segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Israel inocenta Exército por atropelamento de ativista com escavadeira




Um tribunal da cidade de Haifa, em Israel, rejeitou o recurso da família da ativista americana Rachel Corrie pedindo a responsabilização do Exército israelense pela sua morte. Corrie tentava proteger uma casa palestina da demolição quando foi propositalmente atropelada por uma escavadeira militar em 2003, na faixa de Gaza.
De acordo com a hipócrita corte israelense, o atropelamento de Corrie foi "acidental" e o motorista que dirigia a escavadeira não podia ver a ativista, que se encontrava sobre um monte de areia, tentando impedir que o veículo destruísse uma casa palestina.



A família de Corrie pretende apelar da decisão do tribunal perante a Suprema Corte de Justiça de Israel. De acordo com o seu advogado, Hussein Abu Hussein, a corte "deu legitimidade para agressões a pessoas inocentes e para violações de direitos humanos básicos" . Segundo o tribunal israelense, "o campo de visão de uma escavadeira é limitado e o motorista não viu (a ativista)".
A corte também afirmou que o local onde Corrie se encontrava era uma "região de tiroteios e os soldados estavam expostos ao lançamento de granadas": "A falecida podia ter se afastado do perigo facilmente, mas escolheu se arriscar".
Protesto
Corrie, 23 anos, pertencia ao Movimento de Solidariedade Internacional, que protesta contra a ocupação israelense dos territórios reivindicados pelos palestinos. Em 16 de março de 2003, ela estava na cidade de Rafah, no sul da faixa de Gaza, quando escavadeiras do Exército israelense começaram a demolir casas pertencentes a civis palestinos.




Para a familia de Corrie, a investigação sobre a sua morte, conduzida pelo próprio Exército israelense, "não foi confiável, nem transparente, nem completa". "O Estado de Israel tem a obrigação, pela lei internacional, de usar todos os meios possíveis para proteger civis dos riscos causados por operações militares. As tropas israelenses violaram esse princípio de forma brutal ao matar Rachel Corrie e devem ser responsabilizadas", disse Hussein.
"Estamos tristes e preocupados com a decisão do juiz Oded Gershon", afirmou a mãe de Corrie, Cindy. "Sabíamos de antemão que seria um processo difícil, mas queríamos apresentar os fatos e confrontar o sistema com perguntas duras. Não aceitamos a afirmação de que o motorista da escavadeira não viu Rachel. Ele sabia que ela estava lá."

Embaixador

A família de Corrie espera que o governo americano continue exigindo do governo israelense mais esclarecimentos sobre a morte da ativista. Em um encontro recente com parentes da americana, o embaixador dos EUA em Israel, Daniel Shapiro, declarou que a investigação sobre o caso realizada por autoridades israelenses "não foi satisfatória nem completa".
Corrie não é a única ativista estrangeira morta por tropas israelenses. O britânico Thomas Hurndall foi alvejado na faixa de Gaza em 2003 e morreu depois de passar nove meses em estado de coma. Outros ativistas foram feridos em circunstâncias semelhantes.

FARC-EP: Há rumores... Será a Paz à vista?



imagemCrédito: Eltiempo     Manifestação da Marcha Patriótica
José Antonio Gutiérrez D.
Rebelión
As negociações de paz voltaram, com a bênção de uma boa parte do establishment, para a agenda política colombiana. A intriga de Uribe, que denunciou a aproximação do governo com as FARC-EP em Cuba, procurando assim canalizar apoio ao seu projeto de extrema-direita[1], foi suficiente para gerar uma onda de opinião favorável a essas aproximações. O tiro saiu pela culatra. Santos, diante do assunto, portou-se com grande sigilo, mas na segunda-feira a TeleSur já deu a notícia quente: as FARC-EP assinaram o início de um acordo de paz com o governo colombiano[2]. As expectativas são altas quando há apenas alguns dias Gabino, o comandante máximo do ELN, disse estar disposto a participar de uma iniciativa de diálogo da qual já fazem parte as FARC-EP [3]. É uma declaração de grande importância, uma vez que as lições do passado dizem que não seria possível hoje a negociação em paralelo com as distintas expressões do movimento guerrilheiro colombiano. Enquanto escrevo estas notas, aguardamos o anúncio oficial de Juan Manuel Santos a respeito.
Esta aproximação não é gratuita e nem surge de uma boa vontade do mandatário: é óbvio que a tese do "fim do fim" carece de sustentação e que o Plano Colômbia chegou ao limite. A insurgência tem respondido ao desafio colocado pelo avanço do militarismo e um novo ciclo de lutas sociais ameaça a deterioração da situação política no médio prazo, em um nível que será difícil de controlar para a oligarquia. A cena política parece, por vezes, perigosamente volátil. Além disso, não surpreende a vontade da insurgência para se aproximar da mesa de negociação: primeiro, porque é uma insurgência que vem tentando, há 30 anos, em todos os tons possíveis, a solução política para o conflito social e armado, e por outra parte porque a insurgência tem melhorado muito nos últimos anos a sua força, não só militarmente mas, acima de tudo, no campo político.
Cuidado com as ilusões
Ainda que a assinatura deste acordo seja um desenvolvimento positivo, não podemos ser excessivamente otimistas, nem muito menos triunfalistas, pensando que a “paz”, por si só, representará um triunfo para os setores populares e suas demandas históricas, bloqueadas a sangue e fogo por mais de meio século, a partir do Estado. Há de se ter plena consciência de que o caminho até um eventual processo de negociações está repleto de contratempos, assim como de que existem diferenças substanciais, de fundo, a respeito da questão do que se pode esperar destas negociações ou o que se entende por esta palavra na boca de todos: “paz”. Há de se ter plena consciência de que a oligarquia com a qual se negocia é a mais sanguinária do continente e que não entra para negociar por uma súbita mudança de convicção
Enquanto o conjunto das organizações sociais pleiteia que a paz é muito mais do que o cessar fogo, mas consistiria na resolução coletiva de problemas estruturais que originam a violência, para o Estado segue sendo um tema de desmobilização, reinserção e a discussão de formalidades jurídicas relacionadas [4]. Santos quer “uma ‘paz express’, sumária, mecânica. A quer clandestina, sem a presença da multidão, sem sociedade civil, sem organizações populares. A quer sem reformas, sem mudanças de nenhuma espécie na sociedade nacional. Para ele é suficiente que seja com o marco legal que se aprovou recentemente e talvez ainda com as regulamentações que com dificuldade poderão tramitar em um Senado hostil diante do iminente processo eleitoral” [5].
Santos sustentou uma posição ambígua ante o tema da paz: por um lado, diz ter as chaves da paz, que um dia foi perdida e no outro dia apareceram numa caixa forte; por outro lado, aprofunda a guerra suja, mediante o fortalecimento da militarização das comunidades rurais (os chamados planos de Consolidação Territorial); mediante o fortalecimento dos golpes às instâncias médias da insurgência e uma estratégia de judicialização das “redes de apoio” do movimento guerrilheiro, que submete o poder judicial às necessidades do projeto contra-insurgente (essência do Plano Espada de Honra); e por último, mediante o fortalecimento da impunidade para as ações das forças armadas dentro de uma estratégia sistemática de terrorismo de Estado (a ressurreição do chamado foro militar, acordo ao qual chegaram Santos e Uribe recentemente).
A partir da perspectiva santista, a paz ou a guerra não são senão estratégias para impor um insustentável projeto econômico-social neoliberal, baseado no Plano de (Sub) Desenvolvimento Nacional do santismo, cujos pilares são a agroindústria e a mineração. Se se conseguirá converter esta oportunidade para abrir negociações em um espaço a partir do qual se possa impulsionar as transformações sociais que demanda o povo colombiano, dependerá da capacidade de organização e mobilização do próprio povo, e tal coisa acontecerá apesar do Estado, não graças a ele.
Paz? Que paz?
Há uma coisa que o bloco dominante não perde de vista. É que a negociação com a insurgência hoje não é o mesmo que ocorria nas negociações de 1990-1994. Aqui não existem organizações cujo espectro ideológico seja um liberalismo radicalizado; não estamos ante grupos reformistas em armas, cuja direção está assumida pelos "bacanas", nem as demandas políticas dessas organizações insurgentes serão satisfeitas com promessas de reformas constitucionais cosméticas, nem com garantias generosas para desmobilizar-se, nem elas aceitarão uma "agenda restrita". Estamos diante de movimentos revolucionários que representam os mais pobres dos mais pobres. Estamos diante de movimentos guerrilheiros que representam as aspirações históricas deste campesinato que sempre ficou por baixo em todas as iniciativas de "paz". Estamos diante de insurgentes cujos pés se confundem com a terra que pisam. Estamos diante de quem não tinha nada e merece tudo.
Tampouco estamos diante de grupos derrotados militarmente, como os que se mobilizaram em 1990-1994, mas estamos diante de organizações fortemente enraizadas em amplas regiões do país, com capacidade operacional em quase todo o território nacional, com uma renovada capacidade para bater as forças armadas de Estado; em amplas regiões do país a insurgência é uma realidade política inescapável, um autêntico duplo poder que é legitimado em outras comunidades pisoteadas pela consolidação territorial do Exército e o flagelo paramilitar. Ainda que se queira convencer do contrário alguns comentaristas [6], se a insurgência negocia hoje é porque pode negociar, porque tem força e capacidade para fazê-lo. E bem sabem na Casa de Nariño que a desmobilização e a rendição desejadas pelo uribismo não são uma opção política.
Isto reconhece um artigo de 25 de agosto do El Espectador:
"É evidente que as FARC não são um parceiro fácil. Querem reforma agrária, que seja com base na Lei de Terras e na Lei de Vítimas; pretendem que se discuta a forma de contratação com multinacionais de petróleo e mineração; requerem espaços políticos para avançar para um contexto mais democrático e acreditam que a paz hoje também envolve a gestão adequada do meio ambiente. O resto são detalhes formais,  como o inamovível de que, se houver uma negociação, deve ser feita em território nacional". [7]
Resulta apenas óbvio que o discurso das FARC-EP como uma organização “terrorista”, “bandoleira”, “convertida em cartel do narcotráfico”, “lumpenizada”, é insustentável, pura propaganda, ainda mesmo quando se possa questionar certos métodos que utiliza. Ninguém em sã consciência pode negar que todos os aspectos que a insurgência reclama (terras, recursos naturais, democracia, meio ambiente, educação, saúde, seguridade social, etc.) sejam temas de crucial importância, onde as políticas do governo fazem água e que requerem a mais ampla participação do conjunto da sociedade. Que a insurgência tome estes temas e os converta em elementos indissociáveis do avanço de qualquer tentativa de superar o conflito social e armado de raiz, é um autêntico pesadelo para os setores mais recalcitrantes da oligarquia. Não é a suposta bandoleirização da insurgência, tão alardeada pelos meios de comunicação oficiais, que aterroriza a oligarquia, mas seu caráter político e revolucionário, e sua capacidade de articular as demandas de diferentes setores sociais.
É por isso que o bloco dominante sabe que a grande luta que vem a seguir é no plano político, mais ainda do que no militar. Porta-vozes do empresariado têm se pronunciado a favor de uma agenda de negociação restrita moldada nas negociações com o M-19, ou seja, uma negociação sem mudanças estruturais [8]. Eles esperam sair das negociações com o menor número de concessões e reformas possível, e sabem que isso os coloca em contradição não só com a insurgência, mas com um setor importante do povo organizado. Para isso, temos de estar alertas para o recrudescimento da guerra suja e dos ataques contra as organizações populares que lutam pela mudança social e que tradicionalmente têm acompanhado os processos de diálogo na Colômbia.
Esgota-se, momentaneamente, a estratégia militarista
Contudo, ainda que esta oligarquia tenha muito receio de abrir as portas a negociações que, com toda certeza, terminarão em um debate nacional sobre projetos antagônicos de país, sabe também que a persistência no rumo belicista é colocar a corda no pescoço; a insurgência se fortalece e existe hoje uma escalada do conflito social e da mobilização popular em todo o país que, se persistir, poderia ameaçar seriamente a hegemonia do bloco dominante. O país se encontra à beira de um novo ciclo de violência precipitado pelo deslocamento forçado, a desapropriação violenta de camponeses e comunidades, a penetração da mineração e da agroindústria em todo o país. A violência com a qual se vem impondo o modelo santificado no Plano de (Sub) Desenvolvimento Nacional de Santos gera, necessariamente, resistência. E a resistência, em um país como a Colômbia, dá-se de múltiplas formas, sendo caldo de cultivo para uma situação potencialmente explosiva.
Negociar com a insurgência pode servir a oligarquia, em suas mais otimistas projeções, para alcançar a paz neoliberal que permita o avanço do projeto neoliberal agro-extrativista, reduzindo os níveis de resistência, ao menos, dos projetos insurgentes. Em uma pesquisa feita com empresários colombianos pela Fundação Ideias Para a Paz, "A grande maioria deixou claro que descarta uma agenda de negociações que inclui reformas estruturais e com múltiplos atores, como ocorreu no Caguán. Eles preferem uma restrição ao desarmamento, a desmobilização e reintegração onde o Estado pode ser ‘generoso’. "[9]. Ou seja, a paz para facilitar a exploração das massas e do meio ambiente colombiano.
Nas projeções menos otimistas da oligarquia, as negociações serviriam ao menos para ganhar tempo e preparar-se para enfrentar, de maneira mais letal e eficiente, o seguinte ciclo de violência que paira no horizonte. Tal era a verdadeira intenção do governo Pastrana ao enfrentar o processo de negociações de San Vicente del Caguán. O próprio Pastrana, que falava de paz enquanto negociava o Plano Colômbia e dava altas somas à ferramenta paramilitar do Estado, cinicamente admitiu o seguinte em um artigo de dez anos após o colapso das conversações de Caguán:
“O Plano Colômbia (...) nos permitiu sentarmos na mesa de diálogo em desvantagem inicial, praticamente desarmados, com a certeza de que se haveria de concluir, seja com êxito ou fracasso, com um Estado armado até os dentes e pronto, como nunca antes, tanto para a guerra como para a paz”. [10]
Em ambos os casos, seja que a oligarquia busque pacificar o país sem mudanças substanciais, ou seja que procurem ganhar tempo para continuar com o negócio da guerra, qualquer paz que possa ser alcançada será efêmera, é apenas a calma que precede a tempestade violenta que recairá sobre as costas dos excluídos, dos despossuídos, dos violentados​, dos oprimidos. E são eles que devem ser mobilizados para impor a necessária vontade de mudanças estruturais e de fundo: o vento sopra a seu favor no momento, pois a mobilização popular está crescendo e há uma tendência saudável para a unidade dos que lutam. Estes dois fatores favorecem a possibilidade de que o bloco popular converta-se num fator de peso nas negociações, especialmente quando o bloco dominante tem contradições internas que, sem ser antagônicas, são bastante agudas e vão gerar uma crise de hegemonia.
Os "inimigos (não tão) submetidos" Santoyo e as contradições interburguesas
A hegemonia do bloco dominante, consolidada durante quase uma década de Plano Colômbia e da mal denominada "Segurança Democrática" (de que Santos era um continuador), é afetada não só pela crescente mobilização e descontentamento popular, mas também pela erosão da unidade do bloco dominante. Cada vez mais se tornam mais freqüentes os confrontos entre o uribismo entrincheirado entre os elementos inflamados das forças armadas, dos agricultores, da narcoburguesía e do caudilhismo, todos os quais vêem na guerra o seu grande negócio, e o santismo, que representa os interesses supremos do capital transnacional, buscando a "paz" para abrir caminho para seus negócios e investimentos na área agro-extrativista. Embora estes setores também tenham recorrido ao paramilitarismo para assegurar a "confiança dos investidores" e a desapropriação violenta para enriquecer, privilegiariam uma forma menos dispendiosa para garantir seus lucros, colocando-os em uma situação um tanto diferente com relação aos setores da burguesia que dependem, estruturalmente, da desapropriação violenta para acumulação de capital.
O colunista Alfredo Molano, há uns 2 meses, analisava esta contradição no bloco dominante e o impacto que teria sobre um eventual processo de negociação:
"Ao presidente fica mais fácil negociar com os guerrilheiros do que com os militares, empresários e caudilhos para terminar derrotado em outro Caguán. Foi essa carência o verdadeiro obstáculo para as negociações entre Pastrana e Marulanda. O erro do ex-presidente não foi a liberação de 30.000 km, mas foi não ter negociado com o establishment e com os militares o preço que essas duas poderosas forças estavam dispostas a pagar ". [11]
Enquanto se aprofunda a crise de hegemonia do bloco de poder, e enquanto avançam as lutas populares, assim como a insurgência, seria insensato para Santos não reagir diante da agitação que o uribismo leva adiante nos quartéis e seu trabalho de polarização no interior das estruturas de poder. Nem Santos, nem os capitalistas que representa, nem o imperialismo que o respalda, aceitarão que Uribe se converta em um fator de desestabilização. Eles todos suportaram Uribe quando ele serviu e ajudou a reconstruir a cambaleante hegemonia de uma oligarquia decadente. Mas nem o imperialismo e nem a oligarquia têm amigos, mas interesses apenas. No momento em que deixa de cumprir esse papel, Uribe se torna um "descartável".
Neste sentido deve-se compreender o encurralamento geral a que a justiça  submete o círculo interno de Uribe, com a condenação de Rito Alejo, os sinais crescentes de paramilitares como Mancuso entre seus vínculos com a AUC, os problemas dos familiares narcos do ex-presidente e a deportação do Geral Santoyo.
Não é que nós estejamos percebendo agora a extensão da podridão no ambiente em torno de Uribe, algo de que se sabe há algum tempo, mas agora o contexto é diferente. No caso Santoyo em particular, parece haver um elemento importante contra Uribe: se alguém pode comprometê-lo com o tráfico de drogas e os paramilitares, é ele. Já começou a falar de alguns generais, incluindo o braço direito de Uribe, Mario Montoya, e ameaçou "abrir o bico” sobre os políticos [12]. Será Santoyo uma cartada do santismo para tentar colocar Uribe sob controle? Haverá de se esperar a reação de Uribe ao anúncio de paz, o que provavelmente fará através do Twitter. Porém, se continuar jogando pela desestabilização, sua queda será, provavelmente, uma questão de tempo.
Envolver o povo na negociação
Ainda quando devemos ver as negociações sem ingenuidade e com bastante realismo, é indubitável que o atual momento abre um potencial enorme para superar as condições estruturais que levaram ao conflito social e armado na Colômbia, e que vem alimentando este modelo de capitalismo mafioso que acumula em função de desapropriações violentas. Tanto Santos como os empresários rechaçam ou relutam em aceitar a participação de "múltiplos atores" no processo de paz. Isto é, procuram excluir o povo da resolução de um conflito que o afeta diretamente, deixando intactas as condições para o início da nova onda de violência, como as que cronicamente afligem as sociedades do pós-conflito da América Central. Embora o movimento de guerrilha na Colômbia seja parte de um processo acumulativo importante de lutas populares na Colômbia, e mesmo que tenha um nível de legitimidade muito importante em muitas regiões do país, é claro que nem a insurgência, nem qualquer expressão do movimento popular colombiano pode assumir a representação exclusiva do movimento popular.
A insurgência tem se manifestado muitas vezes de acordo com esta posição, o que eles vêem como consistente em relação com seus postulados históricos. Em resposta ao professor Medófilo Medina, o comandante máximo das FARC-EP, Timoleón Jimenez, explica o significado da luta política, "para o poder do povo", desta guerrilha comunista: "Nem o Programa  Agrário, nem em qualquer documento posterior das FARC até a data de hoje, jamais se colocou que nossa meta como organização política e militar seja tomar o poder depois de vencer em uma guerra de posições o Exército colombiano, tal como se repete de vez em quando para todos aqueles que insistem em nos fazer reconhecer a impossibilidade desse objectivo. Desde o nosso nascimento, as FARC temos concebido o acesso ao poder como uma questão das multidões em agitação e movimento. "[13]
Nesta linha, o citado artigo do El Espectador coloca claramente, como um problema da negociação, que:
"Já se sabe anteriormente que outro dos aspectos difíceis é a agenda das FARC. A este respeito, é claro que, em princípio, a pretensão da guerrilha é envolver a sociedade civil na questão. Ou seja, para que os movimentos sociais, a academia e as minorias políticas tenham a mesma voz que possam ter os grupos econômicos. Assim, o movimento chamado de Marcha Patriótica pode tornar-se protagonista. Trata-se da criação de espaços políticos onde a discussão não se limita apenas ao impasse entre o governo e os guerrilheiros. (...) A respeito de Cauca as FARC têm um pensamento claro: se começa  um processo de paz com o governo, os indígenas desse departamento devem ter uma  voz especial na mesa de negociação "[14].
É necessário que as pessoas afirmem e exijam o seu direito de tomar parte neste processo e transformá-lo em um diálogo nacional em que se discutam os projetos de país que estão confrontadas em um conflito que não é só armado, mas principalmente social. Sobre a solução política, a mesma resposta do comandante Timoleón Jimenez afirma que:
"Não pode ser entendida senão como uma reafirmação da ordem existente. Não se trata de modo algum de guerrilheiros arrependidos e desacreditados que entregam suas armas e se submetem ao escárnio midiático e jurídico, para em seguida, com a espada a um fio das suas cabeças, ingressarem no mercado da política partidária a fim de fazer coro com as mentiras oficiais. Do que se trata é reconstruir as regras da democracia para que se debatam ideias e programas em igualdade de oportunidades. Sem o risco de ser assassinado ao chegar em casa. Falo dos desaparecidos e torturados por uma mão misteriosa que já se sabe que existe, como aquelas forças obscuras que exterminaram a União Patriótica sob o olhar impassível da classe política colombiana. É justo que se abra um debate público sobre estas questões, que se possa falar destes temas sem ser imediatamente oprimido pelo conjunto dos monopólios de informação".
Há de se colocar o povo em meio às negociações, mesmo que a oligarquia fique incomodada em ver tantos maltrapilhos ocupando o debate político, terreno reservado por dois longos séculos a uma elite republicana dourada, a linhagens moribundas e decadentes cujos nomes se repetem uma e outra vez na ocupação dos cargos de poder. Trata-se de ocupar estes espaços, de conduzir o debate político sobre a paz e a guerra,  sobre o modelo político e econômico para todas as praças públicas da Colômbia, a todas as faculdades e escolas, em todos os locais de trabalho, minas e vilas rurais. Deve-se usar este debate para promover um projeto de país para coletar e harmonizar as demandas mais urgentes de todos os setores populares que hoje lutam contra o modelo  econômico de morte e pilhagem imposto pelos de cima.
O anúncio do início deste novo caminho em busca de uma solução política não deve significar que se tenha que desmobilizar o povo. Muito pelo contrário, indica que é hora de o povo sair para lutar ainda mais decisivamente, que se aprofunde a mobilização social e se reforce os espaços da unidade do povo em luta. Devemos integrar, mais do que nunca, expressões como a Marcha Patriótica, para evitar um novo genocídio e proteger os espaços a partir dos quais o povo se mobiliza e faz ouvir sua voz e seu compromisso com uma nova sociedade. Nós apoiamos as lutas dos camponeses, operários, presos políticos, que agora estão em desobediência e greves em todo o país. Exigimos o fim da estigmatização, perseguição e detenção de ativistas sociais. Devemos exigir a suspensão da designação de "organizações terroristas" para os insurgentes, a fim de garantir as condições ideais para o diálogo franco e livre. Devemos exigir que este acordo inicial  avance para um cessar-fogo bilateral e para o desmantelamento dos grupos paramilitares, como forma de proteger a vida e a integridade das pessoas que hoje devem se converter em atores e protagonistas deste processo.
Somente a mobilização popular pode assegurar que o processo de paz que está no horizonte possa ser concluído com as transformações estruturais que reclamam amplos setores da Colômbia. E à luz dos enormes desafios colocados pelo poder, esta luta pela paz não será nada menos do que uma luta abertamente revolucionária. É hora de falar claramente sobre o caráter revolucionário desta luta, que envolve o confronto de um modelo baseado na exploração, pilhagem, morte e exclusão, com um modelo que cresce no coração do povo, baseado na inclusão, no respeito às comunidades e ao meio ambiente, na sustentabilidade para proteger a vida, na dignidade e na auto-determinação das pessoas. Não é nada mais nada menos do que o tipo de Colômbia que se quer construir o que está em jogo.
Tradução: PCB (Partido Comunista Brasileiro)
NOTAS DO AUTOR:
[4] Para um artigo que reflita as atitudes predominantes do Estado a respeito dos alcances limitados que esperam de uma eventual negociação, ver http://www.elespectador.com/impreso/politica/articulo-3...antos
[6] Ver, por exemplo, a última coluna de Humberto de la Calle http://www.elespectador.com/opinion/columna-370093-paz ou o seguinte artigo http://www.elespectador.com/impreso/politica/articulo-3...antos Ver, em resposta a esta tese, um artigo nosso em http://www.anarkismo.net/article/21961
(*) José Antonio Gutiérrez D. É militante libertário, residente na Irlanda, onde participa dos movimentos de solidariedade com a América Latina e Colômbia, colaborador da revista CEPA (Colômbia) e El Ciudadano (Chile), bem como do sítio web internacional www.anarkismo.net. Autor de "Problemas e Possibilidades do Anarquismo" (em português -Faisca ed., 2011) e coordenador do livro "Orígenes Libertarios del Primero de Mayo en América Latina" (Quimantú ed. 2010).

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Porque a Síria não cairá: A derrota esmagadora do chamado "Exército Sírio Livre"



por Ghaleb Kandil
Cartoon de Pluma y Fusil.

A fim de entender os desenvolvimentos da situação, é importante também analisar o  estado de espírito do povo sírio. Sem apoio popular real – o que naturalmente é ignorado pelos mídias ocidentais – o presidente Bashar al-Assad e seu exército não teriam sido capazes de resistir e deter este ataque. Este apoio popular deve-se a três factores. Em primeiro lugar, a maioria dos sírios está consciente do fato de que o seu país é alvejado por uma trama que pretende subjugar a Síria e incluí-la no campo imperialista ocidental e consequentemente removê-la de todas as equações regionais, pois sabe que durante estas últimas quatro décadas a Síria esteve no cerne dos equilíbrios de poder que nada podia ser feito no Médio Oriente sem o seu conhecimento e participação. Estes amplos segmentos populares são apegados à autonomia política do seu país e estão desejosos de defendê-la, o que explicaria porque milhares de jovens estão voluntariamente a aderir às fileiras do Exército. 
Por outro lado, os peritos acreditam que vinte por cento da população – aqueles que em algum momento simpatizaram com a oposição – descobriram a cara real dos extremistas que multiplicam as suas selvajarias nas regiões sob o seu controle (violações, execuções, massacres, pilhagens, ...). À luz desta transformação que afeta o estado de espírito popular, especialmente nas áreas rurais onde o povo está farto, o estado sírio estabeleceu meios de comunicação discretos que permitem à população informar o exército acerca da presença de terroristas, o que explicaria como e porque durante estas últimas semanas as unidades especiais e a sua força aérea foram capazes de executar com êxito ataques bem concebidos contra as bases das gangs armadas. 
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Os desenvolvimentos recentes na Síria revelaram uma série de sinais importantes, os quais terão repercussões decisivas no curso da guerra global conduzida pelos Estados Unidos para destruir este país. Ao contrário das informações e impressões dos estrategas americanos e seus aliados europeus, assim como dos seus cúmplices árabes – tal como transmitido por centenas de medias empenhados na batalha – os esquadrões da morte, mercenários e grupos Takfiri introduzidos na Síria a partir de todas as partes do mundo sofreram uma derrota esmagadora ao nível das batalhas. No entanto, os responsáveis turcos e seus aliados qataris e sauditas prometeram – como já haviam feito no ano passado durante o mesmo período – que o mês do Ramadão testemunhará a queda do regime resistente na Síria. Estas ilusões entraram novamente em colapso no campo de batalha onde as gangs armadas sofreram baixas de milhares de mortos, feridos e detidos. 

Na verdade, o ataque abrangente lançados pelos extremistas contra Damasco acabaram – mesmo com o reconhecimento dos medias ocidentais – com perdas maciças. Portanto, a força que incluía mercenários locais e jihadistas de toda a parte do mundo foi aniquilada completamente pelo exército sírio que está a perseguir os remanescentes nos arredores da capital. Em consequência, foram confiscadas toneladas de armas e a pesada infraestrutura dos grupos armados foi desmantelada e destruída, o que exigirá meses para reconstruir se os grupos armados alguma vez forem capazes de fazê-lo.

O resultado da batalha de Alepo, por outro lado, já pode ser antecipado pois os extremistas estão a cair aos milhares face ao progresso metódico do exército que foi capaz de cortar completamente as linhas de abastecimento dos mercenários que vinham dos campos de treino dirigidos pela CIA na Turquia. Consequentemente, as gangs armadas já não podem mais receber reforços sem terem de pagar um pesado preço. Pois os seus comboios 4x4, que estão esquipados com artilharia pesada e lhes foram oferecidos pelos seus patrocinadores regionais, estão a mover-se sob o fogo dos helicópteros e aviões do exército e a caírem nas emboscadas montadas pela forças de elite que se  infiltraram nas linhas inimigas.

Segundo peritos, um terço dos grupos extremistas são compostos por jihadistas que vieram do Magrebe árabe, da Líbia, do Golfo, Afeganistão, Paquistão e Chechénia. Neste nível, o chefe de nacionalidade francesa da European Union Intelligence, Patrice Bergamini, reconheceu numa entrevista ao diário libanês Al-Akhabar, na sexta-feira 17 de Agosto, o papel importante desempenhado pelos jihadistas no conflito sírio, enfatizando que o público ocidental agora estava consciente da ameaça que representavam. É claro que a limpeza pelo Exército sírio da cidade de Alepo e sua zona rural é agora uma mera questão de tempo.

A derrota esmagadora sofrida pelos gangs armados por toda a Síria revela que o Exército Árabe Sírio, que foi construído sobre sólidas bases ideológicas, retirou rapidamente as lições da guerra e desenvolveu estratégias de contra-guerrilha urbana e rural, as quais lhe permitiram atingir os extremistas apesar dos maciços meios militares, materiais, financeiros e de mídia que lhes foram generosamente oferecidos pela coligação de dúzias de países, sem esquecer as sanções adoptadas contra o povo e o estado sírio fora do contexto das Nações Unidas.

