sexta-feira, 19 de julho de 2013

Mubarakismo sem Mubarak: “A luta pelo Egito”

Por : [*] Joseph Massad, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Mohamed Mursi discursa logo após ser eleito
Desde que Mohamed Mursi foi eleito presidente do Egito em eleições democráticas maculadas pela corrupção eleitoral e pelos subornos promovidos por seu adversário mubarakista Ahmad Shafiq, uma coalizão de liberais egípcios, nasseristas, a esquerda – inclusive socialistas e comunistas de vários tipos – e até salafistas e membros renegados da Fraternidade Muçulmana (FM) começaram, lentamente, mas firmemente, a estabelecer uma aliança com a burguesia reinante ao tempo de Mubarak e políticos daquele governo, para derrubar Mursi, temendo que ele e seu partido estivessem preparando uma tomada do poder “à moda dos nazistas”, para destruir a nascente democracia egípcia.

O cenário que temem é aquele que levou os nazistas em 1933 a estabelecerem um estado totalitário. Em julho de 1932, nas eleições para o Reichstag(parlamento) alemão, o partido nazista recebeu 37% dos votos, o que fez dele o maior partido no Parlamento. Dia 30/1/1933, o presidente da Alemanha, Paul von Hindenburg, indicou Hitler para o posto de Chanceler do Reich, posto no qual Hitler chefiava um gabinete no qual havia uma minoria de ministros nazistas. Um mês adiante, dia 27/2/1933, agentes provocadores incendiaram o prédio do Parlamento. Hitler acusou os comunistas de golpe para derrubar o presidente democraticamente eleito e requereu ao Presidente da República de Weimar que lhe desse poderes emergenciais para suspender as liberdades civis, para que pudesse caçar os comunistas e prendê-los, dissolver partidos políticos e conter a imprensa. O decreto que deu a Hitler todos esses poderes ficaria conhecido como “Decreto do Incêndio do Reichstag”. Dia 23/3/1933, o Parlamento alemão deu poderes ditatoriais a Hitler, fixando o estado e o regime nazista totalitário.

A aliança anti-Mursi, que começou a formar-se de fato em agosto de 2012, começou vacilante, mas em novembro de 2012 já era orgulhosa e muito assertiva, depois do infame Decreto Constitucional de Mursi, que centralizava o poder político nas mãos do presidente. Com a ajuda dos juízes de Mubarak, a burguesia mubarakista e o Conselho Supremo das Forças Armadas, que governaram o Egito por um ano e quatro meses depois da derrubada de Mubarak, já haviam dissolvido o Parlamento democraticamente eleito depois do levante, composto de uma maioria de islamistas, sob argumentos técnico-legalistas, antes da eleição de Mursi. Fizeram-no com o apoio de liberais e esquerdistas, que se apresentavam com verdadeiros líderes do levante de 25 de janeiro que derrubara Mubarak e que temiam que islamistas eleitos, que eles desprezavam, não seriam parte do levante, mas “aderidos” à sua “revolução”. Poucos dias antes das eleições, os militares também emitiram um decreto constitucional limitando os poderes do presidente eleito, e enfeixando mais poderes nas mãos dos militares.

O medo dos liberais e a esquerda era que a Fraternidade Muçulmana fosse o partido nazista do Egito – que estariam fingindo ser democratas até chegarem ao poder, quando então se recusariam a deixá-lo e eliminariam o processo democrático, para estabelecer uma ditadura islamista.

Incêndio do Reichtag (Parlamento alemão) provocado pelos nazistas  em 27/2/1933

Que juízes nomeados por Mubarak tenham dissolvido um parlamento democraticamente eleito não pareceu incomodar muito os liberais e esquerdistas, mas horrorizaram-se quando Mursi assinou seu Decreto Constitucional, que visava a conter o poder dos juízes de Mubarak, que o próprio Mursi tentara depor, sem sucesso. De fato, o Decreto Constitucional foi visto como uma espécie de “Decreto do Incêndio do Reichstag” – o que bem poderia ter sido. Mursi logo voltaria atrás e cancelaria o Decreto, em resposta à manifestação popular. Mais recentemente, já se manifestou arrependido de tê-lo assinado.

Os feitos de Mursi

O governo Mursi pareceu surpreendentemente dócil e amigável em relação a interesses ocidentais, inclusive em relação a Israel, cujo presidente Shimon Peres foi chamado, por Mursi, de “meu caro amigo” em carta presidencial oficial. Ao contrário da esperada crescente amizade com o Hamás, o governo Mursi fechou mais vezes a fronteira em Rafah, que Mubarak; a coordenação de segurança com Israel tornou-se mais íntima que nos tempos de Mubarak; e, para piorar ainda mais as coisas, Mursi, com o exército egípcio e a ajuda dos norte-americanos, destruiu a maior parte dos túneis entre Gaza e o Sinai, construídos por palestinos para trazer alimentos e bens, durante o interminável sítio desde 2005 – e que nem Mubarak atrevera-se a destruir. Mursi fez ainda mais, ao mediar conversas entre Israel e o Hamás durante o mais recente ataque israelense contra Gaza; e garantiu que o Hamás não voltaria a lançar foguetes contra Israel, sem garantir qualquer contrapartida israelense. É verdade que Mursi recusou-se a reunir-se com líderes israelenses, mas até Mubarak recusou-se a visitar Israel durante anos, antes de ser derrubado, e retirou de Israel o embaixador egípcio, como protesto contra políticas israelenses. Um dos principais atos de Mursi antes de ser recentemente derrubado não foi fechar a embaixada israelense, como amigos e inimigos dos islamistas diziam que ele faria. Em vez disso, fechou a embaixada síria, em apoio à insurreição islamista de direita em curso na Síria.

Hosni Mubarak
No poder, Mursi e seu governo deram continuidade a políticas de Mubarak, de reduzir o setor público e os gastos sociais em guerra contra os pobres egípcios, a maioria da população, e impulsionaram políticas econômicas neoliberais a favor dos ricos e poderosos, inclusive um acordo com o FMI (jamais formalizado, não por falta de empenho de Mursi), que ampliaria ainda mais as medidas de austeridade já aplicadas contra os pobres. De fato, Mursi nada fez para alterar as leis trabalhistas e tributárias, implantadas sempre para favorecer os ricos e oprimir os trabalhadores, empregados de classe média e os pobres em geral. Mursi não processou os generais por crimes pelos quais têm sido denunciados repetidas vezes (em vez disso, cobriu-os de honras de estado e prêmios e converteu vários dos generais que aposentou em conselheiros do presidente); não levou a julgamento a corrupta burguesia mubarakista que pilhou o Egito durante três décadas e meia. Tampouco levou a julgamento o aparelho de segurança, que manteve, o mesmo que continuou a reprimir as manifestações no Egito durante seu governo.

Como presidente, Mursi – saído da ala direita e neoliberal da Fraternidade Muçulmana (se comparado a ‘Abd al-Mun’im Abu al-Futuh, mais “centrista”, que também concorreu à presidência e perdeu as eleições) – estava interessado numa aliança entre a burguesia islamista neoliberal, cujo membro mais visível é Khayrat al-Shatir (que foi impedido de concorrer à presidência por tribunais mubarakistas), e a burguesia mubarakista.

Khayrat al-Shatir
Diferentes de al-Shatir, filho de um rico comerciante, que fez sua fortuna no Egito, muitos dos islamistas ricos, embora não todos, fizeram as respectivas fortunas no Golfo. Foram alijados, pode-se dizer, impedidos de participar da pilhagem do Egito, que ficou reservada aos empresários do círculo mais íntimo de Mubarak. E aqueles alijados passaram, agora, a aspirar a um lugar na mesa do banquete da pilhagem no Egito. Mursi obteve o aval dos militares e a aprovação dos EUA, pelo menos até a semana passada, pelo muito que tentou convencer a burguesia mubarakista a permitir que os islamistas partilhassem da pilhagem do Egito. Mas a burguesia mubarakista jamais cedeu nem um palmo de terreno.

A resposta dos mubarakistas

A burguesia mubarakista respondeu que o Egito pertencia a eles; que só eles continuariam a pilhá-lo, sozinhos (embora sempre tenham incluído na pilhagem os norte-americanos, sauditas, emiradis e, claro, os israelenses); e que não permitiriam que islamistas começassem a mover-se no território deles. Tendo alijado os pobres egípcios, os camponeses, os operários e as classes médias de baixa renda, quando preferiu favorecer a cúpula da Fraternidade Muçulmana e as burguesias islamistas e mubarakistas, além dos militares, Mursi não encontrou outro grupo, exceto a Fraternidade Muçulmana, no qual se apoiar, depois que o exército o abandonou e a coalizão que conspirava com os militares intensificou os ataques contra o governo.

Mamdouh Hamzah
A burguesia mubarakista pôs todo o seu império de mídia a operar furiosamente contra Mursi e a Fraternidade Muçulmana. Semana após semana, hora após hora, puseram em campo pela televisão, pelos jornais, nas mídias sociais – especialmente pela empresa Facebook, mas também pela empresa Twitter – uma campanha devilificaçãodemonização, de incansável tiroteio. Jornalistas apresentadores de programas de televisão puseram-se a pregar, até, a derrubada violenta do governo de Mursi. Membros da oposição, como o engenheiro e milionário Mamdouh Hamzah, convocaram claramente o exército para que derrubasse o governo eleito.

