segunda-feira, 16 de julho de 2012

Síria, centro da guerra pelo gás


Da geopolítica do petróleo para a do gás



Por Imad Fawzi Shueibi
Imad Fawzi Shueibi:  geopolítico e filósofo. Presidente do centro de documentação e estudos estratégicos de Damasco - Síria.





 agressão midiática e militar contra  Síria está diretamente relacionada com a concorrência global pelos recursos energéticos, explica o Professor Imad Shuebi no magistral  artigo que apresentamos hoje.
Nesse exato momento em que assistindo ao colapso da zona do euro, e que uma grave crise econômica levou os Estados Unidos a acumular uma dívida superior a 14.940 bilhões de dólares; no  momento em que a influência americana declina em contraste com os países emergentes que conformam o Brics, se faz evidente que a  chave para o exito econômico e o predomínio político reside principalmente no controle da energia do século XXI:  o gás
A Síria tornou-se alvo  justamente por estar no meio do mais importante reservatório de gás do planeta. O petróleo foi a causa das guerras do século XX. Hoje estamos vivendo  o surgimento de uma nova era: a da guerras do gás.


Após a queda  da União Soviética, ficou claro para os russos que a corrida  armamentista  havia lhes prejudicado em demasia  , sobretudo no campo energético, onde  faltou a energia  necessária ao processo de modernização industrial do país. Os  Estados Unidos, por outro lado, tinham conseguido se desenvolver e impor, sem muitas dificuldades,  sua política internacional nesta área graças a sua presença por décadas nas áreas de petróleo. Os russos decidiram, em seguida,  posicionar-se nas  fontes de energia, tanto nas que produzem petróleo,  como nas empresas de produção de gás. Considerando que, devido à sua distribuição internacional, o setor de petróleo não oferecia boas perspectivas, Moscou apostou  pelo gás , por sua produção, seu transporte e sua comercialização em larga escala. Tudo começou em 1995, quando Vladimir Putin traçou a estratégia da Gazprom: partindo desde as áreas de produção de gás da Rússia até Azerbaidjão, Turcomenistão, Irã (para comercialização), até o Oriente Médio. A verdade é que os projetos North Stream e South Stream  demonstraram os esforços de Vladimir Putin e seu governo de situar  a Rússia na arena internacional  na área energética,  que já desempenha um papel importante na economia européia, que, durante as próximas décadas,  dependerá do gás como alternativa ao petróleo ou como complemento deste, quando deu prioridade ao gás, em detrimento do petróleo.
A partir desse contexto, era urgente para Washington implementar  seu próprio projeto:  Nabbuco , uma estratégia que concorria com a dos  russos e que jogava para desempenhar um papel decisivo na determinação da estratégia e política energética para os próximos 100 anos.

Fato é que o gás será a principal fonte de energia do século XXI, uma alternativa diante da redução das reservas mundiais de petróleo e, ao mesmo tempo, uma fonte de energia limpa.O controle das zonas gasíferos no mundo disputado entre as antigas potências e as emergentes é o elemento que dá origem a um conflito internacional com manifestações de caráter regional.

É evidente que a Rússia  aprendeu com as  lições do passado, pelo menos no que se refere aquilo que,  do ponto de vista da economia,   contribuiu para o  colapso da União Soviética , que foi, precisamente,  a falta de controle dos recursos de energia  indispensáveis para   o desenvolvimento da estrutura industrial.  A Rússia compreendeu  que o gás está destinado a ser a fonte de energia do próximo século.


A historia da “partida de xadrez” do gás

Vladimir Putin y Alexei Miller, presidente de Gazprom.

Um primeiro olhar para o mapa do gás revela que este recurso está localizado nas seguintes regiões, o mapa diz respeito tanto à situação dos depósitos como ao acesso as áreas de consumo:
1.  Rússia: Vyborg e Beregvya
2.  Anexo  a  Rússia: Turcomenistão
3.  Nos arredores mais ou menos imediatos da Rússia: Azerbaidjão e Irã
4.  Ex influência da Rússia: Geórgia
5.  Mediterrâneo Oriental: Síria e Líbano
6.  Catar e Egito.

Moscou trabalhou rapidamente sobre dois eixos: o primeiro foi a criação de um projeto sino-russo  de longo prazo, com bases no  crescimento econômico do Bloco de Shangai; o segundo foi garantir o controle das reservas de gás. Com este desenho,  foram  assentadas as bases dos projetos North Stream e South Stream que se confronta com o projeto americano Nabucco, projeto apoiado pela União Europeia, com vistas ao gás do mar Negro e do Azerbaidjão. Uma corrida estratégica para o controle  das reservas de gás se  estabeleceu  entre os dois projetos distintos.


Os Projetos da Rússia:

O projeto North Stream conecta diretamente a Rússia com a Alemanha através do mar Báltico, até Weinberg e Sassnitz, sem passar pela Bielorússia. O projeto South Stream começa na Rússia, atravessa o mar Negro até a Bulgária e se divide passando pela  Grécia e pelo Sul da Itália, por um lado, e pela Hungria e a Áustria, por outro lado.


O projeto dos Estados Unidos:

O projeto Nabucco  parte da Ásia Central e dos arredores do mar Negro, passando através da Turquia - onde situa-se a infra-estrutura de armazenamento - , e corta a Bulgária, passa pela Roménia, Hungria e chega até a Áustria, de onde é direcionado para a República Checa, Croácia, Eslovênia e Itália. Originalmente, deveria passar pela Grécia, idéia que foi abandonada devido à pressão da Turquia.
Por suposição, "Nabucco" deveria ser o concorrente para os projetos dos russos. Nabucco estava previsto para 2014, mas diversos problemas técnicos provocaram seu adiamento até 2017. A partir desse adiamento, o projeto Russo começou a ganhar  a batalha pelo gás, mas cada  parte trata  sempre de estender seu próprio projeto para novas áreas.
Isso tem haver, por um lado com o gás iraniano, que os Estados Unidos pretendia incorporar ao projeto Nabucco conectando-o ao ponto de armazenamento de Erzurum, na Turquia. E, também, com o gás vindo do Mediterrâneo Oriental, ou seja, Síria, Líbano e Israel.

Em julho de 2011, Iran firmou vários acordos para o transporte do seu gás através do Iraque e da Síria. Por conseguinte, Síria tornou-se o principal centro de armazenagem e de produção, vinculado, também,  com as reservas do Líbano. Se abre assim um espaço geográfico, estratégico e  energético completamente novo, que abarca Iran, Iraque, Síria e o Líbano.