A fim de entender os desenvolvimentos da situação, é importante também analisar o estado de espírito do povo sírio. Sem apoio popular real – o que naturalmente é ignorado pelos mídias ocidentais – o presidente Bashar al-Assad e seu exército não teriam sido capazes de resistir e deter este ataque. Este apoio popular deve-se a três factores. Em primeiro lugar, a maioria dos sírios está consciente do fato de que o seu país é alvejado por uma trama que pretende subjugar a Síria e incluí-la no campo imperialista ocidental e consequentemente removê-la de todas as equações regionais, pois sabe que durante estas últimas quatro décadas a Síria esteve no cerne dos equilíbrios de poder que nada podia ser feito no Médio Oriente sem o seu conhecimento e participação. Estes amplos segmentos populares são apegados à autonomia política do seu país e estão desejosos de defendê-la, o que explicaria porque milhares de jovens estão voluntariamente a aderir às fileiras do Exército.

Por outro lado, os peritos acreditam que vinte por cento da população – aqueles que em algum momento simpatizaram com a oposição – descobriram a cara real dos extremistas que multiplicam as suas selvajarias nas regiões sob o seu controle (violações, execuções, massacres, pilhagens, ...). À luz desta transformação que afeta o estado de espírito popular, especialmente nas áreas rurais onde o povo está farto, o estado sírio estabeleceu meios de comunicação discretos que permitem à população informar o exército acerca da presença de terroristas, o que explicaria como e porque durante estas últimas semanas as unidades especiais e a sua força aérea foram capazes de executar com êxito ataques bem concebidos contra as bases das gangs armadas.

Paralelamente a todos os desenvolvimentos no terreno, os aliados regionais e internacionais de Damasco estão a mostrar contenção e a desenvolver iniciativas políticas e diplomáticas a fim de evitar deixar a arena aberta diante dos ocidentais. A este nível, o êxito da reunião em Teerão entre trinta países, incluindo China, Índia, Rússia, nove países árabes e estados da América da Latina e África do Sul, transmite este novo equilíbrio de poder. A formação deste grupo constituiu uma forte mensagem aos ocidentais e põe seriamente em perigo o seu projecto de estabelecer – fora do contexto das Nações Unidas – uma zona de interdição de voo na parte Norte da Síria. Os últimos meses de 2012 serão decisivos ao nível da emergência de novos equilíbrios regionais e internacionais e na formulação de uma nova imagem a partir de Damasco, graças à vitória do estado nacional sírio na guerra global contra ele conduzida.

Desenvolvimentos rápidos

Até as eleições presidenciais americanas, as quais serão no princípio de Novembro, os desenvolvimentos sírios internos, regionais e internacionais tornar-se-ão mais rápidos do que antes. Obviamente, a intervenção militar estrangeira, quer de dentro ou de fora do Conselho de Segurança, está fora de cogitação, se bem que as sanções tenham atingido os seus níveis mais altos enquanto o Capítulo VII está a ser impedido pelo direito de veto. A seguir às eleições presidenciais americanas, veremos a materialização das linhas políticas principais que afetarão a máquina militar utilizada do outro lado da fronteira e de dentro do território sírio.

Portanto, nessa altura deveria haver ou um reconhecimento da impossibilidade de introduzir mudança ao nível da geografia e do papel da Síria o que deveria induzir preparações para negociações sérias e para soluções políticas – que são rejeitadas pelos americanos, os quais recusam-se a responder ao convite envido pela Rússia para encontrarem-se – ou sustentar a aliança guerreira e a mobilização do estado de hostilidade a partir de todas as direcções, isto é, desde a conferência de Meca até a visita do ministro dos Estrangeiros francês a estados vizinhos da Síria para reunir tantas cartas de pressão quanto possível.

Não haverá zonas tampão (buffer zones) nem embargos aéreos, antes esforços para isolar completamente certas regiões fronteiriças do controle do estado a fim de testar as oportunidades para estabelecer mini-estados, semelhantes àqueles estabelecidos por Saad Haddad e Antoine Lahd sob tutela israelense no Sul do Líbano. A este nível, a aposta está na zona rural de Alepo na qual todos aqueles que vendem a sua honra entre os dissidentes serão introduzidos a seguir aos preparativos em Doha, Riyadh e Aman para dar legitimidade formal ao projecto de divisão.

Por outro lado, Lakhdar Brahimi foi nomeado enviado e mediador para a solução política e a missão de observadores foi finalizada a fim de preparar a arena para todas as possibilidades. Brahimi portanto passará tempo em excursões antes de ser adoptada uma decisão, enquanto a Síria fortalece-se com o seu exército e o povo, preparando – a começar por Alepo e sua zona rural – o rumo da mudança futura.
25/Agosto/2012
O original (em árabe) encontra-se em New Orient Center for Strategic Policies e a versão em inglês em
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=32490


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
27/Ago/12 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Planos de guerra de Israel para atacar o Irã "antes das eleições nos EUA"


A noção de que Israel poderia actuar sozinho e contra os interesses dos EUA faz parte de uma campanha de desinformação subtil. Há uma antiga prática de politica de Washington de encorajar seus aliados próximos a darem o primeiro passo na direcção da guerra, com o Pentágono a puxar os pauzinhos nos bastidores.
Não tenhamos ilusão, os planos de guerra contra o Irã, os quais têm estado nos bastidores  do Pentágono desde 2003, são estabelecidos aos mais altos níveis em consulta e coordenação com Tel Aviv e a sede da NATO em Bruxelas. 
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Míssil Shahab.
por Michel Chossudovsky

O Canal 10 de Israel sugere, violentamente, que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está "determinado a atacar o Irã antes das eleições nos Estados Unidos" e que o "momento para a ação está ficando mais próximo". "Israel está agora "mais próxima do que nunca de um assalto destinado a aniquilar a iniciativa nuclear do Irã". 

A reportagem neste momento sugere que Netanyahu e o ministro da Defesa Ehud Barak acreditam firmemente que o presidente Obama "não teria outra escolha senão dar apoio a um ataque israelense" [se] fosse travado antes das eleições presidenciais de Novembro.
O repórter militar da estação de TV, Alon Ben-David, ao qual no princípio deste ano foi dado acesso vasto à Força Aérea de Israel quando esta treinava para um possível ataque, relatou que, uma vez que as sanções agravadas contra o Irã deixaram de obrigar a uma suspensão do programa nuclear iraniano nos últimos dois meses, "do ponto de vista do primeiro-ministro, o momento para a acção está ficando mais próximo".

Perguntado pelo âncora do noticiário na reportagem da TV em língua hebraica sobre quão próximo estava agora Israel de "uma decisão e talvez um ataque", Ben-David disse: "Parece que estamos mais próximos do que nunca".

Parece que, disse ele, Netanyahu não estava à espera de uma muita discutida possível reunião com o presidente Barack Obama, após a Assembleia-Geral da ONU em Nova York no próximo mês – na verdade, "não está claro que haverá uma reunião". Em qualquer caso, disse Ben-David, "duvido que Obama pudesse dizer qualquer coisa que convencesse Netanyahu a atrasar um possível ataque".

Há considerável oposição a um assalto israelense a instalações nucleares do Irã, observou a reportagem – com o presidente Shimon Peres, o chefe do Estado Maior Geral do Exército e generais de alta patente, a comunidade de inteligência, o líder da oposição Shaul Mofaz, "e naturalmente os americanos", todos alinhados contra uma ação israelense nesta fase.

Mas, observou Ben-David, é o governo israelense que terá de tomar a decisão e aí Netanyahu está "quase garantido" com uma maioria. Outros medias hebraicos na terça-feira informaram também que Netanyahu enviou um alto responsável, o Conselheiro de Segurança Nacional Yaakov Amidror, para atualizar o idoso líder espiritual do Shas, o ultra-ortodoxo partido da coligação, Rabbi Ovadia Yosef, sobre o estado do programa nuclear iraniano, a fim de tentar ganhar o apoio dos ministros do Shas no governo para um ataque ( Times of Israel , ênfase acrescentada).
Numa reportagem anterior, Richard Silverstein apresenta pormenor de um documento militar vazado (traduzido do hebraico) que esboça a natureza do proposto "ataque de pavor e choque" ao Irã proposto por Netanyahu:
O ataque israelense será aberto com um assalto coordenado, incluindo um ciber-ataque sem precedente que paralisará totalmente o regime iraniano e a sua capacidade de saber o que está a acontecer dentro das suas fronteiras. A internet, telefones, rádio e televisão, satélites de comunicação e cabos de fibra óptica que conduzem a instalações críticas – incluindo as bases de mísseis em Khorramabad e Isfahan – serão postos fora de ação. A rede elétrica por todo o Irã será paralisada e as subestações com transformadores absorverão danos severos das munições de fibra de carbono as quais são mais finas do que um cabelo humano, provocando curto-circuitos elétricos cuja reparação exige a sua remoção total. Isto seria um trabalho de Sísifo considerando as munições de estilhaçamento (cluster) que seriam lançadas, algumas com retardadores de tempo e algumas ativadas remotamente através da utilização de um sinal de satélite.
Uma barragem de dezenas de mísseis balísticos seria lançada de Israel em direção ao Irã
Mísseis balísticos com alcance de 300 km seriam lançados de submarinos israelenses nas vizinhanças do Golfo Pérsico. Os mísseis não seriam armados com ogivas não convencionais [WMD], mas sim com munições de alto poder explosivo equipadas com pontas reforçadas destinadas especialmente a penetrar alvos endurecidos. 
Os mísseis atingirão seus alvos – alguns explodindo acima do solo como aqueles que atacaram o reactor nuclear em Arak – o qual é destinado a produzir plutónio e trítio – e a instalação vizinha para a produção de água pesada; as instalações para a produção de combustível nuclear em Isfahan e as instalações para enriquecer hexafluoreto de urânio. Outros explodiriam abaixo do solo, como na instalação Fordo.

Uma barragem de centenas de mísseis de cruzeiro aniquilará sistema de comando e controle, instalações de investigação e desenvolvimento e as residências de pessoal sénior no aparelho de desenvolvimento nuclear e de mísseis. A inteligência reunida ao longo de anos será utilizada para decapitar completamente as fileiras dos profissionais e dos comandos do Irã nestes campos.