Houve campanhas também financiadas pelos sauditas e emiradis, contra o Qatar, patrocinador da Fraternidade Muçulmana em todo o mundo árabe, apresentado como o único monstro financeiro dedicado a comprar tudo no Egito, inclusive o Canal de Suez e as pirâmides. O comediante Bassem Youssef (muito popular entre a burguesia e as elites endinheiradas do Cairo e Alexandria, mas praticamente desconhecido da maioria dos pobres egípcios nas cidades e no interior do país – porque não entendem a maioria de suas referências ocidentais e ao mundo dos ricos) pôs-se a demonizar o Qatar com uma paródia de um canto nacionalista árabe, dos anos 50s, em que se falava do Qatar não como “a pátria árabe”, mas como objeto de adulação, por conta dos gordos investimentos qataris no Egito (alguns reais, outros inventados). Ninguém, nem na imprensa ,nem pelos teatros da cidade deu-se o trabalho de explicar que os investimentos de empresas sauditas, emiratis e norte-americanas (e as propriedades que já têm em solo egípcio) excedem em muito tudo que os vorazes qataris possuem ou são apresentados como se possuíssem. O Qatar era o demônio da vez.

A ironia é que, enquanto os qataris sempre foram patrocinadores e engenheiros das tomadas pela Fraternidade Muçulmana em todos os países árabes nos quais houve levantes, inclusive no Egito, ou onde sofreram o correspondente revés imposto pelos qataris, como na Líbia e até na Síria, os sauditas e emiradis sempre foram ativos patrocinadores das contrarrevoluções e dos antigos regimes.

Bassem Youssef
Enquanto isso, a imprensa e os especialistas “midiáticos” continuam a falar de Mursi como o novo “Hitler” e da Fraternidade Muçulmana como “Partido Nazista”. O altamente ocidentalizado Bassem Youssef chegou a exibir a bandeira nazista num dos episódios de seu programa de televisão, como se fosse a bandeira da Fraternidade Muçulmana, convencido de que a bandeira nazista seria facilmente identificada pelos egípcios e que provocaria horror. A julgar pela reação das claques que formam o público daquele programa, e que reagiu com indiferença à bandeira (que a maioria dos egípcios simplesmente não conhece, diferentes nisso dos públicos ocidentais, ávidos consumidores de filmes de Hollywood sobre a 2ª Guerra Mundial); exceto em alguns círculos políticos e intelectuais, a cena teve impacto limitado. Mas tampouco faltariam colunistas de jornais e acadêmicos, a repetir as analogias com Hitler e os nazistas. Um colunista de jornal equiparou o recentemente indicado Ministro da Cultura, a Goebbels. Mais grave que essa comparação, apenas retórica, contudo, foi o conjunto da obra – uma completa barragem de propaganda e mentiras anti-Mursi distribuída pelas grandes empresas de mídia. Essa, sim, foi campanha de tal porte, que bem mereceria ser comparada aos feitos de Goebbels.

Gamal Abd El Nasser
Deve-se ter em conta que as acusações de nazistas são frequentemente usadas no mundo da política para encobrir vários tipos de golpe.
Mursi não é sequer o primeiro presidente egípcio acusado de ser “um novo Hitler”. Em 1954, à luz do “Caso Lavon”, Israel chamou Nasser de “Hitler do Nilo”, por perseguir espiões e terroristas israelenses. Franceses e britânicos fizeram o mesmo, quando se preparavam para invadir o Egito, em 1956 – e divulgavam que estariam combatendo um Nasser fascista: apresentavam-se assim como antifascistas, quando, de fato, atacavam presidente anti-imperialista.

Os liberais ocidentais que apoiaram a invasão dos EUA na Península Arábica em 1991 e no Iraque em 2003 para derrubar Saddam, também muito falavam do próprio antifascismo, para encobrir o ataque a inimigo anti-imperialista.

Mas a ninguém da imprensa ou a nenhum especialista midiático jamais ocorreu chamar Hosni Mubarak, ditador por 30 anos, de Hitler. Ironicamente, o único presidente egípcio que flertou com o nazismo, embora só na juventude, foi ninguém menos que Anwar Sadat.

Salvador Allende
No caso de Mursi, a campanha midiática contra ele e a Fraternidade Muçulmana, capitaneada pelas redes CBC e ONTV de televisão por satélite (ambas as empresas de propriedade de elementos da burguesia mubarakista), ultrapassou em muito a campanha que a CIA patrocinou, pelo jornal El Mercurio, contra o presidente chileno Salvador Allende, antes de ser derrubado por golpe também patrocinado pela CIA em 1973. Não estou dizendo que Mursi seja um Allende, mas, sim, que Mursi tem inimigos que não são totalmente diferentes dos inimigos que Allende enfrentou. (De fato, também houve marchas de mulheres de classe média que batiam panelas, e sindicalistas do sindicato dos caminhoneiros, no Chile, dentre outros setores, que fizeram greves e manifestações contra o governo Allende).

Circularam boatos de que o governo de Mursi, anti-palestinos e cada vez mais anti-Hamás, estaria fornecendo eletricidade aos habitantes de Gaza pobres e sitiados (boatos que já se comprovaram falsos), eletricidade a qual o governo Mursi estaria roubando do povo egípcio e cujo roubo seria a causa de inúmeros apagões no Cairo e por todo o país.

Outros boatos diziam que Mursi estaria entregando o Sinai ao Hamás e aos palestinos. Ainda outros boatos diziam que elementos do Hamás estariam sendo “importados”, para provocar liberais e a esquerda egípcios, que se opunham às políticas de Mursi. Apenas uma semana antes de ser deposto, circularam boatos, sem nem vestígio de qualquer prova, segundo os quais Mursi teria importado 1.500 homens do Hamás para que atacassem manifestantes anti-Mursi que se preparavam para as grandes manifestações públicas do dia 30 de junho que exigiam a renúncia do presidente.

A histeria coletiva estimulada pela imprensa e que tomou conta do país foi de tal magnitude, que até liberais e acadêmicos de esquerda conhecidos pelo pensamento moderado, desertaram de suas faculdades críticas e mergulharam de cabeça no universo dos boatos distribuídos por Facebook e veículos de jornalismo marrom, que se tornaram sua única fonte primária de formação e de informação.

A confrontação

Não há qualquer dúvida de que o governo de Mursi não dava sinais de que desistiria de seus planos, as estupidezes incluídas (para nem falar das políticas liberais e da quase inacreditável incompetência para governar o país, que já bastariam para desacreditá-lo completamente), a começar pela inclusão de membros da Fraternidade Muçulmana e outras forças islamistas em posições chaves no governo, nas comissões constitucionais e em toda a burocracia. É verdade que Mursi convidou muitos nomes da oposição, durante todo o ano em que permaneceu no poder, para compor suas comissões, o gabinete, para integrar-se à burocracia e, até, para compor sua equipe de assessores (alguns aceitaram e participaram do governo, por algum tempo). Mas a maioria rejeitou os convites, temendo, legitimamente em alguns casos, que viessem a ser usados como máscara para o que temiam que fosse um programa de “Ikhwanization” (em árabe, a Fraternidade Muçulmana recebe o “apelido” de Ikhwan) do estado – o que foi astronomicamente exagerado em todas as mídias mubarakistas. Outros renunciaram aos postos de conselheiros que haviam aceitado, porque Mursi recusou-se a seguir seus conselhos – coisa que, segundo fontes da Fraternidade Muçulmana, também acontecia com conselhos que recebia de conselheiros de sua própria Fraternidade.

Mas a incompetência da presidência da Fraternidade Muçulmana não foi a única razão pela qual o país deteriorou-se durante o ano passado. Para cada lado para o qual Mursi olhasse, os mubarakistas criavam obstáculos contra qualquer movimento. A burocracia do governo recusava-se a cooperar com o governo; os juízes o detinham a cada passo que tentasse, a polícia recusava-se a policiar as ruas. A burguesia mubarakista, como se vai revelando aos poucos na imprensa internacional, fabricou uma crise de energia que estaria causando racionamentos massivos de combustíveis e eletricidade, e que desapareceu completamente, por milagre, no instante em que Morsi foi derrubado do poder.

Tamarod...
Assim se construiu o cenário para uma mobilização de massas de grandes proporções que um novo “movimento” que se autodenominou “Tamarod” (palavra que, de fato, significa “motim” e em alguns contextos “rebelião”, mas que absolutamente não significa “rebelde” como seus fundadores, apoiadores e toda a mídia ocidental traduziram, erradamente), e que convocou as demonstrações do dia 30 de junho, primeiro aniversário da posse de Mursi como presidente do Egito. Todo o espectro da coalizão, que se formou e consolidou-se depois da eleição de Mursi, inclusive a Frente de Salvação Nacional, formada rapidamente, logo depois de Mursi lançar seu Decreto Constitucional, uniu-se para exigir que Mursi deixasse o governo. Conseguiram mobilizar milhões de pessoas nas ruas, culminando nas manifestações de 30 de junho.

