitos e a serem cometidos pelo Irã e imagens de judeus “aterrorizados” e “deixados à morte” por antissemitas na Europa do século 19. Dirigidas contra o movimento de aproximação entre EUA e Irã e pela via diplomática, e falando a um público de norte-americanos já fartos de guerras, as frases desatinadas de Netanyahu ameaçam fazer dele figura ainda mais diminuída, sem argumentos, desesperado.

Embora o discurso tenha repercutido muito mal nos EUA, afastando até alguns dos mais empenhados propagandistas e defensores de Israel, aquela jeremiada serviu a um objetivo maior: desviar a atenção mundial das políticas de Israel contra um grupo que Netanyahu excluiu (também) do discurso na ONU: os palestinos.

Yitzhak Shamir
Em novembro de 1989, quando ainda era ministro na coalizão liderada pelo Partido Likud no governo do primeiro-ministro Yitzhak Shamir, um Netanyahu mais jovem disse ao público que o ouvia na Universidade Bar Ilan, que:

Israel deveria ter aproveitado o ultraje da opinião pública contra a repressão às manifestações [da Praça Tiananmen] na China, com todo o mundo atento ao que acontecia lá, para promover expulsões em massa de árabes, dos territórios. Mas, para minha lástima, o governo não aceitou essa política que propus, e que continuo a repetir que deve ser implementada.

Hoje, principal autoridade política israelense,Netanyahu modernizou a estratégia da cortina de fumaça.

Enquanto o primeiro-ministro deblaterava contra o Irã em New York City e num encontro com o presidente Obama no Salão Oval, seu governo preparava-se para implementar o “Plano Prawer” – concebido para expulsar 40 mil beduínos nativos e que são  (palestinos -comentário do Blog) considerados cidadãos israelenses, de suas comunidades ancestrais no deserto de Negev, para “concentrá-los” em aglomerados comandados pelo estado, semelhantes a reservas indígenas.

Como Israel ROUBA terras e bens dos palestinos desde 1947
Concebido pelo principal estrategista político de Netanyahu, Ehud Prawer, e aprovado pela maioria dos membros dos principais partidos políticos no Knesset, o Plano Prawer é só uma das ferramentas do novo programa do governo de Israel para dominar todos os espaços e a vida das pessoas entre o rio (Jordão) e o mar (Mediterrâneo).

Expulsões no deserto

Dia 9/9/2013, visitei Umm al-Hiran, uma das vilas que o estado de Israel planeja varrer do mapa. Localizada na parte norte do Deserto de Negev, dentro dos limites da Linha Verde (a linha demarcada no armistício de 1949 considerada como ponto de partida para qualquer negociação entre israelenses e palestinos), dentro da parte que Israel espera que seja legitimada numa solução de Dois Estado negociada pelos EUA, os moradores de Umm al-Hiran mobilizam-se para resistir à remoção forçada.
Umm al-Hiran, aldeia prestes a ser roubada pelos judeus de Israel
Hajj al-Ahmed
Na sala de uma casa poeirenta, mas impecavelmente organizada, construída com blocos de concreto nos arredores da vila, Hajj al-Ahmed, um xeique já idoso, falou a um grupo de colegas jornalistas do website Mondoweiss e a mim, sobre a experiência dos 80 mil beduínos que vivem nessas vilas classificadas como “não reconhecíveis”. Resultado de repetidas ações que lhes tiraram terras e casas, e vítimas de inúmeras ações de deslocamento forçado, muitas dessas comunidades são cercadas por áreas de despejo de dejetos petroquímicos e foram transformadas em clusters de alta incidência de câncer, enquanto prosseguem as campanhas, por aviões israelenses que despejam produtos químicos, para destruir plantações e matar os rebanhos; essas campanhas já dizimaram os meios locais de subsistência.

Shai Hermesh
Embora residentes (palestinos) como al-Ahmed tenham cidadania israelense, não podem beneficiar-se dos mesmos serviços públicos oferecidos a comunidades de judeus que há nos arredores. As estradas para as vilas “não reconhecíveis” como Umm al-Hiran são margeadas por fiação elétrica, mas os beduínos são proibidos de se conectarem à rede pública. As suas casas e mesquitas são consideradas construções “ilegais” e alvo rotineiro de operações de demolição pelas forças israelenses. Agora, a simples presença deles nas terras que lhes pertencem milenarmente, já está sendo ameaçada.

