segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Como foi inventado o povo judeu


 Um livro importante de Shlomo Sand

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Miguel Urbano Rodrigues
Embora crescentemente desmentidos pela arqueologia, pela genética e pela historiografia séria, os mitos de que se alimenta o sionismo continuam a constituir a base em que assenta a reivindicação de legitimidade do estado etnocrático, confessional, racista e colonialista de Israel. O «Estado do Povo Judeu» assume-se como democrático. Mas a realidade nega a lei fundamental aprovada pelo Knesset. Não pode ser democrático um Estado que trata como párias de novo tipo 20 % da população do país, um Estado nascido de monstruoso genocídio em terra alheia, um Estado cuja prática apresenta matizes neofascistas.
Uma chuva de insultos fustigou em Israel Shlomo Sand quando publicou um livro cujo título - «Como foi inventado o povo judeu” * - desmonta mitos bíblicos que são cimento do Estado sionista de Israel.
Professor de Historia Contemporânea na Universidade de Tel- Aviv, ele nega que os judeus constituam um povo com uma origem comum e sustenta que foi uma cultura especifica e não a descendência de uma comunidade arcaica unida por laços de sangue o instrumento principal da fermentação proto-nacional.
Para ele o «Estado judaico de Israel», longe de ser a concretização do sonho nacional de uma comunidade étnica com mais de 4 000 anos, foi tornado possível por uma falsificação da história dinamizada no seculo XIX por intelectuais como Theodor Herzl.
Enquanto académicos israelenses insistem em afirmar que os judeus são um povo com um ADN próprio, Sand, baseado numa documentação exaustiva, ridiculariza essa tese acientífica.
Não há aliás pontes biológicas entre os antigos habitantes dos reinos da Judeia e de Israel e os judeus do nosso tempo.
O mito étnico contribuiu poderosamente para o imaginário cívico. As suas raízes mergulham na Bíblia, fonte do monoteísmo hebraico. Tal como a Ilíada, o Antigo Testamento não é obra de um único autor. Sand define a Bíblia como «biblioteca extraordinária» que terá sido escrita entre os séculos VI e II antes da Nossa Era. O mito principia com a invenção do «povo sagrado» a quem foi anunciada a terra prometida de Canaã.
Carecem de qualquer fundamento histórico a interminável viagem de Moisés e do seu povo rumo à Terra Santa e a sua conquista posterior. Cabe lembrar que o actual território da Palestina era então parte integrante do Egipto faraónico.
A mitologia dos sucessivos exílios, difundida através dos séculos, acabou por ganhar a aparência de verdade histórica. Mas foi forjada a partir da Bíblia e ampliada pelos pioneiros do sionismo.
As expulsões em massa de judeus pelos Assírios são uma invencionice. Não há registo delas em fontes históricas credíveis.
O grande exilio da Babilónia é tão falso como o das grandes diásporas. Quando Nabucodonosor tomou Jerusalém destruiu o Templo e expulsou da cidade um segmento das elites. Mas a Babilonia era há muito a cidade de residência, por opção própria, de uma numerosa comunidade judaica. Foi ela o núcleo da criatividade dos rabinos que falavam aramaico e introduziram importantes reformas na religião mosaica. Sublinhe-se que somente uma pequena minoria dessa comunidade voltou à Judeia quando o imperador persa Ciro conquistou Jerusalém no séc. VI antes da Nossa Era.
Quando os centros da cultura judaica de Babilonia se desagregaram, os judeus emigram para a Bagdad abássida e não para a «Terra Santa».
Sand dedica atenção especial aos «Exílios» como mitos fundadores da identidade étnica.
As duas «expulsões» dos judeus no período Romano, a primeira por Tito e a segunda por Adriano, que teriam sido o motor da grande diáspora, são tema de uma reflexão aprofundada pelo historiador israelense.
Os jovens judeus aprendem nas escolas que «a nação judaica» foi exilada pelos Romanos apos a destruição do II Templo por Tito em 70, e posteriormente, por Adriano, em 132. Por si só o texto fantasista de Flavius Joseph, testemunha da revolta dos zelotas, retira credibilidade a essa versão, hoje oficial.
Segundo ele, os romanos massacraram então 1 100 000 judeus e prenderam 97 000.Isso numa época em que a população total da Galileia era segundo os demógrafos atuais muito inferior a meio milhão…
As escavações arqueológicas das últimas décadas em Jerusalém e na Cisjordânia criaram aliás problemas insuperáveis aos universitários e teólogos sionistas que «explicam» a história do povo judeu tomando a Torah e a palavra dos Patriarcas como referências infalíveis.
Os desmentidos da arqueologia perturbaram os historiadores. Ficou provado que Jericó era pouco mais do que uma aldeia sem as poderosas muralhas que a Bíblia cita. As revelações sobre as cidades de Canaã alarmaram também os rabinos. A arqueologia moderna sepultou o discurso da antropologia social religiosa.
Em Jerusalém não foram encontrados sequer vestígios das grandiosas construções que segundo o Livro a transformaram no seculo X, a época dourada de David e Salomão, na cidade monumental do «povo de Deus» que deslumbrava quantos a conheceram. Nem palácios nem muralhas, nem cerâmica de qualidade.
O desenvolvimento da tecnologia do carbono 14 permitiu uma conclusão. Os grandes edifícios da região Norte não foram construídos na época de Salomão, mas no período do reino de Israel.
«Não existe na realidade nenhum vestígio - escreve Shlomo Sand - da existência desse rei lendário cuja riqueza é descrita pela Bíblia em termos que fazem dele quase o equivalente dos poderosos reis da Babilonia e da Pérsia». «Se uma entidade política existiu na Judeia do seculo X antes da Nossa Era, acrescenta o historiador, somente poderia ser uma microrealeza tribal e Jerusalém apenas uma pequena cidade fortificada».
É também significativo que nenhum documento egípcio refira a «conquista» pelos judeus de Canaã, território que então pertencia ao faraó.
O SILENCIO SOBRE AS CONVERSÕES
A historiografia oficial israelense, ao erigir em dogma a pureza da raça, atribui a sucessivas diásporas a formação das comunidades judaicas em dezenas de países.
A Declaração de Independência de Israel afirma que, obrigados ao exilio, os judeus esforçaram-se ao longo dos seculos por regressar ao país dos seus antepassados,
Trata-se de uma mentira que falsifica grosseiramente a História.
A grande diáspora é ficcional, como as demais. Apos a destruição de Jerusalém e a construção de Aelia Capitolina somente uma pequena minoria da população foi expulsa. A esmagadora maioria permaneceu no país.
Qual a origem então dos antepassados de uns 12 milhões de judeus hoje existentes fora de Israel?
Na resposta a essa pergunta, o livro de Shlomo Sand destrói simultaneamente o mito da pureza da raça, isto é da etnicidade judaica.
Uma abundante documentação reunida por historiadores de prestígio mundial revela que nos primeiros séculos na Nossa Era houve maciças conversões ao judaísmo na Europa, na Asia e na Africa.
Três delas foram particularmente importantes e incomodam os teólogos israelenses.
O Alcorão esclarece que Maomé encontrou em Medina, na fuga de Meca, grandes tribos judaicas com as quais entrou em conflito, acabando por expulsá-las. Mas não esclarece que no extremo Sul da Península Arábica, no atual Iémen, o reino de Hymar adotou o judaísmo como religião oficial. Cabe dizer que chegou para ficar. No seculo VII o Islão implantou-se na região, mas, transcorridos treze seculos, quando se formou o Estado de Israel, dezenas de milhares de iemenitas falavam o árabe, mas continuavam a professar a religião judaica. A maioria emigrou para Israel onde, aliás, é discriminada.
No Imperio Romano, o judaísmo também criou raízes, mesmo na Itália. O tema mereceu a atenção do historiador Díon Cassius e do poeta Juvenal.
Na Cirenaica, a revolta dos judeus da cidade de Cirene exigiu a mobilização de várias legiões para a combater.
Mas foi sobretudo no extremo ocidental da África que houve conversões em massa à religião rabínica. Uma parcela ponderável das populações berberes aderiu ao judaísmo e a elas se deve a sua introdução no Al Andalus.
Foram esses magrebinos que difundiram na Península o judaísmo, os pioneiros dos sefarditas que, apos a expulsão de Espanha e Portugal, se exilaram em diferentes países europeus, na Africa muçulmana e na Turquia.
Mais importante pelas suas consequências foi a conversão ao judaísmo dos Khazars, um povo nómada turcófono, aparentado com os hunos, que, vindo do Altai, se fixou no seculo IV nas estepes do baixo Volga.
Os Khazars, que toleravam bem o cristianismo, construíram um poderoso estado judaico, aliado de Bizâncio nas lutas do Império Romano do Oriente contra os Persas Sassânidas.
Esse esquecido império medieval ocupava uma área enorme, do Volga à Crimeia e do Don ao atual Uzbequistão. Desapareceu da Historia no seculo XIII quando os Mongóis invadiram a Europa, destruindo tudo por onde passavam. Milhares de Khazars, fugindo das Hordas de Batu Khan, dispersaram-se pela Europa Oriental. A sua principal herança cultural foi inesperada. Grandes historiadores medievalistas como Renan e Marc Bloch identificam nos Kahzars os antepassados dos asquenazes cujas comunidades na Polonia, na Rússia e na Roménia viriam a desempenhar um papel fulcral na colonização judaica da Palestina.
UM ESTADO NEOFASCISTA
Segundo Nathan Birbaum,o intelectual judeu que inventou em 1891 o conceito de sionismo, é a biologia e não a língua e a cultura quem explica a formação das nações. Para ele, a raça é tudo. E o povo judeu teria sido quase o único a preservar a pureza do sangue através de milénios. Morreu sem compreender que essa tese racista, a prevalecer, apagaria o mito do povo sagrado eleito por Deus.
Porque os judeus são um povo filho de uma cadeia de mestiçagens. O que lhes confere uma identidade própria é uma cultura e a fidelidade a uma tradição religiosa enraizada na falsificação da Historia.
Nos passaportes do Estado Judaico de Israel não é aceite a na
cionalidade israelense. Os cidadãos de pleno direito escrevem «judeu». Os palestinos devem escrever «árabe», nacionalidade inexistente.
Ser cristão, budista, mazdeísta, muçulmano, ou hindu resulta de uma opção religiosa, não é nacionalidade. O judaísmo também não é uma nacionalidade.
Em Israel não há casamento civil. Para os judeus, é obrigatório o casamento religioso, mesmo que sejam ateus.
Essa aberração é inseparável de muitas outras num Estado confessional, etnocracia liberal construída sobre mitos, um Estado que trocou o yiddish, falado pelos pioneiros do «regresso a Terra Santa», pelo sagrado hebraico dos rabinos, desconhecido do povo da Judeia que se expressava em aramaico, a língua em que a Bíblia foi redigida na Babilónia e não em Jerusalém.
O «Estado do Povo Judeu» assume-se como democrático. Mas a realidade nega a lei fundamental aprovada pelo Knesset. Não pode ser democrático um Estado que trata como párias de novo tipo 20 % da população do país, um Estado nascido de monstruoso genocídio em terra alheia, um Estado cuja prática apresenta matizes neofascistas.
O livro de Shlalom Sand sobre a invenção do Povo Judeu é, além de um lúcido ensaio histórico, um ato de coragem. Aconselho a sua leitura a todos aqueles para quem o traçado da fronteira da opção de esquerda passa hoje pela solidariedade com o povo mártir da Palestina e a condenação do sionismo.
Vila Nova de Gaia, 31 de Dezembro de 2012~
*Shlomo Sand, «Comment fut inventé le peuple juif» Flammarion, Paris 2010
Postado:http://pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=5408:como-foi-inventado-o-povo-judeu-um-livro-importante-de-shlomo-sand&catid=43:imperialismo