Firmou-se um acordo com o exército (e os EUA), na sequência do qual o exército declarou um golpe, derrubou Mursi e começou furiosa caça às bruxas, à qual se uniram entusiasticamente membros da população, interessados em dar cabo da Fraternidade Muçulmana. Queimaram-se prédios e escritórios e instalações da Fraternidade Muçulmana em todo o país (ações comandadas sempre por manifestantes “pacíficos”), inclusive o escritório central, no Cairo. O golpe não foi chamado de golpe, e membros da coalizão popular que o apoiou declararam que quem falar de “golpe” será declarado “inimigo do povo egípcio” – como muita gente divulgou por Twitter e Facebook.

Mohamed El Baradei
Redes e canais islamistas de televisão foram fechados, minutos depois de o golpe ter sido anunciado; Mursi foi sequestrado pelos militares e mantido preso em prédio militar cuja localização é mantida em segredo, e os mais altos membros da Fraternidade Muçulmana ou foram também presos, ou tornaram-se fugitivos. Os mais altos membros da Frente de Salvação Nacional e o nada carismático Mohamed El-Baradei não hesitaram em defender a repressão militar em contatos com líderes e políticos ocidentais, esperando ser indicados para o governo pós-golpe, como prêmio de reconhecimento por seus esforços para vender ao mundo, como se fosse revolução democrática, o golpe de estado; e, mesmo, para convocar um “recalldas eleições”.

Um dos primeiros atos dos líderes do golpe foi fechar indefinidamente a fronteira de Gaza, estrangulando, efetivamente, a Faixa e sua população de palestinos. Trataram também, imediatamente, de demolir os túneis que haviam escapado da mais recente campanha de destruição. A xenofobia no Egito, contra palestinos, cada vez mais também contra sírios e iraquianos, já assume proporções fascistas. Os líderes do golpe distribuíram um pronunciamento ameaçando com prisão e outras punições, os cidadãos daquelas nacionalidades e residentes no Egito que participassem das manifestações.

A cena festiva que se vê no Cairo evoca ironicamente o triunfalismo fascista e suas festividades na Europa dos anos 1930s, muito mais que manifestações democráticas. Mas quem declarou o golpe não foi a Fraternidade Muçulmana, como fomos preparados para esperar ao longo de um ano inteiro, nem foi a Fraternidade quem meteu a oposição na cadeia e fechou suas estações de televisão, queimou seus escritórios e caça a oposição pelas ruas, conclamando a população a delatar oposicionistas à polícia.

De fato, durante o ano de governo de Mursi nenhuma televisão ou jornal foi fechado, nem, e especialmente, os muitos deles que pregavam a rebelião e a derrubada violenta de governo democraticamente eleito. Sim, alguns jornalistas foram processados por insultar o presidente no Egito, mas pode-se dizer que nenhum outro país algum dia conheceu nem uma pequena parte dos insultos que Mursi recebeu durante seu governo, (para nem falar do tipo de linguagem que a imprensa usou para humilhá-lo) e crime pelo qual alguns foram, quando muito, multados. Embora não tenha conseguido intervir com sucesso na mídia de propriedade privada, Mursi agiu nos jornais estatais e substituiu seus editores, muitos dos quais eram mubarakistas, mas muitos dos quais, também, eram editores eleitos, com pauta própria.

Movimento Tamarod no elegante bairro de Zamalek no Cairo em 11/7/2013
Nas ruas do Cairo, sente-se o terror da caça às bruxas, e os alvos já não são apenas os que se identifiquem como membros da Fraternidade Muçulmana. Porteiros pró-golpe de prédios elegantes no bairro de Zamalek – para dar um pequeno exemplo – perseguem e ameaçam outros porteiros, acusados de apoiar a Fraternidade. Esses, já não saem de casa, temendo pela própria vida, desde que o golpe foi anunciado. O que está acontecendo em bairros mais divididos de classe média, nas periferias mais pobres, nas cidades menores e no interior do país é muito pior que ataques a tiros e incêndios, nos quais se envolvem os dois lados. O próprio exército atirou e matou dezenas de manifestantes pró-Mursi que se opunham ao golpe. Somado à adulação fascista ao exército e à polícia que se vê à plena força, isso pode bem indicar o início de uma tão temida guerra civil e depogroms massivos contra os que sejam identificados como “inimigos” do Egito e do povo egípcio.

Os liberais e a  esquerda

Como explicar que liberais e a esquerda apoiem golpe contra a ordem democrática pela qual lutaram, encenem uma “revolução” contra a “democracia”, em aliança com a burguesia mubarakista e com os próprios militares que tão duramente criticavam há apenas um ano, até que cedessem o poder a um governo eleito?

Os militares e a burguesia e os juízes de Mubarak evidentemente não mudaram. Mas, sim, os liberais e a esquerda mudaram. Seu raciocínio faz lembrar o filme futurista distópico hollywoodiano A nova lei (Minority Report, 2002), no qual as autoridades processam pessoas por “pré-crimes” – quer dizer, por crimes que cometeriam no futuro, se não fossem presos antes de cometê-los. Alegam que a Fraternidade Muçulmana daria um golpe antidemocrático e põem-se a reprimir os Irmãos; e quanto ao futuro crime que previram que a Fraternidade e Mursi cometeriam, a coalizão anti-Mursi teve de intervir e puni-los hoje, para impedir governo eleito de agredir a democracia... no futuro!

Mas foram os liberais e a esquerda que ajudaram a preparar e dar o golpe, e que puseram fim a uma democracia eleitoral incipiente, e que hoje perseguem e processam a Fraternidade Muçulmana por crimes reais e imaginários, não o contrário. Dado que seu golpe foi popular, insistem eles, “conclui-se” que manifesta a vontade do povo. Mas, então, o povo também queria o fascismo, e também quis o nazismo? Como seria esse tipo de suposto argumento pró-democracia, como dizem que é? Respondem que trabalhadores e pobres uniram-se às manifestações. Mas também houve trabalhadores e pobres nos comícios fascistas e nazistas. E também os há nos comícios da Fraternidade Muçulmana.

Manifestação de partidários da Irmandade Muçulmana em 26/12/2012
A esquerda está dizendo que seu apoio ao golpe e sua aliança com a burguesia mubarakista comprador são, na verdade, de natureza anti-imperialista e que se unem contra a mídia ocidental pela cobertura atual, que seria “orientalista”, de seu golpe (como se a mídia ocidental algum dia tivesse sido outra coisa, além de orientalista, na cobertura de nossa parte do mundo, em todos os tempos), cobertura que consideram hostil; e para que Obama tenha talvez de cortar a ajuda militar, obedecendo à lei que o impede de estender sua ajuda a líderes de golpes no Terceiro Mundo (quando se sabe que Carter e Reagan encontraram meio para burlar aquelas leis nos anos 1970s e 1980s, quando subcontrataram Israel para que ajudasse os ditadores aliados dos EUA na América do Sul e Central e na África do Sul do Apartheid; e Obama, sem dúvida, também encontrará meio para burlar as mesmas leis). Seja como for, a ajuda militar dos EUA ao Egito para 2013 já foi paga; e a ajuda para 2014 ainda nem entrou na pauta de discussões do Congresso e não entrará antes do outono. Mas que ninguém se preocupe: altos diplomatas israelenses já estão empenhados nolobby, na Casa Branca e no Departamento de Defesa dos EUA, para que a ajuda militar ao Egito não seja interrompida.

Outro argumento, esse legítimo, que liberais e a esquerda apresentam é que quando eles e outros uniram-se ao levante de janeiro e fevereiro de 2011 que levou à derrubada de Mubarak e à tomada do governo pelo exército que, desde então, passou a governar diretamente o país, poucos falaram daquele levante como “golpe”: falavam de “revolução. E, hoje, quando o que se vê é outro levante massivo e o exército outra vez interveio, mas sem se autodesignar para governar, não falta quem fale de “golpe”.

Esse raciocínio é correto, embora pouco preciso, porque deixa sem considerar a questão central. Em fevereiro de 2011, o exército recusou-se a receber ordens de um ditador não eleito e não atirou contra civis, o que ajudou a derrubar o ditador; e em julho de 2013, o exército derrubou presidente eleito por mais da metade dos eleitores egípcios em eleições democráticas.

Liberais e a esquerda que hoje apoiam o golpe estão furiosos contra os EUA e gritam “Imperialistas” contra os norte-americanos que não apoiaram imediatamente sua revolta contra a democracia, aparentemente sem considerar o quanto os EUA de fato fizeram para construir esse golpe por trás da cena. Publicamente, Obama tem tentado todas as espécies de acrobacias verbais para acalmar os liberais e a esquerda, cuidando para não chamar o golpe, de golpe. A fúria endereçada contra os EUA, contudo, não é necessariamente anti-imperialista. Ela é, muito mais, disparada por uma ferida narcísica: porque os EUA (como o exército egípcio) aliaram-se, embora temporariamente, com a Fraternidade, não com os liberais e a esquerda e claramente, depois, abandonaram a Fraternidade e deram luz verde para o golpe. O muito que gritam é o modo de eles tentarem atrair os EUA de volta para o campo deles... onde os EUA já estão.