Conforme o Plano Prawer, o pessoal de Umm al-Hiran estará entre os 40 mil beduínos que serão transferidos à força para cidades semelhantes às que se veem em reservas dos povos nativos norte-americanos, construídas pelo governo de Israel. Como grupo de mais alto nível de crescimento demográfico entre os cidadãos palestinos de Israel, os beduínos foram marcados como ameaça existencial à maioria de judeus em Israel. “Não é do interesse de Israel que haja mais palestinos no Negev” – disse Shai Hermesh, ex-membro do Knesset e diretor do projeto do governo para construir uma “maioria sionista” no sul do deserto.

Ron Lauder
Segundo o website do Or Movementorganização ligada ao governo que supervisiona o assentamento de judeus no Negev, os residentes das vilas não reconhecidas serão movidos para cidades construídas para “concentrar a população beduína”. E pequenas comunidades exclusivas para judeus serão construídas nos locais de onde estão sendo expulsas as comunidades beduínas. A comunidades de judeus receberão vários benefícios do governo de Israel e farto financiamento provido por doadores pró-Israel, como, dentre outros, o bilionário da indústria de cosméticos, Ron Lauder. “Os EUA tiveram seu Destino Manifesto no oeste” – disse Lauder. – “Para Israel, aquela terra é o Negev”.

Quando encontrei al-Ahmed, ele falou de um grupo de 150 estranhos que apareceram de repente na periferia de sua vila no dia anterior. Do alto de uma colina, disse ele, examinaram a região e debateram que parcela caberia a cada um, depois de o Plano Prawer estar completado. Al-Ahmed chamou-os de “judeus no bosque”.

Distante vários metros na direção leste de Umm al-Hiran, está a Floresta Yattir, um vasto bosque no coração do deserto, plantado pelo Fundo Nacional Judeu [orig. Jewish National Fund (JNF)], organização paragovernamental, em 1964. O diretor do JNF naquela época, Yosef Weitz, chefiara o Comitê de Transferência, do governo de Israel, que orquestrou os estágios finais da remoção dos palestinos em 1948. Para Weitz, plantar florestas servia a um duplo objetivo estratégico: as florestas, como Yattir, plantadas próxima à Linha Verde, criariam uma barreira demográfica entre judeus e árabes; e outras florestas, plantadas em terras de antigas vilas palestinas, como Yalu, Beit Nuba e Imwas, impediriam a volta dos habitantes expulsos. Como escreveu em 1949, depois que a maioria de judeus estivesse estabelecida em Israel, mediante a expulsão em massa, “as terras abandonadas jamais voltariam aos antigos proprietários (árabes palestinos)”.

Floresta de Yattir 
Depois que a noite caiu no deserto, saí a rodar, com meus colegas sob os pinheiros de Yattir. Num carro pequeno, rodamos por estradas sem iluminação, até que chegamos a um portão protegido por arame farpado. Era a vila-acampamento modelo de Hiran – dos “judeus no bosque”, como dissera al-Ahmed. Gritamos para que nos deixassem entrar, até que o portão foi aberto. Estacionamos no meio de um “acampamento” de casas-trailers. Como um shtetl no Assentamento, o território, na Rússia Imperial, reservado para residência dos judeus, tudo ali cheirava a sítio e desconfiança.

Um nacionalista religioso barbudo saiu de uma sinagoga com paredes de alumínio e reuniu-se conosco em bancos em torno de uma mesa para piqueniques. Chamava-se Af-Shalom e tinha cerca de 30 anos. Não estava, disse ele, autorizado a falar conosco, antes da chegada de um representante do Or Movement. Mas depois de meio cigarro e poucos minutos de desconforto, o homem pôs-se a falar. Mandara os filhos, disse, para uma escola do outro lado da Linha Verde, na colônia de Susiya, a apenas oito minutos de distância por uma das estradas exclusivas para judeus. Que os beduínos eram “ilegais”, ocupantes da terra que Deus dera aos judeus e continuariam a tomar terra dos judeus, a menos que fossem removidos à força. Pouco depois, chegou Moshe, representante do Or Movement que se recusou a informar seu nome completo. Nos acompanhou na visita, sem dizer palavra.

