quinta-feira, 11 de abril de 2013

Presidente Bashar al-Assad, da Síria: “Estamos cercados por países que estimulam o terrorismo”


5/4/2013, ENTREVISTA DO PRESIDENTE DA SÍRIA, BASHAR AL-ASSAD À REDE ULUSAL KANAL, TURQUIA. EXTRAÍDA DO INFORMATION CLEARING HOUSE

Full Interview of Pres. Assad with Turkish Media: “Syria’s Breakup Will Cause Mideast to Blow Up” (38')

Vídeo e entrevista traduzida (do inglês) pelo pessoal da Vila Vudu


Ulusal Kanal (1): Senhor presidente, obrigado por nos receber. Minha primeira pergunta pode soar um pouco estranha, mas tenho de perguntar. O senhor pode confirmar, por favor, que está vivo e não deixou a Síria?

Bashar al-Assad, presidente da Síria: Em primeiro lugar, meus votos de boas vindas à Síria, a você e sua equipe. É um prazer para mim falar com vocês hoje. E, através de vocês, também com o povo da Turquia. Você pode ver que estou aqui, plenamente em campo. Não estou escondido num subterrâneo, como chegaram a dizer. São mentiras que se divulgam, de tempos em tempos, para abater o moral do povo sírio, que eu estaria vivendo no Irã, ou num navio de guerra. Vocês podem ver que estou aqui, na Síria, é claro.

Ulusal Kanal (2)Como o senhor sabe, em recente reunião da Liga Árabe, a cadeira que cabe à representação da Síria foi dada à oposição, o que abriu uma discussão sobre a sua legitimidade. Significará que a Liga Árabe retirou sua legitimidade, ao admitir o voto da oposição e pelo fato de que o senhor já não tem representação na Liga Árabe?

Presidente Bashar al-Assad: Falando bem francamente, a Liga Árabe, essa sim, não tem qualquer legitimidade. É organização que representa estados árabes, não os povos árabes. E não tem qualquer legitimidade já há muitos anos, pelo fato evidente de que os estados lá representados não manifestam a vontade do povo daqueles estados. Mesmo quando a Síria ainda participava da Liga Árabe, já sabíamos disso. Portanto, a Liga Árabe absolutamente não está em posição de “dar” ou “retirar” legitimidade a seja quem for ou a seja que país for.

Além disso, o movimento que se viu na Liga Árabe não passou de jogo de cena, um movimento apenas simbólico, para gerar uma ilusão de legitimidade. Nenhuma legitimidade brota de participar ou não participar de organizações políticas, internacionais ou quaisquer outras, nem nasce por doação de alguma nação estrangeira. Na Síria, só o povo sírio é fonte de legitimidade. E só isso nos interessa. O resto não nos diz respeito, nem nos interessa.

Ulusal Kanal (1): Há medidas, decisões, ações empreendidas contra seu país por alguns países árabes e também por países ocidentais. Por outro lado, os países BRICSs, que são observadores da situação síria, tomaram decisões diferentes das que foram tomadas pelos países árabes e outros países ocidentais. Como o senhor avalia as atitudes e posições tomadas pelos países BRICSs?

Presidente Bashar al-Assad: Sua pergunta chama a atenção para um ponto importante. Para começar, o conflito na Síria não é conflito local, doméstico. Há ativadas dinâmicas externas à Síria, a maioria das quais visam a redesenhar o mapa dessa região. E há na questão síria uma disputa, também, de interesses conflitantes das grandes potências. A criação do bloco de países chamados países BRICSs implica que os EUA já não são a única potência no mundo. Hoje, já é impossível ignorar os interesses difusos de outras forças, quando se tomam decisões na arena internacional.

BRICSs
Os países BRICSs não apoiam o presidente Bashar al-Assad ou o estado sírio: eles apoiam a estabilidade nessa região. Todos sabem que a agitação na Síria cria o risco de que forças terroristas assumam o controle na região. Todos sabem que, se o conflito em que a Síria foi jogada alcançar o ponto de rachar o país, ou se forças terroristas conseguirem chegar a controlar a Síria, ou no caso de que aconteçam as duas coisas, o que acontecer aqui imediatamente contagiará primeiro os países vizinhos, depois,
por efeito dominó, chegará a países em todo o Oriente Médio. 

Nesse quadro, os países BRICSs apoiam uma solução política para a Síria, contra as demais potências ocidentais.

Se se consideram outros líderes árabes que se posicionaram contra a Síria, sabe-se que não são independentes, em termos políticos, daquelas mesmas potências ocidentais. São líderes que agem conforme o diktat daquelas potências ocidentais. Internamente, pessoalmente, é possível que também apoiem uma solução política. Mas quando o ocidente lhes dá ordens, são obrigados a obedecer. Em termos bem gerais, essa é a situação, na região e no plano internacional.

Ulusal Kanal(2)Nos dois últimos anos, temos assistido aos conflitos sobre a Síria e dentro da Síria. Esses conflitos são apoiados, por um lado, pelos EUA, França, Turquia e alguns regimes do Golfo. Esses regimes dizem que os grupos dentro da Síria combatem contra o seu governo. E mais de cem países declararam que o senhor deve deixar o governo. Isso posto, o senhor considera a possibilidade de deixar o governo e permitir que outro nome o substitua?

Presidente Bashar al-Assad: Sua pergunta implica que um grande número de países ocidentais, e nossos aliados, inclusive a Turquia, e muitos países árabes estariam contra essa presidência. Ao mesmo tempo, sua pergunta implica também [que os grupos internos] também estariam contra essa presidência. Nada disso explica que a Síria se tenha mantido firme, já há três anos. Não me incomoda que haja oposição ao meu governo. Sou presidente eleito pelo povo sírio. Disso se conclui que o presidente ficar na presidência ou deixar a presidência é uma grave decisão nacional, a ser tomada, exclusivamente, pelo povo sírio, não por outros estados que digam que desejam que a presidência fique ou saia. Sejamos francos. Será que todos esses estados estão preocupados com a Síria ou com o sangue do povo sírio?

A começar pelos EUA, que apoiam há décadas os crimes cometidos por Israel, desde que Israel foi criada em nossa região. Os EUA cometeram massacres no Afeganistão e no Iraque, que resultaram em milhões de mortos, feridos e mutilados. A França e a Grã-Bretanha cometeram massacres na Líbia, sempre com o apoio dos EUA. O atual governo turco está metido até os joelhos em sangue sírio. Volto a perguntar: quais desses estados estão preocupados com o sangue dos sírios?

A questão de se o presidente fica ou sai, é decisão que cabe ao povo sírio. Nenhum país do mundo tem qualquer coisa a ver com isso.

Ulusal Kanal (1): O senhor disse que o que está acontecendo na Síria é efeito de apoio que vem do exterior. Mas estamos em Damasco e se ouve o som de explosões e o som dos bombardeios, em diferentes distâncias nunca param. Por que isso tudo está acontecendo?

Presidente Bashar al-Assad: A Síria está cercada por países que estão ajudando terroristas a entrar em território sírio. Claro. Nem todos os países fazem intencionalmente e sabendo o que fazem. Por exemplo, o Iraque é contra esse movimento de infiltrar terroristas em território sírio, mas há circunstâncias que impedem que o estado tenha pleno controle de todas as fronteiras. No Líbano, a situação é de divisão: alguns partidos apoiam e outros se opõem à política de mandar terroristas para dentro do território sírio. A Turquia apoia e hospeda terroristas em termos oficiais e os está mandando para território sírio. Alguns grupos terroristas entram na Síria pela Jordânia e não se sabe ainda se com ou sem o apoio do governo jordaniano. Enquanto perdurar essa ação de contrabandear terroristas e armas para dentro do território sírio, nós continuaremos a lhes dar combate. É normal. É guerra, em qualquer sentido da palavra. Não há como separar os diferentes incidentes de segurança. Só é possível que terroristas continuem a entrar em território sírio, aos milhares, talvez dezenas de milhares – é difícil quantificar com precisão – se recebem apoio externo. E estão chegando de várias direções. Por isso há combates em várias regiões do país.

Recep Endorgan
Ulusal Kanal(2)Senhor presidente, o senhor disse que o governo turco apoia oficial e publicamente grupos terroristas, garantindo diferentes tipos de ajuda e apoio àqueles grupos terroristas. Mas sabe-se que, até bem recentemente, havia relações amigáveis entre Erdogan, o governo turco e o senhor. O que aconteceu, que mudou tanto essa situação?

Presidente Bashar al-Assad: É possível que Erdogan tenha visto, nos eventos em curso no mundo árabe, uma oportunidade para prolongar a própria vida política. É a mesma mentalidade da Fraternidade Muçulmana. Nossa experiência, na Síria, com a Fraternidade Muçulmana, ao longo de 30 anos, ensina que são um grupo de oportunistas. Usam a religião para obter vantagens pessoais. Ele [Erdogan] viu que em todos os países onde houve revoluções, ou golpes de Estado, ou intervenção estrangeira, a Fraternidade Muçulmana está hoje no poder. Erdogan viu, nisso, uma grande oportunidade para permanecer no poder, sob diferentes formas, ainda por muitos e muitos anos. Virou-se contra a Síria, porque viu aqui uma boa oportunidade para manter-se no poder. De início, tentou interferir em assuntos internos da Síria.

Já antes da crise, Erdogan estava mais interessado na Fraternidade Muçulmana, do que nas relações entre Síria e Turquia, muito mais do que no destino da Síria.

Esse pessoal pensa dessa forma. Dadas algumas circunstâncias, eles sempre pensam, primeiro, nos próprios interesses pessoais. Como já disse, Erdogan tentou, primeiro, interferir em assuntos internos da Síria. E depois o governo turco começou a apoiar publicamente vários grupos terroristas dentro da Síria. Hoje, estão muito profundamente envolvidos no derramamento de sangue dentro da Síria. Nesse contexto, as nossas relações deterioraram-se muito gravemente.

Ulusal Kanal (1): Perguntamos ao senhor Erdogan sobre as relações sírio-turcas. Ele diz que foi franco com o senhor e lhe fez várias propostas sobre reformas, que o senhor rejeitou. Por que o senhor não considerou as propostas que lhe foram feitas pelo senhor Erdogan?