Abdel Fattah Al Sisi
Wall Street Journal já manifestou suas expectativas e esperanças de que o general Sisi venha a ser o Pinochet do Egito. Alguns liberais têm reclamado que, se os Republicanos estivessem no poder, não teriam dado apenas a resposta “soft” ao seu golpe, que receberam, dizem eles, dos Democratas. Mas os EUA, quanto a isso, não dormiram no ponto.

Os EUA são aliados de todos os partidos no Egito e estão dispostos a deixar que os egípcios escolham quem governará, para que os EUA, então, possam pôr-se a lhes dar ordens como sempre deram primeiro a Mubarak, depois à Fraternidade Muçulmana. A única coisa que ocupa o pensamento dos norte-americanos é que seus interesses estejam bem protegidos – e, até agora, ninguém, nenhum membro das coalizões pró-Mursi e anti-Mursi ousou ameaçar aqueles interesses. Todos só fazem mostrar o quanto desejam servir aos interesses dos EUA: basta que os EUA os apoiem. Nos últimos dois anos e meio, os norte-americanos esforçam-se para determinar quem, dentre todos os que disputam a posse dos meios para bem servi-los, conseguirá, com mais sucesso, estabilizar o país, para que os EUA possam continuar a controlar tudo, como antes.

Nazistas, islamistas, liberais e a esquerda egipcia

Há um ano, só ouvimos que Mursi é Hitler, que os Irmãos são nazistas, e que estão consolidando o próprio poder para que, adiante, possam atacar tudo e todos. É possível que tenham tais planos, mas até hoje não se viu nem vestígio de prova disso. O que aconteceu foi exatamente o oposto: foi a coalizão de liberais, nasseristas, esquerdistas, salafistas e a burguesia mubarakista que conclamou antes e festejou e apoiou depois o golpe, que foi obra do exército de Mubarak. Diferente da Fraternidade Muçulmana que jamais controlou o exército ou a polícia, esses dois corpos continuam a ser absolutamente fiéis à burguesia mubarakista – da qual os liberais e a esquerda são aliados.

Os egípcios foram inundados com imagens de que os “islamofascistas” estariam destruindo a cultura do Egito e sua identidade, com intolerância, pensamento estreito, nenhum preocupação inclusivista e políticas antidemocráticas. Mas foram os liberais e  a esquerda egípicia – talvez se os possa chamar de “fascistas seculares” – que se comprovaram menos abertos, menos tolerantes e com certeza menos democráticos que os “islamofascistas”.

Nos EUA, um ditado ensina que “conservador é um liberal de terno e colete” – significando de modo norte-americano e classista, que quando o liberal se envolve com os pobres, é para ser contra eles... o que o converte em conservador. No caso do Egito, pode-se facilmente dizer que “secular fascista é um democrata liberal que foi derrotado pelos islamistas em eleições democráticas”.

Golpe Militar no Egito apoiado pela esquerda
O golpe do exército, que a esquerda egípcia, dentre outros, apoiam, não foi golpe dado por oficiais de classe média com consciência social e anti-imperialista que contam com o apoio de forças progressistas anticapitalistas para derrubar o controle capitalista local e imperial e o ditador que o comanda (quando os Oficiais Livres organizaram seu golpe em 1952, em apenas poucas semanas já haviam deslocado os senhores feudais e redistribuíram a terra entre os camponeses pobres). O golpe, hoje, foi dado por generais de exército que recebem gorda pensão anual, a título de ajuda militar, dos EUA imperiais, e que sempre protegeram Mubarak e sua burguesia. Essa liderança militar derrubou o presidente democraticamente eleito (eleito, apesar de sua incompetência no governo e os serviços que prestavam ao capital local e internacional).

Alguns da esquerda que hoje festejam o golpe parecem sentir que a mobilização foi bem sucedida porque agora o povo é educado e consciente de seus direitos que a Fraternidade Muçulmana estava assaltando. Mas a educação que os membros da coalizão anti-Mursi receberam, incluídos aí os trabalhadores e os pobres que se uniram aos comícios, é a mesma educação distribuída pela burguesia mubarakista, que usa para isso seus impérios midiáticos. Não foi educação que enfatizasse as políticas neoliberais e contra-pobres da Fraternidade Muçulmana, que destacasse os direitos dos trabalhadores, os direitos dos camponeses, o direito ao salário mínimo, etc..

A educação que o império midiático mubarakista distribuiu é educação que não educa para a libertação dos pobres, dos trabalhadores, dos camponeses, da baixa classe média do Egito, para alertá-los contra a pilhagem do Egito e da vida dos egípcios, levada a cabo por agentes capitalistas e imperialistas. Aquela é educação que só educa a burguesia “secular” mubarakista e seus sócios, ensinando-a a competir contra a burguesia neoliberal da Fraternidade Muçulmana e de seus patrocinadores qataris.

O fato de o Rei da Arábia Saudita e o Ministro de Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, patrocinadores dos norte-americanos e da burguesia mubarakista, terem sido os primeiros a enviar congratulações aos líderes do golpe, minutos depois de o golpe ter acontecido, mostra claramente quem, na avaliação deles, foi libertado de quem. Poucas horas depois do golpe, a burguesia mubarakista também celebrava.

Mohamed Fuad
Na 5ª-feira, 4 de julho, o cantor egípcio Mohamed Fuad, que chorara na televisão dois anos e meio antes, manifestando sua tristeza e desespero pela derrubada de seu amado Mubarak, foi convidado para abrir o pregão da Bolsa de Valores do Cairo, que ganharam bilhões de libras, desde o golpe. 

Se os qataris e a burguesia da Fraternidade Muçulmana venceram a primeira batalha contra os sauditas com a derrubada de Mubarak e, em seguida, também a segunda batalha, quando a Fraternidade Muçulmana foi eleita, os sauditas e a burguesia mubarakista lançaram sua última batalha - que venceram, com a remoção da Fraternidade Muçulmana – festejada como a vitória final na guerra pelo Egito.

Os objetivos do levante egípcio desde o início incluíam, como objetivo primário, a justiça social. Ambos, mubarakistas e Fraternidade Muçulmana tinha política unificada contra a agenda de justiça social do levante. Mas o golpe anti-Fraternidade, que começou violento e ainda levará muitos de seus apoiadores a recorrer a meios violentos, agora que foram derrotadas todas as manifestações pacíficas, transformaram o levante, de levante contra o regime mubarakista e seu aparelho de segurança e de negócios, em movimento que agora se incorporou à guerra incansável que Mubarak sempre fez contra a Fraternidade.

Se liberais e a esquerda querem ver democracia real com segurança social e padrões de vida decentes para a maioria dos egípcios que são pobres, então a derrubada do governo da Fraternidade Muçulmana, por força militar, só continuará a impedir que tudo aquilo se concretize no Egito. De fato, a derrubada do governo da Fraternidade Muçulmana, por força militar, só trará mais injustiça econômica e mais repressão.

Se esquerda e liberais calculam que sua aliança com a burguesia mubarakista e o exército seja aliança tática e temporária, e que conseguirão ultrapassá-la e arrancar o poder do exército, como arrancaram da Fraternidade, o futuro se encarregará de comprovar que esse projeto não passa de triunfalismo ingênuo ou de otimismo teatralizado. Mas já é bem claro hoje, com o crescimento massivo da repressão policial e militar – e repressão para a qual até o povo está sendo arrastado – que aquela aliança só fez reforçar os mubarakistas e o exército, além de enfraquecer qualquer voz que ainda clame por alguma futura democracia no Egito, real ou apenas formal.

Capturado pelas festividades populares fascistas em torno do exército, o Egito é hoje governado por um exército cujas lideranças foram nomeadas por Mubarak e serviram ao governo de Mubarak; e tem por presidente um juiz nomeado por Mubarak; e sua polícia é a mesma polícia usada por Mubarak. Chamar de golpe ou não chamar de golpe, cada um decida como preferir.

O que se vê hoje no Egito é mubarakismo sem Mubarak.

[*] Joseph Massad leciona Política Árabe Moderna e História Intelectual na Universidade de Columbia em New YorkÉ autor de The Persistence of the Palestinian Question: Essays on Zionism and the Palestinians.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

O golpe de Estado no Egito: Islamismo, democracia, revolução



Podemos falar de “revolução” nos seguintes casos:

  • Quando uma maioria social, com interesses diversos ou não, e mesmo que não tenha programa político, derruba uma ditadura.
  • Quando um programa político de transformações radicais, pelas armas ou não, e com o apoio de uma maioria social, impõe-se sobre uma “democracia burguesa”.

No Egito, houve revolução, no primeiro desses sentidos, em 2011. E até agora não houve revolução alguma, no segundo desses sentidos. E a derrubada, agora, de Mursi, não se encaixa – é evidente – em nenhuma das duas definições acima.

Não havia ditadura a derrubar no Egito (só uma limitada “democracia burguesa”), e não há qualquer programa político de transformações radicais em jogo, pelo menos que a maioria da praça aprove.