Após a primeira onda de ataques, a qual será seguida pela segunda, o satélite radar "Blue and White", cujos sistemas capacitam-no a efectuar uma avaliação do nível de dano feito aos vários alvos, passará sobre o Irã. Só depois de descriptar rapidamente os dados do satélite, a informação será transferida diretamente para aviões de guerra a dirigirem-se encobertamente rumo ao Irã. Estes aviões da FAI serão armados com dispositivos eletrónicos de guerra anteriormente desconhecidos do público mais vasto, nem mesmo revelado ao nosso aliado estado-unidense. Este equipamento tornará os aviões israelenses invisíveis. Aqueles aviões israelenses que participam no ataquem danificarão uma lista curta de alvos que exigem um novo assalto.

Dentre os alvos aprovados para ataque estão: silos de mísseis balísticos Shihab 3 e Sejil, tanques de armazenagem de componentes químicos de combustíveis para foguetes, instalações industriais para produzir sistemas de controle de mísseis, fábricas de produção centrífuga e mais.
Richard Silverstein sublinha o fato de que há considerável oposição ao plano de Netanyahu-Barak para bombardear o Irã.

Será que esta oposição israelense prevalecerá se Netanyahu e seu ministro da Defesa tomassem a decisão de executar um plano de ataque?
Será Netanyahu um político dos EUA por procuração? 

Quem está a apoiar Netanyahu? Há poderosos interesses econômicos nos EUA que estão a favor de um ataque ao Irã.

Será isto um projeto de guerra israelense ou é o primeiro-ministro de Israel um procurador dos EUA a atuar por conta do Pentágono?

O que acontece se Netanyahu der a ordem para atacar? Será que esta ordem será executada pelo alto comando de Israel apesar da vasta oposição dentro das Forças Armadas de Israel?

A questão não é se Washington dará um sinal verde a Israel antes das eleições nos Estados Unidos como transmitido pelos medias  israelenses.

A questão fundamental desdobra-se em duas: 


1. Quem ao nível político decide acerca do lançamento desta guerra? Washington ou Tel Aviv?

2. Quem em última análise decide – em termos de comando e controle militar – por em execução um teatro de guerra em grande escala no Médio Oriente: Washington ou Tel Aviv?

Israel é de facto um posto militar avançado dos EUA 
no Médio Oriente


As estruturas de comando estado-unidense e israelense estão integradas, com consultas estreitas entre o Pentágono e o Ministério da Defesa de Israel. Como informado em Janeiro último, um grande número de soldados dos EUA estão estacionados em Israel. Jogos de guerra conjuntos entre os EUA e Israel também estão contemplados.

Planos de guerra EUA-Israel-OTAN  contra o Irã têm estado em andamento desde 2003 incluindo a instalação e acumulação de sistemas de armas avançados.

As reportagens dos medias  israelense são enganosas. Israel não pode sob quaisquer circunstância travar uma guerra contra o Irão sem o apoio militar dos EUA e da OTAN.

Sistemas de armas avançadas foram instalados. Os EUA e Forças Especiais aliadas bem como operacionais de inteligência já estão no terreno dentro do Irã. Drones militares dos EUA estão envolvidos em actividades de espionagem e reconhecimento.

Bomba nuclear B61.



Bombas nucleares táticas B61 contra casamatas ( Bunker buster B61 ) destinam-se a serem utilizadas contra o Irão em retaliação pelo seu alegado programa de armas nucleares.
As ações militares contra o Irão são coordenadas 

com aquelas relativas à Síria. 

Do que estamos a tratar é de uma agenda militar global, centralizada e coordenada pelo US Strategic Command ( USSTRATCOM ) envolvendo logística complexa, ligação com várias entidades militares e de inteligência. Em 2005, o USSTRATCOM foi identificado como "o principal Comando Combatente para integração e sincronização dos vastos esforços do Departamento da Defesa no combate a armas de destruição em massa". Esta integração do Comando Combatente também incluía coordenação com aliados da América incluindo a OTAN, Israel e um certo número de estados árabes da linha de frente, os quais são membros do diálogo Mediterrâneo da OTAN.

Neste contexto mais vasto da guerra imperial coordenada pelo USSTRATCOM em ligação com o US Central Command ( USCENTCOM ), o plano de ataque de Netanyahu contra o Irã induz a ilusão de que Tel Aviv ao invés de Washington decide acerca de travar uma guerra contra o Irã.

As reportagens dos medias israelenses mencionadas acima transmitem a impressão de que Netanyahu e o ministro da Defesa Ehud Barak estão em posição de actuar independentemente de Washington, bem como de forçar Obama a apoiar um ataque de Israel ao Irã.

A noção de que Israel poderia atuar sozinho e contra os interesses dos EUA faz parte de uma campanha de desinformação sutil. Há uma antiga prática de politica de Washington de encorajar seus aliados próximos a darem o primeiro passo na direcção da guerra, com o Pentágono a puxar os pauzinhos nos bastidores.

Não tenhamos ilusão, os planos de guerra contra o Irã, os quais têm estado nos bastidores do Pentágono desde 2003, são estabelecidos aos mais altos níveis em consulta e coordenação com Tel Aviv e a sede da OTAN em Bruxelas.

Se bem que Israel participe na condução da guerra, não desempenha um papel central predominante no estabelecimento da agenda militar.

21/Agosto/2012
Ver também:
  • Iran to Wage Full-Scale War in Case of Israeli Aggression
  • Commander: Israel Fearing Iran's Growing Influence after NAM Summit
  • Defense Minister: Iran's Defense Pact with Syria Still Valid

    O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=32428


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

  • domingo, 19 de agosto de 2012

    O DESMEMBRAMENTO DO MUNDO ÁRABE

    Por: Dr. Makram Khoury-Machool é palestino. Escreve de Cambridge, UK

    De fato, o processo de reforma iniciado na Síria é mais avançado que o de qualquer outro estado árabe. Inclui o fim das leis de emergência, a implantação de leis partidárias, eleitorais, de imprensa, e a aprovação de uma nova constituição que incluiu o fim da liderança eterna do Partido al-Ba’ath. Essas reformas são parte de um genuíno processo político que exigirá tempo. Mas esse é o processo contra o qual lutam hoje, para miná-lo e destruí-lo, tantas forças, entre as quais governos ocidentais tidos como progressistas, que hoje se erguem contra o estado sírio.

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    O comportamento do bloco da OTAN, anti-sírio, é hoje suficientemente claro, para que se entenda o que está acontecendo na Síria. De um lado, há operadores políticos, como o grupo ad-hoc “Amigos da Síria”; de outro lado, duas personalidades, ambos ministros de dois emirados do Golfo.

    No primeiro grupo estão os chefes de Estado comandados pela OTAN, que operam sob um mal disfarçado plano concebido por Israel e seus ‘cérebros’, a maioria dos quais do quilate de Bernard-Henri Lévy. Mais do que ‘amigos da Síria’, essas personalidades trabalham a favor de seus próprios interesses financeiros na, em torno da e mediante a Síria. Os dois políticos árabes são os dois ministros de Relações Exteriores, da Arábia Saudita e do Qatar. Ambos declararam que as forças que lutam contra o estado sírio deveriam ser armadas e receber apoio financeiro. Em resumo, as reuniões dos chamados “Amigos da Síria” não passam de visão ‘moderna’ das reuniões promovidas e presididas pelo vice-rei Lord Curzon, que, em 1903, falou aos ‘Chefes da Costa Árabe’, a bordo do “HMS Argonaut” em Sharjah (Emirados Árabes Unidos).

    Os qataris e sauditas dão apoio financeiro aos ‘rebeldes’ para comprar armas, pagar combatentes, mercenários e supervisão logística dos ataques contra a Síria. Isso, além do apoio para serviços de telecomunicações, táticas de combate e aconselhamento estratégico militar. Não surpreendentemente, os conselheiros militares ocidentais, que trabalham clandestinamente para os grupos armados, jamais aparecem nos jornais e televisões. Estados vizinhos também provêm assistência local aos grupos armados: a Jordânia garante direitos de passagem a mercenários que vêm da Líbia; e a Turquia age como base, ao norte, de operações militares.

    A Turquia está envolvida, porque deseja alinhar-se com os sunitas sauditas, a linha apoiada pela OTAN, e também porque teme que o desmembramento da Síria leve à autonomia dos curdos. Aos olhos da Turquia, a crise síria pode levar a uma eventual união dos curdos turcos com curdos iraquianos e sírios, o que rapidamente levaria a guerra civil na Turquia e a uma eventual emancipação do Curdistão turco, com criação de um estado curdo.

    Por seu lado, Israel planeja há anos, como parte de sua estratégia para dominar o Oriente Médio e o Mediterrâneo, enfraquecer a Síria, para prosseguir a ocupação das colinas sírias do Golan, e dominar as fontes de água ali existentes. Essencialmente, Israel quer ser a principal potência econômica e militar na região – e, pelo menos no curto prazo, é possível, sim, que Israel surja da atual crise, depois de destruída a Síria, como principal potência regional.

    Mediante campanha de propaganda incansável, ao longo de décadas, Israel construiu para a opinião pública a ideia de que a Síria seria a principal ameaça à existência do estado judeu, no mundo árabe. O vácuo de governo que se pode criar na Síria pode, muito provavelmente, ser preenchido pela al-Qaeda e grupos assemelhados, o que daria suficiente justificativa para as ações bélicas dos israelenses, além de ajudar a promover a ideia de uma Israel ‘civilizada e democrática’ em luta contra islamistas ‘selvagens’.

    Apesar das imensas diferenças entre Síria e Líbia, o destino da Síria pode ser semelhante ao da Líbia, em termos de intervenção externa direta, não fossem Rússia e China, que se opuseram firmemente contra tais ações na ONU, onde tem havido cooperação consistente entre os dois países. Apesar de as relações sino-soviéticas terem raízes nos primeiros dias da Revolução Comunista de 1917, parece que, mesmo duas décadas depois do desmonte do Bloco Oriental, a Federação Russa e a República da China seguem, mais do que nunca, o que Mao Tse-tung aconselhou em seu discurso “Ser um Verdadeiro Revolucionário”, de 23/6/1950: “na esfera internacional temos de nos unir firmemente com a União Soviética” (ver Selected Works of Mao Tsetung, vol. V, p. 39[1]). Ideias, visão de mundo, interesses econômicos e objetivos no campo da energia novamente aproximaram Rússia e China, mais do que nunca antes, no caso do conflito na Síria.