Presidente Bashar al-Assad: Infelizmente, Erdogan não disse uma palavra franca e confiável desde que essa crise começou. Nenhuma. E não estou exagerando. As propostas eram muito gerais. Eu disse a ele que só o povo sírio decidiria quem seria presidente e que sistema de governo teríamos. Já comentei as propostas de Erdogan, com muitos detalhes, em vários pronunciamentos. Temos de preparar eleições, nas quais os vários grupos políticos apresentem candidatos. E assim decidiremos qual a melhor via para prosseguir. Por melhores e mais importantes que fossem as propostas de Erdogan, em nenhum caso seriam mais importantes ou melhores que eleições livres para saber o que o povo quer. O que poderia ser melhor que essa solução? Haverá eleições, e o que o povo decidir será implementado.

Mas há uma pergunta simples, que vocês deveriam fazer. Se Erdogan continua a dizer que suas propostas teriam resolvido todos os problemas na Síria, que relações haveria entre aquelas propostas que eu ouvi e o apoio que ele dá hoje a grupos terroristas? Hoje, nesse momento, Erdogan está recrutando, entregando armas, dando dinheiro, garantindo equipamento médico e outros detalhes de apoio logístico. E abriu a fronteira para que esses grupos entrem na Síria. O que isso tudo teria a ver com as propostas de Erdogan, que, sim, ouvi atentamente?

Erdogan sabe que, desde o primeiro dia, nós sempre aprovamos qualquer solução que implicasse diálogo político. Ele sabe. Nós anunciamos que aceitávamos o diálogo com todos os partidos políticos sírios. Quando nada disso funcionou, com a presteza que Erdogan precisava que funcionasse, ele mudou de conversa. E passou imediatamente a armar grupos terroristas. Erdogan mente. Aquelas propostas serviram-lhe como uma máscara.

Nós sempre aceitamos conselhos e contribuições de qualquer partido, em qualquer circunstâncias. Mas não aceitamos intervenção em assuntos internos da Síria. Parece que Erdogan entendeu mal nossa posição. Ele entendeu que as relações fraternas entre Turquia e Síria permitiriam intervenção em nossos assuntos internos, com o objetivo de derrubar um governo sírio legítimo. Mas, para mim, essa situação já estava bem clara, desde os primeiros dias.

Ulusal Kanal (2):  Há notícias na imprensa turca, de que há pessoal dos serviços de segurança envolvidos com em atividades terroristas e ajudando grupos terroristas, trabalhando para infiltrá-los em território sírio. Alguns jornais dizem que a Turquia comete crime, encobrindo esse tipo de atividade. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Presidente Bashar al-Assad: Como já disse, o atual governo turco não está, de modo algum, contribuindo para pôr fim à matança do povo sírio. Há quem esteja à espera de que a Síria adote a via da retaliação. Não o faremos.

Estamos contra o crime de infiltrar terroristas em território sírio, e contra todos os atos criminosos. Mas entendemos que o povo turco é povo irmão dos sírios. Em terceiro lugar, retaliação é, precisamente, o que Erdogan deseja. Ele quer criar um conflito entre o povo turco e o povo sírio, tentando angariar apoio popular para suas políticas. Está tentando restaurar parte da popularidade que teve, e já perdeu.

Os sírios não cairemos nessa armadilha. Por dois motivos: por princípios e porque os interesses sírios estão alinhados com os interesses do povo sírio, embora não, no momento, com os interesses do atual governo turco. Nenhum conflito entre o povo sírio e o povo turco jamais servirá a qualquer interesse dos nossos povos. E só fará complicar ainda mais as coisas. O que fizemos nos últimos dez, doze anos, desde que o presidente [Ahmet Necdet] Sezer foi eleito, em 2000, foi construir o debate entre nossos povos, entre árabes e turcos. Agora, o presidente Erdogan quer pôr a perder tudo o que foi feito. Não cometeremos nenhuma retaliação contra o povo turco. Para saber, consultem os serviços turcos de inteligência.

Mas, até agora, não capturamos nenhum agente da inteligência ou do exército turco que estivesse agindo na Síria. Isso não significa que não estejam aqui. Estão apoiando os grupos terroristas. Os serviços de inteligência da Turquia estão fornecendo todo o treinamento, todo o equipamento, todas as estruturas de comunicação – o necessário apoio da imprensa, indispensável – a grupos terroristas para que se infiltrem em território sírio.

Do que vários terroristas já confessaram, já sabemos que há indivíduos envolvidos na Turquia. O princípio desse envolvimento está no apoio que o atual governo turco dá à ação dos grupos terroristas. O fato de que não haja pessoal da inteligência turca operando dentro da Síria não implica que não estejam ativos.

Ahmet Davutoğlu
Ulusal Kanal (1): Suas declarações, senhor presidente, são bem claras sobre as políticas turcas. O Ministro de Relações Exteriores da Turquia, Davutoglu, disse que preferiria renunciar ao cargo, se tivesse de apertar a mão do presidente Bashar al-Assad, se ele permanecer no poder. O que significa isso, em termos das relações entre os dois países?

Presidente Bashar al-Assad: Não posso honrar essa declaração, com alguma resposta. Absolutamente não é o caso. Essa fala desonra o alto padrão moral do povo turco, que sempre testemunhei em minhas muitas visitas à Turquia. De minha parte, respeitado o alto padrão moral do povo sírio, não há o que responder. Minhas relações com Erdogan foram construídas como pontes entre nossos povos. Se o Primeiro-Ministro Erdogan e o atual governo turco já estão envolvidos na guerra que faz correr sangue sírio, já não se pode cogitar de pontes, nem pessoais, entre nós, nem entre eles, nem entre eles e o povo sírio.

Ulusal Kanal (2): Como o senhor deve ter sabido, quando o presidente Barack Obama esteve em Israel, o primeiro-ministro Netanyahu pediu desculpas à Turquia, sobre o que houve com o navio turco que levava ajuda a Gaza. Como o senhor interpreta esses desenvolvimentos?

Presidente Bashar al-Assad: Há uma pergunta clara e óbvia, nessa situação. O Primeiro-Ministro Netanyahu já era primeiro-ministro quando ocorreu o ataque ao navio turco, há três anos. Continua no mesmo posto. Por que jamais aceitou pedir desculpas antes, durante tanto tempo? O que mudou? É o mesmo Erdogan. É o mesmo Netanyahu. A grande mudança, de lá até hoje, é a situação na Síria. O que aconteceu prova, precisamente e muito claramente, que há um acordo entre Israel e Turquia, relacionado à situação síria. Também confirma que Erdogan está agora alinhado com Israel, trabalhando para agravar cada vez mais a situação na Síria. Nos últimos anos, Erdogan conseguiu mobilizar a opinião pública turca, como bem entendeu, contra a Síria. Também nunca desistiu de tentar cravar suas garras no estado sírio. A Síria continua a defender-se nessa batalha feroz. Erdogan não teria outro a quem recorrer, se não a Israel, potência ocupante, inimigo de todos os povos árabes.

Ao mesmo tempo, essas desculpas também ajudam Erdogan a restaurar, pelo menos em parte, a própria credibilidade, que ele perdeu, na Turquia.

Abdullah Ocalan
Ulusal Kanal (1): Quero retomar o que aconteceu em passado recente. Dia 21 de março, reuniram-se Erdogan e [Abdullah] Öcalan [do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) [1]]. Nessa reunião, discutiram a formação de um novo Oriente Médio, com árabes, sírios, curdos e turcos. O senhor acompanhou o desenrolar dessas reuniões e declarações?

Presidente Bashar al-Assad: Por hora, só temos a informação distribuída pela mídia. Ainda não recebemos os detalhes dessas conversações, de nenhum dos lados. Já há alguns anos, em todos os passos adotados para resolver a questão curda, nossa posição declarada sempre foi aceitar qualquer solução que satisfaça aos curdos e aos turcos, porque nunca quisemos mais e mais derramamento de sangue na Turquia, que sempre teria impacto negativo por aqui. Qualquer solução negociada e aceita entre essas duas partes terá nosso apoio, porque o povo curdo é parte natural do tecido da região. Não são hóspedes nem imigrados. Vivem aqui há séculos, há milhares de anos. Mas qualquer solução estável para a questão turco-curda depende hoje da credibilidade de Erdogan. É homem em quem não confio. Não cumpre o que promete. Todos os passos que está empreendendo hoje visam exclusivamente a angariar apoio político para ele mesmo. Aqui, outra vez, cabe a mesma pergunta óbvia: por que não tomou exatamente a mesma providência, de negociar com os curdos, há poucos anos? Outra vez a resposta é a mesma: isso, agora, também está relacionado à situação na Síria. E às eleições na Turquia.

Ulusal Kanal (2): O senhor disse que resolver a questão turco-curda é tema importante para toda a região. Podemos ouvir de Vossa Excelência uma opinião mais ampla sobre como resolver essa questão?

Presidente Bashar al-Assad: Temos de ser bem claros: nacionalidade é diferente de etnicidade. Vivemos em região mestiça. O fato de você ser turco não implica que não possa ser curdo ou armênio, ou de origem árabe. Somos árabes pela cultura e pela língua. A situação na Turquia é semelhante à situação na Síria. Quando digo “árabe” não falo de etnia ou raça.

Os dois nacionalismos, o turco e o árabe, mostram o quanto o modelo nacionalista pode ser civilizado, de inclusão de diferentes. O problema é que esse conceito, no passado, foi adotado por uma mentalidade de exclusão, de uma cultura rejeitar ou eliminar a outra. Eu entendo que um dos aspectos mais belos dessa região é a diversidade. E um dos maiores perigos que corremos é não ver essa diversidade como fator de enriquecimento e de empoderamento. Mas em vez disso, temos assistido a pessoas que convocam forças e interesses de fora, para nos lançar uns contra os outros e criar conflitos por aqui. Foi o que se viu acontecer no início do século passado, quando começaram os conflitos entre turcos e árabes, nos dias finais do Império Otomano.

Muitos grupos nacionalistas árabes quiseram que diferentes nacionalismos árabes florescessem dentro do Império Otomano. Mas isso gerou conflitos e levou a erros de todos os lados, o que facilitou a intervenção por atores estrangeiros.
Hoje, temos de ver a situação com interesse em promover a inclusão de todos. Somos feitos do mesmo tecido diverso, entretecidos de diferentes cores.

Ulusal Kanal (2): Senhor presidente, uma das questões mais difíceis atualmente em discussão na Turquia é a questão do PKK. Há discussões sobre organizações que estariam operando na Síria e teriam ligações com o PKK, que teria forte influência sobre aquelas organizações. O que se diz é que essas organizações estariam muito interessadas em criar um vácuo militar no norte da Síria, a ser preenchido por aquelas organizações. Como o senhor, presidente, lê essas informações?