Quando uma “democracia burguesa” é derrotada por exército fascista, o resultado chama-se – tecnicamente e politicamente – “golpe de Estado”. Se milhões de pessoas, inclusive muitas das quais revolucionárias no primeiro sentido acima, pedem golpe de Estado, nem por isso o golpe deixa de ser golpe.

Se milhares de pessoas na praça não querem a intervenção do Exército – porque são revolucionárias também no segundo sentido do termo “revolução”, acima –, o golpe de Estado anula completamente a vontade delas.

Exército fascista que destitui e sequestra presidente eleito; que suspende a Constituição; que dissolve o Parlamento; que mete na prisão os dirigentes do partido majoritário; que fecha suas televisões e seus jornais; que atira contra membros e militantes do partido majoritário está dando um golpe de Estado. Se é apoiado por muita gente, o golpe é mais fácil. Se, além do mais, a esquerda também apóia o golpe e põe-se a chamá-lo de “revolução”, então, o golpe é facílimo.


Legenda [traduzida] da charge de Carlos Latuff: “Afinal, livre! À esquerda, a Fraternidade Muçulmana. À direita, o Conselho Supremo das Forças Armadas”
No mundo árabe não havia nem há condições para que se produza revolução no segundo sentido aqui comentado. Por que era importante – crucialmente importante – que se produzissem revoluções no primeiro dos dois sentidos? Por dois motivos.

Primeiro, porque o estabelecimento de uma “democracia burguesa” sob impulso dos povos permitia a formação de um novo sujeito político e a construção, nas novas condições democráticas, de alternativas coletivas até agora inexistentes e inimagináveis.

Segundo, porque uma “democracia burguesa” traria à luz a verdadeira relação de forças na região, favoráveis aos islamistas. Era um perigo, sim, mas também uma necessidade inescapável, por todas essas ditaduras haviam justificado seu poder – e a repressão de todas as expressões políticas, incluída a esquerda – contra o “terrorismo islâmico”, que elas mesmas alimentavam, num enlace felizmente eterno para os caudilhos, mediante a repressão e a tirania.

A normalização política abria a esperança de uma “democratização do islamismo” através do exercício do governo, como aconteceu em parte em Túnis e também no Egito antes da derrubada de Mursi. A busca do confronto a qualquer preço, e a estratégia de perseguição e derrubada por qualquer meio, só pode abortar, por assim dizer, “o amadurecimento do fracasso” do projeto islamista, que é inevitável, mas que se deve produzir num marco democrático, se não quisermos voltar ao trágico “dia da marmota” que há décadas cobre a região de sangue e subjuga seus povos.

A esquerda, desgraçadamente, se prestou a esse jogo no qual só o “ancien regime” pode vencer.

Mas há outro motivo pelo qual a esquerda deveria compreender a necessidade de respeitar as regras do jogo que ela própria contribuiu para estabelecer, com as revoluções democráticas.

No mundo árabe – e na Tunísia e no Egito, de modo bem claro – há dois marcos hegemônicos paralelos: um, das classes populares, modelado pelo Islã político; e outro, das classes médias e altas, modelado pela direita laica.

Durante as ditaduras, a esquerda, reprimida, isolada, presa entre os dois marcos, declarou-se vencida no território das classes populares, que lhe era natural; e acabou assimilada à direita laica, nem tanto porque tenha pactuado com ela – o que várias vezes fez –, mas, mais, porque acabou distanciada da rua e embalsamada no âmbar de um elitismo – se não de classe – cultural e intelectual.

Um amigo que há anos deixou o partido Nahda, profundamente enojado, para tratar de elaborar um projeto de “islamismo da libertação”, segundo o modelo da “teologia da libertação”, sempre reprova à Frente Popular da Tunísia o seu distanciamento elitista da cultura popular; e, evocando Chávez expressamente, afirma que a Tunísia só será comunista quando, em vez de empenhar em esvaziá-las, os comunistas se puserem a pregar comunismo nas mesquitas.

Isso se aplica a toda a região e, claro, também e sobretudo ao Egito.

Construir um novo marco hegemônico de esquerda no mundo árabe pressupõe a normalização política do islamismo, seu desgaste controlado e sua radicalização – na direção da esquerda – a partir do interior da cultura popular.

Golpe de Estado baseado unicamente no anti-islamismo (que conte, portanto, com as forças muito mais poderosas e provadamente nefastas da direita laica) não apenas não é revolução no segundo sentido evocado acima: o golpe também aborta a revolução no primeiro sentido acima, condição de qualquer mudança profunda que se queira fazer no futuro. Foi o que se passou na Argélia em 1992, com resultado que todos conhecemos bem. Agora, pode ser muito pior.

Todos citamos frequentemente a famosa frase de Marx: a história repete-se duas vezes, a primeira como tragédia e a segunda como farsa. Não. A história repete-se muitas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como catástrofe, a terceira como inferno, a quarta como apocalipse. Não vejo o que a esquerda poderia ganhar com essa sequência mortal... 

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

domingo, 14 de julho de 2013

EXÉRCITO DE ISRAEL PRENDE CRIANÇA DE 5 ANOS



13 jul 2013

Jerusalém, SANA

O Ministério da Informação palestino denunciou que soldados israelenses prenderam uma criança palestina com idade de cinco anos de idade, sob o pretexto de jogar pedras, perto da Mesquita Ibrahimi, em Hebron. Esta atitude expressa a insolência e o   desprezo pela vida das crianças Palestina.
A agência de notícias palestina "Wafa" citou o comunicado do ministério  em que se afirma que "o vídeo da detenção da criança e seus gritos confirma a mentalidade terrorista do ocupante e sua história tenebrosa de agressões contra crianças palestinas".
O ministério fez um apelo as organizações de direitos humanos e de defesa dos direitos das crianças para que não se esqueçam este incidente e que representem imediatamente  contra o exército israelenses. "

Em tempo:  um vídeo postado em sites e meios de comunicação mostra o momento quando as forças militares israelenses prenderam a criança palestina, próximo a um posto de controle militar perto da Mesquita Ibrahimi, em Hebron.

Fady M., Lynn A.


ONU acusa Israel de torturar crianças palestinas e usá-las como escudo humano

Relatório divulgado hoje expressa "profunda preocupação" com abusos cometidos por soldados

Um órgão de direitos humanos da ONU acusou as forças israelenses de maus-tratos a crianças palestinas, incluindo tortura, confinamento e até mesmo o uso de algumas delas como escudo humano, de acordo com um relatório liberado nesta quinta-feira (20/06).

Reprodução/eletronicintifada.net
Segundo o texto do Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança, “crianças palestinas detidas por militares e policiais (israelenses) são sistematicamente sujeitas a tratamento degradante e muitas vezes a atos de tortura; são interrogadas em hebraico, uma língua que não entendem, e assinam confissões em hebreu para serem libertadas”.

O Comitê também indicou que as crianças na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, regiões ocupadas por Israel na guerra de 1967, têm o acesso aos seus registros de nascimento e aos serviços de saúde, escolas  e água potável rotineiramente negado.

O Ministério das Relações Exteriores de Israel se manifestou dizendo ter respondido a um relatório da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) sobre os maus-tratos a menores palestinos em março e questionou se a investigação da ONU traz fatos novos.

"Se alguém simplesmente quer ampliar seu viés político e bater na política de Israel sem se basear em um novo relatório, em trabalho de campo, mas simplesmente reciclando material antigo, não há nenhuma importância nisso", disse o porta-voz Yigal Palmor.

O Comitê, por sua vez, diz ter obtido suas informações a partir de outros grupos de direitos humanos israelenses, palestinos e da ONU, além de fontes militares. De acordo com eles, Israel não atendeu aos pedidos de informação para o relatório.
A maior parte das crianças palestinas presa é acusada de atirar pedras, o que, segundo o relatório, pode levar a uma pena de até 20 anos de prisão. A estimativa é que 7 mil crianças, entre 12 e 17 anos, mas algumas de apenas nove anos, tenham sido presas, interrogadas e detidas desde 2002, gerando uma média de duas por dia.

Além disso, muitos desses menores teriam sido levados acorrentados nos tornozelos e algemados perante tribunais militares, enquanto os jovens seriam mantidos em confinamento solitário, às vezes por meses.

O relatório destacou profunda preocupação com o "uso contínuo de crianças palestinas como escudos humanos e informantes", dizendo que 14 casos foram notificados somente entre janeiro de 2010 e março deste ano.

A denúncia feita é que soldados israelenses usaram crianças palestinas na frente deles para entrar em edifícios potencialmente perigosos e ficar na frente de veículos militares para deter lançamentos de pedras. Quase todos esses militares permaneceram impunes ou receberam sentenças leves, segundo o documento. 

Documentário retrata territórios palestinos como laboratório para indústria bélica de Israel

"The Lab", do diretor Yotam Feldman, mostra como guerras ajudam no aumento das vendas de armamentos do país. Um dos maiores importadores da indústria militar israelense é o Brasil. De acordo com Feldman, o Brasil compra aviões não tripulados, mísseis e programas de treinamentos especializados de empresas israelenses, tanto privadas como estatais.


O documentário The Lab (O Laboratório, em tradução livre), do diretor israelense Yotam Feldman, expõe a alta lucratividade dos "testes" realizados pelo Exército de Israel nos territórios palestinos, para a indústria militar do país.

De acordo com o filme, realizado com o apoio do canal 8 da TV israelense, a cada operação militar, novas armas são testadas, gerando um aumento direto das vendas no mercado internacional.

Guila Flint/Opera Mundi

O diretor do documentário vê as guerras como uma fonte de lucro, e não como um peso para Israel


Feldman, de 32 anos, trabalhou três anos e meio para produzir o filme, de 58 minutos, no qual entrevista figuras-chave da indústria bélica israelense.

Alguns dos personagens são militares da reserva e outros são exportadores e empresários. Todos falam abertamente sobre seu ramo de trabalho e expõem visões de mundo diversas.

"Quis fazer um filme sobre esse assunto, que é duro, mas sem cair nos clichês", disse Feldman a Opera Mundi. "Escolhi os personagens que me pareceram mais sinceros e que foram capazes de falar com mais desenvoltura sobre seus negócios.”

Segundo o diretor, durante a pesquisa para fazer o filme, ele se convenceu de que "a prosperidade da economia israelense não ocorre apesar das guerras, mas sim, em grande parte, em decorrência das guerras".

"Na minha pesquisa descobri que, do ponto de vista econômico, as guerras não são uma carga, mas uma fonte de lucro.”

Divulgação
Feldman explica que não há necessariamente uma relação de causalidade entre a motivação para as guerras e os lucros econômicos, ou seja, ele não afirma que Israel inicia guerras supostamente para obter benefícios financeiros.

"Apenas constato que, após cada guerra, na qual são testadas novas armas, as vendas dessas armas aumentam e os lucros são muito grandes", disse.

"Hipocrisia"

Um dos personagens principais do documentário, o general Yoav Galant, aponta o que chama de "hipocrisia" da comunidade internacional.

"Eles denunciam as operações militares de Israel, mas depois todos vêm aqui comprar nossas armas", afirma Galant, que foi chefe do Comando Sul do Exército de Israel e um dos principais planejadores da chamada Operação Chumbo Fundido, que deixou cerca de 1.400 palestinos mortos na Faixa de Gaza e 13 mortos do lado israelense.

Depois dessa ofensiva, que começou em dezembro de 2008 e terminou em janeiro de 2009, as exportações de armas israelenses para dezenas de países aumentaram em 2 bilhões de dólares.

Hoje em dia as vendas do setor bélico são calculadas em 7 bilhões de dólares, o que representa cerca de 20% do total das exportações israelenses.

De acordo com Ehud Barak, que foi ministro da Defesa de 2007 a 2013, cerca de 150.000 famílias em Israel (quase 1 milhão dos 8 milhões de habitantes) se sustentam da indústria militar.

"De certa forma, toda a sociedade israelense sai ganhando com a exportação militar, que, por sua vez, ganha credibilidade com os 'testes' realizados nas guerras", afirma Feldman, que também menciona o fato de muitos dos fundos de pensão no país investirem nas ações sólidas de empresas militares.

Em um dos trechos do filme, o ex-ministro da Defesa Binyamin Ben Eliezer afirma que outros países "gostam de comprar armas que já foram testadas, nossa experiência traz bilhões de dólares para Israel".

"Se algum dia tivermos paz e perdermos o 'laboratório' em Gaza e na Cisjordânia, com certeza esses lucros vão se reduzir significativamente", disse Feldman.

Segundo a revista britânica especializada em assuntos militares, a Jane's IHS, Israel é o sexto exportador de armas do mundo e, desde 2008, o volume de negócios do país nesse setor aumentou em 74%.

Filosofia militar

Outro personagem do documentário é o filósofo militar Shimon Naveh. Naveh colabora no planejamento estratégico "filosófico" do Exército de Israel e foi um dos autores do que chamou de tática "fractal" na ocupação da Kasbah (centro histórico) da cidade palestina de Nablus, na Cisjordânia, em 2002.

Em abril daquele ano, depois de uma onda de atentados suicidas nas grandes cidades israelenses, o governo, então chefiado pelo ex-primeiro-ministro Ariel Sharon, resolveu reocupar todas as cidades palestinas que haviam sido entregues à Autoridade Palestina, comandada por Yasser Arafat.

O plano "fractal" do filósofo Naveh consistiu em ocupar o centro antigo de Nablus, com suas ruelas estreitas, por intermédio da invasão das casas palestinas, sendo que a passagem de uma casa a outra foi feita através de buracos detonados por explosivos nas paredes.

Segundo Naveh, com essa tática o Exército israelense conseguiu surpreender e derrotar os combatentes palestinos que haviam se preparado para uma invasão pelas ruas.

"Viramos o jogo", disse Naveh, "deixamos as ruas vazias e entramos pelas paredes".

De acordo com Naveh, esse e muitos outros métodos são ensinadas por treinadores israelenses a oficiais de muitos exércitos do mundo que vêm aprender em Israel.

Treinamento israelense para o BOPE
Um dos maiores importadores da indústria militar israelense é o Brasil. De acordo com Feldman, o Brasil compra aviões não tripulados, mísseis e programas de treinamentos especializados de empresas israelenses, tanto privadas como estatais.

Um dos principais exportadores para o Brasil é o israelense-argentino Leo Gleser, que esteve envolvido no treinamento do BOPE antes da pacificação das favelas do Rio de Janeiro.

Divulgação

Gleser diz que tenta transformar a venda de armamentos em "um pacote menor e menos fedorento"


"A semelhança física entre as Kasbas (centros históricos) das cidades palestinas e as favelas brasileiras é muito grande", disse Feldman. “Os campos de refugiados palestinos, com suas ruelas estreitas, também são muito parecidos com as favelas".

"Portanto, a experiência de Israel nos territórios palestinos é relevante para o BOPE".

Parte do filme se passa no Complexo do Alemão, onde Leo Gleser é visto sendo calorosamente recebido por oficiais brasileiros que confirmam ter sido treinados por empresas israelenses.

Em uma das cenas, o exportador toma uma caipirinha com Feldman em um bar no Rio de Janeiro.  O diretor lhe pergunta se ele não sente alguma contradição entre seu duro ramo de negócios, "que mata muita gente", e seu caráter simpático, "como pai e avô carinhoso".

Gleser retruca com perguntas: "Você acha que a vida é uma caixa de bombons? Quando você era pequeno sua mãe não limpava seu cocô?".

"Eu não crio a merda, apenas trabalho para transformá-la em um pacote menor e menos fedorento", acrescentou.

Postado: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/29695/documentario+retrata+territorios+palestinos+como+laboratorio+para+industria+belica+de+israel.shtml

O ESTADO SIONISTA MANTÉM 2.000 REFUGIADOS AFRICANOS EM CADEIA NO DESERTO

Blog: O texto abaixo é uma denuncia sobre o caráter racista da entidade sionista. A política contra os imigrantes , diferente da posição deste texto da opera mundi, não é de avestruz, é fascista. Os refugiados africanos estão sentindo na carne o racismo que atinge dramaticamente todo o povo palestino, que desde 1948 convive com o terror, as prisões e a repressão de um Estado fascista.
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                           Imigrantes sem papeis não têm direitos                                 reconhecidos por governo isralenese; temperatura em Saharonim chega a 40 graus

Presos ficam em barracas e mulheres não recebem visitas médicas em Saharonim

Na prisão de Saharonim, que fica no deserto do Negev, no sul de Israel, se encontram homens, mulheres e crianças do Sudão e da Eritreia, que tentaram entrar no país a pé, através da península egípcia do Sinai.

Desde que Israel concluiu a construção da cerca que separa o Sinai do sul do país, em 2012, houve uma queda de mais de 99% no número de refugiados africanos que conseguem entrar no território israelense.


Os poucos que conseguem ultrapassar a cerca (desde o inicio de 2013 foram apenas 34) são imediatamente levados para a prisão de Saharonim.

No entanto, de 2007 a 2012, cerca de 60.000 cidadãos da Eritreia e do Sudão, que fugiram de seus países para salvar suas vidas, conseguiram entrar em Israel.

Essas pessoas vivem no país sem qualquer reconhecimento de sua condição de refugiados e sem que o Estado avalie as circunstâncias nas quais deixaram seus países e entraram em Israel. "Se entrevistassem essas pessoas, se as ouvissem, descobririam que a grande maioria delas é de refugiados políticos e que merecem receber o status e os direitos de refugiados", afirmou Sigal Rozen, da ONG israelense Hotline for Migrant Workers (centro de assistencia a trabalhadores estrangeiros, em tradução livre).

"Se verificassem a situação delas, as autoridades seriam obrigadas, pela lei internacional, a conceder o status de refugiado a dezenas de milhares de pessoas, então preferem nem avaliar", acrescentou a Opera Mundi.

A lei internacional proíbe que um país repatrie pessoas cujas vidas podem estar ameaçadas em seu país de origem. Esse é o caso do Sudão, assolado por uma sangrenta guerra civil e da Eritreia, controlada por uma das ditaduras militares mais cruéis do planeta.

Ódio racial

Sem documentos e sem direito de trabalhar legalmente, a população de refugiados africanos vive em condições precárias e se concentra principalmente na região sul da cidade de Tel Aviv.

Essa área da cidade, que é a mais pobre da grande metrópole israelense, virou cenário de ódio racial por parte dos habitantes originais contra os refugiados africanos.

Esse ódio, parte em consequência do incitamento conduzido por políticos de direita contra os refugiados africanos, e parte em decorrência das condições de vida nos bairros pobres e densos da cidade, vem se alastrando e, nos últimos dois anos, já causou algumas erupções violentas.

Em 2012, houve uma série de ataques por parte de israelenses racistas contra casas e pequenos negócios de africanos, deixando vários lugares depredados e pessoas feridas.

Entre os políticos de direita que incitam contra os africanos está a deputada Miri Regev, do partido governista Likud e chefe da Comissão de Interior do Parlamento. Regev chegou a qualificar os refugiados africanos como "câncer no corpo da nação".

"Politica de avestruz"

ONGs de direitos humanos acusam o governo israelense de conduzir uma "politica de avestruz" na questão dos refugiados africanos. "Em vez de enfrentar o problema e tentar resolvê-lo, simplesmente deixam os refugiados jogados nas áreas mais pobres de Tel Aviv, sem assistência médica ou social", disse Rozen.

O governo israelense qualifica os refugiados africanos como "infiltradores", ou seja, pessoas que "se infiltram" pela fronteira, supostamente para procurar trabalho no país, e não os reconhece como refugiados.

O ministro do Interior, Gideon Saar, afirmou que "precisamos continuar agindo energicamente para barrar esse fenômeno, continuaremos com a política do governo de repatriar infiltradores para seus países de origem ou para terceiros países".

Nos últimos meses, porta-vozes oficiais vêm afirmando que o governo está conduzindo negociações com países africanos para que recebam os cidadãos eritreus e sudaneses que se encontram em Israel. Porém ainda não se sabe se algum país se dispôs a recebê-los.

De acordo com o ministro, Israel "é o único país ocidental que tem fronteira com a África e, se não agirmos de maneira clara e sem concessões, o país será inundado por infiltradores ilegais".

Endurecimento das leis

Segundo a Lei de Prevenção de Infiltração, aprovada pelo Parlamento de Israel em junho de 2012, qualquer refugiado africano que tente entrar sem documentos no país pode ser preso por um período de pelo menos três anos.

Nos últimos meses, o Parlamento também aprovou uma nova cláusula à mesma lei, que permite que qualquer imigrante sem papeis que for suspeito de contravenções seja imediatamente enviado à prisão de Saharonim.



Maior parte dos presos é de origem do Sudão e da Eritreia


"De acordo com a nova cláusula, se um imigrante eritreu é suspeito de roubar uma bicicleta, pode ser enviado a Saharonim por tempo indeterminado, nem é necessário um julgamento, basta a suspeita", afirmou Sigal Rozen.

Rozen conseguiu entrar na prisão de Saharonim juntamente com alguns advogados da ONG e pôde ver de perto as condições no local.

Segundo o relato da organização, trata-se de um complexo que inclui construções e barracas. "As mulheres e crianças ficam nas construções, a maioria dos homens fica nas barracas", disse Rozen, que acrescentou que a temperatura no deserto do Negev pode chegar a mais de 40 graus.

O governo israelense continua endurecendo as condições dos refugiados para "desestimular" esse tipo de migração. Em junho deste ano, o Parlamento aprovou mais uma lei proposta pelo governo, proibindo que os "infiltradores" enviem dinheiro para o exterior até deixarem o país.

Segundo um comunicado do governo, o objetivo da nova lei é "reduzir o número de infiltradores".

Sequestro e estupro no caminho

A reportagem de Opera Mundi também conversou com Shahar Shoham, responsável pelo departamento de refugiados na ONG Médicos pelos Direitos Humanos/ Israel.

A ONG entrou com um recurso junto à Suprema Corte de Justiça exigindo que haja atendimento ginecológico para as mulheres africanas presas em Saharonim.

"Muitas dessas mulheres passaram por experiências terríveis no caminho para cá", disse Shoham, "houve muitos casos de sequestro e estupro, por gangues de beduínos no Sinai, e na prisão não há médicos ginecologistas".

O recurso foi apresentado à Corte há dois anos, porém até agora ainda não há ginecologistas em Saharonim. "Nossa ONG e todas as outras organizações que trabalham pelos direitos dos refugiados africanos, exigimos que seja feita uma avaliação transparente e justa da situação dessas pessoas, e que aqueles que merecem recebam o status e todos os direitos de refugiados", afirmou.

Para a ativista, Israel deve conceder aos refugiados do Sudão e da Eritreia o direito de "residência social". "Enquanto essas pessoas se encontram aqui, elas devem receber assistência médica e social, além do direito de trabalhar legalmente para que possam se sustentar", disse.

"Não há razão alguma para que os refugiados sejam mantidos na prisão, eles não cometeram crime algum, apenas fugiram de seus países para se salvar".

terça-feira, 9 de julho de 2013

GOLPE DE ESTADO PREVENTIVO NO EGITO COM APOIO DOS EUA E ISRAEL

Golpe de Estado no Egito:
fazendo a revolução antes que o povo a faça
Por RAMEZ PHILIPPE MAALOUF 
Manifestações anti-EUA durante os protestos no Cairo

Entre 30 de junho e 3 de julho de 2013, mais de dezessete milhões de egípcios foram às ruas nas maiores manifestações populares jamais registradas em toda a história mundial, para pôr fim ao governo do presidente Mohammed Mursi, da Irmandade Muçulmana (IM). Um dos fortes motivos para contestação ao governo Mursi foi sua eleição carente de legitimidade, uma vez que con 51% dos votos dos apena 51% dos eleitores que compareceram às urnas. Em termos absolutos, o candidato “islâmico” conquistou votos de apenas 26% do eleitorado total, demonstrando a frágil base popular de seu mandato.

Notem-se as manobras heterodoxas para as eleições de 2012 para que a Irmandade Muçulmana (fundada 1928, com apoio britânico para combater comunistas e nacionalistas), salafistas ewahhabitas participassem das eleições presidenciais.  Manipulação apoiada discretamente pelas Forças Armadas egípcias e que obteve aval dos EUA, Catar, Turquia e, com alguma relutância, da Arábia Saudita, rival da Irmandade Muçulmana. Condição imposta pelos militares egípcios para o candidato vitorioso assumir o poder era respeitar os tratados e acordos firmados pelo regime militar no poder desde 1952 ─ leia-se, Tratado de Paz com Israel, de 1979.

De mal a Pior

No pouco mais de um ano de Mohammed Mursi no poder, os principais problemas do país, considerados pelos egípcios como entraves ao pleno exercício da liberdade do povo, mantiveram-se e agravaram-se com o governo do grupo “islâmico”. Ou seja, as altas taxas de pobreza e de desemprego, especialmente entre os jovens (maioria da população); a alta dos preços dos alimentos;  os serviços públicos desmontados por 41 anos de políticas neoliberais; a adesão às políticas recessivas e neoliberais do FMI; o autoritarismo, a corrupção generalizada, a submissão aos interesses dos EUA e de Israel.

A tudo isto se somou o crescente sectarismo religioso fomentado pelo governo, visto como ameaça à integridade do país pelos egípcios cristãos e laicos. Mursi destituiu o então chefe do Comando Supremo das Forças Armadas, general Tantawi, e chegou a promulgar uma nova constituição, na vã tentativa de arrefecer o crescente descontentamento popular.

A política externa em nada contribuiu para melhorar a imagem do presidente egípcio, que zelou pela vigência do Tratado de Paz com Israel, endurecendo o bloqueio à Faixa de Gaza contra os palestinos; deu permissão para a presença de militares americanos em solo egípcio em centro de torturas contra suspeitos de terrorismo;  apoiou a criação de uma zona de exclusão aérea para a Síria,  favorecendo a estratégia da OTAN de bombardeios aéreos de saturação.

Tratado de Paz, Tratado de Guerra

A vigência do Tratado de Paz Egito-Israel abriu caminho para cinco grandes invasões israelenses ao Líbano (1978, 1982, 1993, 1996 e 2006), que exterminaram mais de trinta mil pessoas no pequeno país árabe.  Do mesmo modo, o Tratado permitiu que os israelenses esmagassem as duas Intifadas palestinas (1987 e 2000) e assassinassem cinco mil pessoas, neutralizando a resistência palestina à ocupação militar hebraica.

As forças armadas do Egito são as fiadoras internas do Tratado de Paz com Israel. Sem a “paz”, os EUA cortam a ajuda anual de US$ 2 bilhões ao Egito. Sem este dinheiro, a máquina de corrupção egípcia, montada pelos militares, emperra.

A imensa mobilização popular, sem precedentes na história, para derrubar o presidente Mursi, fez soar nos EUA e nas forças armadas o alerta para uma possível ruptura do Tratado de Paz, pilar da política imperial ianque na região. Portanto, era preciso antecipar-se à ação popular, o que foi feito com um golpe militar perpetrado pelo chefe do Comando Supremo das Forças Armadas do Egito, general Abdul Fatah al-Sisi, em 3 de julho de 2013, que prometeu realizar eleições brevemente.