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

DECLARAÇÃO CONJUNTA DAS FARC-EP E O PCB


22 JANEIRO 2013 




Reunidos em Havana, capital mundial da paz e da solidariedade internacional, representantes das FARC-EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo) e do PCB (Partido Comunista Brasileiro) passaram em revista a conjuntura mundial, sobretudo a da América Latina, e da Colômbia em particular, dedicando-se com afinco a estudar possibilidades e alternativas que contribuam para uma expressiva mobilização das forças políticas e sociais antiimperialistas do nosso continente e de outros países, com vistas à criação de um amplo, unitário e pujante movimento pela paz democrática com justiça social na Colômbia e pelo cumprimento do que venha a ser eventualmente estabelecido nos diálogos por uma solução política do conflito colombiano.
Coincidem as organizações políticas que firmam a presente declaração com a necessidade de conscientizar as forças progressistas de Nuestra America de que a solução política do conflito colombiano é  do interesse de todos os povos irmãos da região, inclusive para a continuidade e desenvolvimento dos heterogêneos processos de mudanças que fazem de nosso continente objeto de esperanças dos povos e, por isso mesmo, de projetos golpistas e intervencionistas do imperialismo.
A paz frente ao imperialismo na América Latina, requisito para o avanço dos processos de mudanças, no caminho ao socialismo, depende da paz democrática em Colômbia.
E depende, ao mesmo tempo, de uma firme unidade internacionalista de solidariedade militante:
- à Revolução Cubana - inspiração de todas nossas rebeldias e exemplo de que é possível vencer nossos inimigos – nossa saudação a Fidel e Raul, ao partido e ao povo cubano, confiantes nos ajustes para avançar no socialismo, no fim do bloqueio desumano e na libertação dos Cinco Heróis de todos os povos;
- à Revolução Bolivariana da Venezuela - que passa por um momento de consolidação e de possibilidade de trânsito ao socialismo – nossos votos de restabelecimento do Presidente Hugo Chávez, nossa confiança nos partidos que compõem o Pólo Patriótico e no protagonismo do proletariado venezuelano;
- aos demais processos diferenciados de mudanças na América Latina, onde se destacam os desenvolvimentos na Bolívia, no Equador e na Nicarágua;
- à reivindicação argentina em relação às Ilhas Malvinas e à defesa de sua lei sobre os meios de comunicação, exemplo de contraponto à manipulação da mídia burguesa;
- à luta dos povos paraguaio e hondurenho contra os golpistas que violaram a vontade popular, a serviço das oligarquias locais e do imperialismo;
- à luta de todos os demais povos de Nuestra America, das suas organizações antagônicas à ordem que se dedicam a empurrar seus governos para o caminho das mudanças progressistas ou para derrotá-los e substituí-los.
Como internacionalistas, não podemos deixar de olhar o mundo em seu conjunto, analisando o agravamento da crise sistêmica do capitalismo, que pode conferir vigência dramática à disjuntiva socialismo ou barbárie.
Assim, denunciamos a aliança entre os países imperialistas centrais, coadjuvados pelo sionismo que, pela força das armas, recolonizam o mundo, tendo no momento como prioridade a dominação do Oriente Médio e da África, por suas posições estratégicas e imensas riquezas naturais.
Desta forma, registramos nossa solidariedade militante à luta pela Palestina Livre, repudiamos a intervenção estrangeira na Síria, que tem como objetivo fortalecer o projeto expansionista de Israel e de colocar o Irã às portas de uma guerra imperialista. E repudiamos a atual intervenção no Mali, parte do projeto que começou com a ocupação da Líbia, com vistas ao domínio de todo o território africano.
Saudamos o renascer das lutas dos trabalhadores europeus e de outros continentes em face da ofensiva do capital para que paguem pela crise.
Diante do crescente aumento da repressão e criminalização das lutas populares, da retirada de direitos e das guerras de rapina, nada mais vigente que a consigna de Marx e Engels, no Manifesto Comunista:
Proletários de todo o mundo, uni-vos!
Havana (Cuba), 16 de janeiro de 2013
Assinam:
Iván Marquez – Chefe da Comissão Internacional das FARC
Ivan Pinheiro – Secretário Geral do PCB




quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Quando o mundo se rejubila com o status quo americano


 Estados Unidos, Março-Junho de 2013: 

Desligamento do doente e última fase de impacto da crise sistêmica global

por GEAB


Cartoon de Colcanopa.

