segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Discurso do presidente do Irã, Hassan Rouhani, à 68ª Assembleia Geral da ONU

24/9/2013, no blog de Paul Craig Roberts
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Agora, comparem a decência humana do discurso do presidente do Irã e as 45 mentiras do discurso de ObamaPaul Craig Roberts.


Presidente do Irã, Hassan Rouhani, discursa na 68ª Assembleia Geral da ONU
Sr. Presidente, Sr. Secretário-geral, Autoridades presentes, Senhoras e Senhores

De início, quero apresentar minhas muito sinceras felicitações por sua merecida eleição à presidência da Assembleia Geral, e aproveito o momento para manifestar meu apreço pelos valiosos esforços de nosso ilustre secretário-geral.

Nosso mundo está hoje repleto de medo e de esperança; medo da guerra e das relações regionais e globais hostis; medo da mortal confrontação entre religiões, etnias e identidades nacionais; medo da institucionalização da violência e do extremismo; medo da pobreza e da discriminação destrutiva; medo da exaustão e da destruição de recursos indispensáveis à vida; medo do desrespeito à dignidade e aos direitos humanos; e medo da desatenção à moralidade na vida. Mas, ao lado desses medos, há novas esperanças; a esperança de que povos e elites em todo o mundo comecem a dizer “sim à paz e não à guerra”; e a esperança de que prevaleça o diálogo, sobre o conflito; e a moderação, sobre o extremismo.

As recentes eleições no Irã são exemplo vivo, claro, de uma opção pela esperança, pela racionalidade e pela moderação, declarada pelo grande povo iraniano. A realização da democracia consistente com a religião, e a transferência pacífica do poder executivo, mostram que o Irã é a âncora de estabilidade no que, sem o Irã, seria um oceano de instabilidades regionais. A firme crença de nosso povo e de nosso governo, numa paz duradoura, na resolução de disputas com estabilidade, tranquilidade e em paz, e a confiança absoluta nas urnas como base do poder, da legitimidade e da confiança do povo, sem dúvida desempenharam papel chave, para criar o ambiente de segurança em que vive o Irã.

Sr. presidente, senhoras e senhores,

O atual período crítico de transição nas relações internacionais é repleto de perigos, mas traz também oportunidades únicas. Qualquer erro de cálculo na posição de um, e também, é claro, na posição dos outros, determinará danos históricos; um erro de um ator terá impacto negativo sobre todos os demais. A vulnerabilidade é agora fenômeno global e indivisível.

Nessa conjuntura sensível, na história das relações globais, a era dos jogos de soma zero é passado, embora alguns poucos atores ainda tendam a confiar em meios arcaicos e profundamente ineficazes para tentar preservar velhas superioridade e dominação. O militarismo e o recurso à violência e a meios militares para subjugar, são exemplos falhados da perpetuação de vias antiquadas, em circunstâncias novas.

Políticas e práticas econômicas coercitivas, e políticas e práticas militares orientadas para manter e preservar antigas superioridades e velhas dominações foram insistentemente tentadas num quadro conceitual que renega a paz, a segurança, a dignidade humana e todos os mais altos ideais humanos. Ignorar as diferenças entre as sociedades e pretender globalizar valores ocidentais como se fossem universais é mais uma manifestação desse mesmo quadro mental conceitual. Mais um reflexo do mesmo modelo cognitivo é a persistência de uma mentalidade de Guerra Fria, com o mundo dividido em dois polos: ou “nós-superiores” ou “outros-inferiores”. Estimular o medo e as fobias em torno de cada novo ator que surja no cenário mundial, é mais um desses reflexos do mesmo quadro mental antiquado.

Nesse ambiente, cresceu a violência governamental e não governamental, religiosa, étnica e até racial, e não há garantia de que a era de calma entre as grandes potências permaneça imune aos discursos, práticas e ações violentas. O impacto catastrófico de narrativas violentas e extremistas não pode – de fato, não deve – ser subestimado.

Nesse contexto, a violência estratégica, que se vê manifesta nos esforços para privar atores regionais de seu domínio natural da ação, nas políticas de contenção, de mudança de regime feita de fora para dentro, e nos esforços para redesenhar fronteiras políticas, é extremamente perigosa e provocadora.

O discurso político internacional prevalente pinta um centro civilizado cercado por periferias não civilizadas. Nesse quadro, a relação entre o centro do poder do mundo e as periferias é hegemônica. O discurso que põe o Norte no centro do palco e relega o Sul à periferia levou a estabelecer-se um monólogo no plano das relações internacionais. A criação de distinções identitárias ilusórias e as formas violentas de xenofobia hoje prevalecentes são o resultado inevitável daquele discurso. Discursos de propaganda de fobias antirreligião, sem qualquer fundamento, islamofóbicos, xiitofóbicos e iranofóbicos são ameaças reais e graves contra a paz mundial e a segurança humana. 

Esse discurso propagandístico assumiu proporções perigosas mediante a criação e a inculcação de presumidas ameaças imaginárias. Uma dessas ameaças imaginárias é a chamada “ameaça iraniana” – que tem sido empregada como pretexto para justificar um longo catálogo de crimes e de práticas catastróficas ao longo dos últimos 30 anos. Que o exército de Saddam Hussein tenha sido armado com armas químicas, e que os Talibã e a al-Qaeda tenham recebido apoio, são apenas dois exemplos dessas catástrofes.

Permitam-me que diga, com toda a franqueza, diante dessa ilustre assembleia mundial e baseado em provas irrefutáveis, que os que criaram e elaboram sobre a dita “ameaça iraniana” são, ou uma ameaça à paz internacional e à sua própria segurança, ou promotores dessas ameaças.

O Irã absolutamente não é ameaça alguma nem ao mundo, nem à região. De fato, tanto nos ideais quanto em sua prática real, meu país tem sido como sentinela avançada de paz com justiça e de ampla segurança.

Sr. presidente, senhoras e senhores,

Em nenhum outro lugar do mundo a violência tem sido tão mortal e tão destrutiva como no norte da África e no oeste da Ásia. Intervenção militar no Afeganistão, a guerra que Saddam Hussein impôs ao Irã, a ocupação do Kuwait, intervenções militares contra o Iraque, a repressão brutal contra o povo palestino, o assassinato de pessoas comuns e de figuras políticas no Irã, e atentados terroristas à bomba em países como o Iraque, o Afeganistão e o Líbano são exemplos da violência nessa região, nas últimas três décadas.