“O maior centro de detenção do planeta”


A apenas poucos quilômetros de Umm al-Hiran, no sul do deserto Negev e dentro da Linha Verde, o estado de Israel iniciou outro projeto ambicioso para “concentrar” outro tipo de indesejáveis. É a prisão de Saharonim, vasto complexo de torres de vigilância, muros de concreto, arame farpado e um oceano de câmeras de vigilância que hoje constituem o que o Independent britânicodescreveu como “o maior centro de detenção do planeta”.

Construído originalmente para servir como prisão para palestinos durante a 1ª Intifada, a prisão de Saharonim foi ampliada para prender 8 mil africanos que fugiam de genocídios e perseguições. Atualmente, vivem ali pelo menos 1.800 refugiados africanos, inclusive mulheres e crianças, cercados num local que ogrupo israelense de arquitetos Bikrom descreveu como “um gigantesco campo de concentração, onde as condições de sobrevivência são duríssimas” 

Como as vilas “não reconhecidas” dos beduínos do Negev, os 60 mil migrantes africanos e buscadores de asilo político que vivem em Israel foram identificados como ameaça demográfica que tem de ser expurgada do corpo do estado judeu. Numa reunião com ministros de seu gabinete em maio de 2012, Netanyahu alertou que o número deles poderia crescer dezenas de vezes, e “causar a negação do Estado de Israel como estado judeu e democrático”. Por isso, seria imperativo “remover fisicamente os infiltradores” – disse o primeiro-ministro de Israel. “Temos de quebrá-los e implantar castigos ainda mais duros”.

Prisioneiros de Saharonim - refugiados negros, inclusive crianças
Em rápida sequência, o Parlamento de Israel emendou a Lei de Prevenção de Infiltrações, aprovada em 1954 para impedir que refugiados palestinos jamais voltassem a se reunir às famílias e para que fossem forçados a deixar em Israel todas as suas propriedades e bens. Sob a nova lei, africanos não judeus poderiam ser presos e mantidos em prisão sem julgamento por três anos (a Suprema Corte israelense invalidou essa emenda à lei, mas o governo não fez qualquer movimento para “desfazer” o que estava feito, e talvez jamais faça). A lei também criava meios para financiar a construção da prisão de Saharonim e de um muro gigante para fechar toda a fronteira entre Israel e Egito. Arnon Sofer, há muito tempo conselheiro de Netanyahu, também lembrou a urgência de construírem-se muros para o mar” [orig. sea wallspara impedir a entrada de “refugiados das mudanças climáticas”.

Arnon Sofer
“Não estamos habituados a essa região” – Sofer explicou.

Nessa simples frase, destilou toda a lógica do sistema de etnocracia de Israel. Para manter o Estado Judeu, é preciso construir, por engenharia demográfica, uma maioria de judeus não nativos, para depois dispersá-los por toda a Palestina histórica usando métodos de implantação colonial. Planejadores do Estado Judeu, como Sofer, referem-se a esse processo como “a judaização”.

Porque os palestinos nativos e os migrantes estrangeiros não são judeus, o Estado de Israel já os definiu, em termos de lei, como “infiltradores”, e já os condenou à remoção pela força e à relocação permanente em vários tipos de zonas de exclusão – de campos de refugiados em todo o mundo árabe, a bantustões murados na Cisjordânia ou à Faixa de Gaza sitiada, ou, como agora, a campos de concentração de beduínos e a prisões no meio do deserto, como a prisão de Saharonim.

Enquanto o estado de Israel dedica-se a construir a própria maioria demográfica, os excluídos não judeus têm de ser “concentrados”, para abrir espaços para colônias exclusivas para judeus e para o desenvolvimento econômico.