Até agora o desenrolar da crise foi fielmente descrito de acordo com as cinco fases identificadas pela nossa equipe em Maio de 2006 (GEAB nº 5) e completadas em Fevereiro de 2009 (GEAB nº 32): desencadeamento, aceleração, impacto, decantação e deslocamento geopolítico global, as duas últimas etapas a desenvolverem-se simultaneamente. Nos últimos números, e nomeadamente no GEAB nº 70 (Dezembro/2012), comentámos amplamente os processos em curso das duas últimas fases, uma decantação de onde emerge penosamente o mundo de amanhã sob os escombros do deslocamento geopolítico mundial.

Mas havíamos subestimado a duração do período de decantação que atravessamos desde há quatro anos, período durante o qual todos os atores da crise trabalharam para um objetivo comum: ganhar tempo. Os Estados Unidos, fazendo tudo para impedir o surgimento de soluções alternativas ao dólar, apesar da situação catastrófica de todos os seus fundamentos sistêmicos, para impedir seus credores de os abandonarem (descredibilização das outras moedas e doravante inclusive o Yen, encarniçamento contra as tentativas de desconectar o petróleo do dólar, etc...); o resto do mundo, pondo em ação hábeis estratégicas consistentes ao mesmo tempo em manter sua assistência aos Estados Unidos para evitar um colapso brutal, que este seria o primeiro a sofrer, e ao mesmo tempo construir soluções alternativas e de desconexão.

Na conclusão deste longo período de aparente "anestesia" do sistema, consideramos necessário introduzir uma sexta fase na nossa descrição da crise:   a última fase de impacto que se verificará em 2013.

Os Estados Unidos certamente acreditaram que o resto do mundo teria interesse eterno em manter a assistência respiratória artificial da sua economia, mas é provável que já não creiam nisso. Quanto ao resto do mundo, os últimos capítulos da crise estado-unidense (crise política importante, paralisia decisional, evitação por um triz do despenhadeiro orçamental, perspectiva de um incumprimento de pagamento em Março e incapacidade continuada para por em ação a menor solução estrutural) convenceram-no da iminência de um colapso e todos os atores estão à espreita do menor sinal de oscilação para se desembaraçarem, conscientes de que ao assim fazer precipitarão o afundamento final.

Nossa equipe considera que no contexto das tensões extremas induzidas pela próxima elevação do teto da dívida americana em Março de 2013, tensões em simultâneo das políticas internas e financeiras mundiais, não faltarão os sinais para provocar o desaparecimento dos últimos compradores de títulos do tesouro americano, desaparecimento que o Fed já não poderá mais compensar, resultando num aumento das taxas de juro que impulsionará o endividamento americano a níveis astronômicos  não deixando mais qualquer esperança de os credores serem reembolsados e estes preferirão jogar a toalha e deixar o dólar afundar-se... afundamento do dólar que corresponderá de fato à primeira verdadeira solução, certamente dolorosa mas real, ao endividamento americano.

É também por esta razão que a nossa equipe antecipa que 2013, Ano 1 do Mundo do Depois, verá a determinação desta "apuração" das contas americanas e mundiais. Todos os atores tendem para esta etapa cujas consequências são muito difíceis de predizer mas que é também uma solução incontornável para a crise tendo em conta a impossibilidade estrutural dos Estados Unidos para por executar verdadeiras estratégias de desendividamento.

Mas a fim de considerar causas e consequências desta última fase de impacto, retornemos às razões pelas quais o sistema perdurou por tanto tempo. Nossa equipe analisará a seguir as razões porque o choque se verificará em 2013.

Ganhar tempo: Quando o mundo se rejubila com o status quo americano

Desde 2009 e das medidas temporárias para salvar a economia mundial, o mundo aguarda o famoso "W", a recaída, pois a situação continua a piorar dia a dia para os Estados Unidos: dívida pública vertiginosa, desemprego e pobreza em massa, paralisia política, perda de influência, etc. Portanto, esta recaída nunca chega. É certo que as "medidas excepcionais" de ajuda à economia (taxas de juro mais baixas, despesa pública, recompra de dívida, etc) continuam em vigor. Mas contra toda expectativa e ao contrário de qualquer julgamento objetivo e racional, os mercados ainda parecem ter confiança nos Estados Unidos. Na realidade, o sistema já não é baseado na confiança e sim no cálculo sobre o melhor momento para se afastar e os meios de aguentar mais um pouco até lá.

Acabou o tempo em que a China desafiava os Estados Unidos a efetuar um segundo round de quantitative easing [1] : o mundo parece acomodar-se ao fato de que este país ainda agrava a sua dívida e orienta-se inelutavelmente para o incumprimento do seu pagamento, desde que permaneça de pé e não faça demasiadas ondas. Por que os outros países não pressionam os Estados Unidos a reduzirem o seu défice, mas ao contrário rejubilam-se [2] quando o acordo sobre o despenhadeiro orçamental (fiscal cliff) mantém o status quo? Contudo, ninguém é louco, a situação não pode durar eternamente e o problema central da economia mundial é exatamente os Estados Unidos e o seu dólar [3] .

Figura 1.
De acordo com a equipe do LEAP/E2020, os diferentes atores procuram ganhar tempo. Para os mercados, trata-se de aproveitar ao máximo as generosidades do Fed e do governo americano a fim de fazer lucros fáceis; para os países estrangeiros, trata-se de desconectar ao máximo suas economias da dos Estados Unidos a fim de poder se porem ao abrigo no momento do choque que está para vir. É assim por exemplo que a Eurolândia aproveita para se reforçar e que a China aproveita para escoar os seus dólares nas infraestruturas estrangeiras [5] que sempre valerão mais do que os bilhetes verdes quando o dólar estiver por terra.

Aceleração do tempo e acumulação dos desafios

Mas este período de complacência cúmplice chega ao seu fim devido a pressões intensas. É interessante notar que as pressões não vêem realmente do estrangeiro, confirmando a nossa análise acima; elas ao invés são de duas naturezas: internas e financeiras-econômicas.

Por um lado, é a batalha política interna que ameaça o castelo de cartas. Se Obama parece atravessar um período de graça política frente a um campo republicano aparentemente domado, a batalha será retomada com mais violência do que nunca a partir de Março. Com efeito, se os representantes republicanos serão sem dúvida obrigados a votar o aumento do teto da dívida, eles farão com que Obama pague caro esta "capitulação", nisso pressionados pela sua base eleitoral em que uma metade deseja de fato um incumprimento de pagamento americano por ela considerada como a única solução para se libertar do endividamento patológico do país [6] . Os republicanos contam desenlaçar os numerosos dossiers e desafios que se anunciam: do lado social, regulamentação das armas de fogo [7] , reconsideração completa da imigração e legalização de 11 milhões de imigrados ilegais [8] , reforma do sistema de saúde e, mais geralmente, questionamento do papel do Estado federal; do lado econômico, baixa das despesas, resolução da dívida [9] , o recorrente despenhadeiro orçamental [10] , etc... Todos estes dossiers estão na agenda dos próximos meses e o menor tropeço pode-se verificar fatal. Dada a combatividade dos republicanos e mais ainda da sua base, é antes a esperança de não haver tropeço que parece utópica. 


Figura 2.