    No primeiro lugar da produção mundial de petróleo está a Arábia Saudita, Rússia em segundo, EUA em terceiro, Irã em quarto e China em quinto. Em termos de reservas, os dez principais estados são: 1) Venezuela, 2) Arábia Saudita, 3) Canadá, 4) Irã, 5) Iraque, 6) Kuwait, 7) Emirados Árabes Unidos, 8) Rússia, 9) Cazaquistão e 10) Líbia. A Rússia é o maior produtor de gás do mundo, e a Europa depende dessa fonte de gás. Na produção mundial de gás, se, por causa da distância geográfica, excluem-se EUA e Canadá, o Irã aparece em segundo lugar e o Qatar em terceiro. Em termos de reservas de gás, a Rússia é número um, com Irã e Qatar quarto lugar e a Arábia Saudita em sexto. Com a vizinha Arábia Saudita como um dos dez principais produtores de gás do mundo, é evidente que os interesses de exportação do Qatar e da Arábia Saudita são especialmente importantes; esse ranking ajuda a entender as alianças que se formaram à luz do conflito sírio.

    Arábia Saudita e Qatar (que noutras circunstâncias poderiam ser estado único e ainda podem passar por reorganização geográfica) são, ambos, árabes muçulmanos sunitas e ambos têm interesses econômicos em jogo. A ansiosa busca, pelo Qatar, de contratos de marketing para o gás e o petróleo líbios explica o acordo com a OTAN para atacar a Líbia; sua participação simbólica nos ataques aéreos; e o apoio aos rebeldes para que construíssem capacidade de ação comunicacional midiática.

    O objetivo do Qatar é exportar seu gás para a Europa, competir com os russos e ganhar importante capacidade de barganha política. Para que a exportação do gás qatari para a Europa seja viável e competitiva, é indispensável construir um gasoduto que atravesse território sírio. Sendo a Rússia tradicional aliada da Síria, e considerados os muitos negócios anteriores, que datam dos anos da URSS, dificilmente a Síria admitiria qualquer tipo de acerto que desestabilizasse os interesses da Rússia na sua última fortaleza estratégica dentro do mundo árabe. Essa é a principal razão pela qual o Qatar e a Arábia Saudita apoiam a luta dos grupos que querem derrubar o atual governo sírio.

    A Síria está-se convertendo, muito rapidamente, numa caixa de Pandora, da qual começam a reemergir todas as crises históricas dos últimos 120 anos. Começam com a guerra russo-turca em 1877-8; a guerra russo-japonesa em 1904, as duas guerras mundiais e a Guerra Fria. Normalmente, a emergência de uma superpotência demora 2, 3 décadas. Os EUA precisaram de 25 anos para emergir como superpotência, de 1890 até o final da I Guerra Mundial. Depois da morte de Lênin, em 1924, a URSS era a parte mais doente do ‘corpo’ europeu. Em 1945, depois da II Guerra Mundial, e sob o governo de Stálin, emergiu como superpotência. Depois de Gorbachev, a Rússia deixou de ser superpotência e, aparentemente, acabou a Guerra Fria. Em apenas duas décadas, Putin pôs fim ao sistema unipolar e, hoje, está emergindo um novo mundo bipolar – como se a Guerra Fria não tivesse acabado.

    Exame detido do sistema político sírio revela que o presidente Bashar al-Assad é, de fato, um reformista. Mas na Síria, como em qualquer outro estado, há facções em luta pelo poder, e os processos de socialização demorarão para mostrar qualquer resultado. De fato, como disse o presidente Assad, demora apenas alguns minutos para assinar leis novas, mas é preciso muito mais tempo para educar a população para que absorva e participe na implantação dos novos valores que se consagram em novas leis. O movimento das elites ocidentais, que agem como se novas leis brotassem em árvores e fossem correspondentemente colhidas e engolidas é desserviço à democracia e ato absolutamente imoral.

    A Síria foi o último estado árabe secular socialmente coeso, baseado de cima abaixo em ideologia secular. Apesar dos vizinhos altamente voláteis, em termos geopolíticos (Líbano, Turquia, Israel, Jordânia e Iraque), os cidadãos sírios viveram em segurança sob esse secularismo árabe. A Síria é locus de um específico tipo de pluralismo e multiculturalismo, impregnado de tolerância religiosa e existência pluralista. É o que se vê na convivência de igreja, mesquita, bar em todas as calçadas, e no movimento, pelas ruas, de mulheres veladas e sem véu.

    De fato, o processo de reforma iniciado na Síria é mais avançado que o de qualquer outro estado árabe. Inclui o fim das leis de emergência, a implantação de leis partidárias, eleitorais, de imprensa, e a aprovação de uma nova constituição que incluiu o fim da liderança eterna do Partido al-Ba’ath. Essas reformas são parte de um genuíno processo político que exigirá tempo. Mas esse é o processo contra o qual lutam hoje, para miná-lo e destruí-lo, tantas forças, entre as quais governos ocidentais tidos como progressistas, que hoje se erguem contra o estado sírio. Nas últimas décadas e, sobretudo, depois do 11/9, o ocidente só fez divulgar a noção de que terroristas islamistas ameaçariam todas as formas de vida secular. Contudo, os sunitas, tecnicamente a maioria religiosa na Síria, inclui vários segmentos e não são menos seculares que qualquer sociedade ocidental.

    Assim, apesar de os sírios terem pleno direito de defender o secularismo à sua moda, o objetivo do ocidente é desmantelar o estado sírio, modificar a estrutura de poder que há ali e criar novas entidades demogeográficas, como uma confederação de curdos sírios e iraquianos, que é, hoje, o maior dos pesadelos para a Turquia. Áreas específicas também podem ser despovoadas, a serem usadas, como foi feito com os drusos, para repovoar a Síria com cristão sírios e, talvez, cristão vindos do Líbano. Outros cristão deixariam o Levante. E os alawitas teriam talvez estado à parte, unido, talvez, ao Irã.

    O plano é destruir o moderno estado árabe da Síria que emergiu depois da I Guerra Mundial e nos anos 1940s, e, onde seja possível, estabelecer novos estados religiosos (semelhantes ao estado judeu de Israel). Desse modo, o poder árabe e, com ele, a ideologia panarabista de Michel Aflaq e Antun Sa’ade (ambos cristãos árabes) e de Nasser do Egito, desapareceria.

    Esse processo começou quando, em 1978-9, sob Sadat, o Egito assinou tratado de paz com Israel; em seguida, vieram a destruição do Líbano, em 1982, a Segunda Intifada em 1987 e a tomada econômica do Iraque em 2003. Em seguida a Líbia foi destruída, com o confisco de seu petróleo e gás, em 2011. Agora, para manter a hegemonia de US-Rael (US-Israel), o ocidente tem de dispor os estados árabes em grupos separados por linhas sectárias (sunitas versus xiitas), em vez de unidos por critérios do panarabismo. Esse processo, de fato, foi turbinado depois da ocupação do Iraque e a derrubada do partido Ba’ath.

    Na prática, o que está hoje acontecendo no mundo árabe é uma ‘correção’ do acordo Sykes-Picot de 1916, quando os principais poderes coloniais, Grã-Bretanha e França, definiram as fronteiras dos atuais estados árabes e lá implantaram seus próprios agentes árabes. Esse processo inclui planos neocolonialistas para constituir dois ou mais partidos árabes que combatam o regime sírio e mantê-los lutando até que o estado sírio esteja desmembrado e fraturado em 2, 3 outros estados, separados entre eles por linhas sectárias. Assim as elites neocoloniais poderão continuar a saquear as riquezas locais, porque, bem feitas as contas, a mentalidade imperial não mudou, nem muda.

    Dado que as potências ocidentais não podem alcançar seus objetivos por seus próprios meios, precisam de agentes como o Qatar na Líbia, e Arábia Saudita, Qatar e outros na Síria. Esses agentes, preferencialmente monarquias antidemocráticas árabes muçulmanas sunitas, usaram o islã sunita para promover o fanatismo contra outros árabes, muçulmanos e não muçulmanos (dentre outros, cristãos árabes, xiitas e drusos). Esses árabes, com acesso à elite (econômica) global (por exemplo, a família real saudita e os qataris, com elites americanas e europeias) são as elites governantes no Golfo Árabe, ou protegés daquelas elites. São quem está obrando para semear diferenças entre as várias seitas e amplificar e explorar ‘a carta sunita’ no confronto com a Turquia não árabe muçulmana e sunita, contra a Síria. Não seria surpresa se estivessem em conluio com as potências ocidentais, também fantoches de Israel. Sem isso, seria difícil explicar por que o regime mais autoritário do planeta, a Arábia Saudita, age contra a Síria e finge que dá lições de democracia, tema sobre o qual os sauditas não sabem nem se interessam por saber coisa alguma.

    As campanhas de propaganda orientalista, negativa, conduzidas contra a Síria ao longo do ano passado, com apoio financeiro de alguns dos países do Golfo intencionalmente encobriram vários traços da Síria, dentre os quais o secularismo – ponto para o qual as sociedades ocidentais facilmente convergiriam, em movimento de identificação com os sírios. A importância da ideologia do Partido Ba’ath, principal partido secular sírio, que assegura direitos individuais, foi atentamente ocultada. Isso, por exemplo, além do fato de Daoud Rajhah, ministro sírio da Defesa que foi assassinado, ser cristão; como cristão também era o Dr. Nabil Zughaib, também assassinado, com toda a sua família, e diretor do programa sírio de mísseis.

    Os exemplos acima, de eliminação deliberada de fatos dever-se-iam, como se diz, à aliança entre Síria e Rússia, que configuraria o campo ‘errado’. Há firmes relações diplomáticas entre Síria e Rússia há, no mínimo, 50 anos. Além disso, a Síria é o “baixo ventre macio” (alawita/xiita-secular) entre o Irã (xiita refusnik anti-OTAN) e o Hizbollah xiita no Líbano. Apesar de, aos olhos de curto prazo de Israel, a principal oposição à sua plena dominação ser o Irã (além do Hizbollah, da Síria e, antes, do Hamás), o alvo, hoje, é a Síria. Como tal, a Síria está sendo castigada, antes que seu corpo metafórico seja esquartejado.