Ze’ev Jabotinsky
Não é sistema particularmente humano, é claro, mas é sistema perfeitamente enquadrado na opinião sionista, da direita Kahanista à esquerda de J Street. De fato, se há algum desacordo substancial entre esses campos só superficialmente divergentes, é o estilo da retórica que usam para defender a etnocracia de Israel. Como o ideólogo sionista revisionista Ze’ev Jabotinsky escreveu e seu famoso ensaio da “Cortina de Ferro”, de 1923, delineando a lógica da que viria a ser a estratégia de contenção de Israel, “não há qualquer diferença significativa entre nossos militaristas e nossos vegetarianos”.

Durante a era de Oslo, o tempo da esperança que prevalecera na Israel de meados dos anos 1990s, foi o Partido Trabalhista “pomba” de Yitzhak Rabin e Ehud Barak quem começou a cercar com barricadas a Faixa de Gaza, além das cercas eletrificadas, ao mesmo tempo em que começavam a arquitetar os planos para erguer um muro que separasse a Cisjordânia, de “Israel propriamente dita”. (O plano então preparado, seria implementado durante o governo de Ariel Sharon como primeiro-ministro).

“Nós aqui, eles bem longe” – foi o slogan da campanha eleitoral de Barak, candidato à reeleição em 1999, e do campo Paz Já, que, naquele momento, apoiava uma solução de dois estados. Durante a implantação das políticas separacionistas do Partido Trabalhistas, os palestinos de Gaza e da Cisjordânia foram gradualmente desaparecendo do próspero centro costeiro de Israel, consolidando cidades como Telavive como “mecas” do cosmopolitismo europeu – “uma Villa na selva”, como disse Barak.

Com a transição política de pós-Oslo, partidos da direita ascendente assumiram como sua missão concluir o serviço que os Trabalhistas haviam começado. Em 2009, quando Israel elegeu o governo mais linha-dura e reacionário de toda sua história, o país continuava cheio de “infiltradores”, os mais visíveis dos quais são aqueles migrantes africanos, sem papéis que lhes permitam trabalhar, e cada dia mais forçados a dormir pelas praças em Telavive.

Segundo matéria publicada no jornal Haaretz,sobre pesquisa recentíssima feita pelo Israel Democracy Institute, sobre atitudes dos israelenses;
Eli Yishai

(...) os árabes já não aparecem no topo da lista de vizinhos que os israelenses consideram indesejáveis, substituídos hoje por trabalhadores estrangeiros. Quase 57% de respondentes judeus disseram que se sentiriam incomodados se tivessem, como vizinhos, trabalhadores estrangeiros.

Sem se deixarem conter pelas declarações de tolerância da centro-esquerda, a direita do governo lançou um festival sem precedentes de incitamento ao racismo.

O Ministro do Interior, Eli Yishai do Partido Shas (substituído depois da eleição de 2013), por exemplo, descreveu os migrados africanos que buscam asilo comoinfectados por inúmeras doençase lamentou que “não saibam que o país nos pertence, a nós, os brancos”. E prometeu: “Até eu posso deportá-los. Meto-os na cadeia e faço da vida deles, um inferno”.

Miri Regev
Num comício em maio de 2012, em Telavive, contra os africanos, no palanque, diante de mais de mil manifestantes, a deputada e ex-porta-voz do exército de Israel, Miri Regev disse: “Os sudaneses são um câncer no nosso corpo!”. E incitou centenas de manifestantes que, em blocos, vandalizaram estabelecimentos comerciais de propriedade de negros e atacaram com paus e pedras os negros que encontrassem. Os judeus israelenses racistas cantavam “Nosso povo quer queimar os africanos!”.

Como em outros momentos terríveis da história humana, os clamores eliminacionistas florescem em centros urbanos, contra uma classe de estigmatizados, e abre espaço para discursos a favor da purificação étnica ou racial. Na noite seguinte, depois dos vidros quebrados, as celas de Saharonim receberam ainda mais prisioneiros. (...)




[*] Max Blumenthal, nascido em Boston em 18/12/1977, é jornalista, blogueiro e autor do best-seller Republican Gomorrah: Inside the Movement That Shattered the Party. Produziu vários documentários que podem ser assistidos no YouTube e muitos websites. Foi colunista sênior doThe Daily Beast. Trabalha atualmente na organização progressista Media Matters for America. Mantém o website MaxBlumenthal.com.