Por outro lado, são os mercados internacionais, com Wall Street à cabeça, que ameaçam não renovar sua confiança na economia americana. Desde o furacão Sandy e sobretudo desde o episódio do despenhadeiro orçamental que não resolveu problema algum, as análises pessimistas e a dúvidas tornam-se cada vez mais fortes [11] . É preciso ter em mente que os mercados bolsistas são apátridas e, mesmo domiciliados em Nova York, não têm senão um fim: o lucro. Em 2013, o mundo é suficientemente vasto para que os investidores e os seus capitais, tal como num voo de pardais, ao mais ligeiro alerta escapem-se para outros céus [12]

Enquanto o acordo sobre o teto da dívida em 2011 arrumava a questão durante 18 meses [13] , este do despenhadeiro fiscal adia o problema apenas por dois meses. Enquanto os efeitos da QE1 foram sentido durante um ano, a QE3 não teve efeitos senão por algumas semanas [14] . Além disso, com a agenda carregada com as negociações a virem, vê-se que o tempo se acelera significativamente, sinal de que o precipício se aproxima e com isso o nervosismo dos atores.

Março-Junho de 2013, tensão extrema: a menor fagulha ateia fogo aos paióis

Além destes desafios americanos, o mundo inteiro tem igualmente numerosas provas a atravessar. Também aqui, são sobretudo desafios econômicos  Trata-se nomeadamente do Japão e do Reino Unido, elementos chave da esfera de influência americana, que lutam pela sua sobrevivência, ambos em recessão, com dívidas insustentáveis, com poupança das famílias no chão e sem perspectiva de solução a curto prazo. Examinaremos em pormenor estes dois países neste número. Igualmente a economia brasileira se desacelerou [15] , taxas de inflação difíceis de administrar nas potências emergentes, o desinchar da bolha imobiliária no Canadá, na China e na Europa [16] , etc...

Os desafios são igualmente de ordem geopolítica: para citar apenas três exemplos, os conflitos africanos que implicou a intervenção da França no Mali, os conflitos e a confrontação indireta das potências no Médio Oriente em torno da Síria, de Israel e do Irã, assim como as tensões territoriais em torno da China que examinaremos adiante aquando da nossa análise do Japão.

Todos estes factores, econômicos, geopolíticos, americanos, mundiais, convergem para o mesmo momento: o segundo trimestre de 2013. Nossa equipe identificou o período indo de Março a Junho de 2013 como sendo explosivo, nomeadamente na questão das negociações nos Estados Unidos sobre o teto da dívida e sobre o despenhadeiro orçamental. A menor fagulha ateará o fogo aos paióis, desencadeando a segunda fase de impacto da crise sistêmica global. E oportunidades para fazer fagulhas, já se viu, há muitas.

Quais são então as consequências e o calendário desta segunda fase de impacto? Nos mercados, uma queda significativa será propagada até o fim de 2013. As economias estando todas interconectadas, o impacto vai-se propagar a todo o planeta e arrastar a economia mundial para a recessão. Contudo, graças ao desatrelamento dos outros países que mencionamos anteriormente, nem todos os países serão afetados da mesma maneira. Pois, bem mais do que em 2008, existem oportunidades para os capitais nomeadamente na Ásia, na Europa, na América Latina. Além dos Estados Unidos, os países mais afetados serão portanto aqueles da esfera americana, principalmente o Reino Unido e Japão. E enquanto estes países em 2014 ainda estarão a debater-se com as consequências sociais e políticas do impacto, as outras regiões, BRICs e Eurolândia à cabeça, verão finalmente a saída do túnel nesta época.

A fim de compreender a formação desta segunda fase de impacto, estudamos a seguir as "tendências suicidárias" das quatro potências do mundo de antes: Estados Unidos, Reino Unido, Japão e Israel. Depois apresentarão os tradicionais "up&down" do mês de Janeiro, tendências montantes e descendentes para o ano de 2013, servindo igualmente de recomendações para este novo ano. Finalmente, como a cada mês, nossos leitores encontrarão também o Global Eurometre.
Notas:

(1) Pode-se refrescar a memória aqui (Wall Street Journal, 18/10/2010) ou aqui (US News, 29/10/2010).

(2) "Soulagement après l'épilogue heureux du fiscal cliff" título ForexPros.fr (02/01/2013), "Relief at fiscal cliff crisis deal" título da BBC (03/01/2013)…

(3) Como identificado pelo LEAP/E2020 desde 2006, desde o GEAB n°2.

(4) O salvamento público dos bancos é contado na dívida do Reino Unido.

(5) Estando os chineses muito activos neste domínio, há numerosos exemplos como o porto de Pireu na Grécia, o aeroporto de Heathrow no Reino Unido, em África, e também a compra de jóias industriais (a Volvo por exemplo), etc. Ver por exemplo Emerging Money (China to invest in Western infrastructure, 28/11/2011).

(6) Ler por exemplo ZeroHedge , 14/01/2013.

(7) Fonte: Fox News , 30/12/2012.

(8) Fonte: New York Times , 12/01/2013.

(9) Fonte: New York Times , 15/01/2013.

(10) O debate sobre os cortes orçamentais é simplesmente adiado dois meses. Fonte: New Statesman , 02/01/2013.

(11) Como aqui ( CNBC , 11/01/2013), aqui ( MarketWatch , 14/01/2013) ou aqui ( CNBC , 08/01/2013).

(12) Os Estados Unidos vão por sua vez experimentar a ironia da História: a desregulamentação e a globalização dos mercados financeiros que eles tanto promoveram vão voltar-se dramaticamente contra si.

(13) Foi também neste momento que os cortes automáticos de 01/01/2013 foram activados para forçar um acordo bipartidário. Fonte: CNN Money (02/08/2011) ou Wikipédia .

(14) Para um recordatório destas operações de quantitative easing, poder-se-á consultar BankRate.com , Financial crisis timeline.

(15) Fonte: Les Échos , 05/12/2012.

(16) Ver os GEAB anteriores.

15/Janeiro/2013
O original encontra-se em www.leap2020.eu/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Os verdadeiros rostos do terrorismo em África


        

por Komla Kpogli
Recursos africanos. Dizem-nos agora que o terrorismo ameaça a África e que em nome da luta contra o mesmo trava-se actualmente uma "guerra humanitária" no Mali. Examinemos o que é realmente o terrorismo sob os trópicos.

Após quatro séculos de razzias negreiras transatlânticas e árabo-muçulmanas e mais de um século de colonização, as populações africanas entraram em luta pela sua libertação. Mas estas lutas foram curto-circuitadas e os seus condutores logo assassinados e substituídos por fantoches sanguinários cuja única missão é confirmar a manutenção do continente na órbita daqueles que investiram para privá-lo de todos os seus recursos – a começar pelos recursos humanos que, depois terem servido nos campos de algodão, nas minas, nos estaleiros de obras longe da África, devem continuar a trabalhar para o seu bem-estar agora no próprio continente. Sob o controle de vigilantes vestidos com fato e gravata, tal como o mestre.

Infelizes os povos governados por escravos selecionados e libertos para as necessidades da causa pelos mestres que os vestem à sua imagem, criando nestes "vigilantes" a ilusão de que se tornaram seus iguais. O poder do terror que o mestre atribuiu a estes contramestres revela-se tão destruidor que certos africanos não vacilam em lamentar abertamente a substituição do colono de olhos azuis por aqueles que, pela cor da pele, pareciam serem seus irmãos. Juventude remetida ao exílio pelo Mediterrâneo onde, se não for abatida pelos tiros dos guarda-fronteiras do Frontex , é devorada por tubarões, predação, avidez, desprezo para com as populações, violência incessante, destruição metódica de toda ideia voltada para o endógeno... eis alguns dos métodos de governo dos sátrapas.

Aqui está um breve resumo do terrorismo de alguns dentre eles. O leitor nos desculpará não termos mencionado todos. É por falta de espaço e nenhuma outra razão. Assim, o leitor é convidado a completar a lista, mesmo a enumerar os crimes que não puderam ser mencionados aqui.