Unificação Coalizão Pró-Ocidente

Com a queda Mursi, unifica-se a liderança da coalizão pró-Ocidental no mundo árabe, então dividida entre o reino saudita e o emirado do Catar, o que dificultava o combate à coalizão pró-Irã (Hizbollah, Síria, Iraque e Irã). Nos últimos meses, o eixo “pró-Ocidente” estava sofrendo inúmeras derrotas. Na Turquia, o governo do primeiro-ministro “islâmico” Recep Erdogan é contestado por uma revolta popular. Na Síria, os “rebeldes”, que lutam para derrubar o regime nacionalista do presidente Bassar al-Assad e fundar um Estado “islâmico”, estão sendo derrotados pelas tropas governamentais. A má sucedida “revolução” na Síria foi estopim para a derrubada do emir catari Hamad al-Thani, cujo poder foi transferido, em golpe palaciano, para o filho Thamim al-Thani, que é apoiado pelos EUA e Arábia Saudita. Com isto, os sauditas neutralizaram seus principais rivais na liderança do extremismo sunita sectário no mundo árabe, a Irmandade Muçulmana e o Catar.

O golpe militar contra Mursi preveniu a possível ruptura da “paz” com Israel, assegurando a hegemonia regional dos EUA, impedindo que uma verdadeira revolução libertasse os egípcios da opressão estrangeira. Barak Obama e al-Sissi optaram pelo velho lema de um político mineiro: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”. Os militares egípcios cumprem, assim, uma triste e degradante trajetória histórica: de revolucionárias da Era dos Oficiais Livres, em 1952, a uma força de ocupação estrangeira de facto, desde 1971.

Ramez Philippe Maalouf é historiador e doutorando em Geografia Humana pela USP.

sábado, 6 de julho de 2013

71 palestinos morrem sob tortura em prisões israelenses




Pelo menos 71 palestinos submetidos a tortura foram mortos nos centros de detenção do regime de Israel, revelou nesta quarta-feira o Centro de Estudos de Prisioneiros palestinos.

Usando o relatório emitido no âmbito do Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura, comemorado todos os anos em 26 de junho, este centro de estudos além de lamentar o uso freqüente de métodos proibidos de tortura contra prisioneiros palestinos, alertou que a brutalidade dos israelenses arrisca a vida de mais de cinco mil prisioneiros palestinos nos territórios ocupados.

Arafat Jaradat,  último caso descoberto, morreu em 23 de fevereiro pelas torturas sofridas na prisão i sraelensede Megiddo . 

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O relatório acrescenta que, nos últimos anos, o centro já recebeu mais de 900 denúncias de tortura de prisioneiros palestinos liberados, no entanto, os autores israelenses destes crimes contra a humanidade não são punidos nem foram levado à justiça. Implicando, por óbvio, o envolvimento desse regime no uso sistemático desses métodos contra os palestinos.

Em 2011, a Suprema Corte israelense autorizou aos interrogadores israelenses a utilização dos métodos de tortura, de qualquer forma possível,  nos prisioneiros palestinos que  representem uma "ameaça" para a segurança do regime de Tel Aviv, além de disso, garantiur total imunidade aos seus agentes.

A Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o Dia Internacional (26 de junho) em sua resolução 52/149 de 12 de dezembro de 1997, a fim de direcionar a atenção do mundo para a necessidade de acabar com a tortura, ajudar as vítimas desta violência, erradicar-la e garantir a implementação da Convenção contra a tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.

A tortura é uma das formas mais graves de violação dos direitos humanos, e impõe um preço terrível a milhões de pessoas e suas famílias.
O estupro ,os espancamento nas solas dos pés, o  afogamento, as queimaduras, a aplicação de corrente elétrica, a privação do sono, entre outras , são métodos  usados pelos torturadores para quebrar a personalidade do indivíduo.

Embora os danos físicos sejam enormes, as  conseqüências  psicológicas e emocionais tendem a ser ainda mais destrutivas e mais difíceis de curar. Muitos sobreviventes de tortura sofrem de pesadelos e memórias angustiantes recorrentes.

Hispan TV
Traduzido: somostodospalestinos.blogspot.com

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Relatório denuncia: durante o mês de maio as forças israelenses prenderam 370 palestinos, incluindo nove mulheres e 85 crianças





Prisão de crianças tem sido veementemente reprovada por organizações de direitos humanos. O número de detenções de mulheres e jornalistas também é alarmante

De acordo com relatório mensal do Centro de Estudos dos Prisioneiros Palestinos sobre as prisões israelenses e condições de detenção do sistema carcerário da Ocupação, durante o mês de maio foram realizadas mais de 280 ordens de invasão nas cidades, aldeias, bairros e campos de refugiados na Cisjordânia, em Jerusalém e na Faixa de Gaza. Segundo o relatório, as forças israelenses sequestraram mais de 370 palestinos, Alguns deles ainda estão na prisão e outros foram soltos, depois de serem interrogados por horas ou dias. A cidade de Jerusalém teve o maior número de cidadãos detidos: 105 palestinos.
Entre os presos, 85 crianças, nove mulheres, mais de 30 prisioneiros libertados de prisões israelenses, líderes da Ação Nacional, jornalistas e ativistas. Na Faixa de Gaza, a Ocupação prendeu 6 palestinos, incluindo uma criança, e confiscou um barco de pesca, ao largo da costa da cidade de Beit Lahiya, perto da fronteira oriental.


Dois jornalistas foram detidos. Mohammed al-Atrash, um apresentador da Rádio Hebron, e Uday Aharibat, detido após invadirem sua casa na aldeia de al Tabaka, em Dura, a sul de Hebron. Além dos dois jornalistas, as forças de ocupação prenderam o Sheikh Mohammad Hussein, o grande Mufti de Jerusalém, que foi libertado após várias horas de investigação.


Prisão e sequestro de mulheres e crianças
O Diretor de Mídia do Centro, o pesquisador Riad al-Ashqar, revelou em relatório que a Ocupação continuou, ao longo do último mês, tendo como alvo todos os segmentos do povo palestino. Sequestraram ao todo mais de 85 crianças com idade inferior a dezoito anos, incluindo crianças abaixo dos dez anos de idade, como Khaled Dweik, de 9 anos, e Amr Dweik, de sete anos, da cidade de Jerusalém.

Em outra ocorrência, sequestraram, de uma só vez, 45 crianças, detidas perto de uma escola em Hebron. Elas foram interrogadas por várias horas e a maioria liberada. Do grupo, 11 foram presas.
 
No mês de maio nove mulheres foram presas, das cidades de Hebron, Nablus, Tubas, Tulkarem, Abu Dis e Jerusalém. Entre elas, estudantes. Uma delas foi detida durante visita ao seu irmão prisioneiro

quarta-feira, 3 de julho de 2013

DEBATE SOBRE O MOMENTO POLÍTICO ATUAL E AS TAREFAS COLOCADAS

Saudações solidárias com o povo brasileiro, seus movimentos sociais e partidos políticos de esquerda

Blog: Esse é um momento ímpar na história da luta de classes da América Latina. Os movimentos sociais e políticos de todos os países da região estão cada vez mais consciêntes do papel destacado da solidariedade internacionalista na arena da luta que os povos travam contra o capital ,  contra a exploração dos trabalhadores  e o ataque aos direitos essenciais como saúde e educação. Viva a solidariedade internacionalista entre os povos! Viva a América Latina! 
Abaixo a saudação dA Marcha Patriótica da Colômbia, importante movimento social que coordena e organiza, junto com outras organizações, as lutas do povo colombiano.



As mobilizações das ultimas semanas no Brasil afora, são sem dúvida um motivo de alegria pelo potencial transformador que elas representam.
A Marcha Patriótica, como movimento político e social, expressa solidariamente seu apoio com as justas demandas que pautam essas mobilizações, entendendo que o povo está nas ruas reclamando pelos seus direitos e não só por uns poucos centavos. Especialmente nos solidarizamos com os brasileiros e brasileiras mais precarizados e explorados, para quem a repressão, longe de ser conjuntural, se manifesta cotidiana e permanentemente de uma maneira brutal.
Ao mesmo tempo, queremos expressar a maior admiração e solidariedade para com os movimentos e os partidos políticos de esquerda e suas bases, que nunca deixaram de lutar e de tomar as ruas, denunciando a crueldade do capital e defendendo essas transformações que hoje pede aos gritos uma imensa maioria.
Diante da distorção mediática que quer tirar proveito do descontentamento popular para seu beneficio e de seus aliados, ante o reavivamento de antigas, e ainda presentes, manifestações anticomunistas, xenófobas e fascistas, torna-se mais evidente a importância da resistência de suas organizações e a tarefa de politização do movimento popular que vocês realizam. Tarefa ainda mais corajosa, se levarmos em conta que suas organizações estão sendo um dos principais alvos da perseguição dessa direita criminal.
Com a esperança de que a força popular seja canalizada para uma continua mobilização politizada e de esquerda que consiga colocar as bases de uma verdadeira transformação social, onde o povo inteiro seja protagonista, lhes enviamos nossos abraços solidários. Com vocês estamos em Marcha pela segunda e definitiva independência de toda Nossa América.
Marcha Patriótica, capitulo Brasil.