Os obstáculos que  esse novo  projeto (Nabucco) enfrenta,  há mais de um ano, dão uma idéia do grau de intensidade na luta que o império está travando  pelo controle da Síria e do Líbano. Ao mesmo tempo, esclarece o papel da França, que considera o Mediterrâneo Oriental  sua própria zona de influência histórica, por conseguinte,  destinada a satisfazer os interesses franceses, logo, isso justifica precisamente, recuperar o terreno perdido desde II Guerra Mundial. Em outras palavras, a França pretende desempenhar um papel importante no mundo do gás, para isto já adquiriu um tipo de “seguro saúde”, com a  Líbia, agora,  pretende obter um «seguros de vida» que somente as riquezas da Síria e do Líbano podem proporcionar. Turquia, por seu lado, se sente excluída desta guerra do gás devido ao atraso do projeto Nabucco e porque não tem nada a ver com os projetos South e North Stream. O gás do Mediterrâneo Oriental parece lhe escapar inexoravelmente a medida que se afasta do projecto Nabucco.


O Eixo Moscou-Berlim

 Gerhard Schroeder e Alexei Miller. Em 30 de março de 2006, ex-chanceler alemão foi nomeado chefe da construção do North Stream.

Para realizar os dois projetos, Moscou criou a empresa Gazprom, em 1990. Alemanha, ansiosa por se livrar de uma vez por todas das consequências da Segunda Guerra Mundial , se preparou para se juntar aos dois projetos, tanto em termos de instalações e de revisão do gasoduto norte e as instalações de armazenamento do duto de South Stream em sua área de influência, principalmente na Áustria. 
A empresa Gazprom foi fundada com a colaboração de Hans-Joachim Gornig, um alemão conhecido em Moscou, ex-vice presidente da Companhia alemã de Petróleo e gás industrial que supervisionou a construção da rede de gasodutos RDA . Até outubro de 2011, o diretor da Gazprom foi Vladimir Kotenev, ex-embaixador da Rússia na Alemanha. 
Gazprom assinou diversas transações com empresas alemãs, em primeiro lugar com aquelas que cooperam com o projeto North Stream, como as gigantes  E.ON, do setor de energia, e  BASF, do setor da indústria química. No caso da E.ON, existem cláusulas que garantem tarifas preferenciais quando há alta dos preços. Isso significa uma espécie de subsídio “político” da Rússia às empresas de energia alemãs. 
Moscou aproveitou a liberalização dos mercados europeus do gás para forçá-los a desconectar as rede de distribuição das instalações de produção. Superados os confrontos antigos entre a Rússia e Berlim , abriu-se uma fase de cooperação econômica baseada em facilitar a enorme dívida que pesava sobre os ombros da Alemanha, de uma Europa excessivamente  endividada pelo domínio  americano. Se trata de uma Alemanha que considera que o espaço germânico (Alemanha, Áustria, República Checa e Suíça) está destinado a converter-se no centro da Europa, sem ter de suportar as conseqüências do envelhecimento de todo o continente, ou da queda de outra superpotência. 
As  iniciativas alemãs de Gazprom empresa conjunta (joint venture) da Wingas com Wintershall, uma subsidiária da BASF,  é a maior produtora de petróleo e gás da Alemanha e controla 18% do mercado de gás. Gazprom outorgou aos seus principais parceiros alemãs participação em seus ativos russos, nunca visto anteriormente. Assim, BASF e E.ON controlam cada uma  cerca de um quarto dos campos de gás de  Lujno-Rousskoie  que alimentarão em grande parte o circuito North Stream.  Não será coincidência se a equivalente alemã da Gazprom, chamado de "Gazprom a germânica" chegar a ser proprietária de 40% da empresa austríaca Austrian Centrex Co, especializada em armazenamento de gás e se destina a ampliar-se até Chipre. 
Esta expansão não é certamente do agrado da Turquia, país ansioso por sua  participação no projeto Nabucco . Participação que consistiria em  armazenar, comercializar e transportar um volume de gás que chegaria a 31.000 milhões de metros cúbicos de gás por ano, cifra que poderia crescer para 40.000 milhões ao ano, um projeto que faz com que  Ancara seja cada vez mais dependente das decisões Washington e da OTAN , sobretudo tendo em conta as várias recusas aos seus pedidos de adesão à União Européia. 

Os vínculos estratégicos determinados pelo  gás são cada vez mais decisivos na arena política : o lobby de Moscou junto ao Partido Social Democrata alemão, na  Renânia do Norte-Westfália, onde há uma  importante base industrial , centro do conglomerado alemão RWE,  fornecedor de eletricidade e onde se situa uma subsidiária da E.ON 
Hans-Joseph Fell, responsável pela política de energia dos Verdes, reconheceu a existência dessa influência. Segundo ele, as 4 empresas alemãs vinculadas à Rússia têm um papel importante na definição da política energética alemã. Estas empresas contam com a Comissão de Relações Econômicas da Europa Oriental, - isto é, com  empresas que mantêm contatos econômicos muito próximo com a Rússia e com os países do antigo bloco soviético -  Comisão que dispõe , por sua vez, de uma rede muito complexa  de influências sobre os ministros e a opinião pública. Na Alemanha,  a discrição é a regra no que diz respeito à crescente influência da Rússia, com base no princípio de que é altamente necessário melhorar a "segurança energética" na Europa.
É interessante notar que a Alemanha considera que a política da União Européia destinada a resolver a crise do euro pode prejudicar os investimentos Germano-Russos . Esta razão, entre outras, explica a relutância da Alemanha para o resgate do euro, moeda  muito sobrecarregada pelas dívidas da Europa, apesar do bloco germânico poder suportar essas dívidas. Além disso, sempre que os demais países  europeus se opõem à sua política com a Rússia, a Alemanha declara que os planos utópicos da Europa não são viáveis ​​e que , inclusive,  poderiam  levar a Rússia a vender  seu gás na Ásia, o que colocaria em risco a segurança energética da Europa. 

Este casamento por interesses entre os Germânicos e os russos  está enraizado no legado da Guerra Fria:  3 milhões de russos vivem atualmente na Alemanha, representando a maior comunidade estrangeira desse país,  depois da comunidade turca. Putin também era favorável  a utilização da rede de  responsáveis da RDA,  que favoreceu os interesses das empresas russas na Alemanha, sem mencionar o recrutamento de ex-agentes da Stassi, como diretores de pessoal e finanças  da Gazprom Germania, assim como o diretor financeiro do Consórcio North Stream, Warnig Matthias , quem, segundo o Wall Street Journal , ajudou  Putin recrutar espiões em Dresde, na época em que o próprio Putin era agente da KGB. É certo, no entanto, que o uso que a Rússia tem dado as suas  antigas relações não tem sido prejudicial para a Alemanha, uma vez que os interesses de ambas as partes têm sido beneficiados sem favoritismo para qualquer lado.

O projeto North Stream , a principal ligação entre a Rússia e a Alemanha, foi inaugurado recentemente com um condutor que custou 4,700 milhões de euros. Apesar deste condutor ligar a Rússia com a Alemanha, dado o reconhecimento dos europeus  do fato de este projeto garantir a segurança energética da Europa, França e Holanda foram forçados a declarar que era de fato um "projeto europeu" . É importante mencionar, nesse sentido que o Sr.. Lindner, diretor-executivo do Comitê Alemão das Relações Econômicas com os Países da Europa Oriental declarou, com toda a seriedade do mundo que se tratava  realmente  de "um projeto europeu e não de um projeto alemão e que [o projeto] não encerraria  a Alemanha em maior dependência da Rússia”. Esta declaração ressalta a inquietação provocada  pelo aumento da influência russa na Alemanha. A verdade é que o projeto North Stream é, pela sua estrutura, moscovita e não europeu. 
Os russos podem paralisar a sua vontade a distribuição de energia na Polônia e em vários países , isso sem falar que terão todas as condições  de vender o gás para a melhor oferta. No entanto, a Alemanha é de muita importância para a  estratégia da Rússia, como plataforma que necessita para  desenvolver sua estratégia continental, especialmente considerando que a Gazprom Germania participa de 25 projetos cruzados, em países como a Grã-Bretanha, Itália , Turquia, Hungria, entre outros. Isto nos leva a crer que a Gazprom está prestes a se tornar, em pouco tempo,  uma das maiores empresas do mundo, se não se tornar a mais importante.


Um novo mapa da Europa e, em seguida, um novo mapa do mundo

Os gasodutos North Stream, South Stream y Nabucco

Os dirigentes da Gazprom  não só desenvolveram seu projeto, como  também conseguiram conter o projeto Nabucco. Gazprom detém 30% do projeto envolvendo a construção de uma segunda linha condutora de gás para o leste, seguindo aproximadamente a mesma rota prevista do projeto Nabucco. Os próprios partidários dessa  segunda condutora confessam que se trata de  um projeto "político" destinado a proporcionar uma demonstração de força ao travar e até mesmo bloquear o projecto Nabucco. Moscou se esforçou , também, por comprar gás da Ásia central e no mar Cáspio para enterrar este projeto e ridicularizar Washington politicamente, economicamente e estrategicamente.
Gazprom está explorando instalações vinculadas ao gás na Áustria, ou seja, no entorno estratégico da Alemanha, além de alugar instalações na Grã-Bretanha e na França. São, no entanto, as importantes estruturas de armazenamento na Áustria, que serão usadas para redesenhar o mapa  energético de Europa, já que irão prover a Eslovênia, a Eslováquia, a Croácia, a Hungria, a Itália e a Alemanha. A essas instalações deve ser adicionado o centro de armazenamento que Gazprom está construindo em Katrina, com a cooperação da Alemanha,  capacitando desta forma a exportação de gás para os principais centros de consumo na Europa Ocidental.

A Gazprom criou  uma instalação comum de armazenamento com Sérvia para fornecer gás à Bósnia-Herzegovina e a própria Sérvia. Também em curso, a realização de estudos de viabilidade sobre métodos de armazenamento semelhantes na República Checa, Roménia, Bélgica, Grã-Bretanha, Eslováquia, Turquia, Grécia e, inclusive, na  França. 
A Gazprom reforça a posição de Moscou, provedor de 41% do gás consumido na Europa. Isto representa uma mudança substancial nas relações entre o Oriente e o Ocidente, a curto, médio e longo prazo. Também indica um declínio da influência estadunidense, representada pelos escudos antimísseis, e se verifica o  estabelecimento de uma nova organização internacional cujo pilar fundamental será a gás. Tudo isso explica a intensificação da luta pelo gás, desde a costa oriental do Mediterrâneo até o Oriente Médio.

Nabucco y Turquia em  dificuldades 

Carente de fontes de abastecimento e sem clientes identificados, Nabuccos segue em atraso


Era de supor que Nabucco transportaria gás até a  Áustria  através de 3 900 km do território turco e que estava projetado para fornecer anualmente, para os mercados europeus, 31 000 milhões de m3 de gás natural provenientes do Oriente Médio e da bacia do mar Cáspio. A difícil  situação da coalizão OTAN/EUA/França para eliminar os obstáculos aos seus interesses em matéria de abastecimento de gás no Oriente Médio, principalmente na Síria e no Líbano, reside na necessidade de assegurar a estabilidade e o consentimento do entorno quando se fala de infra-estruturas e investimentos que requerem a indústria do gás. A resposta Síria foi firmar contrato que autoriza a passagem do gás iraniano em seu território, passando através do Iraque. A batalha é, portanto, centrada em torno do gás sírio e libanês. Ele irá alimentar a Nabucco ou South Stream ??
O consórcio Nabucco é composto por várias empresas: a alemã REW, a austríaca OML, a turca  Botas, a búlgara Energy Holding Company e a romena Transgaz. Há 5 Anos,  os custos iniciais foram estimados em 11.200 milhões de dólares, mas até o ano 2017 poderia chegar a 21.400 milhões. Isso levanta inúmeras questões à sua viabilidade econômica já que Gazprom tem contratos com vários países que deveriam alimentar a Nabucco, que já não pode contar com os excedentes do Turcomenistão, sobretudo após as tentativas sem sucesso para capturar o gás iraniano. Esse último fator é um dos segredos que são desconhecidos sobre a batalha por Irã, país que ultrapassou  a linha vermelha em seu desafio aos Estados Unidos e Europa ao escolher o Iraque e a Síria como rotas para o trajeto de uma parte de seu gás.

Assim, a maior esperança de Nabucco é o abastecimento com o gás do Azerbaijão e o reserva de Shah Deniz, convertido em quase a única fonte de aprovisionamento de um projeto que parece ter fracassado sem ter começado. Isso é o que se segue, por um lado, da aceleração da assinatura de contratos que Moscou concluiu para a compra de fontes inicialmente destinadas a Nabucco e das dificuldades surgidas, por outro lado, ao  tratar de impor mudanças geopolíticas no Irã, Síria e Líbano. E tudo isto ocorre num momento em que a Turquia reclama sua participação no projeto Nabucco, quer seja mediante um contrato com o Azerbaijão para a compra de 6.000 milhões de m ³ de gás em 2017 ou através da anexação da Síria e do Líbano, com a esperança de impedir o trânsito do petróleo iraniano ou receber uma parte da riqueza gasífera do Líbano e da Síria. Parece que a possibilidade de  ter um lugar na nova ordem mundial exige prestar certa quantidade de serviços, que vão do apoio militar até servir de base ao dispositivo estratégico do escudo antimisseis.
Talvez a principal ameaça para o Nabucco seja a tentativa russa de faze-lo fracassar através da negociação de contratos mais vantajosos a favor da Gazprom para North Stream e South Stream, que invalidaria os esforços dos Estados Unidos e da Europa, diminuiria a influência de ambos e perturbaria a política energética dessas concorrentes no Irã e/ou no Mediterrâneo. Além disso, Gazprom poderia tornar-se um dos investidores ou operadores mais importantes das novas reservasde gás na Síria e no Líbano. Não por acaso, em 16 de agosto de 2011, o Ministro de Petróleo da Síria anunciou a descoberta de um poço de gás em Qara perto de Homs, cuja capacidade seria de 400 000 m ³ por dia (146 milhões de m ³ por ano), para não mencionar a importância do gás Mediterrâneo existente.