1. Gnassingbé 1º + Gnassingbé 2º: 50 anos no poder no Togo, pelo menos 50 mil mortos directos por violências militar-policiais. Assassinato de Sylvanuys Olympio e a seguir o retorno do Togo ao regaço da França, pelo menos 100 mil togoleses mortos de diversas maneiras (crimes econômicos, manutenção do Franco CFS, cooperação suicida, ausência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

2. Bongo 1º + Bongo 2º: 46 anos no poder no Gabão, pelo menos 20 mil mortos diretos, pelo menos um milhão de africanos no Gabão mortos de diversos modos (financiamento de partidos políticos em França, manutenção do Franco CFA, cooperação suicida, ausência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

3. Paul Mvondo Biya : no poder nos Camarões desde há 31 anos, no mínimo 40 mil mortos diretos, pelo menos um milhão de africanos do território dos Camarões mortos de diversas maneiras (crimes econômicos, manutenção do Franco CFA, cooperação suicida, inexistência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

4. Blaise Compaoré: Assassino de Thomas Sankara , de Norbert Zongo e seus companheiros, no poder desde há 26 anos, pelo menos 15 mil mortos diretos, no mínimo um milhão de africanos do Burkina Faso mortos de diversas maneiras (crimes econômicos  manutenção do Franco CFA, cooperação suicida, inexistência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

5. Denis Sassou Nguesso (República do Congo): criminoso reincidente que totaliza 29 anos no poder, pelo menos 100 mil mortos diretos por violências militares e policiais, saqueadores profissionais de fundos públicos com a sua família e clientes, pelo menos um milhão de africanos mortos de diversas maneiras (crimes econômicos, manutenção do Franco CFA, cooperação suicida, inexistência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

6. Omar Guelleh: no poder no Djibuti desde há 14 anos, mesmos crimes que os terroristas antecedentes.

7. Idriss Deby: no poder no Tchad desde há 23 anos, mesmos crimes que os antecedentes.

8. Alassane Dramane Ouattara (Costa do Marfim): no poder desde há um ano, criminoso com o FMI onde dirigiu diretamente o Planos de Ajustamento Estruturais. Chegou à presidência transportado nos carros de combate e bombardeiros franceses, acompanhados de terroristas dirigidos por Guillaume Soro desde há 10 anos, pelo menos 30 mil mortos diretos, no mínimo 50 milhões de africanos mortos via FMI e Banco Mundial a quem Ouattara serviu + crimes econômicos, manutenção do Franco CFS, cooperação suicida, inexistência de infraestruturas de base de saúde, ausência de água, decadência mental colectiva sabiamente mantida...). Torturas + Manutenção das fronteiras coloniais + Escola colonial + fraudes eleitorais incessantes + Oposição e populações submetidas a um terrorismo permanente + Sabotagem da cultura africana.

Etc, etc. Todos estes terroristas beneficiam do apoio logístico, intelectual e mediático da França, bem como de outros "Amigos da África" que não hesitam em combater diretamente nas suas costas contra os africanos que atualmente "salvam" no Mali do terrorismo que corta mãos e pés. Quem libertará os africanos dos terroristas?
18/Janeilro/2013

Ver também:
  • A guerra no Mali
  • No African Union troops to Mali

    O original encontra-se em http://lajuda.blogspot.com/ e http://www.legrandsoir.info/les-vrais-visages-du-terrorisme-en-afrique.html


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .        
  • Histeria no mercado de ouro


            A repatriação das reservas de ouro da Alemanha do pós guerra      

    por Michel Chossudovsky

    A decisão do Bundesbank da Alemanha de repatriar parte das suas Reservas de Ouro mantidas no New York Federal Reserve Bank disparou uma histeria no mercado do ouro.

    Fontes noticiosas alemãs sugerem que uma grande porção do ouro alemão armazenado nos cofres do Fed (Banco Central Norte americano)de Nova York e do Banque de France está para ser levada de volta para a Alemanha.

    Segundo analistas, este movimento poderia potencialmente "disparar uma reação em cadeia, levando outros países a começarem a repatriar o ouro armazenado em Londres, Nova York ou Paris..."
    Se a repatriação de ouro se tornar uma tendência mundial, será óbvio que tanto os EUA como o Reino Unidos perderam a sua credibilidade como guardiões de ouro. Para os mercados mundiais de ouro, este movimento assinala uma comutação do "ouro financeiro" para "ouro físico", mas o processo está claramente nas suas etapas iniciais.

    A decisão de repatriar o ouro alemão é uma grande vitória para a parte da imprensa alemã que forçou o Bundesbank a admitir que 69% do seu ouro é armazenado fora da Alemanha. Quase com certeza a imprensa alemã e pelo menos vários legisladores do país exigirão uma verificação das barras de ouro retornadas de Nova York, simplesmente para garantir que a Alemanha não recebe tungsténio folheado a ouro ao invés de ouro. Parece que decisores alemães já não confiam nos seus parceiros americanos. (Voice of Russia, January 15, 2013, enfase acrescentada)
    Se bem que a questão seja debatida ativamente na Alemanha, relatórios financeiros dos EUA têm subestimado o significado desta decisão histórica, aprovada pelo governo alemão em Setembro último.

    Entretanto, foi lançada uma campanha "Repatriar o nosso ouro" por vários economistas alemães, executivos de negócios e juristas. A iniciativa não se aplica unicamente à Alemanha. Ela conclama países a iniciarem a repatriação de TODOS os haveres em ouro mantidos em bancos centrais estrangeiros.

    Se bem que a soberania e custódia nacional sobre ativos em ouro da Alemanha seja parte do debate, vários observadores – incluindo políticos – assumiram a pergunta não formulada: "podemos nós confiar em bancos centrais estrangeiros (nomeadamente dos EUA, Grã-Bretanha e França) que estão a manter barras de ouro da Alemanha "em guarda segura"?
    ... Vários políticos alemães exprimiram ... desconforto. Philipp Missfelder, um dos principais legisladores do partido de centro-direita da chanceler Angela Merkel, pediu ao Bundesbank o direito de ver as barras de ouro em Paris e Londres, mas o banco central negou o pedido, mencionando a falta de salas de visitantes naquelas instalações, informou o diário alemão Bild.

    Dada o crescente desconforto político acerca da questão e a pressão de auditores , o banco central decidiu no mês passado [Setembro] repatriar umas 50 toneladas de ouro em cada um dos três próximos anos, de Nova York para a sua sede em Frankfurt para "exames meticulosos" quanto a peso e qualidade , revelou a reportagem.

    ... Várias passagens do relatório dos auditores foram enegrecidas na cópia entregue a legisladores, citando preocupações do Bundesbank de que elas poderiam comprometer segredos envolvendo a armazenagem de ouro de bancos centrais.

    O relatório diz que o ouro acumulado em Londres caiu "abaixo das 500 toneladas" devido a vendas e repatriações recentes, mas não especificou quanto ouro era mantido nos EUA e em França. Os media alemães informaram amplamente que cerca de 1500 toneladas – quase metade das reservas totais – estão armazenadas em Nova York.

    ( Associated Press , Oct 22, 2012, ênfases acrescentadas)
    Contudo, uma plena e completa repatriação de ativos em ouro não está a ser encarada:
    "O Bundesbank planeja transferir 300 toneladas de ouro do Federal Reserve em Nova York e a totalidade do seu ouro armazenado no Banque de France em Paris, 374 toneladas, para Frankfurt, a partir deste ano,

    Em 2020, ele quer manter metade das aproximadamente 3400 toneladas de ouro avaliadas em quase 138 mil milhões de euros – só os Estados Unidos possuem mais – em Frankfurt, onde armazena um terço das suas reservas. O resto é mantido no Federal Reserve, no Banque de France e no Bank of England. ( Reuters , January 16, 2012)
    O Tribunal de Auditores da Alemanha Federal apelou a uma inspeção oficial das reservas de ouro alemãs armazenadas em bancos centrais estrangeiros, "porque elas nunca foram plenamente verificadas".