    Mas qual a importância do Hamás nisso tudo? Até ser eleito em eleições limpas, livres e democráticas em 2006 (quase dois anos depois do assassinato de Yasser Arafat), e depois de, um ano depois, ter tentado um golpe contra a Autoridade Palestina controlada pelo Fatah na Faixa de Gaza, o Hamás era grupo de resistência apoiado pelo Irã, por Damasco e pelo Hizbollah. Se o Irã é a ‘cabeça’ metafórica e o Hizbollah e o Hamás são as duas pernas, a Síria tem sido o ‘estômago’ ou o ‘coração’ e ‘pulmões’ da resistência. Mas desde que o Hamás passou a governar a faixa de Gaza, em larga medida deixou de ser movimento de resistência e institucionalizou-se. Nisso, Israel (e Sharon, em especial) conseguiu uma vitória tática. Israel retirou-se ‘oficialmente’ da Faixa de Gaza, embora sem levantar o sítio e sem pôr fim aos ataques contra a Faixa; e entregou a chave da prisão aos prisioneiros (Hamás), para que eles mesmos comandassem a maior prisão a céu aberto, de todo o mundo. Tudo isso foi feito sem que o Hamás sequer se desse conta do que estava acontecendo.

    No primeiro semestre de 2012, os líderes do Hamás deixaram Damasco, onde haviam mantido seu quartel-general e, hoje, mantém posição discreta, sem terem divulgado apoio ao governo sírio – governo que os apoiou por mais de 20 anos. Com a vitória da Fraternidade Muçulmana na Tunísia e no Egito, o Hamás hoje procura patrocinadores mais poderosos e em países nos quais possam operar em posição de mais poder. Os líderes do Hamás (ambos, na Diáspora e na Faixa de Gaza) foram convidados pelo recém-eleito novo presidente do Egito, para unir-se à Fraternidade Muçulmana (organização mãe deles todos) como iguais. O que até ontem parecia ser movimento da resistência (embora, para vários analistas, o Hamás jamais tenha sido partido revolucionário como outras facções palestinas como o PFLP, o DFLP e outros), está hoje incorporado ao tecido de uma aliança muçulmana sunita, que já começou a agir sob as asas da OTAN.

    Orientalistas ocidentais gostam de imaginar o que teria de ocorrer, para atender seus interesses no Oriente. Para começar, batizaram o mundo árabe de “Oriente Médio”, como se fosse um marcador geográfico localizado em relação, exclusivamente, ao próprio ocidente. Para por ordem no assalto planejado, criam termos e expressões para justificar suas operações militares, clandestinas ou declaradas. Mas seus serviços de segurança/inteligência jamais acertam as previsões sobre desenvolvimentos no mundo árabe: não previram a Intifada de 1987 nem o golpe do Hamás em 2007. Ainda assim, as elites ocidentais, superficiais e ignorantes, jamais desistem de inventar nomes e processos: o mais recente, dizem eles, teria começado na Tunísia e foi batizado de “Primavera Árabe”.

    O que está acontecendo em alguns países árabes e no mundo árabe nada tem de ‘primavera’: é movimento reacionário que rapidamente retrocederá, como os EUA viram acontecer no Afeganistão, onde os EUA inventaram e sustentaram os mesmos jihadistas que, adiante, os EUA puseram-se a combater. EUA e Israel têm tentado construir acertos e negócios com os islamistas que estão no poder, com o objetivo de conseguirem controlar as massas e os movimentos sociais. De fato, não é a primeira vez que estrategistas políticos tentam usar a religião para evitar o caos e defender seus interesses econômicos. O que se vê hoje é semelhante ao processo que Maquiavel comenta (baseado no relato do historiador romano Tito Lívio Patavino, 59 aC-17 dC); o capítulo de Maquiavel leva o título de “Como os romanos usaram a religião para reorganizar a cidade e conseguir levar adiante o plano de pôr fim aos tumultos”.

    As campanhas ocidentais de propaganda contra a Síria buscam convencer o público a mais temer a religião que obedecer aos atuais governantes árabes. Eis o porquê de continuarem censurados os protestos em três reinos árabes (Arábia Saudita, Marrocos e Jordânia). O mundo absolutamente não está vendo coisa alguma que se compare (por causa de censura, vigilância e indiferença da mídia ocidental) aos protestos que se viram nas repúblicas árabes. Uma das razões é que ninguém ali tem qualquer interesse em promover campanhas de propaganda, que custam caro. A única exceção talvez seja o Bahrain, e a possível influência do Irã. Mas não há qualquer garantia de que alguma campanha contra-hegemônica pudesse ter qualquer sucesso naquelas monarquias árabes.

    Depois de derrotar o clã rival al-Rashid em 1921, a família al-Saud governa atualmente em quase toda a Península Arábica histórica. Sua proeminência regional deve-se também ao controle sobre os locais sagrados de Meca e Medina, e a aliança que os sauditas mantêm com os wahabistas, que usam tanto quanto usam o petróleo e os recursos minerais deles. Esses recursos subsidiam a indústria cultural (e midiática) correspondente. Ainda assim, fatores religiosos e econômicos são evidentemente complexos e envolvem vasta rede social. Essa combinação manifesta-se no que chamo “a ética saudita do cacife [do ganho] espiritual” – mais ou menos semelhante à tese de Weber sobre a ‘ética protestante’ que serviu como anteparo à acumulação da riqueza no norte da Europa.

    Mediante a acumulação de capital nos estados do Golfo nos anos 1970s (controlada por interesses anglo-americanos mediante tratados que levaram grandes números de árabes a se tornarem ou economicamente dependentes (nos empregos no Golfo) ou espiritualmente dependentes mediante o cerrado controle sobre a mídia árabe), o boom do petróleo criou uma nova estratificação no mundo árabe. Resultado disso, algumas sociedades árabes tornaram-se dependentes, e aceitaram a autoridade, da família saudita reinante e seus clãs. Essas elites são parte das elites econômicas governantes proprietárias de alguns dos mais valiosos projetos de energia, das maiores fortunas e de vasto patrimônio no ocidente (equipes de futebol, as lojas Harrods, mansões nos Champs Élysées e sociedade nas empresas de Rupert Murdoch, para citar apenas alguns desses bens).

    A recente descoberta de que árabes desejam liberdade tem sido promovida, principalmente, por algumas instituições de mídia árabes e ocidental que são, elas mesmas, extensão de políticos que têm objetivo econômicos, estratégias e táticas próprias. As campanhas pela mídia conduzidas por capitalistas neoconservadores sionistas como Bernard-Henri Lévy, que trabalha agressivamente a favor de Israel e que tem forte afinidade com o judaísmo fundamentalista visam exclusivamente a separar os árabes de seus recursos e riquezas, ao mesmo tempo em que ativamente lhes mentem e os enganam.

    Isso se faz mediante a dupla estratégia de produzir narrativas separadas para segmentos separados da população. Para os religiosos, a corrupção é associada à falta de fé; e, para a totalidade da nação árabe, vendem o atrativo sonho de liberdade, justiça e direitos.

    Naturalmente, cada indivíduo interpretará as narrativas conforme a própria formação, experiência de socialização, nível de politização, normas e valores. Assim, quando todos se encontram ‘na praça’, os islâmicos lá estão convencidos de que só os livros islâmicos são a solução; os liberais recordarão Jean-Jacques Rousseau, a ‘separação dos poderes’ de Montesquieu e a Revolução Francesa; os marxistas pensarão na Revolução Bolchevique de 1917 e na luta de classes; e os maoístas pensarão na Revolução Cultural de Mao Tse-Tung ou no Nasserismo (afinal, quando um grupo de oficiais do exército egípcio liderou o golpe e a revolução, em 1952, Mao Tse-Tung declarou que “a luta contra a corrupção e o desperdício é uma das questões principais que envolve todo o partido” (30/11/1951); o que se encaixa bem na missão de combater regimes árabes corruptos). Simultaneamente, os que sonham com Castro e Che Guevara correrão às ‘barricadas’ nas praças, em disputa contra as forças de segurança do Estado.

    Na realidade, esses valores pouco significam no mundo árabe. E os liberais e sionistas sabem disso. A realidade é que, por causa do forte controle social; pelo modo como as sociedades árabes organizaram-se no século passado (incluindo o impacto da herança colonial); e por causa da riqueza do petróleo de que usufrui o Islã waabita (e salafistas modernos), exceto a facção islâmica, as outras ideologias pouco progresso farão, mas, simplesmente, garantirão a vitória dos movimentos religiosos.

    É verdade, o mundo árabe é heterogêneo, mas pouco heterogêneo. A religião prevaleceu em estados como a Jordânia onde, durante décadas, os islamistas controlaram a maior parte dos currículos escolares. Assim, em cada estado árabe onde houve levantes – e especialmente no Egito – há furiosa disputa de poder com vistas à Constituição. A Fraternidade Muçulmana e os salafistas alcançaram maioria de votos nas eleições parlamentares, e o primeiro presidente democraticamente eleito, Muhammad Mursi (eleito por apenas ¼ da população), é membro da Fraternidade Muçulmana. Os grandes poderes trabalham hoje a favor da promulgação de uma constituição baseada numa importante interpretação das leis da Xaria. Em seu Morfologia do Estado, Aristóteles sugere que é preciso “considerar não só qual a melhor constituição, mas, também, qual a mais executável e mais acessível em cada momento” (p. 103). Aos olhos dos fundamentalistas religiosos, podem bem ser as leis da Xaria, enquanto uma solução para as elites dominantes ocidentais está em vigor.

    Dado que garantem seus interesses econômicos mediante instituições de mídia controladas pela elite religiosa, eles, por sua vez, beneficiam-se também dos próprios centros de poder social, econômico e político; e, dos círculos/classes das elites religiosas emergirá um novo nicho de comerciantes e empresários. Grupos religiosos também ampliarão a própria participação econômica, além da participação política. Dado que isso beneficiará sua jihad política, muitos verão tudo isso como halal, dentro ou fora do contexto do banking islâmico. A divisão social contudo permanecerá ou será ampliada; e a única diferença é que os nomes terão mudado. Em vez de um ‘Mubarak’, haverá outro (mas, dessa vez, será alguém com barba) e essas aparentes ‘mudanças’ servirão, exclusivamente, para manter inalterado o controle político.