Os projetos North Stream e South Stream , por conseguinte, reduziu a influência política dos Estados Unidos, que agora parece ter ficado para trás. Os sintomas de hostilidade entre os Estados europeus e a Rússia foram atenuados, mas a Polônia e os Estados Unidos não parecem dispostos a renunciar. No final de outubro de 2011, estes dois países anunciaram a alteração de sua política de energia como conseqüência da descoberta de reservas européias de carvão que deveriam diminuir a dependência à Rússia e ao Médio Oriente. Parece  ser uma meta ambiciosa, mas só possível a longo prazo devido a inúmeras etapas previas  exigidas  para a comercialização já que se trata de um  tipo de carvão encontrados em rochas  sedimentares a milhares de metros abaixo da terra, que requer o uso de técnicas hidráulicas de fratura e alta pressão para liberar o gás e sem falar ou  considerar os riscos para o ambiente.

A participação da China


 Organização de Cooperação de Shangai, conformada por Russia, China, Kazajstán, Kirguistán, Tayikistán y Uzbekistán

A cooperação sino-russo no campo energético  é o motor da parceria estratégica entre os dois gigantes. De acordo com especialistas, constitue, inclusive,  "base" do duplo veto em defesa da  Síria no Conselho de Segurança.

Esta operação não  tem que ver unicamente com o abastecimento da China em condições preferenciais. China participa  diretamente com a distribuição de gás, através da aquisição de ativos  e de instalações, bem como em um projeto de controle conjunto das redes de distribuição. Paralelamente, Moscou mostra sua flexibilidade nos preços do gás, desde que tenha acesso ao ambicionado mercado interno chinês.Se tem garantido, portanto, que os peritos russos e chineses trabalhem juntos nos seguintes  campos: « Coordenação de estratégias energéticas, Previsão e prospecção, Desenvolvimento dos  mercados, Eficiência energética e Fontes alternativas de energia».

Outros interesses estratégicos comuns estão relacionados com os riscos que representa o projeto americano de 'escudo antimísseis'. Washington tem envolvido não apenas o Japão e Coréia do Sul, mas no início de setembro de 2011, convidou, também,  a Índia a aderir ao projeto. Isto traz como conseqüência que as preocupações de ambos os países se cruzam no momento que Washington trata de reativar sua estratégia na Ásia central ou em seja na Rota da Seda

Essa estratégia é a mesma que George Bush havia empreendido (o projeto da Grande Ásia Central) com vistas a contrariar, com a colaboração da Turquia,  a influência da Rússia e da China, resolver a situação no Afeganistão até 2014 e impor  a força militar da OTAN em toda região. O Uzbequistão já sinalizou que  poderia acomodar a OTAN, e Vladimir Putin tem avaliado  que o que poderia fazer fracassar as investidas do ocidente e impedir que os Estados Unidos prejudique a Rússia seria a expansão do espaço Russia-Kazajstán - Bielorrússia, em cooperação com Pequim.

O panorama dos mecanismos da atual luta internacional  dá  idéia do processo existente de formação de uma nova ordem internacional, com base na luta pela supremacia militar e cujo elemento central é a energia,  com o gás em primeiro lugar.



O gás de Síria
A «revolução siria» é uma encenação midiática que esconde a intervenção  militar ocidental para a conquista do gás.

Quando Israel empreendeu  a extração de petróleo e gás, a partir de 2009, ficou claro que a bacia do Mediterrânea  se havia somado ao jogo e que haveria duas possibilidades: Síria seria  alvo de um ataque ou toda a região viveria em paz, pois se supõe que o século XXI seja o século da energia limpa.

De acordo com o Washington Institute for Near East Policy (WINEP, Think-Tank do AIPAC), a bacia do Mediterrânea contém as maiores reservas de gás e é, precisamente,  na Síria onde se localizam as mais importantes. Este mesmo Instituto também emitiu a hipótese de que a batalha entre a Turquia e Chipre se  intensificará porque a Turquia não pode aceitar a perda do projecto Nabucco (apesar do contrato assinado com Moscou em Dezembro de 2011 para o transporte de grande parte do gás  de South Stream através da Turquia).

A revelação do segredo do gás sírio dá uma idéia da importância do que está realmente em jogo. Quem tenha o controle da Síria poderá controlar o Médio Oriente. E a partir da Síria, portão da Ásia, terá  em suas mãos a chave da Rússia e, também, da China, através da “Rota da Seda”, assim você poderá dominar o mundo neste século, já que é o século do gás.

É esta  a razão pela qual os signatários do acordo de Damasco, que permite que o gás iraniano passe pelo Iraque e chegue ao Mediterrâneo, criando um novo espaço geopolítico e cortando a linha vital do Projeto Nabucco, declararam na época que "A Síria é a chave da nova era".







Artigos que tratam do mesmo tema na Red Voltaire:


 «Suspende Estados Unidos sus planes de guerra convencional contra Damasco y Teherán», Red Voltaire, enero 2012.
 «¿Nueva guerra de Israel contra Líbano por el gas?», Alfredo Jalife-Rahme, Red Voltaire, 09 de agosto de 2010.
 «La nueva importancia geopolítica de Lubmin», F. William Engdhal, Red Voltaire, 19 de septiembre de 2010.
 «Cambio crucial en la geopolítica de oleoductos», M. K. Bhadrakumar, Red Voltaire, 08 de febrero de 2010 
Fontes:

Original:
La Syrie, centre de la guerre du gaz au Proche-Orient
Imad Fawzi Shueibi. Réseau Voltaire | Damas (Syrie) | 8 mai 2012.

http://www.voltairenet.org/La-Syrie-centre-de-la-guerre-du
En Español:
Siria, centro de la guerra del gas en el Medio Oriente. por Imad Fawzi Shueibi
Red Voltaire | Damasco (Siria) | 13 de mayo de 2012

http://www.voltairenet.org/Siria-centro-de-la-guerra-del-gas



 Postado do sítio:http://ciaramc.org/ciar/boletines/cr_bol433.htm





sexta-feira, 13 de julho de 2012

Trama sionista tenta envolver os refugiados palestinos da Síria na crise


A frente Popular para a libertação da Palestina - Comando Geral (FPLP-CG) condenou Israel e o Ocidente nos planos para envolver os refugiados palestinos na crise da Síria.
Um comunicado oficial denuncia  que gangues armadas, com a participação da inteligência israelense (Mossad), estão cometendo assassinatos e seqüestros contra palestinos para tentar envolvê-los com a crise  desta nação.
Os conspiradores contra a Síria tentaram  de início envolver os refugiados palestinos através de fabricações midiáticas ou rumores tendenciosos. Mas fracassaram.
A FPLP-CG informou que agora, esses grupos terroristas investem em operações de provocação contra o povo palestino nos acampamentos, em particular, os de Yarmouk, Daraa, Homs, Hama e Latakia. Nestes acampamentos tentaram  infiltrar elementos externos  para provocar confusões.
Diante do  fracasso, também,  dessas ações, deram inicio a assassinatos, sequestros e chantagens de  palestinos, fato que culminou na morte de vários oficiais do exército de libertação de Palestina, indica o comunicado.
Essas tentativas, salienta, evidenciam os esforços da parte externa na conspiração que busca jogar os refugiados contra a Síria por meio de assassinatos e sequestros  dando  a impressão de que são as forças locais por trás desses atos.
No entanto, a Frente pontualiza que o povo palestino sabe do que se trata e será fiel a seus princípios e posição em defesa do regime sírio frente a conspiração.