    Estarão as barras de ouro das reservas alemãs mantidas no Federal Reserve "separadas" ou farão parte do "grande acervo" intercambiável (fungible) de ativos em ouro do banco central dos EUA?

    Será que o New York Federal Reserve Bank tem "Ativos intercambiáveis de ouro no grau afirmado" ? Poderia isto razoavelmente corresponder a um processo de repatriação de ativos em ouro iniciado em simultâneo por vários países?

    Por que o ouro alemão é mantido fora da Alemanha?

    "Por que o nosso ouro está em Paris, Londres e Nova York" e não em Frankfurt?

    A explicação oficial – a qual beira o absurdo – é que a Alemanha Ocidental no início da Guerra Fria decidiu armazenar seus ativos em ouro em Londres, Paris e Nova York para "pô-los fora do alcance do império soviético" , o qual alegadamente tencionava saquear os tesouros auríferos da Alemanha Ocidental.

    Segundo a Reuters
    Quando a Guerra Fria teve início, a Alemanha guardou as suas reservas ouro, mantendo-as fora do alcance do império soviético. Mas responsáveis do governo tornaram-se inquietos acerca da forma de armazenagem e apelaram ao Bundesbank para inspecionar as barras.

    O Bundesbank agora também quer mudar a solução, muito embora tenha dito que não vê necessidade de contar as barras ou verificar o seu próprio conteúdo de ouro e considere garantias escritas dos outros bancos centrais como suficiente.

    Com o fim da Guerra Fria já não era mais necessário manter as reservas ouro da Alemanha "tanto quanto possível o mais longe e distante da Cortina de Ferro", contou Carl-Ludwing Thiele, membro da administração do Bundesbank, aos repórteres na quarta-feira passada.

    O Bundesbank ganhou mais espaço nos seus cofres após a transição do deutschmark para o euro. Reuters , January 16, 2013)
    Segundo os media ocidentais, em coro, as ameaças do "império do mal" no decorrer da era da Guerra Fria haviam por assim dizer encorajado a "cuidar" e "manter resguardados" os milhares de milhões de dólares das barras de ouro alemãs nos cofres fortes dos bancos centrais da França, Inglaterra e EUA. Isto foi uma iniciativa "responsável" empreendida por estes três países – "amigos da Alemanha Ocidental" – tendo em vista apoiar o Bundesbank localizado em Frankfurt am Main contra um ataque iminente do Exército Vermelho.

    Mas agora, catorze anos após o fim oficial da Guerra Fria, o Bundesbank "planeja trazer para casa uma parte das suas reservas ouro armazenadas nos bancos centrais dos Estados Unidos e da França, inclinando-se à pressão do governo para desfazer a trama da era da Guerra Fria que garantiu o tesouro nacional".

    Qual era o objectivo dos EUA, na sequência da II Guerra Mundial, ao pressionar países a depositarem as suas barras de ouro sob a custódia do US Federal Reserve?

    Historicamente, a acumulação de barras de ouro nos cofres do US Federal Reserve (por conta de países estrangeiros) serviu iniludivelmente para fortalecer o sistema global do dólar, tanto durante o período do "gold exchange standard" do pós guerra (Bretton Woods, 1946-1971) como posteriormente (de 1971 até o presente).

    História: Na sequência da II Guerra Mundial 


    Esta disposição para a armazenagem das barras de ouro nada tem a ver com a ameaça soviética. 

    Ela tem muito a ver com a história da II Guerra Mundial e suas consequências imediatas.

    A primitiva disposição no pós guerra dos bancos centrais foi ditada pelos Vitoriosos da II Guerra Mundial, nomeadamente os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha.

    A ocupação militar dos governos destes três países controlou diretamente as reformas monetárias do pós guerra na Alemanha Ocidental a partir de 1945.

    A Alemanha Ocidental fora dividida em três zonas, sob a jurisdição respectiva dos EUA, Grã-Bretanha e França (ver mapa). De 1945 a 1947, o Reichmark continuou a circular com novo papel moeda impresso nos EUA.

    Em 1947, as zonas de ocupação dos EUA e Grã-Bretanha fundiram-se numa "Bizona" anglo-americana. Em 1948, sob a chamada "Primeira Lei sobre Reforma da moeda", o governo militar de ocupação estabeleceu o Bank deutscher Länder (Banco dos Estados Alemães) em ligação com a Reserva Federal dos EUA e o Banco da Inglaterra. As reformas da moeda foram implementadas em paralelo com o Plano Marshall, lançado em Junho de 1947.

    O Bank deutscher Länder (BdL) destinou-se a administrar o sistema monetário dos Länder (o equivalente a estados numa estrutura federal) na Bizona sob a jurisdição do governo militar estado-unidense-britânico, levando ao estabelecimento do Deutsch Mark em Junho de 1948, o qual substituiu o Reichsmark.

    Ludwig Erhard – que se tornou ministro das Finanças do governo da RFA de Conrad Adenauer e a seguir chanceler alemão (1963-1966) – desempenhou um papel central no processo de reforma monetária. Ele começou a sua carreira política como consultor econômico do Governo militar dos EUA (USMG, na sigla em inglês). Em 1947, foi nomeado presidente da comissão de reforma da moeda. De Janeiro de 1947 a Maio de 1949, o governador militar da zona estado-unidense (USMG) que supervisionava a aplicação da nova moeda era o general Lucius D. Clay, alcunhado "Der Kaiser".

    A iniciativa Deutsche Mark foi então estendida à zona de ocupação controlada pela França, em Novembro de 1948 (disposição "Trizona"), com a inclusão e participação do Banque de France.

    Se bem que a República Federal da Alemanha (RFA) (Bundesrepublik Deutschland) tenha sido criada em Maio de 1949, o Bundesbank só veio a existir oito anos depois, em 1957.

    As reservas de ouro da Alemanha estavam sob a jurisdição do Bank deutscher Laender (e posteriormente do Bundesbank). Mas o BdL foi uma iniciativa da ocupação militar EUA-Reino Unido-França.

    A questão importante é o seguinte:

    Será que os procedimentos e acordos determinados pelos governos de ocupação militar em 1947-48 contemplavam uma estrutura pela qual parte das barras de ouro da Alemanha Ocidental devia ser mantida nos bancos centrais dos vitoriosos, nomeadamente o Banco da Inglaterra, a Reserva Federal dos EUA e o Banco de França?

    Reservas ouro do Terceiro Reich

    A questão das reservas ouro do Terceiro Reich é um assunto em si próprio, para além do âmbito deste artigo.

    Um par de observações: A partir de 1945, grandes quantidades de ouro do Terceiro Reich foram transferidas para a custódia dos governos militares. Parte deste ouro foi utilizada para financiar reparações de guerra.
    Em Setembro de 1945, os Estados Unidos, Grã-Bretanha e França estabeleceram a Comissão Tripartite para a Restituição de Ouro Monetário (TGC, na sigla em inglês). A comissão tem as suas raízes na Parte III do Acordo de Paris sobre Reparação, assinado em 14 de Janeiro de 1946 respeitante a reparações de guerra alemãs. Sob o Acordo de Paris de 1946, os três Aliados foram encarregados de recuperar ouro monetário saqueado pela Alemanha nazi de bancos na Europa ocupada e de colocá-lo num "gold pool".

    Reivindicações legais ao gold pool e a subsequente redistribuição do ouro aos países reclamantes eram para ser adjudicadas e executadas pelos três Aliados". (para mais pormenores, ver US State Department, Tripartie Gold Commission , February 24, 1997,
    Um Foreign Exchange Depositary (FED) foi estabelecido no Reichbank em Frankfurt. Considerado como o Fort Knox da Alemanha, um processo de colecta foi estabelecido pelo FED por conta do Conselho de Ocupação Aliado.

    O ouro era colectado pelo FED, tanto em forma monetária como não monetária. Em Outubro de 1947 – coincidindo com o estabelecimento do Bank deutscher Laender – the FED havia acumulado 260 milhões de dólares de ouro monetário (ao preço do ouro de 1947, isto representava uma quantidade de barras monumental).