    As populações afetadas são as definidas como ‘minorias’ – principalmente árabes cristãos (cerca de 30 milhões no mundo árabe), muçulmanos seculares (sunitas e xiitas) e outros. No Egito, Mohammad Zawahiri (irmão de Ayman Zawahiri, líder da al-Qaeda) já declarou que os cristãos egípcios devem pagar um imposto (devido pelos infiéis, Dhimmi), ou deixar o Egito. E caso se recusem, sugeriu que sejam coagidos.

    Exemplo de como se pode mobilizar a população mediante a religião, servindo-se da mídia é o que faz o próprio monarca saudita. Durante o mês de Ramadan 2012, Abdallah da Arábia Saudita e seu herdeiro
    lançaram campanha de arrecadação de fundos, supostamente para ajudar o povo sírio – ou, pelo menos, era o que dizia o slogan. A campanha baseava-se em normas morais e no senso de comunidade e união islâmicas, as mesmas que são enfatizadas durante o mês santificado do Ramadan. Ao mesmo tempo em que vendem ao povo mensagens de compaixão e união comunitária, essas campanhas são usadas para objetivos políticos locais e regionais. É impossível imaginar, por exemplo, a Síria, lançando campanha pela liberação das mulheres sauditas ou a favor do direito de as sauditas dirigirem automóveis.

    Liberais com ideias à Goebbels que se alinham com esses chefes de emirado têm tentado, até o presente, enganar a opinião pública árabe e construir um consenso de oposição ao governo sírio, para, assim, fugirem das refregas e do calor de suas próprias ‘ruas’ e ‘praças’. Ao mesmo tempo em que aderem às normas e crenças mais arcaicas sobre liberdade e democracia, instigam o golpe contra a Síria, com discurso sobre liberdades para as mulheres, direitos religiosos das minorias, oportunidades e direitos iguais para todos, etc., em tudo semelhante ao que se vê em países ocidentais liberais. Mais ou menos como regimes árabes gostariam de organizar a opinião pública em apoio aos palestinos, os regimes do Golfo estão usando o falso argumento de que são contra a opressão dos sírios... mas os próprios governos manobram as próprias ‘ruas’ contra a Síria. E, isso, apesar do fato de que esses próprios governos e governantes estão atrasados anos-luz, em relação à Síria, em termos de liberdades e democracia.

    Os governos do ocidente não são aliados das democracias liberais no Terceiro Mundo. Eles inevitavelmente fazem negócios com governos que exibem os piores indicadores de direitos humanos, sempre que vejam possibilidade de ganhos. Exatamente como, em julho de 2008, quando Nicolas Sarkozy e o emir do Qatar, hoje arqui-inimigo da Síria, constituíram, com o governo sírio, a “União do Mediterrâneo”, alguns governos europeus creem que possam auferir benefícios da crise no mundo árabe. Mais ainda, quando têm o apoio dos ricos estados do Golfo e creem que eles possam, de algum modo, reduzir as dificuldades das crises econômicas que o ocidente esteja enfrentando.

    Em algumas áreas da Síria, as condições de segurança pessoal pioraram depois de março de 2011 e o governo central nem sempre deu mostras de exemplar conduta moral. Mas, como parte de campanha política estratégica, a mídia tem intencionalmente mentido sobre a situação na Síria. Insistem em implantar medo crescente no público sírio e manifestam exagerada preocupação com o número de mortos e feridos.

    Assim, constroem uma narrativa que justifica e facilita que se ofereça ajuda sempre crescente às gangues armadas de separatistas, terroristas e mercenários. A mesma mídia também pinta o governo sírio como se fosse o único responsável pela violência quando, de fato, os verdadeiros responsáveis são os que recrutam, pagam e armam grupos de indivíduos desempregados, famintos ou de mercenários manobráveis em busca de dinheiro fácil.

    Há dois principais culpados pelos muitos mortos: a mentira e o silenciamento absoluto de qualquer voz de oposição. Com seus aliados árabes, a OTAN desconectou o satélite de comunicação que alimentava o canal de televisão sírio al-Dunia, de televisão por satélite. Outros atos de terrorismo ‘comunicacional’ incluem, que se saiba, o sequestro, pela CIA, da conta Twitter da mesma rede al-Dunia –, que passou a ser usada para distribuir notícias falsas (dentre outras, noticiou a retirada do exército sírio, que não acontecera)

    O mesmo satélite árabe que a Síria ajudou a implantar depois de destruído na Palestina em 1967, está sendo usado hoje contra a Síria, pelos emirados do Golfo Árabe.

    Esse satélite está agora sendo usada no conflito na Síria – mas contra a Síria – e inclui desinformação sobretudo pelos canais dos quais o Golfo é proprietário e que promovem medo e pânico da instabilidade econômica na Síria. A mídia está sendo usada e manipulada para encobrir o incitamento à ação terrorista dirigido à oposição síria e, também, para angariar ajuda econômica; e a mesma mídia expõe, então, as ‘realizações’ saneadas, os ‘heroicos’ feitos dos ‘rebeldes’ e, quando necessário, apresentam suas perdas e derrotas como ‘massacres’.

    A mídia dominante no ocidente e dominante também no mundo árabe praticamente só tem uma opção: engolir desinformação de fontes absolutamente pouco confiáveis, e desinformação que, em seguida, os meios de comunicação reproduzem e redistribuem para o grande público. Histórias de massacres perpetrados pelo governos sírios são divulgadas e repetidas incansavelmente para justificar a intervenção estrangeira, e a imagem predominante é que o nobre ocidente que se apresenta para salvar uma nação oprimida do Terceiro Mundo oprimida pela tirania de um macho chovinista opressor. Exatamente o que aconteceu na Líbia. Mesmo assim, uma minoria na mídia árabe, opõe-se ao plano master; e outra minoria está sentada sobre o muro.

    A mídia árabe praticamente toda está, direta ou indiretamente na mão dos estados do Golfo; praticamente todos os jornalistas estão na folha de pagamento desses estados ou seus agentes ou, eficaz e absolutamente iludidos, não encontram meio para compreender e expor as trágicas ramificações do que está acontecendo no mundo árabe.

    Os valores antiguerra de Mãe Coragem de Bertolt Brecht não encontraram absolutamente qualquer espaço na agenda dos estados comandados pelo grande petróleo. Provavelmente porque são aqueles os valores que mais direta e claramente podem expor a dicotomia entre religião e economia de guerra.


    [1] Pode ser lido, em inglês, em http://www.marxists.org/reference/archive/mao/selected-works/volume-5/mswv5_08.htm [NTs].
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    http://www.deliberation.info/dismembering-the-arab-world/
    Traduzido pela Vila Vudu

    quinta-feira, 16 de agosto de 2012

    Fósforo branco: crianças palestinas são queimadas vivas por Israel em Gaza


    ISRAEL USA ARMA QUÍMICA CONTRA OS PALESTINOS

    As Crianças de Gaza e as Bombas de Fósforo Branco

    As crianças são as maiores vitimas do ataque com bombas de fósforo branco, na faixa de Gaza.O fósforo branco é usado regularmente para a fabricação de fogos de artifício e bombas de fumaça para camuflar movimentos de tropas, em operações militares. A sua utilização como componente de armas químicas é proibida pelas Convenções de Genebra e especialmente pela Convenção sobre Armas Químicas, reafirmando os termos do Protocolo de Genebra de 1925, que proíbe o uso de armas químicas e biológicas.

    Bombas, munição de artilharia e morteiros, quando contêm fósforo, explodem em flocos inflamáveis, mediante impacto. São artefatos incendiários e causam queimaduras terríveis, podendo mesmo ser letais.É legal o uso de fósforo branco como componente de foguetes de iluminação e bombas de fumaça, e a Convenção sobre Armas Químicas (CWC) não o inclui na lista de armas químicas.O fósforo foi usado pelos exércitos desde a Primeira Guerra Mundial. Durante a Segunda Guerra, na Guerra do Vietnam e recentemente por Israel na Operação Chumbo Fundido . Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha também já utilizaram munições com fósforo.
    Nas últimas décadas, porém, a tendência é o banimento do seu uso, contra qualquer alvo, civil ou militar, em razão dos severos danos causados pela substância e os especialistas acreditam que o fósforo deveria ser mesmo incluído entre as armas químicas, pois queima e ataca o sistema respiratório.Uma exposição prolongada, sob qualquer forma, pode ser fatal.


    Segundo a GlobalSecurity.org, citada pelo The Guardian, “Fósforo branco resulta em lesões dolorosas por queimadura química”. Partículas incandescentes de fósforo branco, resultantes da explosão inicial de uma bomba de fósforo, podem produzir extensas, dolorosas e profundas queimaduras (de segundo e terceiro graus). Queimaduras por fósforo carregam um maior risco de mortalidade do que outras formas de queimaduras devido à absorção de fósforo pelo organismo, através da área queimada, resultando em danos ao fígado, coração, rins e, em alguns casos, falência múltipla de órgãos.






    Além disso, essas armas são particularmente insidiosas porque o fósforo branco continua a queimar, a não ser em ambiente privado de oxigênio, até que seja completamente consumido, de forma que as pessoas atingidas, ainda que mergulhem na água, continuarão a queimar ao emergirem para respirar.

    Durante a incursão israelita na Faixa de Gaza em dez 2008 a jan 2009, grupos humanitários estimam que cerca de 1.000 crianças foram feridas e 300 foram mortas.

    A realidade das crianças palestinas de hoje estão assistindo seus pais e seus irmãos sendo mortos, suas casas sendo derrubadas, suas escolas bombardeadas.

    Para piorar, Israel impõe um bloqueio econômico sobre a nação, gerando mais desespero e miséria para os palestinos.

    Diante desse cenário absurdo, muitas crianças deixam de fazer o que faz a maioria das crianças: sonhar.
    Helder Leite e Doc Verdade
    http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/08/fosforo-branco-criancas-palestinas-sao-queimadas-vivas-por-israel-em-gaza.html