"Os que conspiram contra Damasco o fazem contra a Palestina"


Disso o arcebispo Atal Hanna: "Os que conspiram contra Damasco o fazem contra a Palestina" 
Chefes dos bispos ortodoxos gregos da Palestina, não se cansa de dizer  que se alguém  é hostil a Síria é também ao povo palestino e a nação árabe. Os que conspiram contra  Damasco  o fazem também contra  Jerusalém (Al-Quds) ocupada, acrescentou.
Em uma entrevista sexta-feira para a TV Síria, o arcebispo Hanna disse que "é nosso dever mostrar solidariedade com o povo sírio, que sempre apoiou a causa Palestina e o povo palestino".
Denunciando algumas figuras que fazem parte da trama contra Damasco, o arcebispo Hanna disse que a crise na Síria revelou a verdadeira natureza dessas personalidades, como , por exemplo, Erdogan e outros que estão fazendo todo o possível para conspirar contra a nação árabe em benefício dos sionistas.
Ele criticou o papel dessas personalidades para dividir a Síria e a nação árabe. Essa divisão permitirá a Israel ser mais poderoso e manter sua supremacia na região, concluiu o arcebispo Hanna.

Arábia Saudita : Manifestantes realizam protesto massivo contra o regime em Qatif



Dezenas de milhares de manifestantes sauditas realizaram uma manifestação contra o regime da família aAl Saad na cidade de Qatif, situada na rica província oriental.
Os manifestantes tomaram as ruas da região na terça-feira para condenar o regime em Riad pela repressão mortal aos protestos.
Em 8 de julho, as forças de segurança sauditas abriram fogo contra manifestantes em Qatif, matando três pessoas e ferindo vários outros.
Os manifestantes também protestavam contra a prisão de um proeminente clérigo xiita, o Sheikh Nimr al Nimr, que foi atacado e preso pouco antes daquele dia.
Apesar do apoio americano a repressão do governo de Riad, desde fevereiro de 2011, as manifestações contra o regime são constantes na Arábia Saudita, principalmente em Qatif e Awamiyah, na província oriental A exigência imediada dessas manifestações são:  a libertação de todos os presos políticos, liberdade de expressão e de reunião e o fim da discriminação generalizada contra o chiítas.
No entanto, os protestos deram lugar a luta direta contra o regime de Al Saud, especialmente desde novembro de 2011, quando as forças de segurança Saudita mataram cinco manifestantes e ferindo muitos outros na província oriental.
Manifestações semelhantes foram também realizadas na capital, Riad e na cidade sagrada de Medina nas últimas semanas.
No entanto, essas manifestações contra o regime saudita declaradamente pró-imperialista não tem espaço na mídia corporativa e comprometida com o imperialismo e o sionismo.


Milhões de sauditas desafiaram as autoridades ao assistir os funerais das vítimas - Mohamed al Felfel e Akbar al Shajuri - que morreram no domingo, durante os protestos contra a prisão do clérico Sheij Nimr


E tempo de libertar a Arábia
Neste contexto, um analista que trabalha no Centro Rei Faisal em Riad, declararou que " é hora de libertar, não somente a Provincia do oriente e Hiyaz ( nome da Arábia Saudita em árabe), mas a todas as ilhas - os países do Golfo da mesma família despótica dos Al Saud".

Arabia Saudita sob o tacão da família Saudita é responsável pelo financiamento, treinamento e distribuição  dos exércitos mercenários que barbarizam os povos árabes cujo governo não se alinham ao sionismo.

Fonte: //www1.almanar.com.lb/main.php



quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Resistência Palestina, o Hezbollah e o Iran combaterão do lado da Síria, no caso de agressão


"A batalha para defender o regime sírio determinará
o futuro da região."




O Secretário Geral da Frente Popular para a Libertação da Palestina - FPLP, Ahmed Yibril, declarou em  entrevista transmitida pelo canal de televisão por satélite árabes Mayadin, que as facções palestinas, Hezbollah e Irã lutarão junto com a Síria em caso de uma agressão "externa" contra Damasco.

"O regime na Síria é forte, tem apoio popular. No entanto, abordamos a questão da possível agressão externa ao povo irmão de Síria em reunião com o secretário-geral do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah, no Líbano, e com nossos irmãos e irmãs do Irã e todos concordamos que seremos  parte desta  batalha." Completou Ahmed.

"Se houver uma tentativa de uma escalada militar por parte da Turquia ou da OTAN, nos lançaremos nas ruas e lutaremos todos juntos com o povo sírio." acrescentou.

O dirigente palestino disse que "nos reunimos com Nasrallah, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad e o presidente sírio Bashar Al-Assad" e confirmou  que "Sayyed Hassan  confirmou que será parte desta batalha no caso de agressão externa". Ele também disse que líderes iranianos disseram-lhe que não era possível deixar a Síria exposta à agressão sem resposta e acrescentou que "nós advertimos os turcos mais de uma vez que não brinquem com fogo e que qualquer ação militar contra a Síria significa atravessar a linha vermelha".

Ahmed Yibril disse ainda que "o movimento de resistência palestino, o Hezbollah e os regimes sírios e iranianos estão no mesmo eixo". O  palestino ainda afirmou que : "Entre nós há um consenso de que o que está acontecendo na Síria não é um movimento popular interno, mas sim uma tentativa de destruir a estrutura política desta região para criar um novo Médio Oriente".

E concluiu: "A batalha para defender o regime sírio determinará o futuro da região."

http://www1.almanar.com.lb/spanish/adetails.php?fromval=1&cid=23&frid=23&eid=17789

terça-feira, 3 de julho de 2012

O QUE A OTAN, DIGO OS EUA E ISRAEL FIZERAM COM A LÍBIA

A provocação turca


Erdogan tem um projecto: minar e dominar a Síria. Enfrenta, porém, uma questão prévia: está minado e dominado pela Tríplice Aliança. 
Todas as suas exibições de músculo têm controlo próximo e remoto. 
É um guerreiro islâmico enfiado numa couraça cristã, 
empunhando uma lança judaica. 
Nada melhor para um cristão da  OTAN  e um judeu do Colonato do que 
uma cruzada entre muçulmanos.




por César Príncipe [*]