O que foi – e continua a ser feito – contra o povo inocente da Palestina é nada menos que violência estrutural. A Palestina vive sob ocupação; os direitos básicos dos palestinos são tragicamente violados, e eles vivem privados do direito de retornar e viver em suas próprias casas, em sua própria terra e na própria pátria. Apartheid, como conceito, é pouco, para descrever os crimes e a agressão institucionalizada contra o inocente povo palestino.

A tragédia humana na Síria é doloroso exemplo da disseminação catastrófica da violência e do extremismo em nossa região. Desde o início da crise e quando alguns atores regionais e internacionais ajudaram a militarizar a situação pela distribuição de armas e inteligência para dentro do país, e pelo apoio ativo a grupos extremistas, já chamávamos a atenção para a evidência de que não há solução militar para a crise síria. Perseguir estratégias e objetivos expansionistas e atentados para mudar o equilíbrio regional mediante terceiros não são movimentos que se possam camuflar por trás de retórica humanitária.

O objetivo comum da comunidade internacional deve ser pôr fim rápido na matança de inocentes. Sempre condenando qualquer uso de armas químicas, recebemos como bem-vindo o movimento da Síria de aceitar a Convenção sobre Armas Químicas, e acreditamos que o acesso a essas armas, por grupos extremistas, é o maior perigo para toda a região, e que tem de ser considerado em qualquer plano de desarmamento. Simultaneamente, tenho de destacar que a ameaça ilegítima e ineficaz de usar a força só levará a exacerbar ainda mais a violência e a crise na região.

O terrorismo e a matança de inocentes são a culminação da desumanidade do extremismo e da violência. O terrorismo é monstruosidade violenta e não conhece país ou fronteiras nacionais. Mas a violência e ações extremas, como o uso de drones contra inocentes em nome de combater o terrorismo, também têm de ser condenadas.

Aqui, devo também acrescentar uma palavra sobre o criminoso assassinato de cientistas nucleares iranianos. Foram assassinados por quais crimes? A ONU e o Conselho de Segurança têm de responder a pergunta: os que perpetraram aqueles crimes foram condenados?

Sanções injustas, que também são manifestação de violência estrutural, são intrinsecamente desumanas e são ação contra a paz. E, ao contrário do que dizem os que as pregam e impõem, os alvos não são nem os estados nem a elite política, mas, isso sim, o povo comum; ele é a principal vítima dessas sanções. Não esqueçamos os milhões de iraquianos que, por causa de sanções mascaradas sob o jargão jurídico internacional, perderam e continuam a perder a vida; e dos muitos mais que continuam a sofrer ao longo do que lhes reste de vida.

Essas sanções são violência pura e simples, que se as chamem de espertas, inteligentes, unilaterais ou multilaterais. Essas sanções violam direitos humanos inalienáveis, dentre outros o direito à paz, a lutar pelo desenvolvimento, pelo direito de acesso à saúde e à educação e, sobretudo, violam o direito à vida. Essas sanções, além de toda e qualquer retórica, são causa de beligerância, de pregação pró-guerra e de sofrimento humano.
Devem todos ter em mente, além do mais, que o impacto negativo dessas sanções não se limita apenas às vítimas às quais as sanções visam; ele afeta também a economia e a vida de outros países e sociedades – inclusive dos países que imponham as sanções.

Senhor presidente, autoridades,

Hoje, a violência e o extremismo já foram muito além do âmbito físico e desgraçadamente já agridem as dimensões mental e espiritual da vida em sociedades humanas. A violência e o extremismo não deixam espaço para a compreensão, o entendimento e a moderação, como pilares necessários da vida coletiva dos seres humanos na sociedade moderna. A intolerância é a praga de nosso tempo.

Precisamos promover e reforçar a tolerância à luz dos ensinamentos religiosos e de abordagens culturais e políticas adequadas. A sociedade humana tem de elevar-se, de um estado de mera tolerância ao estado de colaboração coletiva. Não basta apenas tolerar os outros. Temos de nos elevar acima da mera tolerância, e ousar trabalhar juntos.

Os povos de todo o mundo estão cansados de guerras, de violência, de extremismo. Esperam e anseiam por mudança no status quo. E temos agora uma oportunidade única – para todos nós. A República Islâmica do Irã acredita que todos os desafios podem ser geridos – com bom sucesso – mediante uma mistura judiciosa, inteligente, generosa, de esperança e moderação. Os pregadores de guerras trabalham para matar toda a esperança. Mas esperar pelo melhor é conceito universal, inato, religioso, disseminado em toda a humanidade.

A esperança é fundada no desejo universal do povo do mundo de combater a violência e o extremismo, de procurar mudanças, de opor-se a estruturas impostas, de valorizar o direito de escolher e de agir conforme a responsabilidade humana. A esperança é, sem dúvida, uma das maiores dádivas derramadas sobre os seres humanos por seu Bem-Amado Criador. E moderação é pensar e movimentar-se com sabedoria, de modo judicioso, consciente do tempo e do espaço, e alinhar os mais elevados ideais com a seleção de estratégias e políticas efetivas, sem perder de vista as realidades objetivas.

O povo iraniano, em escolha judiciosamente sóbria nas recentes eleições, votou a favor do discurso da esperança, da visão ampla e da moderação prudente – tanto em casa, como para o mundo.

Na política externa, a combinação desses elementos significa que a República Islâmica do Irã, como potência regional, agirá responsavelmente no que tenha a ver com a segurança regional e internacional, e está desejosa de, e preparada para, cooperar nesses campos, tanto bilateralmente quanto multilateralmente, com outros atores responsáveis.

Defendemos a paz baseada na democracia e a urna, em todos os casos, inclusive na Síria, no Bahrain e em outros países da região, e entendemos e cremos que não há solução de violência para as crises mundiais. As amargas e feias realidades da sociedade humana só podem ser superadas mediante o recurso à sabedoria humana, à interação e à moderação.

Garantir a paz e a democracia, e assegurar os direitos legítimos de todos os povos do mundo, também no Oriente Médio, não são metas que se alcancem – nem jamais serão alcançadas – com militarismo.

O Irã procura resolver problemas, não criá-los. Não há questão ou dossiê de problemas que não possam ser resolvidos se se opera com esperança e moderação prudente, com respeito mútuo, com absoluta rejeição à violência e ao extremismo. O dossiê nuclear iraniano é exemplo disso.

Como disse claramente o Líder da Revolução Islâmica, aceitar o direito inalienável do Irã é a melhor via, o caminho mais fácil para resolver essa questão. Isso não é retórica política. O que aí se declara baseia-se no reconhecimento profundo do estado da tecnologia iraniana, do ambiente político global, do fim da era dos jogos de soma zero, e o imperativo de buscar objetivos e interesses comuns na direção de alcançar compreensão comum e segurança partilhada. Dito de outro modo, o Irã e outros atores devem visar a dois objetivos comuns, como duas partes mutuamente inseparáveis de uma solução política para o dossiê nuclear do Irã.

O programa nuclear do Irã – e, quanto a isso, o de todos os demais países – tem de visar exclusivamente a finalidades pacíficas. Declaro aqui, aberta e bem claramente, que, independente do que pensem e façam outros, esse é e sempre foi e sempre será o objetivo da República Islâmica do Irã. Armas nucleares e outras armas de destruição em massa não têm lugar na doutrina de segurança e defesa do Irã, e contradizem nossas convicções religiosas e éticas fundamentais. Os nossos interesses nacionais obrigam, tornam imperativo, que removamos completamente toda e qualquer preocupação racional relativa ao programa nuclear iraniano, que tem finalidades exclusivamente pacíficas.

O segundo objetivo, a saber, que aceitem e respeitem a implementação do direito de enriquecer [urânio] em território do Irã, e o usufruto de outros direitos nucleares correlatos, é a única via para que se alcance o primeiro objetivo. O conhecimento nuclear já está internalizado no Irã, e a tecnologia nuclear, inclusive de enriquecimento [do urânio], já alcançou escala industrial. É pois ilusório, e extremamente fantasioso, presumir que a natureza pacífica do programa nuclear iraniano estaria ‘garantida’, se todo o programa fosse bloqueado por medidas ilegítimas.

Nesse contexto, a República Islâmica do Irã, insistindo na implementação de seus direitos e no imperativo do respeito e da cooperação internacionais para que sejam exercidos, está preparada para engajar-se imediatamente em conversações orientadas para resultados e com cronograma claro, para construir confiança mútua e remover as incertezas, dos dois lados, em total transparência.

O Irã busca engajamento construtivo com outros países, baseado no respeito mútuo e no interesse comum, e, nesse mesmo quadro, não deseja aumentar as tensões com os EUA.
Ouvi cuidadosamente a fala do presidente Obama, hoje, à Assembleia Geral. Conforme o desejo político da liderança dos EUA, e esperando que eles consigam impedir-se de seguir os interesses de visão curta dos grupos que pressionam a favor de mais guerras, podemos chegar a um quadro que nos permita administrar nossas diferenças.

Para tanto, condições de igualdade, respeito mútuo e os princípios reconhecidos da lei internacional devem comandar as interações. E, claro, esperamos ouvir uma voz consistente, de Washington.

Sr. presidente, senhoras e senhores

Nos anos recentes, uma voz dominante fez-se ouvir repetidamente: “A opção militar está sobre a mesa”. Contra o pano de fundo dessa contenção ilegal e ineficaz, permitam-me dizer alto e claro que “a paz está ao nosso alcance”.

Assim, em nome da República Islâmica do Irã, proponho à consideração da ONU, como primeiro passo, o projeto “o Mundo Contra a Violência e o Extremismo” [orig. “the World Against Violence and Extremism (WAVE)”]. Que todos nos unamos nessa “WAVE” [onda].

Convido todos os estados, organizações internacionais e instituições civis a empreender um novo esforço para guiar o mundo nessa direção. Devemos começar por pensar uma “Coalizão pela Paz Duradoura” em todo o globo, em vez das sempre ineficazes “Coalizões para a Guerra” em várias partes do mundo.

Hoje, a República Islâmica do Irã convida todos, toda a comunidade mundial a dar um passo adiante; é um convite para que todos se unam no projeto WAVE: World Against Violence and Extremism [ONDA: o Mundo contra a Violência e o Extremismo]. Devemos todos aceitar o convite, para abrir um novo horizonte, no qual a paz prevalecerá sobre a guerra; a tolerância, sobre a violência; o desenvolvimento, sobre o derramamento de sangue; a justiça, sobre a discriminação; a prosperidade, sobre a pobreza; e a liberdade, sobre o despotismo. Como disse belamente Ferdusi [1], o renomado poeta épico iraniano:

Sê incansável na causa do Bem. Tens de trazer a primavera. O dever? Banir o inverno. [2]

Apesar de todas as dificuldades e desafios, estou profundamente otimista quanto ao futuro. Não tenho dúvidas de que o futuro será radiante, com todo o mundo rejeitando solidamente a violência e o extremismo. Moderação prudente garantirá belo futuro para o mundo. Minha esperança, além de advir de minha experiência pessoal e nacional, emana também da crença partilhada entre todas as religiões divinas de que há um futuro bom e luminoso à espera do mundo. Como ensina o Santo Corão:

Prescrevemos nos Salmos, depois da Mensagem (dada a Moisés), que a terra, herdá-la-ão os Meus servos virtuosos (21:105). [3] 



__________________________

Notas dos tradutores
[1] Ferdusi (c.940-c. 1020).
[2] Inglês, Be relentless in striving for the cause of Good / Bring the spring, you must, Banish the winter, you should(tradução de trabalho, sem valor literário, só para ajudar a ler).
[3] Alcorão em português, do Centro Cultural Beneficente Árabe Islâmico de Foz do Iguaçu, tradutor Samir El Hayek, São Paulo, 1415 H. 1994 d.C.



terça-feira, 24 de setembro de 2013

O segredo do gaz israelita


Historicamente, foram os pesquisadores israelitas de armas químicas e biológicas que forçaram a Síria a rejeitar a Convenção interditando as armas químicas. É por isso que a assinatura por Damasco deste documento arrisca fazer luz sobre a existência, e eventualmente sobre a continuação, de pesquisas sobre as armas destinadas a matar unicamente as populações árabes.

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O doutor Wounter Basson, aquando do seu segundo processo, em 2011. Ele dirigiu o programa secreto de pesquisas, em armas químicas e bacteriológicas, conduzido conjuntamente por Israel e a África do Sul do apartheid, de 1985 a 1994.
Os médias (mídia-Br) ocidentais parecem estupefactos da reviravolta dos Estados Unis face à Síria. Enquanto anunciavam todos, há duas semanas, uma campanha de bombardeamentos e a queda inevitável do « regime », ficaram agora sem voz diante do recuo de Barack Obama. Era no entanto previsível que, como eu o escrevia nestas colunas, o envolvimento de Washington na Síria não tenha mais móbil estratégico de importância. A sua política atual é, sobretudo, guiada pelo cuidado de conservar o seu estatuto de única hiper-potência.
Levando à letra aquilo que, a princípio, não era mais que uma “boutade” (piada,ndT) de John Kerry, e propondo assim a adesão da Síria à Convenção sobre a interdição de armas químicas, Moscovo satisfez a retórica de Washington, sem que aquela tenha que fazer mais uma guerra em período de crise econômica  Os Estados Unidos conservam em teoria o seu estatuto, mesmo se todos vêem bem que é agora a Rússia que dirige o jogo.
As armas químicas têm dois usos : ou militar, ou para exterminar uma população. Elas foram utilizadas aquando das guerras de trincheiras, da Primeira Guerra mundial à agressão iraquiana contra o Irão, mas elas não servem para nada nas guerras modernas, onde a frente (front-Br) está sempre em mudança. Foi pois com alívio que 189 Estados assinaram a Convenção interditando-as, em 1993 : podiam assim desembaraçar-se de stocks (estoques-Br) perigosos e inúteis, cuja guarda lhes ficava onerosa.
Um segundo uso é o extermínio de populações civis, antes da colonização do seu território. Assim foi em 1935-36, A Itália fascista conquistou uma larga parte da Eritreia eliminando a sua população com gaz mostarda. Nesta perspectiva colonial, de 1985 a 1994, Israel financiou secretamente as pesquisas do doutor Wouter Basson no laboratório de Roodeplaat (África do Sul). O seu aliado, o regime de apartheid, procurava aí desenvolver substâncias, químicas e sobretudo biológicas, que só eliminariam os indivíduos segundo as suas « características raciais »(sic), quer se tratasse de Palestinos em particular, e Árabes em geral, ou de pessoas de pele negra. A Comissão Verdade e Reconciliação não conseguiu determinar os resultados obtidos por este programa, nem do que lhes sucedeu. No conjunto ela mostrou a implicação neste vasto projeto secreto dos Estados Unidos e da Suiça. Ficou demonstrado que vários milhares de pessoas foram mortas como cobaias do doutor Basson.
Se se compreende as razões pelas quais nem a Síria, nem o Egipto assinaram, em 1993, a Convenção, a oportunidade oferecida a Damasco por Moscovo de a subscrever actualmente é um bónus : não sómente ela põe fim à crise com os Estados Unidos e a França, mas permite-lhe também desembaraçar-se de stocks inúteis, que se tornaram cada vez mais difíceis de defender. Sendo prático, o presidente el-Assad frisou que a Síria agia a pedido da Rússia e não sob a pressão dos Estados Unidos ; uma maneira elegante de sublinhar a responsabilidade de Moscovo na proteção futura do país, num eventual ataque químico israelita.
Com efeito, a colónia judia da Palestina nunca ratificou a Convenção. Esta situação poderá rápidamente tornar-se um fardo político para Telavive. Foi por isso que John Kerry para lá se dirigiu hoje, domingo, para discutir o assunto com Benjamin Netanyahu. Se o Primeiro-ministro do último Estado colonial for hábil, deverá agarrar a ocasião para anunciar que o seu país reconsiderará a questão. A menos, claro, que Wouter Basson tenha encontrado gazes étnicamente selectivos e que os falcões israelitas continuem a pensar utilizá-los.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Falluja /Iraque : POR QUE É UMA CIDADE PROIBIDA?

A SITUAÇÃO LÁ É PIOR DO QUE EM HIROSHIMA E NAGASAKI

O que os Estados Unidos não querem que a gente saiba? Por que não permitem que se realize nenhuma medição dos níveis de radiação e por que, inclusive, proibiram à Agência Internacional de Energia Atômica de entrar em Falluja? O que se passou exatamente lá? Que tipo de bombas os Estados Unidos utilizaram nesta cidade do Iraque? Foi só urânio empobrecido, ou teve algo mais?
O que os EEUU e seus fantoches iraquianos não querem que a gente saiba?
Acabo de ver, na o-Jazeera Arabic, no programa de Ahmad Mansour a entrevista com o Professor Chris Dusby.
O Professor Busby é cientista e Diretor de Green Audit, bem como secretário científico do ComitÊ Europeu sobre Riscos Radioativos.
Para conhecer mais dados sobre o Professor Chris Busby e seus trabalhos, digitem em Google “Chris Busby Uranium“.O Professor Busby publicou muitos artigos sobre a radiacão, o urânio e a contaminação em países tais como Líbano, Kosovo, Gaza e, por suposto, Iraq.
Seus últimos trabalhos, são os temas que se ocupou o programa emitido na Al Jazeera, e serão os que eu abordarei nestas linhas:

Faluya é uma cidade proibida. Foi submetida a intenso bombardeios em 2004 com bombas de urânio empobrecido e fósforo branco, e desde então declararam-na zona perigosa, o que significa que nem as autoridades fantoches de Iraque nem as forças invasoras/ocupantes de EEUU permitem que ninguém possa realizar nenhum estudo real do que ali sucede.

Faluya está basicamente sob assédio. É óbvio que os estadunidenses e os iraquianos sabem algo e que tratam do ocultar ao conhecimento público. E aí é o­nde o Professor C. Busby entra em cena.

Mas ele foi/é inflexível na busca da verdade do que ocorreu em Faluya em 2004. Por ser um dos melhores cientistas em seu campo, conseguiu uma pesquisa e passou a dirigir uma investigação em Faluya, cujos resultados preliminares publicar-se-ão em duas semanas, confio…

O Professor Busby encontrou muitos obstáculos para poder levar a cabo este projeto. Nem ele nem nenhum membro de sua equipa se lhes permitiu aceder a Faluya para realizar as entrevistas. Mas ele disse que quando a porta principal se fecha, um tem que tentar que outras portas se abram. E isto foi o que fez. Conseguiu reunir uma equipa de iraquianas de Faluya para que dirigissem as entrevistas por ele.

O projeto de investigação baseou-se em 721 famílias de Faluya com 4.500 participantes, que viviam tanto em zonas nível de radiação alto como baixo. Os resultados compararam-se com um grupo de controle: uma mostra composta pelo mesmo número de famílias que vivem numa zona não radiativa em outro país árabe. Para o estudo, elegeu outros três países para levar a cabo tal comparação: Kuwait, Egito e Jordânia.

Antes de entrar nos resultados preliminares, devo assinalar o seguinte:
As autoridades iraquianas ameaçaram a todos os participantes desta investigação com prisões e detenções se cooperassem em participar das entrevistar. Isto é, ameaçou àqueles que respondessem aos terroristas com leis anti-terroristas.

As forças estadunidenses proibiram ao Dr. Busby que recolhesse qualquer dado, sustentando que Faluya é uma zona insurgente.

Os doutores de Faluya recusaram sair ao vivo no programa de Ahmad Mansour porque tinham recebido ameaças de morte e temiam por suas vidas.

Isto é, o estudo levou-se a cabo em condições muito difíceis e com ameaças de morte. Não obstante, seguiu-se adiante.

Como não se tem descargado o programa em Youtube, não posso transcrever a entrevista palavra por palavra. Tomei breves notas a mão e memorizei o resto. Mas farei o melhor para apresentar todos os fatos que se relataram hoje.

O que os EEUU e seus fantoches iraquianos não querem que a gente saiba?
E por que não permitem que se realize nenhuma medição dos níveis de radiação em Faluya e por que, inclusive, proibiram à Agência Internacional de Energia Atômica que entre em Faluya?
O que se passou exatamente em Faluya?
Que tipo de bombas utilizaram?
Foi só urânio empobrecido ou teve algo mais?
Um aspecto que é muito característico de Faluya é que os índices de câncer têm aumentando de forma espetacular num espaço muito curto de tempo desde 2004. Exemplos oferecidos pelo Dr. Busby:
· O índice de leucemia infantil é 40 vezes mais alto desde 2004, que em anos anteriores. E comparado com Jordânia, por exemplo, é 38 vezes mais alto.
· A taxa de câncer de mama é 10 vezes superior à de 2004.
· A taxa de câncer linfático é também 10 vezes maior desde 2004.
Outra peculiaridade de Faluya é o imenso aumento nas taxas de mortalidade infantil. Comparadas com outros dois países árabes como Kuwait e Egito, que não têm contaminação radiativa, estas são as cifras:
A taxa de mortalidade infantil em Faluya é de 80 meninos em cada mil nascidos, em comparação com Kuwait, o­nde se dá a cifra de 9 em cada mil e no Egito é de 19 em cada mil (por tanto, a taxa de mortalidade infantil iraquiana é quatro vezes mais alta que a do Egito e nove vezes mais alta que do Kuwait).

A terceira peculiaridade de Faluya é a cifra de deformidades genéticas que tem aumentado desde 2004. Esta é uma questão que já me referi no passado. Mas hoje aprendi algo mais. A radiação com qualquer dos agentes utilizados pelas “forças de libertação” não só causa deformidades genéticas em massa senão também e isto é muito importante:
· Causa mudanças estruturais a nível celular.
· O que por sua vez provoca, devido à composição genética dos bebes masculinos (carência do cromossomo X), que os meninos corram maior risco de morte, enquanto é mais provável que as meninas sobrevivam ainda que com deformidades graves.

E há outro exemplo oferecido pelo Dr. Busby:
Antes de 2003, as taxas de nascimento em Faluya eram as seguintes: 1.050 meninos em frente a 1.000 meninas. Em 2005, só nasceram 350 meninos em frente a 1.000 meninas, o que significa que os bebes meninos não estão a sobreviver.

Quanto às meninas e aí é o­nde a tragédia aumenta… a radiação causa mudanças a nível de DNA, o que significa que essas mesmas meninas, se conseguirem sobreviver e se reproduzem-se mais tarde, darão a luz meninas geneticamente deformadas e meninos mortos.
Os dados expostos apoiam-se em outros estudos realizados com meninos e netos dos sobreviventes de Hiroshima (no ano de 2007), que mostram que inclusive a terceira geração apresenta malformações genéticas, incluídas diversas doenças (câncer, cardíacas, etc…) numa proporção 50 vezes superior.
Por outra parte, em Chernobyl, os estudos realizados com os animais nessa área mostraram que os efeitos da radiação modificaram geneticamente 22 gerações.

Em resumem, a radiação transmite-se de gene a gene e tem uma efeito acumulativo com o tempo (não vou entrar aqui em como essas células se acumulam e guardam memória e afetam ao sistema imunológico).

(Poderão ler mais detalhes sobre o tema uma vez que se publique o documento do professor Busby.)
Algumas das deformidades que apresentam os bebes são tão grotescas que tanto Al -Jazeera como a BBC, que produziram um documentário sobre o mesmo tema, se negaram a mostrar as fotos a seus telespectadores. Os exemplos de deformidades dos que Ahmad Mansour tem fotografias são:
Bebês nascidos sem olhos.
Bebês nascidos com dois e três cabeças.
Bebês nascidos sem orifícios.
Bebês nascidos com tumores malignos no cérebro e nos olhos.
Bebês nascidos sem determinados órgãos vitais.
Bebês aos que lhes faltam extremidades ou têm mais das normais.
Bebês nascidos sem genitais.
Bebês nascidos com malformações cardíacas.
E mais casos ainda…

Sobre esse mesmo assunto, com motivo do estudo, pediu-se-lhes aos doutores de Faluya que indicassem as taxas de defeitos de nascimento no espaço de um mês e que o comparassem com o mês anterior e este é o resultado:

No espaço de só um mês, os nascimentos com defeitos aumentaram de um por dia (no mês anterior) para três por dia (no mês objeto do estudo, que foi o de fevereiro de 2010).
O urânio transmite-se a corrente sanguínea através da ingestão e a inalação. Se estudou e se controlou, também, o nível em massa de urânio encontrado nas pessoas de Faluya, devido ao aumento vertiginoso de gânglios linfáticos e pulmonares e câncer de mama em adultos.
Com estes achados preliminares, o Professor Busby e sua equipa chegaram à conclusão de que, em comparação com Hiroshima e Nagasaki, a situação de Faluya era pior.
E aqui cito textualmente ao Dr. Busby: “A situação em Faluya é terrível e horrenda, é mais perigosa e pior que a de Hiroshima …”
Por outra parte, e muito relacionado com o anterior, mencionei que estes são resultados preliminares, por que?

Porque o Professor Busby foi perseguido e os fundos da pesquisa foram cortados, fundos necessários para a investigação, deram-lhe com muitas portas no nariz, ameaçaram-lhe (o mesmo se passou com outros cientistas que tentaram levar a cabo estudos similares na década dos noventa em Iraque) e a comunidade científica lhe abandonou, todo isso devido à natureza de seu trabalho em Iraque.
Os envolvimentos políticos são enormes e perigosos para EEUU e seus aliados. Significa que as provas científicas de crimes de guerra estão aí, ao nosso alcance…


A vida do Professor Busby converteu-se em algo cheio de dificuldades.
Enviou à revista Lancet o documento de investigação que tantas penas lhe custou dirigir e elaborar para que o revisassem a nível de Comitê científico, mas Lancet devolveu-lhe dizendo que não tinham tempo do revisar.

Os laboratórios que cooperaram no passado para examinar as mostras, as recusaram quando souberam que vinham de Iraque. Só dois laboratórios estiveram dispostos a examinar as mostras do AGENTE/MATERIAL EXATO UTILIZADO EM FALUYA, e foi só em função de um preço exorbitante, preço justificado pela causa da natureza sensível do estudo. Também devido à carência de fundos, o Professor Busby tem 20 mostras de Faluya para examinar, que guarda zelosamente, esperando receber os fundos necessários para poder faze-lo.


Quando Ahmad Mansour, o entrevistador, lhe perguntou sobre o que lhe fazia perseverar ante os enormes obstáculos enfrentados, sua resposta foi esta: “Durante toda minha vida não fiz senão procurar a Verdade, sou um caçador da Verdade numa selva de mentiras. Também tenho filhos. Os filhos não são só nosso futuro, são os transmissores das gerações futuras. Levamos cinqüenta anos contaminando o planeta (com radiações) e essa é a herança que estamos transmitindo a nossos filhos e netos. Devemos isso ao povo de Faluya, temos que encontrar a Verdade.”

Quando perguntou como consegue se arranjar sem fundos e com todas as portas se fechando para ele, sua resposta foi:

“Confio na boa vontade da gente que envia pequenas somas por aqui e por lá, e também creio firmemente que se uma porta se fecha, outras se abrem, ainda que sejam mais pequenas. Quando há vontade para fazer algo, se encontra algum caminho.”

Tiro o chapéu para o Professor Busby. Insto a todas as pessoas que envie este escrito, a toda a gente de consciência, insto a todos para que contatem com o Professor Busby e doem-lhe o que possam para que as mostras de Faluya sejam examinadas e possa se descobrir a Verdade. E acabarei estas linhas com uma cita final deste grande homem lutador:“A Verdade tem umas asas que ninguém pode cortar”

Tenho que acabar aqui. Já está amanhecendo. Queria mostrar isto ao mundo… a pergunta que me levo à cama, se é que posso fechar os olhos, é a mesma que me estou a fazer desde 2003, por que? Que fez o povo iraquiano, que fizeram os meninos iraquianos para merecer todo isso…? As conseqüências são aterradoras…
URL del artículo : http://www.cubadebate.cu/noticias/2010/07/08/faluya-peor-que-hiroshima-video/

"Rompa el aislamiento. Vuelva a sentir la satisfacción moral de un acto de libertad...Haga circular esta información".
Rodolfo Walsh
Postado: http://old.kaosenlared.net/noticia/faluja-pior-que-hiroshima

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Entrevista com o Presidente Bashar al-Assad da Síria em 13/9/2013

13/9/2013, Entrevista ao canal Rossiya-24 TV (vídeo em russo)
Entrevista traduzida da transcrição em inglês pelo pessoal da Vila Vudu


Rossiya-24: Senhor presidente, obrigado por receber o canal Rossiya-24. Para começarmos com a pergunta mais importante: por que a Síria concordou com a iniciativa da Rússia de pôr armas químicas sob controle internacional, e por que se chegou tão rapidamente a esse acordo?

Presidente Bashar al-Assad: A Síria já apresentara essa proposta à ONU há mais de dez anos – para livrar a região do Oriente Médio de armas de destruição em massa, especificamente, porque essa é região caracterizada por instabilidades e guerras que, algumas, duraram anos. Tudo isso começou há séculos.

Remover daqui todas as armas de destruição em massa teria impacto importante para estabilizar a região. Só os EUA opuseram-se à nossa proposta. Não gostamos de saber que há armas de destruição em massa no Oriente Médio. Sempre nos interessou mais a estabilidade e a paz na região.

Esse é um lado. O outro lado da questão tem a ver com a situação atual. Não há como não ver que o estado sírio tem empreendido todos os esforços para impedir que nosso país e outros países da região sejamos arrastados para outra guerra insana, que alguns dos que pregam guerra nos EUA querem desencadear no Oriente Médio.

Até hoje, os sírios pagamos o preço por guerras que os EUA fizeram, por exemplo no Afeganistão – mesmo sendo país distante da Síria – ou no Iraque, que está aí, num país aqui bem próximo.

Minha opinião é que qualquer guerra contra a Síria afetará muito negativamente toda a região, com o Oriente Médio inteiro empurrado para décadas de instabilidade e de problemas. Haverá guerra até para as nossas futuras gerações.

A terceira razão pela qual nos interessa a proposta que volta, agora, com os russos, e a mais importante, é a própria proposta. Não tivesse havido agora essa iniciativa, seria muito difícil para a Síria, só ela, obter o mesmo resultado e caminhar nessa direção. Nossas relações com a Rússia são construídas a partir de mútua confiança, e essa confiança só cresceu durante a crise síria, nos últimos dois anos e meio. A Rússia confirmou que merece a confiança dos sírios, por suas ações. Mostrou que tem compreensão clara sobre o que está acontecendo em nossa região. A Rússia fez prova de que é confiável, provou que é governo sério, no qual se pode confiar.

Por todas essas razões, a Síria aceitou assinar a Convenção para Proibição de Armas Químicas.

Rossiya-24: O presidente dos EUA, Sr. Obama, e o secretário de Estado dos EUA, Kerry, creem que a Síria decidiu entregar suas armas químicas ao controle internacional exclusivamente porque foi ameaçada militarmente. O que lhe parece?

Presidente Bashar al-Assad: Se se pensa sobre os eventos e as ameaças dos EUA, que duraram semanas, vê-se que as ameaças nada tinham a ver com garantir que as armas químicas fossem bem guardadas. As ameaças não passaram de provocação. E a provocação começou quando foram usadas armas químicas num subúrbio de Damasco, Al-Ghouta.

Aquela provocação foi organizada pelo governo dos EUA. Em outras palavras, ninguém ameaçou a Síria pensando em conseguir que nós entregássemos armas químicas. Nada disso é verdade. Só depois do encontro do G-20 na Rússia, os norte-americanos começaram a falar sobre a entrega das armas químicas à guarda internacional. Nós só começamos a considerar a possibilidade depois da iniciativa dos russos e das negociações relacionadas a isso que mantivemos com os russos.

Quero sublinhar bem, mais uma vez, que, se não fosse por essa iniciativa dos russos, sequer discutiríamos a questão com o outro lado. Os norte-americanos tentam agora uma espécie de golpe de propaganda. Kerry e o governo, inclusive Obama, sempre querem aparecer como vencedores, como se tivessem obtido alguma coisa com suas ameaças. Mas nada disso nos interessa, nem nos diz respeito.

Rossiya-24: Ontem, surgiu a notícia de que a Rússia apresentou ao senhor um plano para a transferência das armas químicas para supervisão internacional. Que mecanismos estão sendo considerados para esse processo?

Presidente Bashar al-Assad: A Síria entrará em contato com a ONU e a Organização para a Proibição de Armas Químicas nos próximos dias. Nesse processo há documentos técnicos, necessários para a assinatura do acordo. Depois começará o trabalho para a assinatura da Convenção das Armas Químicas.

Essa Convenção inclui vários pontos. Um deles dispõe sobre a proibição de produzir armas químicas, armazenamento e uso. Depois, a Convenção passa a ter vigência. Pelo que sei até agora, a Convenção passará a ter vigência um mês depois de assinada. E a Síria começará a transmitir informações sobre suas armas químicas para aquela organização internacional. São processos padronizados. E nos pautaremos por eles.

Mas é preciso que todos entendam bem o seguinte ponto: esses mecanismos não funcionam só para um lado. Nada disso implica que a Síria assina, preenche as condições estipuladas e está feito. Esse é um processo de duas mãos, que visa, em primeiro lugar, a que os EUA suspendam essa política de ameaçar a Síria. Depende também de até que ponto se implemente a proposta dos russos.

Tão logo os sírios estejamos convencidos de que os EUA estão realmente interessados na estabilidade de nossa região, e suspendam as ameaças e as tentativas de atacar a Síria, quando cortarem o suprimento de armas para os terroristas, então, sim, entenderemos que podemos dar andamento aos processos até o fim, que o processo todo é efetivo e aceitável para a Síria.

Todos esses mecanismos, como já disse, não são mecanismos a serem usados de um lado só. A Rússia tem papel muito importante a desempenhar nesse processo, porque não temos nem confiança nem conexões com os EUA. A Rússia é o único país que pode assumir esse papel.

Rossiya-24: Consideremos a questão de implementar a iniciativa russa: que organização internacional interagirá com a estrutura da República Árabe Síria para assumir o controle das armas químicas? Essa não é uma situação padrão, que se vê todos os dias.

Presidente Bashar al-Assad: Entendemos que a estrutura lógica apropriada para esse papel é a Organização para a Proibição de Armas Químicas, porque só ela reúne os especialistas nessa área e também monitora o cumprimento da Convenção para Armas Químicas em todos os países do mundo.

Todos sabemos que Israel assinou a Convenção para Armas Químicas, mas ainda não a ratificou. A Síria exigirá e insistirá para que Israel afinal implemente a assinatura da Convenção.

Quando a Síria, antes, apresentou um projeto para abolir as armas de destruição em massa no Oriente Médio, os EUA impediram a aprovação. Uma das razões pelas quais fizeram isso foi para permitir que Israel continuasse autorizado a possuir essas armas de destruição em massa. Se queremos realmente estabilizar o Oriente Médio, todos os países têm de aderir à Convenção.

E o primeiro país que tem de aderir é Israel, porque Israel tem armas químicas, biológicas e nucleares, em termos gerais, Israel tem todos os tipos catalogados de armas de destruição em massa. É importante assegurar que nenhum país tenha essas armas. Só assim todos ficaremos protegidos contra guerras futuras, devastadoras e muito custosas – não só no Oriente Médio, mas em todo o mundo.

Rossiya-24: A Síria põe suas armas químicas sob controle internacional. Mas já se sabe, com certeza absoluta, porque a inteligência russa já comprovou, que grupos terroristas rebeldes usaram armas químicas num subúrbio de Aleppo. Na sua opinião, o que terá de ser feito para proteger o povo sírio e de países vizinhos contra esses terroristas que já usaram armas químicas, pelo menos, com certeza, uma vez?

Presidente Bashar al-Assad: O incidente a que você se refere aconteceu em março passado, quando os moradores da região de Khan al-Assal, perto de Aleppo foram atacados por terroristas, com foguetes carregados com toxinas químicas. Houve dúzias de vítimas. Recorremos à ONU. Pedimos que a ONU enviasse especialistas para esclarecer esse incidente e determinar que grupo fora responsável por aquele ataque. Para nós, a situação é bem clara: foi trabalho de terroristas.

Mas naquele momento, os EUA opuseram-se ao envio de especialistas da ONU à Síria. Consequentemente, trabalhamos com especialistas russos, que receberam todas as provas que havíamos reunido. Ficou fartamente provado que os terroristas que ainda operam no norte da Síria cometeram aquele ataque químico.