Presidente Bashar al-Assad: Quando há caos em qualquer estado, como é o caso hoje na Síria, sempre aparecem muitos grupos interessados em preencher os vácuos. Às vezes, são gangues, interessados só em matar e roubar. Às vezes são grupos políticos, às vezes são partidos, com programa político. Existem na Síria, na Turquia, no Iraque, em outros locais. Não se pode generalizar, e incluir todos os curdos no que é agenda só de pequenos grupos. Muitos curdos são patriotas, querem viver na Síria. A emergência de alguns casos específicos não é motivo para que generalizemos, como se houvesse situação homogênea. A separação depende de outro tipo de ambiente. Tem de haver amplo apoio popular. Ou a luta é feita com interessados externos. Entre curdos sírios e curdos turcos, as circunstâncias são muito diferentes. No momento, essa questão não me preocupa.

Ulusal Kanal (1): Senhor presidente, temos agora uma questão muito importante. Desde o início dos eventos na Síria, alguns partidos e pesquisadores insistem em discutir outro projeto, envolvendo a superação dos estados no norte da Síria, norte do Iraque, sul e leste da Turquia, separando essas regiões de seus respectivos estados centrais. O senhor acha que há o risco de o norte da Síria acabar por superar o estado central?

Presidente Bashar al-Assad: Como eu já disse, as atuais circunstâncias na Síria não sugerem qualquer movimento nessa direção, sobretudo se se considera a opinião pública em geral. O povo sírio rejeita completamente qualquer ideia de separação do estado sírio. Nenhum estado soberano aceitaria que partes do território sejam cortadas do território principal. Essa posição é categoricamente inaceitável e absolutamente indiscutível.

Ulusal Kanal (1): Baseados em nossas perguntas e suas respostas: parece haver um plano bem claro, construído por países ocidentais, em cooperação e coordenação com alguns países da região, para criar um Grande Curdistão, que seria formado de uma parte do norte do Iraque, leste do Irã, norte da Síria, e sul e leste da Turquia. Parecem decididos a alcançar esse objetivo. Estamos andando nessa direção?

Presidente Bashar al-Assad: Não acredito que esses quatro países, Iraque, Síria, Irã e Turquia, subscreveriam essa proposta. Estados independentes, hoje, trabalham pela integração, não pela subdivisão e separação. Infelizmente, nossa região é uma exceção, e sinal de atraso. Hoje, o que se vê é a formação de grandes blocos de países. Os BRICSs são bom exemplo. Os estados buscam unir-se em blocos maiores, porque isso é uma exigência dos tempos que vivemos. Por que, então, em nossa região, andaríamos na direção contrária, buscando a segmentação? O que impediria que pessoas de diferentes nacionalidades, religião, etnia, vivam juntas?

Se aceitarmos a noção da separação, teremos de viver com as consequências, a saber: fragmentação em vários pequenos miniestados baseados em etnicidade, reforçando as diferenças. Assim se cria uma situação extremamente perigosa, que só gerará mais guerras no futuro. Por isso não me parece que essa proposta de divisão seja proposta a considerar, nem que seja proposta séria.

Esses quatro estados que a proposta divisionista considera deveriam, isso sim, dedicar-se a fazer com que todos os seus cidadãos sintam-se como cidadãos de primeira classe. Todos com direitos e acesso igual aos direitos. A solução, por essa via é clara e simples. Mas se, por outro lado, há cidadãos que se sentem humilhados, é normal que pensem em separação.

Ulusal Kanal (2): Senhor presidente, o senhor teve um projeto interessante. O senhor falava da construção de meios para a unificação política e econômica dos cinco ‘'curdistões'’ [orig. Five “Cs”]. Pode falar ao público turco sobre como todos poderíamos nos beneficiar do seu projeto?

Presidente Bashar al-Assad: É exatamente o que já disse, quando falei sobre a exigência, no mundo contemporâneo, de integração e unificação. A quem interessaria criar mais um estado, à maneira dos estados que existiam antigamente, em vastos impérios territoriais? Hoje é possível nos unirmos nós mesmos, com vistas aos nossos próprios objetivos gerais de todo o Oriente Médio. Por exemplo, todos podemos construir estradas, e diferentes vias para transporte terrestre. Vias regionais de fornecimento de água, gás, petróleo, outras formas de energia. Criar redes que unam nossos países, nessa região crucialmente estratégica do mundo que se designa como “os cinco curdistões”. Todos os países devem dirigir investimentos para essa região. Assim se fortaleceriam todos os países e também os vários nacionais de etnia curda.

Essa visão exige determinação, vontade e capacidade para tomar decisões independentes na nossa região, sobretudo se muitos grandes estados ocidentais não têm interesse algum em qualquer projeto que vise a beneficiar os cidadãos da nossa região, a fortalecer a região. Não têm qualquer interesse em promover a estabilização do Oriente Médio.

Não me parece que, hoje, haja condições objetivas para trabalhar na direção desse nosso projeto. Há muitos problemas na Síria, no Líbano, no Iraque. Praticamente todos esses problemas são resultado da intervenção do ocidente. E, na Turquia, por exemplo, entendo que não há governo independente. E a Turquia seria elemento central para implementar esse projeto, sobretudo por sua posição estratégica.

Mas nada disso significa que o projeto tenha sido cancelado. Temos de manter na cabeça a ideia de que o futuro dessa região depende de grandes projetos como esse. Se todos continuarmos confinados em nossas respectivas fronteiras nacionais, continuaremos a ser países pequenos, na escala global. Mesmo no caso de países de grande território, como Turquia e Irã, não conseguirão manter-se sozinhos, se não estruturarmos esses grandes projetos transfronteiras.

Ulusal Kanal (2): A partir de sua resposta, gostaria de passar a outra questão, relacionada às guerras sectárias. Muita gente fala de guerra entre sunitas e xiitas na região. Na sua opinião, os conflitos em curso podem ser vistos como sectários por natureza?

Presidente Bashar al-Assad: Essa questão foi levantada pela primeira vez em 1979, a partir da Revolução Iraniana, que derrubou do poder um dos mais importantes aliados dos EUA na região. A única solução foi apresentar aquela revolução como se fosse revolução xiita, para que outras seitas se opusessem a ela. Nesses termos, inventaram a guerra Irã-Iraque, que foi apoiada por alguns países do Golfo. Pouco depois, a Fraternidade Muçulmana na Síria foi usada para o mesmo objetivo: para criar oposições sectárias. Falharam nos dois casos, na primeira e na segunda tentativa. Agora, três décadas depois, não há outra escolha, além de criarem novamente a alternativa sectária. Por isso, voltam a levantar a mesma questão agora.

No início da crise, as posições foram sectárias. Falharam, até agora. Se tivessem sido bem sucedidos, o regime teria sido fragmentado, em resultado desse conflito. O aspecto positivo disso tudo, é que a opinião pública vai-se tornando cada dia mais consciente das ideologias sectárias. Mas há bolsões sectários, alimentados pela ignorância, que sempre há, em qualquer sociedade.

Acredito que, agora, a essência do conflito não é sectária. O conflito hoje se trava entre forças e estados que querem empurrar os povos para aqueles estágios atrasados, e forças e estados que querem que os povos da região possam avançar. Entre os que querem que os povos da região encontrem aqui uma pátria onde possam viver livres, e outros que querem que aqui só haja estados-satélites, exclusivamente para promover interesses daqueles estados e forças, não dos povos da região. Ao mesmo tempo, aquelas forças são parte de uma luta internacional de interesses conflitantes, da qual Síria e Turquia são parte. Essa luta está sendo afetada por diferentes fatores que podem levar à fragmentação dessa região, de modo a permitir que potências globais passem a controlar nosso destino e nosso futuro.

Mustafá Gamal Ataturk
Ulusal Kanal (2): Mesmo assim, fora da Síria, estão sendo adotadas políticas oficiais baseadas em divisões e fragmentação baseadas em etnicidade e por seitas religiosas. Por outro lado, vivemos e testemunhamos na Turquia o processo do qual o senhor fala, especialmente depois que a República secular foi criada e dirigida por Mustafá Gamal Ataturk. Mas, infelizmente, esses estados e governos afastaram-se daquele projeto, que trocaram por projetos religiosos e sectários. Como o senhor vê o futuro desses sistemas políticos?

Presidente Bashar al-Assad: Esses sistemas políticos e establishments que buscam a divisão e a fragmentação estão preparados para guerras que se arrastem por anos, mesmo séculos em nossa região. Destruir tudo. Impedir qualquer prosperidade, qualquer desenvolvimento, devolver à Idade Média vários aspectos de nossa vida. Isso é muito perigoso. Quando penso em secularismo, falo em liberdade para todas as nossas religiões e práticas religiosas. Nossa região é basicamente conservadora. Muitos são religiosos e devem ser livres para praticar a religião que prefiram, para cumprir seus rituais. Não devemos pensar nem por um momento, que haja alguma contradição entre etnicidade e religião. Essa é a essência de nosso pensamento sobre secularismo. Por isso, sempre trabalharei pela unificação dos nossos povos nessa região.

Como já disse antes, não importa a natureza das nossas questões entre Síria e Turquia, não se pode permitir que coisa alguma afete as relações entre nossos povos, entre os sírios e os turcos. Porque na aproximação entre nossos povos está a única garantia que temos para preservar a diversidade, que é a riqueza de nossas sociedades.

Ulusal Kanal (1): Senhor presidente, o senhor acompanha de perto os desenvolvimentos na Turquia?

Presidente Bashar al-Assad: É normal que acompanhe. O que acontece na Turquia acontece em outros grandes países, que ocupem posição estratégica e tudo que aconteça nesses países afeta a situação síria. Ao mesmo tempo, há tantas semelhanças: a natureza do povo, as emoções, a textura do tecido social na Turquia. Há muitas semelhanças. Repito: o que aconteça na Turquia sempre terá impacto sobre a Síria, Por isso entendemos que a estabilidade na Turquia é do mais alto interesse também da Síria. E vice-versa. Se vocês sofrerem turbulências, nós seremos afetados. O desafio, hoje, é convencer o atual governo turco, especialmente o Primeiro-Ministro Erdogan, de que fogo na Síria queimará a Turquia. Infelizmente, ele não vê essa realidade.

Ulusal Kanal (2): Quanto ao diálogo com a oposição, o senhor sempre falou a favor de solução política e diálogo direto com a oposição. Há prazos e limites [orig. red lines, linhas vermelhas] para esse diálogo?

Presidente Bashar al-Assad: A única “linha vermelha” é qualquer intervenção estrangeira. Qualquer diálogo terá de ser diálogo sírio, exclusivamente entre sírios. Não se admite nenhuma intervenção estrangeira nesse diálogo. Exceto por esse limite, absolutamente não há qualquer outro limite. Os sírios podem discutir tudo que queiram discutir, qualquer tema, qualquer questão. A Síria é a pátria deles todos e todos podem discutir o que queiram. Não há “linhas vermelhas”.

Mohammad al-Bouti
Ulusal Kanal (2): Muitos veículos de imprensa insistem em que a Síria seria governada por uma ditadura alawita, interessada exclusivamente em eliminar os sunitas. E até o assassinato de Mohammad Said Ramada al-Bouti entra nesse quadro. Como o senhor responde a essas acusações?

Presidente Bashar al-Assad: Falamos no início sobre a diversidade dessa região. E vivemos estáveis por muitas décadas, sem qualquer problema interno. Como teríamos conseguido aquela estabilidade, se não houvesse aqui um governo que é a imagem do próprio povo? Seja onde for, se o governo é controlado por um ou mais grupos, contra outros grupos sociais e, assim, não reflete as características de toda a população, o governo não pode sobreviver. Nenhuma dessas acusações é verdadeira. Vivemos em paz na Síria durante décadas, porque o governo sempre foi expressão da diversidade do próprio povo.

Quanto à morte do Dr. al-Bouti [muçulmano sunita tradicionalista], é ridículo acusar a Síria de qualquer envolvimento naquele assassinato. Essas acusações são feitas pelos mesmos grupos que, antes, o acusavam, apenas poucos dias antes, de ser porta-voz de autoridades religiosas, em assuntos religiosos. É operação pensada para ferir a popularidade do Dr. al-Bouti entre os sírios e entre seus seguidores no mundo muçulmano. Ele nunca teve autoridade, nem foi porta-voz de nenhuma autoridade. Jamais quis para ele qualquer autoridade. Nunca quis ser ministro, ou moufti, nunca pediu dinheiro a ninguém e era homem de vida simples. Seu único crime é que se pôs à frente do grupo de religiosos [sunitas] ativamente envolvido no trabalho de promover divisões sectárias entre os sírios. O Dr. al-Bouti estava à frente daquele grupo, primeiro, por sua posição na Síria e no mundo muçulmano. Segundo, porque tinha grande dificuldade para entender o que realmente está acontecendo.

Não há dúvida de que sem a concordância desses líderes religiosos é praticamente impossível criar os conflitos religiosos, mas os líderes acabam pagando com a própria vida, pelo sectarismo que pregam. Não há dúvidas de que o Dr. al-Bouti tinha grandes defeitos, sobretudo na posição que adotou nessa guerra. Não apoiava o Estado sírio e aliou-se aos estrangeiros. Por esse e outros erros, pagou com a vida, numa luta religiosa que ele mesmo incentivou. Mas outros líderes religiosos que não compactuam com o movimento para separar os grupos religiosos também têm sido assassinados. Mais um deles foi assassinado, há poucos dias, em Aleppo. Todos os líderes religiosos que não preguem divisionismos e ensinem sobre tolerância religiosa, sobre moderação, opõem-se a guerras religiosas, não as incitam.

Ulusal Kanal (1): Muito obrigado, senhor presidente, por essa entrevista a Ulusal Kanal. Há mais alguma coisa que o senhor queira dizer ao povo turco?

Ulusal Kanal (2): Estamos agora num momento crucial da história. Falo da Síria, da Turquia, de toda a região. Tudo que se vê acontecendo aqui tem alguns elementos espontâneos e tem também elementos planejados fora daqui, e que foram planejados com o objetivo de alcançar pleno controle de toda essa região. O que acontece hoje é, na essência, similar ao que aconteceu há 100 anos, em termos de projeto para redividir a região. Mas há 100 anos, nós aceitamos a redivisão da região: uma parte para eles, uma parte para nós, uma parte para outros interessados. Dessa vez, contudo, não podemos aceitar nenhum redesenho da região que não considere os interesses dos próprios povos da região. O povo terá de tomar suas decisões. Nós decidiremos. Infelizmente, vários governos da região não veem as coisas desse modo. E aceitam ordens e agem em obediência ao diktat dos interesses de estados estrangeiros, na maioria estados ocidentais.

Nos últimos tempos já se viram várias tentativas para semear a discórdia entre os povos sírio e turco. Quero dizer que o trabalho que iniciamos há dez anos, com o presidente Sezer deve ser retomado e continuado. Refiro-me ao trabalho para construir solidariedade e amizade entre turcos e sírios. Nada disso será jamais possível se não houver relações normais entre nossos estados. Como já disse, a prosperidade de um dos estados da região refletir-se-á nos demais. Pela mesma razão, o que haja de divisões e conflito num de nossos países, respingará fatalmente sobre o outro.

Governos passam e é importante que passem. Por isso temos de construir projetos que fortaleçam os povos da região, não projetos que só interessam a potências estrangeiras. É a mensagem que tenho para o povo turco. [despedidas e fim da entrevista]



Nota dos tradutores:
[1] Partiya Karkerên Kurdistanem português, Partido dos Trabalhadores do Curdistão. O PKK tem um braço armado, Força de Defesa do Povo (conhecido pela sigla HPG), listado como “organização terrorista” pela Turquia e pelos EUA; até recentemente, também pela União Europeia, que o deslistou por ordem judicial.  

O que preocupa os norte-coreanos?



Como Obama está a fomentar uma crise na 

Península Coreana


As relações entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte atingiram um nadir e, na maior parte dos media ocidentais, fala-se da aparentemente irracional retórica dura vinda de que é acusada a Coreia do Norte. Inexplicavelmente, dizem-nos, a Coreia do Norte optou por elevar a tensão.

O que está a faltar nesta imagem do comportamento hostil norte-coreano e da imaculada inocência americana é contexto. Como é frequente, os media apresentam eventos de um modo isolado como se surgissem subitamente e sem qualquer causa.

É preciso olhar para trás no tempo para perceber o que está a perturbar os norte-coreanos. Em meses recentes, a administração Obama deu um certo número de passos que a RDPC (República Democrática e Popular da Coreia, o nome oficial da Coreia do Norte) considerou ameaçadores.

O primeiro passo no caminho do agravamento das relações ocorreu em Outubro de 2012, quando os Estados Unidos concederam à Coreia do Sul uma isenção sob o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis, a qual permitiu estender o alcance dos seus mísseis balísticos de modo a que pudessem cobrir todo o território da RDPC. [1] Em consequência, houve um conjunto de termos que se aplicavam a todo o país que houvesse aderido ao tratado e um conjunto diferente que se aplicava só à Coreia do Sul, claramente com o propósito de alvejar o seu vizinho do Norte.

Naquele mesmo mês, responsáveis militares dos EUA e Coreia do Sul encontraram-se para a Reunião anual Consultiva de Segurança, onde acordaram mudanças vastas na sua aliança. Ainda mais importante: eles desenvolveram um plano que denominaram "dissuasão sob medida" ("tailored deterrence"), o qual apela a operações militares conjuntas sul-coreanas-estado-unidenses contra a Coreia do Norte num certo número de cenários, incluindo incidentes menores. Qualquer "provocação" por parte da Coreia do Norte é para respondida com força desproporcionada e, segundo responsáveis militares sul-coreanos, "esta estratégia será aplicada tanto em tempo de paz como de guerra". [2]

Uma componente essencial da dissuasão sob medida é uma "cadeia de destruição" ("kill chain") para rastrear e atacar sítios de mísseis norte-coreanos, em que satélites e drones americanos detectam alvos e mísseis e aviões de guerra sul-coreanos eliminam-nos. O plano apela a um ataque antecipativo (preemptive) baseado na percepção de um lançamento iminente de mísseis norte-coreanos. O vice-comandante do Comando Coreia das Nações Unidas, general Jan-Marc Jouas, explicou que mísseis norte-coreanos podiam ser rapidamente alvejados "antes de estarem em posição de serem empregados". [3] Para dizer isso em termos simples, poderia ser lançado um ataque a sítios de mísseis com base em suposições, mesmo quando mísseis norte-coreanos não estivessem numa posição de fogo.

Em 13 de Abril de 2012, a RDPC lançou em órbita um satélite de observação da terra, o que disparou condenações pela administração Obama, com a acusação de ser um teste disfarçado de míssil balístico. Resoluções da ONU proíbem a Coreia do Norte de testar mísseis balísticos, mas Pyongyang argumentou que enviar um satélite para o espaço não é a mesma coisa que efectuar um teste de míssil balístico. Peritos em tecnologia de mísseis tendem a concordar, destacando que ao míssil lançado pela RDPC faltava o desempenho para servir de ICBM e que a rota do seu voo adoptou uma viragem aguda para evitar voar sobre Formosa e as Filipinas, uma acção que é contra-producente para um teste de míssil balístico. [4]

Vasos navais sul-coreanos conseguiram recuperar destroços do míssil norte-coreano. Análises efectuadas mostravam que um motor pequeno com um baixo impulso de 13 a 14 toneladas propulsionaram o segundo estágio. O engenheiro aeroespacial Marcus Schiller, baseado de Munique, informou que um segundo estágio de baixo impulso e queima longa, tal como o utilizado pelos norte-coreanos, é precisamente a concepção necessária para um lançados de satélite. Tal concepção é necessária para atingir uma altitude suficientemente elevadas para colocar um satélite em órbita. Essa concepção, contudo, é inadequada para um teste de míssil balístico, pois ela faria perder mais de 1000 km de alcance. Para testar um míssil balístico, o segundo estágio deveria ter a concepção oposta, tendo um alto impulso e tempo de queima curto. Schiller conclui que relatos dos media ocidentais de que o satélite norte-coreano serviu como teste de míssil balístico "não são verdadeiros". [5]

Michael Elleman, analista de segurança do International Institute for Strategic Studies, observa que os resultados de um lançamento de satélite "têm aplicação limitada para mísseis balísticos", pois só fracções das questões em causa podem ser testadas. "Outras exigências, mais notavelmente tecnologias de re-ingresso e exigências de flexibilidade operacional, não podem ser tratadas adequadamente por lançamentos de satélites". Elleman informa que por estas e outras razões, lançamentos de mísseis com satélite pela Coreia do Norte "não são um substituto para o teste de mísseis balísticos". [6]

Curiosamente, no mesmo dia em que a Coreia do Norte lançou o seu satélite para o espaço, a Índia, outra potência nuclear, testou o disparo de um míssil balístico sem que responsáveis americanos expressassem uma queixa. [7] Os Estados Unidos não estão faltos de engenheiros aeroespaciais e responsáveis dos EUA certamente estavam consciente de que o lançamento do satélite da Coreia do Norte não podia tecnologicamente ser interpretado como um teste de míssil balístico disfarçado. Parece que a administração Obama deliberadamente optou por falsear a natureza do lançamento a fim de promover os seus próprios fins políticos.

O lançamento do satélite proporcionou à administração Obama uma oportunidade para endurecer o nó corrediço em torno da Coreia do Norte e, após negociações extensas, conseguiu pressionar uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Como explicou a porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Victoria Nuland, a intenção da administração Obama era "continuar a aumentar a pressão sobre o regime norte-coreano. E estamos a procurar a maneira de melhor fazer isso, a avançar tanto bilateralmente como com nossos parceiros. Até que eles obtenham a mensagem, vamos ter de continuar a fomentar o isolamento deste regime". [8]

Com a aprovação da resolução 2087 de 22/Janeiro/2013 do Conselho de Segurança da ONU, novas sanções foram impostas à Coreia do Norte, apesar do facto de que o tratado internacional do espaço exterior garante o direito de explorar o espaço a "todos os estados sem discriminação de qualquer espécie". [9]

A Coreia do Norte reagiu furiosamente por ser discriminada como o único país sobre a terra ao qual é negado o direito de lançar um satélite. A RDPC não tendia a anuir à imposição de sanções adicionais, quando a sua economia já estava a cambalear com as sanções existentes. Um porta-voz da RDPC destacou que ao forçar a resolução no Conselho de Segurança, os Estados Unidos haviam violado a Carta das Nações Unidas, a qual declara que "a Organização é baseada no princípio da igualdade soberana de todos os seus membros".

Falando nas Nações Unidas, o delegado da RDPC, So Se Pyong, declarou: "Houve não menos de 2000 testes nucleares e pelo menos 9000 lançamentos de satélite no mundo desde que a ONU existe, mas nunca houve uma única resolução do seu Conselho de Segurança que proibisse testes nucleares e lançamentos de satélites". Acrescentando que o Estados Unidos havia executado mais testes nucleares e lançamentos de satélite do que qualquer outro país, o delegado disse que não deveria ser permitido aos Estados Unidos bloquearem a Coreia do Norte exercerem o seu direito "a utilizar o espaço para fins pacíficos", nem utilizar as Nações Unidas "como uma ferramenta para executar a sua política hostil para com a RDPC". [10]

Sem qualquer surpresa, a Coreia do Norte optou por exprimir a sua resistência à agressividade da política estado-unidense efectuando o seu terceiro teste nuclear em 12 de Fevereiro de 2013. Vários dias depois, numa aparente referência ao Iraque e à Líbia, os media norte-coreanos recordaram os destinos que haviam acontecido àqueles países que haviam abandonado suas armas nucleares em resposta à pressão estado-unidense. Estes exemplos, acrescentavam, "ensinam a verdade de que a chantagem nuclear dos EUA deveria ser contida com contra-medidas substancial, não com compromisso ou retirada". [11]

Um dia após o teste nuclear, o Ministério da Defesa Nacional sul-coreano anunciou que havia instalado mísseis de cruzeiro capazes de atingir qualquer lugar na Coreia do Norte e que aceleraria o desenvolvimento de mísseis balísticos de alcance semelhante. Além disso, a implementação da cadeia de destruição (kill chain) seria acelerada.[12] Planeada originalmente para estar completa em 2015, a cadeia de destruição está agora em vias de estar instalada no fim deste ano. [13]

Enquanto decorriam discussões no Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre a imposição de sanções adicionais à Coreia do Norte, a União Europeia avançou com o seu próprio conjunto de medidas, incluindo uma proibição de comércio com entidades públicas norte-coreanas e de comércio com títulos públicos da RDPC. A UE também aplicou uma proibição à abertura de bancos europeus na RDPC e de bancos norte-coreanos estabelecerem uma agência na UE. [14]

Levou mais de três semanas para negociar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU em resposta ao teste nuclear norte-coreano. A questão mais contenciosa era incluir ou não o Capítulo 7, Artigo 42, o qual teria autorizado imposição militar. Tanto os Estados Unidos e a Coreia do Sul argumentaram fortemente pela sua inclusão. Outra questão difícil era a inspecção de navios cargueiros norte-coreanos e houve discussão extensa antes de os Estados Unidos e a China acordarem na extensão de inspecções. [15]

Os chineses recusaram-se a acordar na imposição militar, certamente temendo que isso aumentaria o risco de guerra. Nem acompanharam algumas das medidas mais duras que os Estados Unidos haviam incluído, como uma lista de desejos na sua minuta. [16] A imposição militar teria sido particularmente perigosa, dada história de como o Artigo 42 serviu de caminho para os Estados Unidos travarem guerra.

Embora os Estados Unidos não obtivessem tudo o que queriam, a aprovação da Resolução 2094 em 7 de Março de 2013 pelo Conselho de Segurança da ONU atingiu muitos dos objectivos que advogavam. A resolução exige a todos os países que inspeccionem navios e aviões norte-coreanos que forem suspeitos de transportarem bens proibidos. Restrições fortes são aplicada a operações bancárias norte-coreanas. É ordenado a países que impeçam indivíduos norte-coreanos de transferirem volume de dinheiro (bulk cash), incluindo pessoal diplomático, que passam a estar sujeitos a "vigilância agravada" em violação da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. [17] Ao visar diplomatas norte-coreanos para vigilância, buscas e detenção, os Estados Unidos têm como objectivo eliminar um dos poucos meios remanescentes que a RDPC tem para envolver-se em transacções monetárias internacionais. As sanções bancárias da ONU e dos Estados Unidos fizeram com que a maior parte dos bancos internacionais ficassem pouco desejosos de ter transacções com a Coreia do Norte, forçando a RDPC a efectuar grande parte do seu comércio exterior na base de cash.

É a medida de restringir negócios de bancos com a Coreia do Norte que promete infligir o maior dano à economia norte-coreana. "Perseguir o sistema bancário de um modo universal é comprovadamente a coisa mais forte na lista", observa antigo responsável do Departamento de Estado J. R. Revere. "Isto começa a morder na capacidade da Coreia do Norte para financiar muitas coisas". [18] Primariamente o comércio normal, dever-se-ia notar.

Poucos dias depois, o Departamento do Tesouro dos EUA avançou com as suas próprias sanções, proibindo transacções entre o Foreign Trade Bank da Coreia do Norte e indivíduos e negócios estado-unidenses, e colocando um congelamento sobre activos mantidos sob jurisdição dos EUA. O Foreign Trade Bank, destaca o Departamento do Tesouro, é "o banco primário do intercâmbio externo da Coreia do Norte". [19] A proibição efectivamente impede bancos e empresas em outros países de comerciarem com o Foreign Trade Bank, por temor de serem excluídos do contacto com o sistema financeiro dos EUA. "Quando há um banco estrangeiro com que bancos dos EUA não estejam a fazer negócios, bancos em outros países começam a evitar transacções com ele", observa um especialista financeiro. "Eles ficam preocupados acerca de sofrerem eles próprios as consequências". Tipicamente, o comércio internacional está baseado no dólar, exigindo transacções a processar através do sistema financeiro estado-unidense. Por essa razão, "bancos chineses não vão ser capazes de ajudar a Coreia do Norte", acrescenta o analista financeiro. [20]

Pelo seu lado, a Coreia do Sul adoptou políticas que agravam o perigo de guerra. Segundo um responsável militar sul-coreano, "Foi dada aos comandantes a autoridade para actuarem primeiro à vontade no caso de uma provocação norte-coreana para infligir uma retaliação que é mais de dez vezes tão dura quanto o nível da provocação". [21] O Director de Operações do Estado Maior das Forças Armadas, Kim Yong-hyon, declara que em resposta a um incidente as forças armadas sul coreanas "punirão resolutamente não só a origem da provocação como também suas forças que comandam". [22] Não é preciso muita imaginação para reconhecer como tal política tem o potencial para transformar uma escaramuça menor numa guerra.

Os Estados Unidos e a Coreia do Sul assinaram recentemente um plano de contra-provocação, no qual forças estado-unidenses são comprometidas a providenciar apoio quando forças sul-coreanas ataquem um alvo norte-coreano. O plano esclarece acções que devem ser tomadas como resposta a vários cenários. De acordo com um responsável militar sul-coreano, ele leva em conta a política sul-coreana "a qual apela ao lançamento de contra-ataque não só para a origem da provocação como também a forças que a apoiam e seus comandantes". Em alguns cenários "armas estado-unidenses podiam ser mobilizadas para retaliar em águas territoriais e solo da Coreia do Norte". [23] O plano de contra-provocação requer à Coreia do Sul consultas com os Estados Unidos antes de entrar em acção, mas se Seul requerer assistência os Estados Unidos não podem recusar-se a tomar parte em operações militares. [24]

Numa poderosa demonstração destinada a intimidar a Coreia do Norte, os Estados Unidos e a Coreia do Sul começaram o seu exercício militar anual Resolução Chave (Key Resolve) em 11 de Março, sobrepondo-se ao exercício militar de dois meses Foal Eagle que começou a primeiro de Março. Durante o exercício, bombardeiros B-52 com capacidade nuclear decolaram de Guam e praticaram o despejo de munições na Coreia do Sul. [25] Os comandantes estado-unidenses sabiam que esta acção inflamaria sensibilidades norte-coreanas, dadas as dolorosas memórias que os norte-coreanos têm da Guerra da Coreia, quando bombardeiros estado-unidenses executaram uma política de terra queimada e arrasaram toda cidade norte-coreana até ao solo.

Os Estados Unidos mais uma vez agravaram a pressão sobre a RDPC com o envio do submarino USS Cheyenne, movido a energia nuclear, equipado com mísseis Tomahawk, para participar no Foal Eagle. [26] Logo após, bombardeiros B-2 Stealth voaram sobre a Coreia do Sul em exercícios militares. "Como o B-2 tem a função de invisibilidade ao radar, ele pode penetrar a defesa anti-aérea para lançar armas convencionais e nucleares", comentou um responsável militar. "É a arma estratégica mais temida pela Coreia do Norte". [27] O B-2, dever-se-ia notar, é o único avião capaz de entregar a bomba Massive Ordnance Penetrator de 30 mil libras [13.590 kg], a qual pode perfurar através de 200 pés [61 m] de betão antes de detonar. O avião também pode transportar múltiplas armas nucleares. Continuando a escalar a demonstração de força, os Estados Unidos enviaram a seguir aviões de combate F-22 Stealth à Coreia do Sul. [28] O governo sul-coreano pediu aos Estados Unidos para não mostrar os aviões em público porque isso seria uma provocação desnecessária à Coreia do Norte. O pedido foi desatendido pelos Estados Unidos. [29]

Num aumento do arsenal sul-coreano, os Estados Unidos aprovaram a venda de 200 bombas destruidores de bunkers, adequadas para alvejar instalações subterrâneas norte-coreanas. Os planos exigem que as bombas seja instaladas até o fim do ano. [30] A Coreia do Sul também planeia comprar à Europa 200 mísseis de cruzeiro Taurus, lançados do ar, os quais são capazes de penetrar até seis metros de betão reforçado. [31]

Como parte do seu planeamento para contingências futuras, os Estados Unidos constituíram uma organização militar responsável pela entrada na Coreia do Norte e captura de instalações e armas nucleares no caso de uma crise na RDPC. Naquele cenário, as forças dos EUA também prenderiam "figuras chave" e reuniriam informação classificada. Não foi revelado quais indivíduos norte-coreanos seriam sujeitos a prisão pelas forças dos EUA. A força seria composta por forças armadas dos EUA, operacionais de inteligência e pessoal anti-terrorismo. Um ensaio de imitação a implementar o plano fez parte dos exercícios Key Resolve recentemente concluídos. [32]

Tendo feito tudo para provocar os norte-coreanos, a administração Obama agarrou a oportunidade para apontar a sua reacção como justificação para instalar uma lista de desejos (wish list) de hardware anti-míssil. O Pentágono anunciou que estacionaria 14 interceptadores de mísseis adicionais em Fort Greely, Alasca e prosseguiria com o seu plano de colocar um segundo radar anti-míssil no Japão. [33] Uma bateria Terminal High-Altitude Area Defense (THAAD) é prevista ser exibida em Guam na sua primeira instalação, [34] e a plataforma SBX-1 X-Band Radar com base no mar está a mover-se para o Pacífico ocidental, que a Marinha diz poder ser o primeiro de outros posicionamentos navais. [35]

Wall Street Journal relata que o espectáculo de força militar foi planeado antecipadamente, no que a administração Obama denominou "o manual de estratégia" ("the playbook"). Os Estados Unidos actuaram com intenção deliberada de ameaçar a Coreia do Norte. Segundo o artigo, a administração decidiu colocar o manual em "pausa" só quando os media revelaram a deslocação de dois destróiers com mísseis guiados para o Pacífico ocidental e foi sentido que talvez esta notícia arriscasse pressionar os norte-coreanos demasiado longe. O posicionamento dos destróiers, como foi dito, não era para ser publicitado. Os próximos passo no manual foram adiados. [36] Também foi informado que os Estados Unidos adiarão um voo de teste de um Minuteman ICBM em um mês a fim de não aumentar tensões.

A percepção que a administração Obama pretende transmitir ao público americano e mundial, portanto, é que os Estados Unidos estão a actuar responsavelmente a fim de neutralizar a situação. Um alto responsável da defesa, entretanto, disse: "Não havia ordem de segredo da Casa Branca" em relação ao posicionamento dos destróiers. Além disso, hardware militar recentemente posicionado não foi retirado, ao passo que o exercício combinado em grande escala dos EUA-Coreia do Sul, Foal Eagle, no degrau da porta da Coreia do Norte continua sem pausa. [37]

Apesar das afirmações de que está a amortecer suas acções, a administração Obama está a fazer o oposto. Responsáveis dos EUA dizem que não pretendem entrar novamente em combate com a RDPC. [38] A dissuasão sob media e a cadeia de destruição estão em programação acelerada, colocando a Península Coreana à beira da guerra. Enquanto isso, os Estados Unidos estão a trabalhar arduamente para persuadir outros países a sancionarem o Foreign Trade Bank da RDPC e estão a considerar outros meios pelos quais possam levar a Coreia do Norte ao colapso económico. Um responsável anónimo do Departamento de Estado dos EUA observou que ainda havia espaço para a ampliação de sanções. "Não sei o que acontecerá, mas não alcançámos o limite, ainda há espaço para mais, e temos de tentar". [39]

Responsáveis dos EUA pediram à União Europeia para sancionar o Foreign Trade Bank e novas discussões são expectáveis de acordo com estas linhas. [40] O Japão e a Austrália já concordaram e juntar-se aos Estados Unidos no sancionamento do banco, tanto o responsável do Departamento do Tesouro David Cohen como o secretário do Tesouro Jack Levy pediram à China para fazer o mesmo. [41] O presidente Obama fez um telefonema pessoal ao presidente chinês Xi Jinping, instando-o a sancionar o Foreign Trade Bank e responsáveis dos EUA continuam a pressionar a China, insistindo em que se a China não "tomar posição" sobre a Coreia do Norte os EUA aumentarão suas forças militares na Ásia. [42]

Essa consequência, os chineses certamente percebem, seria voltada tanto contra eles como contra a Coreia do Norte. A opção que a administração Obama está a oferecer é que os chineses possam ou observar os Estados Unidos expandirem sua militarização da região e endurecerem o seu cerco da China, ou dobrarem-se à pressão americana e cooperarem provocando a ruína económica da Coreia do Norte. É provável que ao escolher a última opção os chineses venham a descobrir que os Estados Unidos não têm intenção de reduzir seu eixo central na Ásia e a sua presença militar na região cresceria sem dificuldades.

Uma fonte diplomática revela que quer a China concorde ou não em acompanhar os pedidos estado-unidenses, o efeito sobre a economia da Coreia do Norte pode ser o mesmo. "O que o governo dos EUA está à procura de aplicar pressão psicológica sobre bancos chineses. Se bancos dos EUA evitarem transacções com bancos chineses que têm laços com bancos norte-coreanos na lista negra ou outras entidades, isso podia levar a efeitos semelhantes àqueles das sanções do boicote secundário". [43]

Sem qualquer dúvida, os responsáveis e os media norte-coreanos têm estado a emitir proclamações de cortar o fôlego, a efectuar acções como cortar a linha telefónica militar com a Coreia do Sul, a anunciar a intenção de reiniciar o reactor nuclear de Yongbyon e a encerra temporariamente o Complexo Industrial de Kaesong, o que parece exacerbar tensões de forma imprudente. Contudo, há lógica no seu comportamento. A administração Obama nunca quiz negociar com a Coreia do Norte e, claramente, pretende efectuar mudança de regime quando acumula sanções sobre sanções e desenvolve planos militares que ameaçam a existência da RDPC. Com efeito, acções dos EUA encorajaram a Coreia do Norte a desenvolver um programa de armas nucleares como seu único dissuasor realista contra ataques, dada a tecnologia obsoleta do seu armamento convencional.

Entretanto, responsáveis norte-coreano sabem que os EUA sabem que eles não têm uma arma nuclear utilizável, nem têm um veículo de entrega adequado. A RDPC tem opções limitadas e, por agora, responsáveis norte-coreanos aparentemente sentem que têm apenas duas opções. Podem ou aceitar docilmente ciclo após ciclo de punição enquanto testemunham desamparadamente o dano crescente à sua economia e as ameaças à sua nação, ou podem reforçar a sua retórica como meio de enviar uma mensagem aos Estados Unidos. Essa mensagem é de que se o Estados Unidos atingirem a Coreia do Norte obterão uma resposta mais forte do que esperam, que deveriam pensar duas vezes antes de atacar e que quanto mais os Estados Unidos exercerem pressão, mais a RDPC resistirá.

Infelizmente, isto produz um ciclo de realimentação (feedback loop), em que quanto mais os Estados Unidos punem a RDPC, mais fortemente os norte-coreanos resistem e, quanto mais resistem, mais punição vem a seguir. O único meio aparente de sair deste impasse é um processo de paz, mas a administração Obama permanece obstinadamente oposta a negociações.

O analista de assuntos internacionais Chen Qi, da Universidade Tsinghua, destaca que os Estados Unidos "não respeitaram as preocupações de segurança da RDPC e que está é a razão porque a questão nuclear na Península Coreia não foi resolvida". Chen sugere que "Washington pode querer que a questão nuclear de Pyonyang seja resolvida porque proporciona uma desculpa para a instalação de sistemas anti-mísseis e penetrações militares na região, as quais estão alinham-se com o seu reequilíbrio militar no Extremo Oriente". [44] Os responsáveis dos EUA, deveria ser mantido em mente, nunca esconderam o seu desejo de provocar mudança de regime na Coreia do Norte, sem se importar com os perigos dessa política.

Uma mudança na política estado-unidense pode nunca acontecer a menos que a Coreia do Sul abra o caminho com firmeza e isso é uma perspectiva improvável no presente. Uma tal mudança pode ter de esperar cinco anos, quando a próxima eleição presidente tiver lugar na Coreia do Sul. Isto é um longo tempo, dados os planos estado-unidenses para elevar tensões na Península Coreana. Se a Coreia do Sul não demonstrar liderança para uma abordagem alternativa antes disso, a questão é por quanto tempo tensões podem ferver sem transbordar uma crise perigosa.
NOTAS 
1 http://www.counterpunch.org/2012/10/18/militarizing-south-korea/ 

2 http://www.kpolicy.org/documents/interviews-opeds/ 121204gregoryelichmappingthefutureussk.html 

3 http://www.kpolicy.org/documents/interviews-opeds/ 121204gregoryelichmappingthefutureussk.html 

4 http://www.globalresearch.ca/putting-the-squeeze-on-north-korea/53216 

5 David Wright, "Markus Schiller's Analysis of North Korea's Unha-3 Launcher," All Things Nuclear, February 22, 2013. 

6 Michael Elleman, "Prelude to an ICBM? Putting North Korea's Unha-3 Launch into Context," Arms Control Association, March 2013. 

7 http://www.globalresearch.ca/putting-the-squeeze-on-north-korea/5321689 

8 http://www.globalresearch.ca/putting-the-squeeze-on-north-korea/5321689 

9 http://www.oosa.unvienna.org/oosa/SpaceLaw/outerspt.html 

10 "DPRK Delegate Makes Speech at UN Special Committee Session," KCNA, February 23, 2013. 

Stephanie Nebehay, "North Korea Blames U.S. for Tension on Peninsula," Reuters, February 27, 2013. 

11 "Nuclear Test, Part of DPRK's Substantial Countermeasures to Defend its Sovereignty: KCNA Commentary," KCNA, February 21, 2013. 

12 Kim Eun-jung, "S. Korea Beefs Up Integrated Air and Missile Defense," Yonhap, February 13, 2013. 

Kim Hee-jin, "Military Deploys Cruise Missiles in Reaction to North," JoongAng Ilbo, February 14, 2013. 

13 "S.Korea, US to Discuss Stopping NK's Nuclear Program," Dong-A Ilbo, February 21, 2013. 

14 Adrian Croft, "EU to Tighten Sanctions on North Korea after Nuclear Test," Reuters, February 15, 2013. 

15 Lee Chi-dong, "'Strongest Sanctions' on NK, Output of Artful U.N. Diplomacy," Yonhap, March 8, 2013. 

"S. Korea Seeks U.N. Resolution with Military Means Against N. Korea," Yonhap, February 15, 2013. 

Park Hyun and Park Min-hee, "US and China Butting Heads over North Korea," Hankyoreh, February 15, 2013. 

16 Peter Ford, "China Agrees to Sanction North Korea, but How Far will it Go?," Christian Science Monitor, March 6, 2013. 

17 Security Council SC/10934, "Security Council Strengthens Sanctions on Democratic People's Republic of Korea in Response to 12 February Nuclear Test," UN Security Council, March 7, 2013. 

Park Hyun, "UN Expected to Pass Exceptionally Tough Sanctions on North Korea," Hankyoreh, March 7, 2013. 

18 Rick Gladstone, "U.N. Resolution to Aim at North Korean Banks and Diplomats," New York Times, March 5, 2013. 

19 Press Release, "Treasury Sanctions Bank and Official Linked to North Korean Weapons of Mass Destruction Programs," U.S. Department of Treasury, March 11, 2013. 

20 Park Hyun, "New Unilateral US Sanctions Target North Korean Banks," Hankyoreh, March 14, 2013. 

21 Kim Kui-kun, "North's Threat Offensive…Signing of 'ROK-US Counter Provocation Plan' Delayed," Yonhap, March 12, 2013. 

22 Yi Yong-chong, "Secures Coordinates for a Commander's Office of the North; If Missile Launched Against It," JoongAng Ilbo, March 11, 2013. 

23 Song Sang-ho, "Korea, U.S. Set Up Plan to Counter N.K. Provocation," Korea Herald, March 24, 2013. 

24 Hong Jin-su, "U.S. Military Will Intervene Under Certain Conditions Following North Korean Provocation," Kyunhyang Shinmun, March 25, 2013. 

25 Lee Chi-dong, "B-52 Bombers in Korea Show U.S. Defense Commitment: Pentagon," Yonhap, March 19, 2013. 

26 Kang Seung-woo, "Nuclear Sub Joins ROK-US Joint Naval Drill," Korea Times, March 20, 2013. 

27 Kim Eun-jung, "U.S. B-2 Stealth Bomber Conducts First Drill in Korea," Yonhap, March 28, 2013. 

28 Paul Eckert, "U.S. Stealth Jets Join South Korea Drills Amid Saber-Rattling," Reuters, March 31, 2013. 

29 "F-22 Stealth Jets Join Drills in S.Korea," Chosun Ilbo, April 2, 2013. 

30 Kim Eun-jung, "U.S. B-2 Stealth Bomber Conducts First Drill in Korea," Yonhap, March 28, 2013. 

Song Sang-ho, "B-2 Stealth Bombers Conduct Firing Drills on Peninsula," Korea Herald, March 28, 2013. 

31 "S.Korea to Buy Bunker-Buster Missiles from Europe," Chosun Ilbo, April 4, 2013. 

32 "Pres. Park Urges Preventing NK from 'Daring' to Launch Attack," Dong-A Ilbo, April 3, 2013. 

"'US Organ to Take Over NK Nuke Facilities in Case of Crisis," Dong-a Ilbo, March 7, 2013. 

33 Kate Brannen, "North Korea Sparks Missile Defense Upgrade in Alaska," Politico, March 15, 2013. 

Phil Stewart and David Alexander, "U.S. to Bolster Missile Defenses to Counter North Korea Threat: Hagel," Reuters, March 15, 2013. 

34 Julian E. Barnes and Adam Entous, "With an Eye on Pyongyang, U.S. Sending Missile Defenses to Guam," Wall Street Journal, April 3, 2013. 

35 Barbara Starr, Jethro Mullen and K.J. Kwon, CNN, April 1, 2013. 

36 Adam Entous and Julian E. Barnes, "U.S. Dials Back on Korean Show of Force," Wall Street Journal, April 3, 2013. 

37 Kevin Baron, "Who Exactly Ordered Those Destroyers Against Korea?," The E-Ring (Foreign Policy), April 4, 2013. 

38 Jay Solomon and Julian E. Barnes, "North Korea Warned," Wall Street Journal, March 29, 2013. 

39 Adrian Croft, "U.S. Wants EU to Put North Korean Bank on Sanctions List," Reuters, March 25, 2013. 

40 Adrian Croft, "U.S. Wants EU to Put North Korean Bank on Sanctions List," Reuters, March 25, 2013. 

41 Antoni Slodkowski and Warren Strobel, "Japan, Australia to Sanction North Korean Bank as Part of U.S.-Led Crackdown," Reuters, March 26, 2013. 

"U.S. Urges Nations to Cut North Korea's Financial Link," CBS News, April 5, 2013. 

42 Mark Landler, "Detecting Shift, U.S. Makes Case to China on North Korea," New York Times, April 5, 2013. 

43 Lee Chi-dong, "U.S. Officials Discussing Iran-Style Sanctions on N. Korea: Source," Yonhap, March 20, 2013. 

44 Scott Murdoch, "Beijing Tells US to Tone Down North Korea Threats," The Australian, February 19, 2013. 

Do mesmo autor: 
  • http://resistir.info/asia/missile_mania_p.html , 30/Junho/2006 



  • Este artigo encontra-se em http://resistir.info/
  • O terrorismo de estado da administração Obama



    por Miguel Urbano Rodrigues [*]
    Cartoon de Latuff.




















    A crise que a Humanidade enfrenta não tem precedente. Pelas suas características, por ser global e universal, difere das anteriores.

    A maioria da Humanidade tem dificuldade em compreender a sua gravidade e dar-lhe combate porque uma monstruosa engrenagem de desinformação transforma a mentira em verdade e o crime em virtude. Utilizando-a como instrumento de uma estratégia de dominação planetária, o sistema de poder dos Estados Unidos tenta – com a cumplicidade dos governos da União Europeia e do Japão – criar sociedades de senhores e escravos de novo tipo, povos robotizados, um mundo que responda aos interesses do grande capital, erigido num valor supremo, quase divinizado.

    Para atingir esse objectivo, o imperialismo evoluiu numa metamorfose complexa. As guerras inter-imperialistas pertencem ao passado. Contradições entre grandes potências e gigantes transnacionais não desapareceram, mas não são já antagónicas.

    Um imperialismo colectivo hegemonizado pelos EUA substituiu o imperialismo, responsável pelas guerras mundiais do século XX.

    O pólo (e motor) desse novo imperialismo situa-se nos EUA e é ele que, pela sua agressividade e irracionalidade, configura uma ameaça à humanidade.

    Hoje são os intelectuais progressistas dos EUA os primeiros a denunciar esse perigo que, pelo funcionamento do sistema e a sua tendência exterminista, pode conduzir à extinção da vida na Terra.

    Cito entre outros Noam Chomsky, James Petras, Ramsey Clark e o falecido Howard Zinn.

    Em entrevista recente à emissora de televisão Russia Today, de Moscovo, o cineasta Oliver Stone e o historiador Peter Kuznik definiram Barack Obama como "lobo disfarçado de cordeiro".

    Para Oliver Stone, os EUA são actualmente um Estado Orwelliano. Obama "pegou em todas as mudanças de Bush, introduziu-as no sistema e codificou-as".

    Perante uma crise estrutural para a qual não encontra soluções no âmbito da lógica do capital, o imperialismo estado-unidense optou por uma política externa neofascista, promovendo guerras ditas “preventivas” contra povos do Terceiro Mundo para saquear os seus recursos naturais.

    Crimes abjectos foram cometidos no Iraque, no Afeganistão, na Líbia. Tribos da Somália e do Iémen são bombardeadas com frequência em guerras não declaradas. A Intervenção militar no Uganda inseriu-se nos planos do Africa Comand que se propõe instalar naquele Continente um exército permanente de 100 mil homens.

    No Iraque, na Síria e no Afeganistão, os EUA criaram "esquadrões da morte" inspirados no modelo salvadorenho para assassinar "inimigos" cujos nomes constam de listas elaboradas pela inteligência militar (Chossudovsky, Global Research,4/1/13)

    A operação terrorista que visa impor à Síria um governo fantoche está em marcha. O objectivo seguinte será o Irão, único país muçulmano cujo governo não se submete aos ultimatos de Washington. Mas a China é já apresentada como o grande obstáculo à dominação planetária dos EUA. Dois terços do poder aeronaval dos EUA foram concentrados no Extremo Oriente e aquele país está cercado por uma rede de bases militares norte-americanas.

    Na reformulação da estratégia do Pentágono, os drones – aviões sem piloto – substituíram os bombardeiros tradicionais. Os melhores pilotos da USAF, instalados diante de máquinas sofisticadas em bases dos EUA, comandam os ataques criminosos desses engenhos contra aldeias do Paquistão e do Afeganistão. É o próprio presidente Obama quem selecciona em listas que lhe são entregues os inimigos a serem abatidos, supostamente da Al Qaeda ou Talibans. Milhares de camponeses têm sido assassinados pelos drones nessas acções criminosas. O Pentágono lamenta, mas conclui que se trata de "danos colaterais inevitáveis".

    Centenas de bases militares dos EUA, instaladas em mais de quinze países, são prova indesmentível da estratégia exterminista do Pentágono.

    Um número record de suicídios nas Forças Armadas no ano passado foi interpretado por influentes media como manifestação do mal-estar crescente nelas implantado.

    No plano interno os EUA actuam já – a expressão é de Michel Chossudovsky – como um Estado totalitário e policial de fachada democrática.

    A Base Militar de Guantánamo permanece aberta como centro de tortura de presos.

    Invocando o Espionage Act, a Administração Obama encarcerou sem as levar a tribunal mais cidadãos do que qualquer das anteriores.

    O actual governo, segundo Peter Kuznick, intercepta diariamente 1.700.000 mensagens privadas entre emails e chamadas telefónicas. Aproximadamente um milhão de pessoas "com habilitação de segurança máxima" garantem o funcionamento desse aparelho secreto de espionagem.

    Em 1946, as quatro potências ocidentais que haviam destruído o III Reich de Hitler julgaram em Nuremberga 22 dos grandes criminosos de guerra nazis e enforcaram onze deles.

    Hoje, transcorridos 66 anos, o presidente dos EUA, responsável pelo cargo que exerce por uma estratégia exterminista e repugnantes crimes contra a Humanidade, é premiado com o Nobel da Paz.

    A Historia ensina-nos que os povos oprimidos e agredidos tardam quase sempre a levantar-se contra a tirania. Mas acabam por se insurgir e destruir os sistemas que a impõem.

    Essa lei histórica permanece válida.

    O capitalismo ainda poderoso, mas ferido de morte, hegemonizado pelo sistema de poder desumanizado do imperialismo estadunidense, será destruído e erradicado da Terra, pátria do homem. 
    Março/2013

    [*] Comunicação ao Seminário Internacional "Os Partidos e uma Nova Sociedade" do Partido do Trabalho , Cidade do México, Março de 2013

    O original enconstra-se em http://www.odiario.info/?p=2818 


    Esta comunicação encontra-se em http://resistir.info/

    terça-feira, 9 de abril de 2013

    LAAD - A FEIRA DA MORTE - ATO UNIFICADO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS CONTRA A PRIVATIZAÇÃO DO MARACANÃ E A FEIRA DA MORTE - 11 DE ABRIL - QUINTA FEIRA





    O Comitê de Solidariedade à Luta do Povo Palestino do Rio de Janeiro  junto com outras organizações dos Movimentos Sociais - Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas  - em reunião, decidiram centralizar no Ato Unificado de 11 de abril - Concentração a partir das 7 horas da manhã, no Largo do Machado, nosso total repudio à Feira da Morte que se realiza desde hoje, 9/04/13, até 12/04/13 em nossa  cidade do Rio de Janeiro.

    Nesse sentido, convocamos os militantes internacionalistas, simpatizantes da causa palestina e militantes do Comitê estarem presentes na MANIFESTAÇÃO UNIFICADA - 11 DE ABRIL - A PARTIR DAS 7 HORAS DA MANHÃ - LARGO DO MACHADO com caminhada em direção ao Palácio Guanabara, onde, às 10h, haverá a licitação para venda do Maraca.

    Em nome da Copa do Mundo os moradores da cidade do Rio de Janeiro são vítimas de um verdadeiro show de despotismo, destruição de símbolos públicos, remoções de comunidades e um total descaso aos serviços como Educação, Saúde, Moradia e Cultura. Depois da remoção violenta dos habitantes da Aldeia Maracanã, onde os índios e muitos militantes foram espancados  pela polícia, estão demolindo complexos públicos como o Parque Aquático Júlio Delamare e o Estádio de Atletismo Céli de Barros e , no dia 11 de abril, está previsto a entrega do Maracanã para a iniciativa privada, um dos mais importantes símbolos culturais de nosso Estado. E, para completar, o Estado está hospedando a Feira da Morte, onde  33 empresas israelenses vem vender mais armas letais e não letais que são diariamente testadas nos palestinos, para que sejam usadas nos brasileiros. 


    Nesta Feira serão encontrados os comerciantes da guerra, da repressão, da tortura e do massacre em todo o mundo, inclusive  estarão vendendo seus preciosos serviços de treinamento às polícias do país contra manifestação populares. 

    No Ato Unificado, estaremos  manifestando  nosso veemente

     repúdio e indignação contra a Feira de artefatos militares e de 

    segurança promovida por transnacionais, com destaque para a 

    moderna e assassina indústria bélica israelense. Trata-se da 

    LAAD 2013 – Latin América Aero & Defence, que transcorrerá 

    entre 09 a 12 de abril, no Riocentro.




    O papel do Rio de Janeiro central nas relações militares entre o Brasil e Israel:

    a) Importância da LAAD - Feira Internacional de Defesa e Segurança 
    •   Na LAAD 2013, 33 empresas israelenses e instituições irão participar1.
    • A LAAD é historicamente o local onde Israel mostrar suas mais recentes armas desenvolvidas no laboratório de guerra israelense ou seja na ocupação e repressão do povo palestino. 
    • É também o espaço onde novos contratos são feitos e apresentados. Somente em 2011, os dois principais atores militares israelenses no Brasil lucraram na LAAD, entre outras, das seguintes maneiras:
    • Israel Aerospace Industries (IAI): apresentou o novo Stark IRV, um veículo de reconhecimento desenvolvido pela IAI subsidiária Elta Systems. ELTA Systems foi concedido vários contratos para fornecer radares Airborne Multi-Modo para um cliente sul-americano2. IAI anunciou uma parceria com a brasileira Dígitro realizado por meio da EAE Soluções Aeroespaciais  joint venture entre a IAI e o Grupo Synergy. O objetivo da parceria é fornecer soluções de segurança interna, incluindo soluções integradas para fazer frente aos desafios da Copa do Mundo de 2014 e nos Jogos Olímpicos de 2016, que ocorrerão no Brasil3.
    • Elbit Systems: A Embraer Defesa e Segurança e a AEL Sistemas, uma subsidiária da Elbit Systems Ltd, anunciaram a assinatura de um acordo estratégico que prevê a avaliação de exploração conjunta de sistemas aerotransportados não tripulados, incluindo a potencial criação de uma empresa conjunta no setor4.


    b) O complexo militar-industrial israelense no Rio de Janeiro:

    ·  Presença de empresas israelenses no Rio de Janeiro:
    o        Elbit comprou duas empresas de armas baseados no Rio de Janeiro: Ares Aeroespecial e Defesa SA ("Ares") e Periscópio Equipamentos Optronicos SA ("Periscópio"). Eles operam com 70 trabalhadores no Rio de Janeiro.
    o        EAE: uma joint venture entre Israel Aerospace Industries e o Grupo Synergy supostamente têm escritórios no Rio de Janeiro e São Paulo.

    ·   Armas israelenses e formadores garantem que cada jogo na Copa do Mundo e nas Olimpíadas são um gol para o apartheid israelense:
    o        14 drones construídas por a IAI no valor de 350 milhões de dólares serão utilizados durante os dois megaeventos. Três deles já foram testados durante a Rio+20. A polícia federal brasileira foi treinado em Israel pelas mesmas forças que têm um histórico documentado de matar civis com esses drones.
    o        Foram acordados cursos especiais para o BOPE em Israel para se preparar para a Copa do Mundo e as Olimpíadas5.
    o O secretário de Segurança José Mariano Beltrame vai renovar a frota de caveirões do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil por R$ 6,150 milhões. Global Shield vende os oito carros, gestão da frota e manutenção por cinco anos. Media reports state that desconto olímpico de cerca de 72% é creditado aos grandes eventos, como a Copa de 2014 e Olimpíada de 2016, quando a empresa de Israel terá no Rio o maior show-room de segurança pública mundial6.

    ·  O uso de instalações civis e militares no Rio de Janeiro para projetos de cooperação com empresas israelenses:
    o        Bedek IAI subsidiária usa TAP M & E Brasil e manutenção dos centros de produção no aeroporto do Rio de Janeiro.
    o        Parque de Material Aeronáutico do Galeão (PAMA-GL), no Rio de Janeiro: O aeroparque será usado para testar a modernização da frota dos aviões militares AMX em que as empresas israelenses desempenham um papel fundamental7.
    o        CAEX, a instalação de testes do Exército Brasileiro de Marambaia, no Rio de Janeiro: Elbit Systems Ltd. realizou testes de aceitação de clientes de sus primeiros UT30BR 30 milímetros torres não tripulados, integrado no 6X6 IVECO, veículo brasileiro Guarani. Relatórios realçam como os palestinos têm sido usados nos teste militares: "O projeto único [...] é baseado na experiência extensiva em campo de batalha em grande escala e conflitos de baixa intensidade"8.

    ·  A polícia e as forças de segurança de Rio de Janeiro formadas por empresas militares israelenses e afins:
    A reservada Yaman, unidade antiterror da policia de Israel, veio ao Rio de Janeiro trocar experiências com o BOPE9. A progressão em terreno usada no bope-rj é estratégia ensinada por instrutores israelenses10.

    A escola contra-terrorismo israelense, que contrata instrutores do exército israelense e ensina doutrinas militares israelenses em seus cursos treina:

    Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro, 
    Policia Civil do Estado do Rio de Janeiro, 
    Membros do BOPE - Batalhão de Operações Especiais da PMERJ, 
    Companhia de Policia Militar com Cães CiaPMCães  PMERJ, 
    28 BMP  PMERJ, 
    Guarda Municipal da Cidade do Rio de Janeiro  Grupo de Ações Especiais  GAE, 
    Guarda Portuária do Rio de Janeiro  DOCAS RIO, 
    Guardas Municipais de Várias cidades do Estado do Rio de Janeiro, 
    Escola America de Botafogo (Rio de Janeiro), 
    DESIPE  RJ, 
    Grupo de Intervenções Táticas (Agentes penitenciários  Rio de Janeiro)

    1 Beryl Davis, BlueBird Aero Systems, ISDS Ltd. - International Security & Defence Systems Ltd. , ImageSat International N.V, Opgal Optronic Industries Ltd, BAT - Beit Alfa Technologies Ltd., Israel Weapon Industries Ltd. (IWI), Reshef Technologies, CAMERO, ISDS INTERNATIONAL, Aeromaoz, Plasan Sasa Ltd, CONTROP Precision Technologies Ltd., DSIT Solutions Ltd., Netcom Malam Team International, Israel Aerospace Industries Ltd. (IAI), Mistral Group, Ness TSG, UVision Global Aero Systems, SIBAT Israel Ministry of Defence, Beth - El Zikhron, Yaaqov Industries Ltd., Hatehof  Industries (Brand Group) Ltd., Dynamic Jet Engineering Ltd. (DJE), Gilat Satellite Networks Ltd., Amicell - Amit Industries Ltd, Dignia Systems Ltd., Israel Military Industries Ltd. (IMI), Rafael Advanced Defense Systems Ltd., Elbit Systems Ltd., MEPROLIGHT,ARES, AEL Sistemas


    Documento da Organização Palestina Stop the Wall, Campanha Popular Palestina contra o Muro da Apartheid.