O abate de um F-4 Phantom turco pelas defesas antiaéreas sírias forneceu o pretexto para mais uma escalada. Num primeiro momento, o Governo de Ancara admitiu que a aeronave houvesse invadido o espaço aéreo e o Governo de Damasco lamentou a ocorrência. O atrito poderia e deveria situar-se e sanar-se a nível diplomático se as reacções se pautassem pelo princípio da boa-fé e da boa vizinhança. Mas rapidamente foi accionada outra resposta. Os Gabinetes de Guerra da Tríplice Aliança (OTAN/Israel/Monarquias do Golfo) rapidamente transferiram o problema para a Agenda Militar e para o Jornalismo de Campanha. Evidente se torna que os actores externos do conflito montaram esta ratoeira, no sentido de explorar a hipótese de uma intervenção da OTAN, sustentada na inventona de um ataque a um membro da organização. Dado que a Rússia e a China têm inviabilizado, até agora, o recurso à força com cobertura do Conselho de Segurança das Nações Unidas, os ingerencionistas, além do agravamento das sanções económicas por livre arbítrio e da facilitação de campos de treino e corredores de infiltração, armas, direcção operacional, mercenários, serviços de inteligência, dinheiro e dispositivos mediáticos, resolveram iniciar o teste do plano B. Se a experiência de campo se mostrar repetível e rentável, esperam-se novas fricções e ficções de fronteira, não sendo de excluir atentados em território turco, imputáveis às autoridades sírias. As encenações e as dramatizações são molduras clássicas das artes da beligerância. Os Estados Unidos são verdadeiros artistas a forjar e a empolar factos e a agir e a reagir em conformidade e consequência. Cuba, Vietname, Jugoslávia, Iraque – para citar algumas evidências-padrão – fazem parte do histórico maquinador e manipulador do Pentágono, da CIA e dos "compagnons" de roteiro. A aposta na violência, ora selectiva, ora total, ora declarada, ora dissimulada, as manhas e as patranhas, tudo faz parte do jogo de cartas contra a Síria, com ou sem ONU. No teatro sírio, como se comprovou no teatro líbio, para lá da dimensão interna, é indisfarçável a dimensão internacional: a Turquia, ciosa de um papel extraterritorial, disponibilizou-se como plataforma de agressão e candidata à partilha de despojos, cooperando com os Estados Unidos, donos e senhores da OTAN, estes com um guião de controlo geo-estratégico e de matérias-primas e de remoção da Rússia e da China do mapa mediterrânico, e com Israel, que projecta varrer da zona os regimes hostis e pró-palestinianos, procurando também via verde na estrada de Damasco para alcançar Teerão, liquidando, pelo caminho, o obstáculo do Líbano, onde Telavive sofreu a humilhação da retirada militar de 2006. Neste quadro e nesta trama, as monarquias do Golfo comportam-se como marionetas, cientes de que o seu destino está ligado ao complexo petrocastrense ocidental. Entretanto, a NATO, a da exemplar ilegalidade da intervenção e da inclemente devastação na Líbia e na Jugoslávia, socorre-se de um Livro de Estilo para idiotas úteis, inspirado na literatura columbófila e sentimental:

"Exemplo de desinteresse do Governo sírio pelas normas internacionais da paz, segurança e vida humana". [1]

PORTUGUESES DE PÁRA-QUEDAS? 

Já o primeiro-ministro da Turquia, Erdogan, ameaça com uma "resposta militar, avisando a Síria para se manter longe das fronteiras" [2] , enquanto a Turquia instala armas e bagagens na raia, procede a actos intrusivos de espionagem e faculta livre-trânsito a terroristas e instrutores de diversas procedências. Consta que, entre os corpos mercenários, há rasto de portugueses. Pára-quedistas "libertadores" ou profissionais globais – dirão os Comentadores da "Psico" e os doutorandos em Comunicação. PS/Passos Coelho estaria a pensar nestas oportunidades de emprego quando aconselhou os jovens a emigrar? Um amigo, cujo nome não revelo, devido às funções que desempenha no espaço público, colocou-me a interrogação num diálogo sobre os contornos e meandros do conflito. Cumpre ao primeiro-ministro português ou que simula exercer tais funções (a troika "é quem mais ordena") mandar os Serviços Especializados da República inteirar-se das alegadas actividades de mercenários lusos, certamente ao arrepio da "lei internacional" e descaradamente contra um Estado da ONU. Confirmadas as denúncias, cabe ao super-ministro Gaspar inquirir dos vencimentos dos mercenários, a fim de que concorram para os "sacrifícios" em sede de IRS ou IRC, pois todas as receitas são bem-vindas para salvar os bancos e os mensalões do BCI/Bloco Central de Interesses. A Imprensa espanhola já confirmou a detenção de "hermanos" mercenários. As Forças Armadas da Síria capturaram centenas de estrangeiros a soldo. A dupla PP/Passos/Portas estará a conjecturar planos de resgate de eventuais encarcerados pelos fiéis de Assad? O Supremo Comandante sugerirá o destacamento de submarinos para se lavarem nas águas de Tartus, defronte da esquadra russa?

O VALENTE SOLDADO ERDOGAN 

Em 2010, após o sangrento e letal assalto israelense à "Flotilha da Liberdade", que transportava 750 passageiros de 60 nacionalidades e 10.000 toneladas de ajuda humanitária, o Governo de Erdogan chorou a morte de nove turcos e avisou atiladamente o Estado de Israel: "vai sofrer as consequências". E foi mais longe. Atente-se na viril advertência: "o ataque, ocorrido em águas internacionais, não respeitou nenhuma lei internacional. De facto, era um motivo para guerra. No entanto, como é próprio da grandeza da Turquia, decidimos agir com paciência". No entanto, o Estado de Israel, com apólice de seguro contra todos os riscos, emitida pelos USA e pela UE, recusou-se a emitir uma desculpa, leve que fosse. Jeová quando troveja não se desculpa com um ataque de tosse. É a doutrina do Estado teocrático israelita. No entanto, Erdogan engrossou a voz de Alá para consumo turco, árabe e islâmico, anunciando o envio de forças navais para escoltar futuras missões: "Não permitiremos que tais navios sejam mais uma vez alvo de ataques de Israel". No entanto, um funcionário israelita desvalorizou o verbo de Erdogan, fantasiado de patrulhador e pacificador do "mare nostrum": "É muito difícil imaginar que um membro da OTAN como a Turquia vá tão longe". [3] No entanto, Erdogan proclamava ir. Num assomo de bombista-suicida, manifestou a intenção de se deslocar, em carne e osso, à Faixa de Gaza, integrado numa flotilha inatacável. Saldo da retórica: não disparou uma canhonada de simulacro e desafronta, não mandou uma Armada Invencível proteger os amigos dos palestinianos e os palestinianos, muito menos pôs o pé na bloqueada e martirizada Gaza. Claro que, com a Síria, o cenário é objectivamente preocupante: Erdogan tem o apoio da  OTAN  e de Israel. Por instigação dos aliados e bazófia otomana, pode passar da provocação primária e da peitaça propagandística à guerra aberta e generalizada, puxando dos galões de pequeno Átila para júbilo do Grande Átila.