    Uma grande parte deste ouro foi restituída a diferentes países que o reclamavam, organizações e indivíduos. Em 1950, os ativos remanescentes do FED – os quais eram mínimos, segundo o Departamento de Estado dos EUA – foram transferidos para o Bank deutscher Laender. (William Z. Slany, US Efforts to Restore Gold and Other Assets Stolen or Hidden by Germany During World War II , US State Department, Washington, 1997, p. 150-59)

    Nota:
    As 3400 toneladas de reservas ouro da Alemanha não pertencem ao ouro da era pré 1945. Além disso, se bem que os procedimentos da reforma monetária da Alemanha Ocidental sob a ocupação militar aliada (1947-48) tenham sido instrumentais para estabelecer o fundamentos do banco central alemão na era do pós guerra, as quantidades iniciais de barras de ouro depositadas no princípio do Bank Deutscher Laender foram mínimas e de pouco significado.

    Entende-se que fora do domínio do banco central e da reforma monetária, as forças aliadas da II Guerra Mundial, incluindo os EUA, Gra-Bretanha, França e URSS, apropriaram-se de parte do ouro do Terceiro Reich. Isto é uma questão totalmente separada e complexa, a qual está para além do âmbito deste artigo.
    17/Janeiro/2013

    Ver também:
  • O ouro e o "fim do mundo"
  • The Real Reasons Why Germany Is Demanding that the U.S. Return Its Gold

    O original encontra-se em www.globalresearch.ca/...


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .        
  • sábado, 19 de janeiro de 2013

    Cuba: as armadilhas no caminho




    por Frank Josué Solar Cabrales [*]
    A Conferência Nacional do Partido Comunista de Cuba (PCC) celebrada em Janeiro último [2012] foi uma oportunidade única para saldar contas com o nosso passado, com a história do socialismo no século XX e com o modelo socialista verticalista e burocrático que em grande medida copiámos dos soviéticos. Ela pode ter sido o início de um debate que é há muito adiado na sociedade cubana: a análise da experiência da União Soviética, de como uma grande revolução foi traída e o poder foi usurpado aos trabalhadores. Do processo de restauração capitalista na URSS e Europa do Leste podemos aprender muito para saber porque se produziu, emendar os erros deles que repetimos aqui e evitar o mesmo destino. 

    Contudo, o momento não foi aproveitado para uma revisão a fundo do nosso modelo político. Já antes da Conferência era evidente que ela teria um perfil inferior ao do VI Congresso do PCC (Abril de 2011). Inicialmente fora dito que ambos eram momentos distintos, com igual nível, de um mesmo processo de actualização e que se separavam só para debater com maior profundidade os temas económicos no Congresso e os políticos, sociais e culturais na Conferência. Ainda que nesse momento tenhamos assinalado que a realidade social não se pode separar arbitrariamente, como se ela transcorresse em compartimentos estanques, tínhamos a esperança de que a reunião dedicada aos assuntos políticos produzisse impactos tão transcendentes como aquela referida à economia. Mas logo foi dito que a Conferência seria concentrada nos assuntos internos do Partido, que o seu documento base não seria discutido com todo o povo, como se fez com os Lineamientos , e sim só com os militantes, e que não se deviam levantar muitas expectativas sobre ela, porque as decisões importantes já haviam sido adoptadas no Congresso e do que se tratava agora era de adequar o trabalho do Partido às novas condições.

    Esta actualização necessária do nosso funcionamento político torna-se muito mais imperiosa quando já começam a fazer parte da realidade quotidiana muitas das contradições e tensões sociais que advertimos que ia gerar o rumo económico traçado. Sob o seu amparo vão surgindo novas constelações sociais, com interesses próprios.

    Um exemplo do que dizemos foi a tentativa dos transportadores privados em Santiago de Cuba, em Dezembro último, de subir em flecha o preço da passagem de um para dois pesos, um aumento de 100%. O episódio, ainda que não tenha passado da tentativa e durado só uns quatro dias, acendeu vários sinais de alarme e despertou outras tantas interrogações.

    A atitude dos transportadores durante esses dias demonstrou que o sector privado tende a actuar (e fa-lo-á cada vez mais no futuro) corporativamente, concertando vontades a fim de exercer pressão como grupo social que defende interesses próprios contra os da maioria. Agora pode ser isolado, mas em outro momento poderíamos estar a ver um acordo em maior escala e poderíamos perder o controle. Hoje farão isso para aumentar os lucros, mas amanhã será para objectivos políticos.

    Por outro lado, também foram significativas as respostas das pessoas, com reacções espontâneas que iam desde as reclamações directas perante os donos das camionetas, ou as queixas perante os órgãos locais do Partido e do Governo para que interviessem no assunto, até uma espécie de resistência passiva que consistir na negativa em tomar o transporte privado e pagar os dois pesos que eram exigidos. Ao boicote privado opunha-se um boicote social. Este tipo de iniciativas populares, que acabaram por ser decisivas para fazer retroceder o aumento, devia servir de exemplo para a concepção de estratégias de resistência social perante as relações de conteúdo capitalista que começam a aparecer.

    Num dos melhores momentos do debate da Conferência Nacional do Partido, que pudemos ver pela televisão, um homem simples do povo, trabalhador por conta própria, expunha a contradição existente entre a autorização para contratar força de trabalho pelos cuentapropistas e o princípio socialista expresso na Constituição de que o Estado cubano proíbe qualquer forma de exploração do homem pelo homem. Vale a pena a análise das respostas que se deram no debate posterior pelos argumentos que continham.

    A resposta que afirmou não haver contradição porque os trabalhadores do cuentapropistas em Cuba não eram explorados não merece nenhum comentário porque é insustentável a partir de qualquer colocação marxista medianamente séria. As outras posições que, apesar de admitirem a existência de uma contradição, defenderam a medida por considerá-la necessária tão pouco me parecem válidas. A argumentação de que essa exploração em Cuba encontra-se "amortecida" por toda a série de conquistas sociais garantidas pela Revolução, algo assim como uma exploração de baixa intensidade, recordou-me da história da filha que para acalmar a reacção colérica do pai diante da notícia da sua gravidez, disse-lhe para não se preocupar porque ela só estava um "pouquinho" grávida. A exploração não depende da maior ou menor quantidade de prestações ou protecções sociais, ou de uma maior ou menor distribuição social da riqueza, nem da maldade ou bondade de algum explorador, e sim da condição de assalariado, aquela a que Marx chamou escravidão moderna, na qual o patrão nunca pagar ao trabalhador o valor total do que produz, sempre fica com uma parte, chamada mais-valia, da qual obtém lucro, vivendo assim da apropriação do trabalho alheio. Isto é marxismo elementar. Do mesmo modo que uma mulher só pode estar grávida ou não estar, é-se explorado ou não se é. Simplesmente, não pode ser que seja só um "pouquinho" explorado.

    No fim, pediram "tranquilidade" ao companheiro, que não se preocupasse porque a contradição seria resolvida em futuras revisões da Constituição para adequá-la às novas realidades que se vão impondo. O principal problema não é que seja inconstitucional e sim que a proibição da exploração do homem pelo homem é, juntamente com a abolição da propriedade privada, um pilar básico do socialismo. É certo que durante o período de transição sobrevivem elementos do capitalismo, mas eles referem-se fundamentalmente ao funcionamento da lei do valor, ao uso do salário como retribuição e estímulo ao trabalho, a existência da pequena propriedade e de relações mercantis. Mas pretender a construção do socialismo com a utilização da exploração do homem pelo homem é uma contradição em si mesma.