Necessário agora é que a delegação de especialistas que estiveram na Síria até a semana passada, retornem e retomem as investigações. Terão de voltar à Síria, porque ficou acordado que voltariam, há esse acordo entre o governo sírio e aqueles especialistas. Esse acordo diz respeito a investigações ainda a fazer em várias províncias, principalmente em Khan al-Assal.

É preciso examinar cuidadosamente tudo isso, para determinar, por exemplo, a composição química dos venenos usados e, a partir daí, as condições do solo onde as armas químicas foram usadas. Também é importante determinar de onde vieram aquelas substâncias químicas, como chegaram aos grupos terroristas. Os responsáveis têm de ser julgados.

Rossiya-24: Senhor presidente, permita que lhe faça uma pergunta indispensável: é realista supor que se consiga realmente tomar todas as armas químicas que ainda estejam em mãos de grupos terroristas?

Presidente Bashar al-Assad: Tudo depende de se saber que países, dos que mantêm relações com os terroristas, estão envolvidos na venda ou no contrabando das armas químicas. Todos os países dizem que não apoiam terroristas, mas sabemos, com certeza, que o ocidente lhes dá apoio logístico – embora digam que seriam coisas “não letais” ou, até, “ajuda humanitária”.

De fato, já não há dúvidas de que o ocidente e alguns países da região – Turquia, Arábia Saudita, antes também o Qatar – mantêm contato direto com grupos terroristas, aos quais apoiam com todos os tipos de armas. Trabalhamos com a ideia de que um desses países forneceu armas químicas aos terroristas. Evidentemente, quem dava pode parar de dar.  Mas há também grupos terroristas que não ouvem nenhum dos lados. Esses grupos, quando têm acesso a armas e, portanto, à capacidade de destruir, não se acham obrigados a respeitar acordos, nem a obedecer a nada e ninguém, nem aos que lhes tenham dado dinheiro e aquelas armas.

Rossiya-24: Alguns veículos nos EUA noticiaram que oficiais do Exército Sírio Árabe teriam pedido sua aprovação para usar armas químicas contra gangues da oposição armada. Dizem que o senhor negou a autorização, mas que apesar disso aqueles oficiais teriam usado armas químicas contra sírios, especialmente em Ghouta Leste. É verdade? Essas operações são possíveis na Síria?

Presidente Bashar al-Assad: Não passa de propaganda americana. Esse tipo de propaganda serve-se de todos os tipos de mentiras para justificar suas guerras. É conversa parecida com a de Colin Powell, no governo de George Bush Jr., para justificar a guerra contra o Iraque, há pouco menos de dez anos. Naquela ocasião, apresentaram o que diziam que seriam provas de que Saddam Hussein produzia armas de destruição em massa. Mais adiante se soube que era mentira. Hoje as mentiras mudaram um pouco, como essa que você acaba de mencionar.

A verdade é que conversa desse tipo jamais aconteceu, nem comigo nem com ninguém na Síria. Essas armas são administradas de modo centralizado em vários países e exércitos do mundo, sempre pelas forças armadas. Nenhum soldado raso, ou comandante de escalão inferior manuseia essas armas, nem forças terrestres, nem as unidades blindadas ou quaisquer outras. São um tipo especial de arma de uso restrito de Forças Especiais. Essa notícia é mentirosa e nem faz sequer sentido. Ninguém acreditaria numa história dessas.

Rossiya-24: Recentemente apareceram no Congresso dos EUA o que para alguns seriam “provas convincentes” e “indubitáveis” – vídeos, que comprovariam que se usaram armas químicas no subúrbio de Damasco, em Ghouta, e que foram usadas pelo Exército Sírio. O que o senhor tem a dizer sobre essa versão americana?

Presidente Bashar al-Assad: Não têm prova alguma, nem o Congresso, nem a imprensa, nem o povo, ninguém jamais viu ou mostrou prova alguma de coisa alguma. Nem nenhum outro país conseguiu exibir prova alguma, nem a Rússia, que participou do processo de negociação. Nada disso jamais aconteceu. São só palavras, sempre e só, mais propaganda norte-americana.

A mais elementar lógica, por outro lado, diz que ninguém usaria armas de destruição em massa a poucas centenas de metros de onde esteja o seu próprio exército. Ninguém usaria armas de destruição em massa em áreas densamente habitadas, sem causar centenas de milhares de vítimas. Ninguém jamais usaria armas de destruição em massa no mesmo local e momento em que seus próprios soldados estão avançando em terra. Nada disso faz sentido. Agora, as lideranças políticas nos EUA meteram-se numa posição difícil. Mentiram de modo ainda menos convincente, até, do que as mentiras contadas pelo governo George Bush.

O governo anterior, nos EUA, mentiu muito, mas mentiu mentiras que, pelo menos num primeiro momento, tinham alguma chance de convencer pelo menos uma parte da opinião pública mundial. O atual governo dos EUA, com suas mentiras, não conseguiu convencer nem os seus próprios aliados. Nada do que disseram faz qualquer sentido. Não é lógico. É implausível.

Rossiya-24: Tenho de lhe fazer mais uma pergunta, porque diz respeito à segurança de toda a região. A imprensa russa noticiou recentemente que as gangues armadas de oposição ao seu governo planejam provavelmente outra provocação, que poderia envolver uso de armas químicas contra Israel, que seria desencadeada a partir de um território controlado pelo Exército Sírio. O que o senhor sabe sobre isso, como comandante-em-chefe?

Presidente Bashar al-Assad:: Já há confirmação de que grupos terroristas têm armas químicas, dado que até já as usaram na Síria, contra nossos soldados e civis. É claro que têm. Além disso, também sabemos que aquelas gangues terroristas e os que os controlam, sim, querem provocar um ataque aéreo dos norte-americanos. Já em ocasiões anteriores tentaram envolver Israel na crise síria. Não se pode excluir a possibilidade de que essa informação seja correta e que vise, outra vez, aos mesmos objetivos.
Se há guerra numa região, o caos se expande. Mas, para que o caos se expanda, é essencial que os territórios sejam permeáveis às gangues terroristas, para que possam causar o máximo de dano e destruição. Esses são riscos reais, não são ameaças inventadas, porque, sim, os terroristas têm armas químicas, que recebem de outros países.

Rossiya-24: Obrigado por nos receber e responder nossas perguntas.