HITLER KISSINGER ÁTILA:  GUERRA DO ESQUECIMENTO 

Quem não embarcar em televisões e jornais do Império concluirá que o crescente turco nunca foi um modelo de virtudes civis e militares. É patético e revelador que os accionistas da Aliança Atlântica, com a Turquia incluída, seleccionem um curdo para a presidência do Conselho Nacional Sírio, sabendo-se das implacáveis perseguições, dos assassinatos massivos, das prisões e torturas, das deportações e dos acantonamentos, das discriminações sociais e culturais que o regime turco tem imposto e impõe como política aos curdos (20% da população residente na Turquia oficial). Política possível, graças à complacência e à cumplicidade da  OTAN /da UE/dos USA, nomeadamente na tipificação do Partido dos Trabalhadores do Curdistão como "organização terrorista". Igualmente se tornaram rotineiras as incursões terrestres e normalizados os bombardeamentos aéreos do regime de Ancara contra os curdos no Iraque. Não importa que a Turquia pratique terrorismo de Estado e acolha terroristas sem pátria. A "dupla moral" não incomoda a dita "comunidade internacional", cognome dos USA e da  OTAN . A chamada de curdos à boca de cena apenas pretende consensualizar artificialmente a simbólica anti-Assad, a fim de mover todas as peças do tabuleiro. Os inimigos de uma Síria laica e independente trabalham com uma Agenda Particular na Agenda Multilateral. O regime turco raramente prestou provas democráticas e humanistas, não tendo grande património de direitos universais para exportação. Lembraremos alguns lances do calendário turco-otomano e de seus líderes, cujo ADN ainda pulsa nas veias de Erdogan: em 1974, com o fechar de olhos da  OTAN  e dos USA e o beneplácito de Kissinger, o eterno criminoso sem mandado de captura do TPI (consultar cadastros da guerra do Vietname, dos golpes da Indonésia e do Chile e do morticínio de Timor-Leste), o regime turco lançou a "Operação Átila", ocupando o Norte do Chipre, forçando a partida de 180.000 cidadãos gregos (80% do efectivo residente), situação de facto, ainda não reconhecida pela ONU; em 1925-1930, milhares de curdos foram liquidados, porque mais uma vez, se ergueram em luta pelos seus direitos étnicos e nacionais; em 1915-1917, é ditado e concretizado o genocídio arménio (1,5 milhão de massacrados a tiro e a sabre, mortos à fome e à sede, queimados vivos, afogados, deportados para campos de concentração nos desertos da Síria e do Iraque, escravizados, violados), após a eliminação de 20.000 arménios em 1909, programa de aniquilação total interrompido pela derrota alemã de 1918 e pela adesão da Arménia à URSS; em 1914, o regime otomano aliou-se à Alemanha prussiana, participando ao lado dos Estados mais fora-de-lei e sanguinários na Primeira Guerra Mundial. Estes traços do poder turco-otomano são de vincar numa altura em que Ancara franqueia bases e linhas de penetração a rebeldes e mercenários e dá sinais de elevar a parada provocatória. Na realidade, a memória não é deliberadamente cultivada. O genocídio arménio, apesar de perpetrado há mais de 90 anos, só foi reconhecido por 21 países. Atribui-se a Hitler, uma observação, tão confiante na impunidade como gélida e cínica, feita aos comandantes da Wehrmacht, antes da invasão da Polónia e do holocausto dos guetos de Varsóvia: "Afinal, quem fala hoje do extermínio dos arménios?" 4

ENTRE A NATO E O COLONATO 

Curtíssima resenha esta das violências e reincidências durante o séc. XX de uma grande potência euro-afro-asiática que decaiu para potência regional de rédea curta, mas ainda com tiques de Átila e Osman. Muito haveria a reportar e a ilustrar sobre o Imperialismo Otomano (1299-1922), que, no séc. XVII, cobria 5.000.000 km2, de Gibraltar ao Iémene do Sul, passando pela Europa Central. Como os demais impérios, expandiu-se, consolidou-se e desintegrou-se. A oposição dos submetidos foi o factor determinante da derrocada e da redefinição de identidades. A árvore tentacular do califa Osman, "uma árvore com raízes em três continentes e ramos até aos céus", deu lugar a um viveiro de 40 nações. Átila (406-453), o rei huno, legendado como "flagelo de Deus", que aterrorizou a Europa romana, sitiando Roma e Constantinopla, já não reina em Ancara. Os novos chefes bárbaros têm sede em Washington, Bruxelas e Telavive. Erdogan é um súbdito da Tríplice Aliança. Potencialmente perigoso. Ambiciona disputar ao Irão e ao Egipto a regência islâmica, mas as suas ambições regionais, partidárias e pessoais estão condicionadas. Alimentará alguma impulsividade e nostalgia pós-Átila/pós-Osman/pós-1922 no modo como cuida de curdos e sírios. É dos traumas pós-imperiais e do oportunismo predatório. Mas contém-se a lidar com Israel. Não irá "tão longe". Quem imaginará Erdogan na pele de "flagelo" do séc. XXI? O primeiro-ministro da Mesquita Azul consolar-se-á, porventura, a ler e a reler a "Vida de São Hipátio":

"Mais de 100 cidades foram capturadas e Constantinopla chegou a estar em perigo e a maioria dos homens pôs-se em fuga. Houve tantos assassinatos que se deixou de contar os mortos. Assaltavam igrejas e conventos. Degolavam monges e donzelas". [5]

Erdogan tem um projecto: minar e dominar a Síria. Enfrenta, porém, uma questão prévia: está minado e dominado pela Tríplice Aliança. Todas as suas exibições de músculo têm controlo próximo e remoto. É um guerreiro islâmico enfiado numa couraça cristã, empunhando uma lança judaica. Nada melhor para um cristão da  OTAN  e um judeu do Colonato do que uma cruzada entre muçulmanos. Na Turquia, Alá é grande enquanto Jeová consentir. São as "malhas que o Império tece". [6] Erdogan nunca terá ouvido falar de Fernando Pessoa. O maior poeta português do séc. XX. "Todas as manhãs ao amanhecer/Meu coração é fuzilado na Grécia". [7]Também nunca terá lido Nazim Hikmet. O maior poeta turco do séc. XX.
[1] Expresso, 27/06/2012.
[2] Al Jazeera/Agência de Notícias Anatólia, 09/09/2011.
[3] Agência France Press/Deutsche Welle, 09/09/2011.
[4] Folha de São Paulo, 24/04/2009.
[5] Calínico, Vida de São Hipátio. 
[6] Pessoa, Fernando, O menino de sua mãe, Contemporânea, n.º 1, III série, 1926.
[7] Hikmet, Nazim, Angina pectoris (1948), Casa Editora Abril, 2007, Havana. 


[*] Escritor, jornalista. 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A história é o inimigo quando as psy-ops se tornam notícia

por John Pilger
A história é enterrada juntamente com os mortos e deformados do Vietname e de Bhopal. E a história é o novo inimigo. Em 28 de Maio, o presidente Obama lançou uma campanha para falsificar a história da guerra no Vietname. Para Obama, não houve Agente Laranja, nem zonas de fogo livre, nem disparos sobre indefesos(turkey shoots), nem encobrimentos de massacres, nem racismo desenfreado, nem suicídios (pois muitos americanos acabaram com as suas próprias vidas), nem derrota frente à força de resistência de uma sociedade empobrecida. Ela foi, disse o sr. Hopey Changey,
"uma das mais extraordinárias histórias de bravura e integridade nos anais da história militar [dos EUA]". 


Ao chegar a uma aldeia no Vietname do Sul, deparei-me com duas crianças que testemunhavam a mais longa guerra do século XX. Suas terríveis deformidades eram familiares. Ao longo do rio Mekong, onde as florestas foram petrificadas e silenciadas, pequenas mutações humanas viviam o melhor que podiam.

Hoje, no hospital pediátrico Tu Du em Saigon, um antigo anfiteatro é conhecido como a "sala da colecção" e, não oficialmente, como a "sala dos horrores". Ali há prateleiras com grandes garrafas que contêm fetos grotescos. Durante a sua invasão do Vietname, os Estados Unidos pulverizaram um herbicida desfolhante sobre a vegetação e aldeias a fim de negar "cobertura ao inimigo". Era o Agente Laranja , o qual continha dioxina, venenos com tal poder que provocavam a morte fetal, abortos, danos cromossomáticos e cancro.

Em 1970, um relatório do Senado dos EUA revelou que "os EUA despejaram [sobre o Vietname do Sul] uma quantidade de produtos químicos tóxicos que se eleva a seis libras [2,72 kg] per capita da população, incluindo mulheres e crianças". O nome de código para esta destruição maciça, Operação Hades, foi alterado para o mais amistoso Operação Ranch Hand. Hoje, cerca de 4,8 milhões de vítimas do Agente Laranja são crianças.

Len Aldis, secretário da Sociedade de Amizade Britânico-Vietnamita, retornou recentemente do Vietname com uma carta ao Comité Olímpico Internacional escrita pela União das Mulheres do Vietname. A presidente da união, Nguyen Thi Thanh Hoa, descreveu "as graves deformações congénitas [provocadas pelo Agente Laranja] de geração para geração". Ela pedia ao COI que reconsiderasse a sua decisão de aceitar patrocínio das Olimpíadas de Londres pela Dow Chemical Corporation, que foi uma das companhias a fabricar o veneno e que se recusou a indemnizar as suas vítimas.

Aldis entregou a carta em mãos no gabinete de Lord Coe, presidente do Comité Organizador de Londres. Não houve resposta. Quando a Amnistia Internacional denunciou que em 2001 a Dow Chemical adquiriu "a companhia responsável pela fuga de gás de Bhopal [na Índia em 1984] que matou 7 mil a 10 mil pessoas de imediato e 15 mil nos 20 anos seguintes", David Cameron descreveu a Dow como uma "companhia respeitável". Aclamações, portanto, para as câmaras de TV ao longo dos painéis decorativos de £7 milhões [€8,75 milhões] que orlam o estádio olímpico: são o resultado de um "acordo" de 10 anos entre o COI e um destruidor tão respeitável.

A história é enterrada juntamente com os mortos e deformados do Vietname e de Bhopal. E a história é o novo inimigo. Em 28 de Maio, o presidente Obama lançou uma campanha para falsificar a história da guerra no Vietname. Para Obama, não houve Agente Laranja, nem zonas de fogo livre, nem disparos sobre indefesos (turkey shoots), nem encobrimentos de massacres, nem racismo desenfreado, nem suicídios (pois muitos americanos acabaram com as suas próprias vidas), nem derrota frente à força de resistência de uma sociedade empobrecida. Ela foi, disse o sr. Hopey Changey, "uma das mais extraordinárias histórias de bravura e integridade nos anais da história militar [dos EUA]".

 
No dia seguinte, o New York Times publicou um longo artigo a documentar como Obama selecciona pessoalmente as vítimas dos seus ataques drone por todo o mundo. Ele faz isto nas "terças-feiras de terror" quando folheia álbuns com fotos de rostos numa "lista da morte", alguns deles adolescentes, incluindo "uma garota que parecia ainda mais jovem do que os seus 17 anos". Muitos são desconhecidos ou simplesmente em idade militar. Guiados por "pilotos" sentados frente a écrans de computador em Las Vegas, os drones disparam mísseis Hellfire que sugam o ar para fora dos pulmões e explodem pessoas em bocados. Em Setembro último, Obama matou um cidadão americano, Anwar al-Awlaki, puramente na base de rumor de que ele estava a incentivar terrorismo. "Este aqui é fácil", ele é citado por ajudantes como dizendo isso ao assinar a sentença de morte do homem. Em 6 de Junho, um drone matou 18 pessoas numa aldeia no Afeganistão, incluindo mulheres, crianças e um idoso que estavam a celebrar um casamento.

O artigo do New York Times não foi uma fuga ou uma revelação. Foi uma matéria de relações públicas concebida pela administração Obama para mostrar num ano de eleição quão duro o "comandante em chefe" pode ser . Se reeleito, a Marca Obama continuará a servir a riqueza, a perseguir os que dizem a verdade, a ameaçar países, a propagar vírus de computador e a assassinar pessoas toda terça-feira.

 
As ameaças contra a Síria, coordenadas em Washington e Londres, escalam novos picos de hipocrisia. Ao contrário da propaganda primária apresentada como notícia, o jornalismo investigativo do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung identifica os responsáveis pelo massacre em Houla como sendo os "rebeldes" apoiados por Obama e Cameron. As fontes do jornal incluem os próprios rebeldes. Isto não foi completamente ignorado na Grã-Bretanha. Escrevendo no seu blog pessoal, de modo extremamente calmo, Jon Williams, o editor de notícias mundiais da BBC, efectivamente serve a sua própria "cobertura", citando responsáveis ocidentais que descrevem a operação "psy-ops" [operação psicológica] contra a Síria como "brilhante". Tão brilhante quanto a destruição da Líbia, do Iraque e do Afeganistão.

E tão brilhante quanto a psy-ops mais recente do Guardian com a promoção de Alastair Campbell, o colaborador chefe de Tony Blair na criminosa invasão do Iraque. Nos seus "diários", Campbell tenta salpicar sangue iraquiano sobre o demónio Murdoch. Há em abundância para encharcar todos eles. Mas o reconhecimento de que os medida respeitáveis, liberais, bajuladores de Blair, foram um acessório vital para um crime tão gigantesco é omitido e permanece como um teste singular de honestidade intelectual e moral na Grã-Bretanha.

Até quando devemos sujeitar-nos a um tal "governo invisível"? Esta expressão para a propaganda insidiosa cunhada por Edward Bernays – o sobrinho de Sigmund Freud que inventou as modernas relações públicas – nunca foi tão adequada. A "realidade falsa" exige amnésia histórica, a mentira por omissão e a transferência de significância para o insignificante. Deste modo, sistemas políticos que prometiam segurança e justiça social foram substituídos pela pirataria, "austeridade" e "guerra perpétua": um extremismo destinado ao derrube da democracia. Aplicado a um indivíduo, isto identificaria um psicopata. Por que aceitamos isto?

21/Junho/2012

O original encontra-se em www.johnpilger.com/...
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