    Tudo isto que vai acontecendo contribui para desmontar no povo a crença ilusória, ingénua, no benefício de medidas de tipo capitalista. Como temos advertido desde que se começou a pensar nelas, com estas reformas uma minoria se enriquecerá e saíra ganhando, mas a imensa maioria será a perdedora e se verá marginalizada dos benefícios económicos. De um socialismo obrigado pelas circunstâncias a repartir a pobreza, agora passaremos paulatinamente a um em que se acentuarão e aprofundarão as desigualdades sociais.

    Durante 50 anos mantivemos um consenso social baseado num dos modelos redistributivos da riqueza mais justos e equitativos do mundo e no desfrute universal e gratuito de direitos sociais básicos que eram só um sonho em qualquer outro país. Em troca, aceitavam-se restrições importantes nos direitos políticos e depositava-se todo o poder numa liderança histórica carismática, que havia ganho uma enorme autoridade moral e política. Entendia-se a aceitava-se que o Estado actuava sempre a favor e em nome do povo, e garantia a permanência das conquistas revolucionárias. Portanto o controle político estrito era visto como uma arma contra a actividade subversiva inimiga.

    Este modelo de controle político rigoroso foi eficaz para defender a Revolução frente ao assédio imperialista e à contra-revolução burguesa. Entretanto, nas limitações à participação política está a origem de dois fenómenos que agora ameaçam a economia planificada: um, no terreno económico, desperdício, a corrupção, o mau uso dos recursos, porque não existe nem o mecanismo de controle que implica a livre competição capitalista, nem tão pouco o mecanismo de controle que implica a democracia operária; e, dois, a falta de participação política real leva a uma situação de apatia, de aceitação do que vem de cima, na qual atrofia-se o músculo da crítica por não ser exercitado, o que finalmente pode levar à aceitação de medidas pró capitalistas praticamente sem contestação. O efeito económico da burocracia foi atenuado durante algum tempo, entre outras razões, pela relação com a União Soviética que até certo ponto criava uma situação de abundância de produtos básicos. Mas com a queda da URSS revelou-se com toda a sua força.

    Se a partir de agora Cuba começará a parecer-se com os países "normais" onde o sector privado toma medidas para aumentar os seus lucros, e sobe os preços guiado pela lei da oferta e procura, então deveremos redefinir também os espaços e os mecanismo para que as pessoas possam protestar e defender-se dos desmandos e abusos do sector privado, e exercer pressão em sentido contrário.

    Enquanto tivermos a enorme ameaça do imperialismo e a reacção capitalista precisaremos do partido único como garantia de unidade dos revolucionários e de sobrevivência da Revolução. Mas no discurso de encerramento da Conferência Nacional Raúl lançou uma advertência à qual é preciso prestar atenção especial porque reconhece uma debilidade perigosa: "A Revolução dos humildes, pelos humildade e para os humildes, que tanto sangue custou ao novo povo valoroso, deixaria de existir, sem que fosse efectuado um único disparo pelo inimigo, se a sua direcção chegasse algum dia a cair em mãos de indivíduos corruptos e covardes". Algo assim foi o que aconteceu na União Soviética. Lá também tinham um partido único e isso não os salvou de uma restauração capitalista selvagem. Uma militância habituada a não funcionar democraticamente e a obedecer às ordens que vinham de cima assistiu passiva ao derrube das conquistas revolucionárias, decretado pelos "indivíduos corruptos e covardes" da direcção, sem que fosse disparado um só tiro. A única maneira de evitar que se passe o mesmo connosco é contar com um partido unido, capaz de actuar como um só punho, e que ao mesmo tempo reconheça a existência de cada dedo da mão. Com um partido controlado pelas suas bases, não importaria que, por engano ou acidente, chegassem à direcção "indivíduos corruptos ou covardes". Não poderiam fazer o que quisessem, porque o poder estaria abaixo e não acima.

    Raúl disse que o nosso partido único devia ser o mais democrático do mundo. É nossa responsabilidade converter isso em realidade e estabelecer os mecanismos para levá-lo à prática. Mas a democracia não a podemos entender só como escutar as opiniões das pessoas e processá-las adequadamente, ou as consultas com as massas, ou discordar "inclusive" até do que digam os chefes (o que devia ser visto como algo natural e não quase como um extremo). Democracia é que as bases tenham decisão e controle sobre todos os assuntos fundamentais. Conservando intacta a unidade orgânica e ideológica do Partido, no seu seio deve-se conceder espaço para o debate político entre diferentes opções e visões revolucionárias.

    Quando existe um partido único, necessariamente todos os interesses de classe, de uma maneira ou de outra, tentam encontrar expressão dentro dele. Mais tarde ou mais cedo os elementos pró capitalistas em Cuba, na medida em que consolidem sua posição económica, aumentarão suas pressões e influências sobre o partido, para verem-se reflectidos no seu seio. Por esse motivo é decisivo que os elementos revolucionários, marxistas, a ala esquerda que representaria mais directamente os interesses dos trabalhadores, tenham a possibilidade de organizar-se e travar a batalha.

    Raúl também advertiu sobre o perigo da burocracia. Mas como se combate a burocracia? Não é um fenómeno individual, de pessoas más, oportunistas ou corruptas, que esperam agachadas a oportunidade de provocar dano, que gostam muita de papelada ou da comodidade do gabinete e do ar condicionado, ou que se sentem felizes quanto mais travas põem às pessoas comuns. Pensar que elas possam ser controladas ou combatidas por outro grupo de burocratas, pessoas boas, responsáveis, honestas, decentes, comprometidas com o povo e o socialismo, é uma atitude totalmente ingénua e que deixa intacto o problema do poder burocrático. Não se pode colocar o problema em termos éticos, onde um grupo de funcionários honrados controla outros que não o são. A burocracia é um fenómeno objectivo, de um grupo dominante, que em condições de atraso e isolamento da revolução, escapa ao controle popular e cria seus próprios privilégios e interesses. Que dentro dela nem todos sejam corruptos, oportunistas e arrivistas e que haja revolucionários e honrados é um dado importante, mas secundário para a análise que nos ocupa. A burocracia não pode controlar-se a si própria. O único controle efectivo que se lhe pode opor para evitar que ela se converta num perigo contra-revolucionário é o dos trabalhadores e do povo em geral. A planificação socialista sem uma completa democracia operária é pasto para o desperdício, a ineficiência e o roubo. Lamentavelmente, na actualidade o discurso político não aponta na direcção de um maior controle democrático dos trabalhadores e sim na do reforço do papel dos chefes.

    Nenhuma análise que pretenda o avanço do projecto cubano de justiça, liberdade e igualdade social pode limitar-se ao âmbito interno, ao que está nas nossas mãos e podemos fazer aqui. No final, o factor decisivo do qual dependerá o triunfo ou não do socialismo cubano será o desenlace da luta de classes a nível mundial. As condições actuais da crise capitalista e os ventos revolucionários e de indignação que percorrem o mundo, desde os Estados Unidos e as Europa até o mundo árabe, permitem-nos olhar com optimismo o futuro e nos reafirmam que a nossa causa é suficientemente justa e válida para não ceder nem um ápice frente ao capitalismo, que mete água por todos os lados.

    Não se pode aspirar a uma sociedade superior se as riquezas obtidas alcançam-se através de relações de produção que fomentem a desigualdade, a exploração, a competição. Frente a uma via de utilização de medidas de estilo capitalista, que não terá outra porta de saída senão o capitalismo, há alternativas. Além do cuentapropismo, válido e permissível só numa pequena escala, devíamos estar a pensar também em fomentar cooperativas socialistas para determinados serviços, e na implementação do controle operário em todas as fábricas e empresas, entre outras medidas que promovam práticas e valores solidários. A solução socialista da encruzilhada cubana passa pela democracia operária no partido e nas estruturas estatais e de governo, pela participação democrática dos trabalhadores na planificação da economia e uma política internacionalista que promova a extensão da revolução socialista pela América Latina e o mundo. 
    08/Julho/2012

    [*] Professor da Universidade de Santiago de Cuba.

    O original encontra-se em http://www.universitat.cat/ucpc/?p=2456 


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .